<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854</id><updated>2011-10-10T08:30:10.973-07:00</updated><title type='text'>Espelhos &amp; Feitiços</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>126</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-5361439487684917759</id><published>2011-07-20T17:24:00.001-07:00</published><updated>2011-07-20T17:24:58.636-07:00</updated><title type='text'>Being adults</title><content type='html'>Liam estava nervoso, decidindo se levava ou não Liz para a Jam session que ia ter. Ele sabia que ela não gostava de músicos porque todos os músicos com quem ela saíra antes haviam destruído o coração dela. Não era só por isso. Ali estariam pessoas que conheciam o passado dele, o passado que ele escondera dela. Era certo que, um dia, ele contaria a ela as coisas que fizera e das quais se envergonhava. Esperava também que Feichín mantivesse o silêncio. Era o que melhores amigos deviam fazer. O tempo da juventude havia passado. Se bem que até pouco tempo atrás eles não sabiam se conter. Foi preciso Caroline morrer para que soubessem o que estavam fazendo. Feichín foi quem resolveu quebrar o ciclo primeiro e, por mais que doesse, afastou-se do amigo de infância. Era claro que a vida tinha se tornado monótona sem a vida de Liam ao lado, sem o talento dele por perto. Feichín começou a trabalhar com o que amava. Não que não gostasse antes mas, era sombra de Liam, do que ele fazia. Ele dedilhou o piano enquanto a noite ia tarde. Não era pelo piano que tinha paixão. Mas aprendera a tocar piano, obrigado pela mãe e fora nas aulas de piano que conhecera a força chamada Liam. Ele sorriu ao lembrar do amigo... Não havia nada que pudesse ser feito até que ele bateu à sua porta transtornado.&lt;br /&gt;- Caroline morreu!&lt;br /&gt;- E sua filha?&lt;br /&gt;- Eu não sei...&lt;br /&gt;E, dali em diante, não houve mais nada.&lt;br /&gt;O telefone de Feichín tocou.&lt;br /&gt;- E então? Eu a levo?&lt;br /&gt;- Cara, eu não sei o que você deve fazer.&lt;br /&gt;- Quim, você sabe de mais coisas do qualquer um!&lt;br /&gt;- Cara, você a comprometeu e não contou a verdade.&lt;br /&gt;- Eu vou contar, Quim. &lt;br /&gt;- J'espere, mon ami!&lt;br /&gt;- Que horas eu pego você?&lt;br /&gt;- Eu vou no meu carro!&lt;br /&gt;- Naquele carro de brinquedo?&lt;br /&gt;Ele riu.&lt;br /&gt;- Sim, no meu carro de brinquedo.&lt;br /&gt;Eles se encontraram numa casa grande, de um dos amigos deles. Liam estava com a guitarra da sorte. Quim trouxera seu violoncelo e ele sorriu quando seu olhar cruzou com o de Liam, que tinha Liz ao lado, sem saber o que fazer naquele momento quando se deparou com músicos. Era hora dela começar a saber a verdade. Não que ela não desconfiasse. Afinal, seus sonhos mostravam os dois tocando há muito tempo atrás... mas havia uma outra moça. Eles três estavam em um outro país, havia uma criança. Ela sentiu um arrepio perpassar por sua coluna ao entrar naquela casa, ao sentir o ambiente. Músicos tendiam a tornar seu coração em areia, era um pó fino e desconexo. Ela sorriu e cumprimentou. Antes de deixar a casa, ela havia prometido a ele que lhe daria uma chance, que ele explicaria tudo depois. Então, era ele mostrando o mundo dele! O mundo dela não tinha nada de misterioso: um trabalho comum de secretária, fazer os hobbies no tempo livre, tentar dedicar tempo ao filho quando podia, administrar o tempo entre Liam e os amigos. Nada complexo! Ela tinha um amigo que dizia que todas as vidas eram complexas por mais simples que fossem. Eles ficavam horas debatendo, conversando e se desentendendo. Sofia estava desconfortável naquele ambiente novo, que nem era tão novo assim... os músicos. Sentiu o cheiro da maconha ao longe e girava o anel de ouro que Liam lhe dera. Ela sorriu aliviada ao avistar Quim. Mas ele também trazia um instrumento.&lt;br /&gt;- O que está acontecendo, Quim?&lt;br /&gt;- Bom, eu toco violoncelo! - ele tentou disfaçar. - Posso pegar algo para você beber?&lt;br /&gt;Ela mostrou que já estava com uma bebida. Ele deu de ombros.&lt;br /&gt;- Vocês todos se conhecem?&lt;br /&gt;- Não exatamente. &lt;br /&gt;Liam se aproximou dela e a beijou carinhosamente.&lt;br /&gt;- Esta é uma jam session, querida.&lt;br /&gt;Jam session?! Músicos? Não! Ali tinha coisas muito erradas! O ar começou a faltar devagar.&lt;br /&gt;- Liam?&lt;br /&gt;- Eu prometi que lhe explicaria depois, não é?&lt;br /&gt;- Sim!&lt;br /&gt;- Então, divirta-se! Estamos em um churrasco.&lt;br /&gt;Ele saiu para cumprimentar uns amigos. Ela entendeu que aquele não era um churrasco qualquer. Mesmo que ela não visse, sabia que tinha outras drogas. Ela não estava nada confortável e a sensação de desconforto aumentou quando avistou Felipe ao longe. O universo já não era o suficientemente sarcástico, não? Claro! Um churrasco onde tem músicos... naquela cidade. Ela se virou para a frente. Havia uma tela de tv instalada com video clipes. A música tocava e ele se aproximou.&lt;br /&gt;- Liz! &lt;br /&gt;- Lipe!&lt;br /&gt;- Como você está?&lt;br /&gt;- Bem. Você está ótima, hein?! Como sempre, devo dizer!&lt;br /&gt;Liam surgiu e beijou o pescoço dela. Homens eram tão competitivos. Quim percebeu a tensão e também se aproximou, apresentando-se a Felipe.&lt;br /&gt;- Você está bem, amor?&lt;br /&gt;- Sim, estou.&lt;br /&gt;Liam pegou a mão dela de forma que Felipe pudesse perceber o anel igual que ambos carregavam no dedo esquerdo da mão. Quim percebeu o desconforto total que ela se encontrava e fez caretas. Quim era o amigo com quem sempre contava quando Liam a deixava sozinha, às vezes, para atender longas ligações. Felipe se afastou com uma caipirinha na mão e ela respirou aliviada porque temia que fosse acontecer alguma confusão. Ela acordou com uma sensação ruim na boca do estômago e isso costumava significar confusão para ela. Ela foi de qualquer jeito quando ele ligou pela terceira vez. Seria importante para ele que ela fosse naquele churrasco especificamente. Ele passou lá e a pegou. O silêncio imperou durante o caminho e isso não costumava ser uma boa coisa para eles.&lt;br /&gt;- O que há, Liz?&lt;br /&gt;- Nada!&lt;br /&gt;Como ela diria que tinha uma impressão ruim sobre algo que nem acontecera ainda? Agora, ela entendia que havia muitas coisas erradas ali. Como ela poderia ir embora se nenhuma daquelas pessoas era amiga sua? A única coisa que podia fazer era ligar para sua melhor amiga, Tânia, e conversou um pouco, o que não a acalmou nenhum pouco. Pior foi ver Felipe com uma loura nojentinha pendurada no pescoço dele. Não que ele importasse porque Liam era o homem da vida dela. Logo, Quim estava perto dela.&lt;br /&gt;- Por que estamos aqui? E não minta!&lt;br /&gt;- Eu não posso! Ele disse que vai contar. Então, você terá que esperar!&lt;br /&gt;- Ele já usou drogas, não foi?&lt;br /&gt;- Eu não posso dizer, Liz. Opa! Tenho que ir ali!&lt;br /&gt;Liz se sentou em uma mesa sozinha. Ela queria ficar sozinha para colocar os pensamentos em ordem. O homem que mais amara fora um músico muito talentoso e Felipe fora alguém importante para ela. Sem que ela percebesse, ele se sentou ao lado dela.&lt;br /&gt;- Você sabe que Liam é um dos músicos mais talentosos do mundo?&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Ele toca muito! Ele nunca tocou para você?&lt;br /&gt;- Não! E você o conhece de onde exatamente?&lt;br /&gt;Havia hostilidade na voz dela.&lt;br /&gt;- De festas por aí!&lt;br /&gt;Festas como exatamente?! Ela sabia mas não queria saber.&lt;br /&gt;- Festas de músicos, certo? De quando você também... Se bem que você ainda bem, né?&lt;br /&gt;Ela se levantou e entre tantas pessoas, ela procurou por Quim, encontrando-o numa animada conversa com alguém da Embaixada. Ela pediu licença com pressa na voz e seguiu até Liam, puxando-o com brusquidão de onde ele estava para um canto onde todos podiam vê-lo.&lt;br /&gt;- Que foi, Liz?&lt;br /&gt;- Drogas?! Músico famoso?&lt;br /&gt;- Como você acha que me mantenho aqui há tanto tempo?&lt;br /&gt;- Quer dizer que aquele lance do seu pai querer que você monte um negócio é mentira?&lt;br /&gt;- Não! Ele realmente achou que aqui eu teria mais chances de me recuperar... estaria longe dos amigos. &lt;br /&gt;- Mas tem músicos aqui, drogas também! Você sabia de tudo!&lt;br /&gt;- Qual o problema? Você toma medicação para seus problemas psiquiatrícos, o que torna você uma pessoa difícil, não é? - ele gritou.&lt;br /&gt;- Eu já estou devidamente attached and involved with you!&lt;br /&gt;Ela saiu furiosa, em direção a Quim.&lt;br /&gt;- O que foi?&lt;br /&gt;- Eu preciso sair daqui! Por que você nunca me contou?&lt;br /&gt;- O que eu nunca contei?&lt;br /&gt;- As festas... que ele foi... é... um músico famoso! Ele consumiu... bom...&lt;br /&gt;Ele pousou as mãos nos ombros dela.&lt;br /&gt;- Calma! Calma!&lt;br /&gt;- E você?&lt;br /&gt;- Ele é meu melhor amigo... acabei me perdendo junto.&lt;br /&gt;Ela hiperventilava.&lt;br /&gt;- Dá as chaves do seu carro!&lt;br /&gt;- Mas... eu vim com a BMW.&lt;br /&gt;- O carro de brinquedo?&lt;br /&gt;- As chaves do carro! Agora, Feichín!&lt;br /&gt;Ele deu as chaves do carro para ela.&lt;br /&gt;- Você sabe dirigir meu carro?&lt;br /&gt;- Eu sei dirigir seu maldito carro! Eu só quero ir embora daqui! Seu amigo pode deixar você lá em casa para pegar o maldito carro, está bem?&lt;br /&gt;Ele pousou a chave do carro nas mãos dela.&lt;br /&gt;- Tome cuidado!&lt;br /&gt;- Pode deixar! Eu tomarei como eu sei que você tomará com as drogas aqui, não é?&lt;br /&gt;- Elise! Você está sendo injusta!&lt;br /&gt;- Vocês foram injustos!&lt;br /&gt;___________________________________________________________&lt;br /&gt;Feichín se aproximou do balcão de bebidas e Felipe estava ali, bebendo uma caipirinha.&lt;br /&gt;- Por que você fez isso?&lt;br /&gt;- O que foi que eu fiz?&lt;br /&gt;- Não se faça de ingênuo. Você ficará com ela? Porque você acabou de destruir uma coisa que estava se construindo de maneira muito delicada. Você acha que eu nunca tive vontade de contar? Mas ele é meu melhor amigo e fazia muito tempo que não o via tão bem.&lt;br /&gt;- Ela é muito querida para seu amigo!&lt;br /&gt;- E você é melhor do que ela porque?&lt;br /&gt;- Tenho a impressão de que quem gosta dela aqui é você!&lt;br /&gt;Liam se aproximou já puxando Quim para a briga.&lt;br /&gt;- Como ousou? Como...&lt;br /&gt;- Não fui eu! - ele disse na língua deles.&lt;br /&gt;Liam partiu para cima de Felipe e ambos se engalfinharam até que as pessoas ali os separassem.&lt;br /&gt;- Onde ela está?&lt;br /&gt;- Saiu no meu carro!&lt;br /&gt;- E você a deixou...&lt;br /&gt;- Liam, não tinha outro jeito.&lt;br /&gt;- A bolsa dela ficou aqui!&lt;br /&gt;Era torcer para que nada acontecesse. No entanto, o telefone de Quim tocou e era Liz, dizendo que fora pega pela polícia e o carro dele apreendido. Liam ia tocar e percebeu a movimentação. Quim tocou no ombro de Felipe.&lt;br /&gt;- Vamos, pretty boy, você causou esta confusão. Nós vamos no seu carro para tirar a moça da encrenca!&lt;br /&gt;Eles foram para a delegacia da polícia, Quim pagou as multas e retirou o carro, o que levou um longo dia. O outro carro era de Liam e ele não gostaria que Felipe dirigisse... bom, com certeza, Liz não estava em condições de dirigir. Ele deu as chaves da BMW para Felipe.&lt;br /&gt;- Se tiver um arranhão...&lt;br /&gt;- Eu entendi, pretty boy!&lt;br /&gt;- Você não sabe do que está falando!&lt;br /&gt;- Eu lembro das festas!&lt;br /&gt;Liz entrou no carro emburrada.&lt;br /&gt;- Como... eu não quero nem saber! Você e Liam brigam e sobra sempre pra mim! Era a mesma coisa com Caroline!&lt;br /&gt;- Caroline?!&lt;br /&gt;- A mãe da filha dele... quando a menina existiu na vida deles, tudo pareceu normal! Mas, um dia, tudo ficou louco de novo!&lt;br /&gt;- Ela está com a avó, não é?&lt;br /&gt;- Como você sabe?&lt;br /&gt;- Eu sonho com a vida de vocês! Você também era wild!&lt;br /&gt;- Você sonha? Nossas mães gostariam de você?&lt;br /&gt;- Ele vai recuperar a menina!&lt;br /&gt;Ela girava o anel no dedo.&lt;br /&gt;- Pára o carro!&lt;br /&gt;Quim parou e ela desceu, olhando para o céu que começava a escurecer. Ele foi até ela.&lt;br /&gt;- Todos nós erramos, está bem? Ele não é o que você esperava. Ele tem defeitos!&lt;br /&gt;- Os piores!&lt;br /&gt;- E você não tem defeitos?&lt;br /&gt;- É! Todo mundo ficou sabendo que eu sou louca!&lt;br /&gt;- Ele estava com raiva, Liz! Mas não são estes defeitos... ele reclama de você se dedicar muito aos seus amigos, da falta de tempo... tantas coisas que você não percebe que faz.&lt;br /&gt;- Tipo o quê?&lt;br /&gt;- Tipo você não se enturmar com ninguém mais! Você contou sobre aquele músico sobre o qual se apaixonou, que ele fumava maconha e era alcoolista e que queria alguém saudável na sua vida! Como você acha que isso faz com que a gente se sinta?&lt;br /&gt;Ela se sentou na calçada, aos prantos!&lt;br /&gt;- Eu sinto muito! Mas pessoas como ele... como vocês... tendem a cair de novo! E dói pra caralho!&lt;br /&gt;- Eu sei! Eu saí primeiro disso!&lt;br /&gt;- Era você que gostava das prostitutas, então?&lt;br /&gt;Ela se virou para o lado e vomitou. Felipe via a cena e não falava nada.&lt;br /&gt;- Nós dois!&lt;br /&gt;Ela encarou Felipe com ódio.&lt;br /&gt;- O que diabos você tinha a ver com isso? Você me teve por perto e me jogou no lixo como se eu fosse... sei lá, algo descartável! Por quê?&lt;br /&gt;Ela se levantou e começou a caminhar cambaleante.&lt;br /&gt;- Liz! &lt;br /&gt;Ela não ouvia. Tudo estava distante!&lt;br /&gt;- Liz! Entra no carro!&lt;br /&gt;Ela continuou caminhando. O telefone de Quim tocava sem parar e ele respondeu na língua de origem dele.&lt;br /&gt;- Elise! - ele gritou. - Entra dentro do carro! Liam está preocupado e acho que vocês têm muito que conversar.&lt;br /&gt;- Caroline... vocês têm o fantasma dela nas mãos de vocês!&lt;br /&gt;Ela entrou dentro do carro e Liam estava esperando por ela na porta de casa. Quim entrou no carro dele e levou Felipe para a casa. &lt;br /&gt;- Por que você fez isso?&lt;br /&gt;- Acho que  fiquei com ciúmes. Ela é alguém muito especial, não?&lt;br /&gt;- Muito! E você a deixou escapar. Mas acho que Liam não fará o mesmo porque nós, irlandeses, somos um povo persistente!&lt;br /&gt;______________________________________________________&lt;br /&gt;- Nós vamos conversar aqui, na rua?&lt;br /&gt;- Vamos, Liam. Tudo vai depender do que acontecer aqui!&lt;br /&gt;- Eu ia contar tudo hoje! Ele esteve em uma de nossas festas regada a muitas drogas e mulheres. Não posso dizer que eu e Quim não aprontamos. Mas a partir do momento que conheci você, a vida fez sentido de verdade, Elise!&lt;br /&gt;- Eu não quero um relacionamento baseado em dependência ou um que eu tenha que me preocupar o tempo todo em festas, se é que me entende! Eu não quero ser enfermeira de ninguém. Eu tenho um filho para cuidar e minha vida já é devidamente complicada e eu deixei você entrar nela! Diabos, Liam!&lt;br /&gt;- Você também errou... achou que eu fosse uma espécie de príncipe...&lt;br /&gt;- Vamos começar com acusações?! Sério? Eu amo você, Liam, e amo aquele seu amigo louco e maravilhoso, que seria nosso padrinho... Mas, sério, estou cansada de pessoas que fazem uso recreativo de drogas!&lt;br /&gt;- Eu sinto muito por ter gritado com você e ter falado de coisas pessoais.&lt;br /&gt;- Acho que eu também não fui muito simpático, não é?&lt;br /&gt;- Não, não foi!&lt;br /&gt;Ele a abraçou e, de repente, entendeu que Liz não pertencia a ele e ela também entendeu.&lt;br /&gt;- Bom... então, acho que...&lt;br /&gt;- Sim, Liam. &lt;br /&gt;Ela retirou o anel com detalhes celtas e entregou a ele.&lt;br /&gt;________________________________________________________________&lt;br /&gt;Quim deixou Felipe em casa e pensava se voltava ou não até a casa de Liz para saber se tudo estava bem. Finalmente, ele se decidiu. Era hora dela saber a verdade sobre o que ele sentia. Ele viu Liz e Liam abraçados e pensou em desistir quando viu o amigo ir embora. Ele parou o carro dele perto do carro de Quim e baixou o vidro:&lt;br /&gt;- Nunca pensei que pudéssemos...&lt;br /&gt;- Caroline também era especial, Liam. Mas você sempre foi meu melhor amigo, era sempre você que assumia a culpa pelas coisas erradas. &lt;br /&gt;- Você tem certeza que vai contar a verdade?&lt;br /&gt;- Sim, ela é a mulher que quero para minha vida.&lt;br /&gt;Liz esperou por Quim com um sorriso. Ele desceu do carro.&lt;br /&gt;- Foi você que começou com tudo, não foi? Que o fez experimentar, não é?&lt;br /&gt;- Sim, ele sempre me protegeu! Inclusive, quando ele pegou a mim e Caroline... Ele nunca falou uma palavra. Eu amo você, Elise!&lt;br /&gt;- Eu também amo você, Feichín. Mas como faremos?&lt;br /&gt;- Como todo mundo! Um dia depois do outro. &lt;br /&gt;Ele a puxou para si, esperando que aquilo fosse o suficiente porque havia dias que realmente que as festas e as mulheres faziam falta. Mas, por uma mulher como Liz, qualquer sacrifício seria pequeno. Ela reunia as qualidades que sempre sonhara para uma companheira. Mesmo os defeitos, pareciam encaixar. Elise sentiu medo de que tudo pudesse desmoronar como num castelo de cartas. Mas, não seria viver se ficasse para sempre trancafiada numa torre por si mesma, certo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-5361439487684917759?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/5361439487684917759/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=5361439487684917759' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5361439487684917759'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5361439487684917759'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/07/being-adults.html' title='Being adults'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-5395197005199776365</id><published>2011-06-23T12:03:00.000-07:00</published><updated>2011-06-23T12:03:00.664-07:00</updated><title type='text'>O sonho de Emma</title><content type='html'>Emma se levantou e observou o corpo dele ao lado. Suspirou. Era assim que ela imaginava a cena da despedida. Uma cena que ela nunca tivera o direito de ter porque os homens da sua vida sumiam. Ela gostaria de ter uma despedida poética, uma daquelas de filmes, que as lágrimas correm e as palavras certas saem sem dificuldades. Não era assim com ela. Talvez, nunca seria. Então, ela perscrutou novamente as palavras escritas como se perscruta o céu por estrelas ou planetas. O mundo de Emma se resumia a falhas, que pareciam enormes. Era como se ela quisesse dar passos de gigante sendo uma formiga. Bom, ela queria que algo em sua vida funcionasse, que o caminho fosse mais certo do que estava no momento. O certo seria ela ter uma vida como a de todo mundo... mas, talvez, ela tivesse acertado de alguma forma. Talvez, fosse a melhor vida. Ela jamais teria se tornado o que se tornou se as experiências não tivessem sido aquelas. Ela sabia, em sua mente, que o momento em que encostasse o pé no chão nos seus sonhos, seria o momento exato em que acordaria, em que perderia os braços dele, em que ela não estaria mais enlaçada pela doçura dele até porque ele a empurrava para longe, como se criasse um muro invisível. Então, ela pisou no chão gelado do quarto dele, sem querer de verdade pisar e a realidade veio como um raio, eram seus olhos que estavam fechados olhando para a tela do computador. Em todos os lugares que ia, ela buscava encontrá-lo.  No entanto, decidiu que era hora de terminar o que machucava a alma. Era o desprezo, a falta de contato... estar encerrada naquele mundo com ele fora tudo por aquelas poucas horas, por breves momentos. Os pés tocaram o chão e ela abriu os olhos, encarando os olhos acinzentados de Morgan.&lt;br /&gt;- Onde você foi desta vez?&lt;br /&gt;- Não consegui chegar em lugar algum, Morgan.&lt;br /&gt;- Você precisa tentar, Emma.&lt;br /&gt;- Simplesmente não acontece... minha mente divaga para outros lugares.&lt;br /&gt;Ela não tinha coragem de dizer que ela sonhava com Morgan e com um momento que acontecia em outro lugar, em outro espaço-tempo. Ela era a única que podia vigiar o tempo, o futuro e o passado. Embora, às vezes, ela confundisse o que via. Morgan não se entregava ao que sentia. Uma única vez ele chegou perto mas, estava bêbado demais para poder se lembrar do que acontecera. Ela estava sentada na maca com a camisola do Instituto, ainda zonza da viagem, de uma das melhores lembranças que tivera e ela sabia que precisava de outras viagens mas, aquilo a esgotava de um tanto que ia para o quarto de descanso carregada pelos ajudantes. Morgan se sentou na cadeira naquela noite, enquanto ela se virou de lado sem querer conversar. Ela demorava muitas horas para dormir, mesmo com o sono chegando até ela. A cabeça latejava antes de dormir. Então, era a hora de fechar os olhos. Os efeitos colaterais das viagens era sonhar sem parar com imagens difusas. Cada um tinha seu próprio universo infernal. Por isso, ela mantinha os olhos abertos o máximo que podia. Ela podia perceber Morgan bebendo uísque aos poucos como se estivesse se decidindo.&lt;br /&gt;- Eu me lembro, Emma. De cada detalhe, do cheiro da sua pele, do seu beijo... mas não podemos. Você sabe!&lt;br /&gt;Emma ficou quieta e sorriu, sentindo a dor de cabeça estalar a cabeça. Ela não podia responder.&lt;br /&gt;- Não...&lt;br /&gt;Ela vomitou no balde que estava ao lado da cama. Ele segurou o cabelo dela e Emma se entregou ao sono, sabendo que demônios e as criaturas das profundezas dos remotos lugares desesperadores viriam. Horas de tortura e acordou com as olheiras de sempre. Quando acordou, Morgan estava em seu quarto com roupas normais e ela não estava em um quarto do Instituto. Estava em outro lugar, vestindo suas roupas.&lt;br /&gt;- O que houve, Morgan?&lt;br /&gt;- Você precisa passar pelo Doc.&lt;br /&gt;Ela desviou o olhar. Ele estava prestes a se casar com outra pessoa. Realmente, Doc poderia ajudá-la.  Ela se aproximou dele, abraçando-o pelas costas. Ele segurou as mãos dela, beijando seus dedos.&lt;br /&gt;- Emma... não faça isso! &lt;br /&gt;As lágrimas escorriam silenciosas sem que ela pudesse fazer nada. Ela se afastou de Morgan.&lt;br /&gt;- Deixe-me. Agora que não sou mais uma cobaia para você, você quer se livrar de mim, não é?&lt;br /&gt;Ele continuou a encarar a janela e se virou para ela, encarando os olhos castanhos dela.&lt;br /&gt;- Não é isso! Você não entende... - disse crispando os punhos. - Eu já vi outros viajantes se perderem e eu não quero que isso aconteça com você. Doc concordou em manter você aqui na mansão. Você estava a caminho da loucura.&lt;br /&gt;Ela manteve o silêncio e olhou para baixo. Nada do que fizesse o impediria de se casar com Valerie.&lt;br /&gt;- Por que a preferiu, Morgan? Por quê?&lt;br /&gt;Ele a estreitou em seus braços.&lt;br /&gt;- Ah! Minha querida, se as coisas pudessem ser diferentes entre nós! Mas eu sou seu superior e sou responsável por você. Já aconteceu antes e nunca deu certo. Talvez, você só esteja assim porque eu sou quem protege você, não?! Bom, está na minha hora. Tenho que voltar...&lt;br /&gt;Eles ficaram longamente unidos pelo abraço, sentindo a respiração um do outro para sempre. Por um momento, a eternidade pairou sobre eles. Ela se dissipou como uma névoa que vê a luz do dia e Morgan partiu deixando Emma encarando seu carro pela janela. Ela desceu e seguiu para a sala de chá, onde Doc estaria. Ele não estava lá. Seguiu para a cozinha e lá estava ele, preparando um lanche. &lt;br /&gt;- Ah! Aí está você! Achei que estaria descansando.&lt;br /&gt;Ela sorriu sem sorrir, vazia de qualquer sentimento.&lt;br /&gt;- Claro! Como pude ser tão tolo? Morgan... Mia cara! Acredite, ele está fazendo o que é melhor para você! Foi meu conselho trazê-la para cá. &lt;br /&gt;- Por que não...&lt;br /&gt;- Porque eles não saberiam cuidar de você. Ninguém se recupera de verdade. Você sabe disso. Já viu os outros viajantes em seus sonhos, Emma, e nenhum deles em espaço-tempo algum conseguiu obter sucesso...&lt;br /&gt;Ela encarou o chão e enrubesceu.&lt;br /&gt;- Eu menti!&lt;br /&gt;Doc a encarou sério.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Eu vi um outro como eu... em um outro espaço-tempo... ele dominava os pesadelos... ele era muito diferente de todos os outros... eu não se explicar.&lt;br /&gt;- Ele era do Instituto?&lt;br /&gt;- Eu temi o que vocês poderiam fazer. Por isso, eu fiquei quieta. Ele é melhor do que eu.&lt;br /&gt;Doc pousou a comida sobre a bancada da cozinha.&lt;br /&gt;- Em que espaço-tempo?&lt;br /&gt;- Eu não vou entregá-lo, Doc.&lt;br /&gt;- Não tem problema, pequena Emma. &lt;br /&gt;Ele se sentou num banco na cozinha, pegando uma maçã.&lt;br /&gt;- Eu sou Arturo, Doc.&lt;br /&gt;Doc se virou e observou o homem alto, de cabelos soltos desgrenhados charmosamente, olhos castanhos mel e barba por fazer. Emma arrastou os pés como uma criança. Doc se virou para ela assustado.&lt;br /&gt;- Como se conheceram?&lt;br /&gt;Arturo sorriu maliciosamente.&lt;br /&gt;- Não conhece os dons dela, Doc?&lt;br /&gt;A fúria já se instalava nos olhos do irmão de Emma. &lt;br /&gt;- Declan, às vezes, a gente aterrissa em lugares obscuros e tem que se virar com coisas que nunca pensamos! Eu tive que... &lt;br /&gt;- Ela teve que se tornar uma dançarina e isso salvou a vida de nós dois, Doc. Eu não entendia como ela conseguia suportar as dores de cabeça e os enjôos. Nós matamos um rei bárbaro e fugimos pelas fendas do espaço-tempo. Mas alguns deles também conhecem essas fendas por causa da magia.&lt;br /&gt;Doc parecia atormentado sem entender o que acontecia à volta dele.&lt;br /&gt;- O que diabos vocês querem dizer com matar um rei bárbaro? Emma, você sabe que temos os bibliotecários que comparam a história entre um pulo e outro de vocês e...&lt;br /&gt;- Existem aqueles que eles não conhecem, Declan. - Arturo disse com um sorriso sarcástico.&lt;br /&gt;- Ah! Pelos deuses... vocês são Foragidos? Aqui?!&lt;br /&gt;- Declan! Pelos deuses, componha-se!!!&lt;br /&gt;Arturo terminou de comer a maçã e preparou um chá e serviu ao cientista.&lt;br /&gt;- Tome! Isto vai lhe fazer bem e contaremos a você o que nos aconteceu e como nos conhecemos.&lt;br /&gt;Declan tomou o chá e se sentiu melhor mas logo desmaiou. Emma e Arturo o pousaram no sofá.&lt;br /&gt;- E agora, espertalhão?&lt;br /&gt;- Vamos esperar! Eu sei! Eu sei, garota! Você odeia esperar!&lt;br /&gt;Eles se sentaram na cozinha enquanto ela esperava a comida ficar pronta. Ele era um grande cozinheiro enquanto ela tinha outros tipos de prendas.&lt;br /&gt;- E Morgan?&lt;br /&gt;Ela deu de ombros.&lt;br /&gt;- Ah! O futuro ainda é o mesmo? Por você não consegue ver? Você é uma pessoa que merece ser feliz!&lt;br /&gt;Ela riu.&lt;br /&gt;- Como pessoas como nós podemos ser feliz?&lt;br /&gt;Ele a encarou com um sorriso charmoso.&lt;br /&gt;- Ué, como eu tenho sido feliz, oras!&lt;br /&gt;- Escondendo-se?&lt;br /&gt;- Bem, eu não estava me escondendo até você aparecer, não é? Você tinha que dançar para um rei maluco e deixá-lo alucinado?&lt;br /&gt;Ela fez um muxoxo.&lt;br /&gt;- Eu não fiz nada! Apenas estava tentando sobreviver!&lt;br /&gt;- Sim! Eu sei e ia colocar todo um império no inferno por sua sobrevivência, Emma. Você se lembra do banho de sangue que foi aquele dia?&lt;br /&gt;E tinha como esquecer?&lt;br /&gt;- Se eu não estivesse lá você jamais teria retornado.&lt;br /&gt;- Quanto heroísmo, Arturo! Nome bem providencial. Você nunca me disse seu nome de verdade.&lt;br /&gt;Ele sorriu irônico enquanto terminava a massa.&lt;br /&gt;- Nomes têm poder, Emma.&lt;br /&gt;- Quanto tempo Declan ficará apagado?&lt;br /&gt;- Não se preocupe. Ele estará perfeitamente normal e furioso e, provavelmente, teremos a visita de Morgan. Você saberá lidar com isso, Emma? Ele não virá sozinho! Mas isso é algo que você já tentou impedir e eu impedi você. &lt;br /&gt;Ela deu de ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Declan acordou com uma dor de cabeça insuportável, já sabendo que havia sido drogado pelo viajante, que a irmã trouxera. Ele se levantou com vontade de gritar. Emma já estava perto com o copo de água e o remédio. Ele tomou e voltou a dormir. Teria tempo de gritar depois. Teve tempo de chamar Morgan pelas vibrações mentais. Ele entrou batendo o sapato no chão, fazendo barulho e gritando pelo nome dela. Ela estava deitada sobre o peito de Arturo e os olhos se encontraram em fúria.&lt;br /&gt;- Onde está o maluco que nós iremos prender?&lt;br /&gt;Arturo riu e se apresentou.&lt;br /&gt;- Não! Vocês não podem me prender. Eu venho do futuro e vocês foderam o futuro!&lt;br /&gt;- Eu vou matar você, Emma! Como ousou?!&lt;br /&gt;Arturo sabia que não adiantaria segurar a fúria de Emma porque ele a vira no passado, quando o rei fora assassinado pelas mãos dela.&lt;br /&gt;- Como eu ouso? Caralho! Claro! Sou empurrada para esta porra de projeto científico para observar a história! Nenhum objetivo bélico, claro que não, nós não morremos nem enlouquecemos em nome da necessidade de sabermos segredos de estado de inimigos... Claro que não, Morgan! Puta que pariu, quem você acha que é, seu escroto pomposo? Você sabe o que são os demônios que encaramos quando viajamos? Você sabe a dor que invade nosso corpo? Não! Como poderia saber? Você é um humano normal com suas preocupaçõezinhas normais, com seu noivadinho nojento. Sabe quando eu poderei me casar? Nunca! Em nenhuma das minhas viagens, eu vi isto! Em nenhuma e você tem o direito de ser feliz, seu filho da puta, mesmo tendo me prometido amor eterno, ter falado que ficaria comigo! Você quer saber?&lt;br /&gt;Arturo se aproximou e a segurou para que ela não começasse a perder o controle dos poderes. As bruxas haviam sido bondosas em ensinar algumas coisas para ele, que ele precisava repassar para ela antes... antes do fim de tudo.&lt;br /&gt;- Eu vou conversar com você ainda, Emma!&lt;br /&gt;Arturo a afastou de Morgan e a levou para o quarto em que ela acordara antes. Finalmente, o ataque passou e ele a repousou na cama, seguindo para a sala onde estavam os outros dois homens.&lt;br /&gt;- Como ela está?&lt;br /&gt;- Bem, Declan! E você, meu caro, não acho que teria aguentado o que acontece com ela quando ela entra em estado convulsivo. O que vocês querem saber?&lt;br /&gt;Morgan suspirou.&lt;br /&gt;- O que vocês mudaram?&lt;br /&gt;Ele se sentou de modo elegante. Talvez, como um cavaleiro do século XIX o teria feito.&lt;br /&gt;- Bem... isso é o que pessoas como nós chamam de brechas, são espaços-tempo que podem ser modificados que não fará diferença no resultado final, de um modo de geral. &lt;br /&gt;- Pessoas como vocês?&lt;br /&gt;- Sim... tecnomagos, oras! Vocês tinham um seriado de tv que falavam de homens como eu! &lt;br /&gt;Declan se sentou, analisando a situação.&lt;br /&gt;- Você não precisa do laboratório para viajar?&lt;br /&gt;- Não e posso estar em dois lugares ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;- O que...&lt;br /&gt;- Ah! Meu caro Morgan, você acha mesmo que eu darei a vocês a ruína da humanidade? Sabe quem sobreviveu ao fim do mundo? Nós! E mesmo viajando pelas brechas, somos perseguidos por pessoas como vocês.&lt;br /&gt;Morgan ainda não estava à vontade com ele.&lt;br /&gt;- E o que você está fazendo aqui?&lt;br /&gt;Ele sorriu, movendo-se delicadamente sem tomar o conteúdo da xícara de chá que estava à sua frente.&lt;br /&gt;- Eu não beberei este veneno. Eu aprendi com monges tibetanos a suprimir a energia do meu corpo. &lt;br /&gt;- Não! Você não pode levá-la!&lt;br /&gt;- Meu caro Doutor, você é tão inteligente!&lt;br /&gt;- O que é, Doc?&lt;br /&gt;- Ele vai levá-la! O que aconteceu?&lt;br /&gt;- A brecha só se fechará se voltarmos para a Irlanda.&lt;br /&gt;Morgan se sentiu desconfortável. Um peso foi se aproximando dele como se o fim de tudo de bom que ele conhecia estivesse se desfazendo.&lt;br /&gt;- Ah! Agora, você sente algo por ela? Agora que ela não pode ser mais sua, Morgan? Agora que você já fez sua escolha? Por que? Por que ela não pode ser sua?&lt;br /&gt;Declan se levantou.&lt;br /&gt;- Como pode ser possível? Você não é deste tempo... você é de lá... você é... &lt;br /&gt;- Sim, eu sou um druida! Mas aprendi sobre as viagens muito cedo. Merlin é um título que dão àqueles que conseguem o mais alto grau de conhecimento.&lt;br /&gt;- Você é... Nossa... Caralho!&lt;br /&gt;- O que foi, Declan?&lt;br /&gt;- Nós poderíamos estudá-lo... é por isso que você não enlouqueceu, não foi?&lt;br /&gt;- Eu fui aqui e ali... afinal, o tempo não existe. Ela se acostumará com o tempo também.&lt;br /&gt;- Declan...&lt;br /&gt;- O quê, Morgan?!&lt;br /&gt;- Nós precisamos descobrir o que eles mudaram!&lt;br /&gt;- Estou ao seu dispor, senhores. Apressessem-se. Eu a levarei em breve.&lt;br /&gt;Morgan queria se levantar e espancar o estranho em protesto. Ele havia sido bom em brigas quando mais novo, quando ainda era um menino. Mas, ali, estavam homens, que estavam buscando respostas, cada qual ao seu modo. Emma havia se levantado há muito e ouvido parte da conversa. Ninguém a levaria para lugar algum. Antes, porém, que ela pudesse dar um passo para longe daqueles três homens que amava e a sufocavam, Arturo surgiu à sua frente.&lt;br /&gt;- Onde pensa que vai?&lt;br /&gt;- Eu tenho que fazer uma coisa...&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;Ela o encarou firme.&lt;br /&gt;- Eu tenho que ir sozinha! &lt;br /&gt;Ele estava suplicando mas não podia fazer barulho.&lt;br /&gt;- O que você está aprontando?&lt;br /&gt;- O que eu vi...&lt;br /&gt;- Todos nós já vimos e é apenas uma das possibilidades.&lt;br /&gt;- Não! Você não entende...&lt;br /&gt;Ela retirou um objeto de dentro do casaco e ele se espantou com o fato dela ter roubado o laboratório no qual Morgan trabalhava.&lt;br /&gt;- Como conseguiu? Ah! Diabos, não interessa! Você sabe que gosto de uma confusão. Eu realmente espero que você consiga o que quer, coração mole! &lt;br /&gt;- Eu também, coração mole! - sorriu.&lt;br /&gt;Ele a viu partir com um sorriso espantoso no rosto. Hora do show!&lt;br /&gt;- Muito bem! Este não é um dispositivo avançado... mas... dada as condições... acho que vai dar certo!&lt;br /&gt;Arturo sorriu e Morgan teve vontade de socá-lo. Havia algo sobre Emma que Arturo sabia e foi com um choque tenso que ele descobriu que ela o excluíra da vida dele.&lt;br /&gt;- O que você esperava? Que ela o esperasse numa torre por toda a vida? Além do que, meu caro, você tem outra pessoa, não é?&lt;br /&gt;- Bom, estamos prontos. &lt;br /&gt;Arturo passou as mãos por sobre as mangas da camisa como se a limpasse e fechou os olhos para que as imagens disparassem. Não seria difícil até porque eram lembranças que ele gostaria de manter inteiras para sempre. Haveria oportunidade para  que ele dissesse a verdade a ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava cavalgando no deserto sozinho. Ele era um nômade quando Emma aterrissou quase em cima dele. O cavalo empinou e ele caiu do cavalo, soltando um palavrão numa língua que Emma entendeu. Mas, as pessoas ali não deveriam entender a mesma língua que ela. Ele se virou para ela com uma fúria estranha nos olhos.&lt;br /&gt;- Eu não sou daqui, Emma! &lt;br /&gt;- Como você sabe quem eu...&lt;br /&gt;Ele espanou a areia da roupa e mal a encarou.&lt;br /&gt;- Vocês, novatos, são tão inconvenientes! Você não sabe que temos outros dons? Venha! Suba no meu cavalo!&lt;br /&gt;Ela hesitou. Será que ele estaria tentando enganá-la?&lt;br /&gt;- Eu tive tempo de matar você. Ande! Aqueles rapazes não pensarão duas vezes a respeito disso! Fora que você tem roupas estranhas. As outras moças morreram.&lt;br /&gt;Ele cavalgou a noite e parou em um lugar seguro, oferecendo comida e abrigo para ela e também roupas limpas e diferentes. Ele a ensinou a se vestir com as vestimentas daquele lugar. Ele a observou e percebeu que ela enganaria ninguém como um garoto.&lt;br /&gt;- Emma, você sabe dançar?&lt;br /&gt;Ela sorriu.&lt;br /&gt;- Fiz ballet quando criança, uma coisa aqui e ali!&lt;br /&gt;- Dança do ventre?&lt;br /&gt;Ela o encarou surpresa.&lt;br /&gt;- Quer que eu dance para você, seu pomposo?&lt;br /&gt;- Não! Mas para sobreviver aqui, terá que aprender a usar seu corpo, moça! Chamarei uma professora para você. Direi que você é uma esposa.&lt;br /&gt;Ela sorriu enquanto se enfiava nas roupas.&lt;br /&gt;- Eu não sou esposa de ninguém...&lt;br /&gt;- Você não sobreviverá sem mim. Acredite em mim e venha se deitar porque teremos uma noite fria.&lt;br /&gt;- Como assim me deitar com alguém estranho? Eu nunca...&lt;br /&gt;- Eu sabia que você era teimosa, mulher, mas não desse tanto!&lt;br /&gt;Ela se deitou e Emma nunca se sentiu tão confortável encostada em alguém como naquela noite em que seu rosto encostou no peito de Arturo. De onde ele vinha? Não importava. Eles caminharam muito tempo juntos e Amina, uma das esposas de um outro nômade a ensinava a arte da dança do ventre. Ela melhorava o modo de movimentar o corpo a medida que o tempo passava. Os viajantes não podiam se envolver nem interferir mas, ali, ela pareceu encontrar um pedaço de si mesma que faltava, era um lugar que era uma casa. Arturo percebeu que ela não era uma viajante qualquer e que já era hora de começar a se movimentar de novo. Ele a puxou para um canto e, depois, de uma noite de cantos, dança e fogueira, ele a levou para a tenda, pediu que ela dançasse para disfarçar.&lt;br /&gt;- Emma, está na hora de partirmos.&lt;br /&gt;- Por quê?&lt;br /&gt;- Porque eles desconfiarão de mim... eu nunca tive esposa antes e as desculpas que eu dei não são plausíveis.&lt;br /&gt;- Como iremos...&lt;br /&gt;- Eu levarei nós dois.&lt;br /&gt;- Isso é possível?&lt;br /&gt;Ele sorriu.&lt;br /&gt;- Continue praticando a dança. Você precisará dela, Emma.&lt;br /&gt;O tempo urgia e Emma aprendeu a dançar com outras mulheres e em outras tribos enquanto pudesse ser possível viver naquele mundo. Arturo a observava crescer. Um dia, eles finalmente partiram e ele montou a tenda.&lt;br /&gt;- Dance!&lt;br /&gt;Ela enrubesceu.&lt;br /&gt;- Está doido?&lt;br /&gt;- Não! Eu preciso saber se você pode se virar.&lt;br /&gt;Ele tocou os instrumentos de percussão e ela dançou.&lt;br /&gt;- Muito bem! Temos que encontrar jóias para você e roupas adequadas. Eu não posso cuidar de você quando chegarmos. Tenho negócios a fazer.&lt;br /&gt;Ela se sentou perto dele sentindo o frio da noite. Ele passou o braço por cima dos ombros dela para aquecê-la e ficou quieto por uns instantes.&lt;br /&gt;- Você está pensando em vingança, não é?&lt;br /&gt;Ele não poderia esconder a verdade dela.&lt;br /&gt;- A tribo que matou meu vilarejo. Não digo nem meus pais... porque, bem, eles já haviam me deixado para cuidar do mundo da magia, entende, Emma? É uma grande honra... principalmente, para aquela época. Eu tinha o dom. Mas o vilarejo... - ele deu um sorriso doloroso. - Merlin costumava me dizer que no dia que meu coração estivesse limpo, eu seria como ele. Mas eu não quero... Ele também me falou sobre você, Emma... uma pequena mulher que me faria cair do cavalo! &lt;br /&gt;- Merlin, hein?!&lt;br /&gt;Ele suspirou, aconchegando-a mais para perto.&lt;br /&gt;- É um título, sabe?&lt;br /&gt;- É mesmo?&lt;br /&gt;- É! Merlin não é um nome, é um título para aqueles que alcançassem a sabedoria extrema dentre aqueles de nós. Nada de barba branca como vocês o colocam. Com quarenta anos, já éramos anciões. Ele me disse que eu tinha talento desde que meu coração negro se tornasse suave de novo e isso aconteceria mas ele não estaria vivo...&lt;br /&gt;Pela primeira vez em todo aquele tempo, Emma viu um sorriso sincero no rosto de Arturo.&lt;br /&gt;- Talvez, ele esteja...&lt;br /&gt;- Não diga besteiras, Emma! Ele não estará presente.&lt;br /&gt;- E o mago aqui é você! Não se lembra? Nós estamos em todos os lugares e em todos os tempos!&lt;br /&gt;Ele a apertou contra si.&lt;br /&gt;- É verdade, Emma, é verdade! Vamos dormir?&lt;br /&gt;Ela o encarou.&lt;br /&gt;- Quero ouvir mais sobre o Merlin.&lt;br /&gt;- Então, ele era o mais sábio e potente de nós, poderoso e gentil e quando os bárbaros invadiram nossa vila, eles o mataram...&lt;br /&gt;Emma estava cansada e adormeceu no colo de Arturo. Ele a cobriu com as peles e a deixou dormir enquanto ficava de vigília. A partir dali, o perigo começaria para eles porque outros magos o reconheceriam pela aura e outras pessoas poderiam ver que Emma era especial e ele teria que cuidar dela o máximo possível. Não que ela não tivesse capacidade. Aquela era uma moça de brios como o próprio Merlin falava. Por que havia um título para aquele que alcançasse toda a sabedoria? Porque quando havia nomes, havia guerra. Ao abdicar de um nome, também se abdicava das posses mundanas. Eles caminharam por quilômetros e isso deu oportunidade a Emma de se misturar, aprender mais sobre danças e sobre a vida. Mesmo assim, Emma começou a sentir a presença de Morgan e isso queria dizer que teria que retornar brevemente. Ela sumiu e voltou no mesmo dia. A dor de cabeça desesperadora, os enjôos e os demônios. Naqueles dias, eles ainda não a habitavam com tanta força. Arturo cuidou dela com carinho, segurou seu cabelo, deu-lhe banho.&lt;br /&gt;Morgan sentiu um certo desconforto ao ver aquilo.&lt;br /&gt;- Você nunca fez isso por ela, não é?&lt;br /&gt;- Como pode estar acordado?&lt;br /&gt;Ele sorriu de modo misterioso.&lt;br /&gt;Finalmente, ela estava melhor e eles prosseguiram. Arturo sentia o perigo no ar e se aproximou dela de noite com um tom frio na voz.&lt;br /&gt;- Emma?!&lt;br /&gt;- Sim?&lt;br /&gt;- Hora de começar a dançar senão ficará estranho apenas nós dois...&lt;br /&gt;- Eu não...&lt;br /&gt;- Aqui, você fará o que for preciso para sobreviver, Emma.&lt;br /&gt;Ela fez bastante contrariada. Ele conseguiu pegar o que buscava. Emma não sabia mas ele precisou matar pessoas e magos para conseguir uma pedra mágica daquelas terras. Ela não precisava ficar sabendo do que ele era capaz de saber. Eles seguiram viagem até o mar que os levaria ao Ocidente, às terras gregas.&lt;br /&gt;- Nós não iremos de barco, Emma.&lt;br /&gt;Ele a empurrou para um lugar escuro e apertou firme.&lt;br /&gt;- Eles sabem onde entregar nossas coisas. Tenho alguns homens fiéis comigo!&lt;br /&gt;Ele respirava forte perto dela e ela sentia o cheiro dele.&lt;br /&gt;- Pronta, Emma?&lt;br /&gt;Ela não conseguia respirar direito.&lt;br /&gt;- Vamos!&lt;br /&gt;Eles pararam nas costas da Irlanda, em um penhasco em que as águas fustigavam violentamente. Ele caiu para frente e foi a vez de Emma cuidar dele com fogueira, comida e compressas frias. Levou muitos dias até que Arturo estivesse melhor. Ele abriu os olhos e a viu.&lt;br /&gt;- Emma...&lt;br /&gt;Ela se virou para onde ele estava.&lt;br /&gt;- Eu sei! Você me preparou para isto. Quando eles estarão aqui? Você vai me oferecer como forma de paz e eu terei que dançar para ele, não é isto?&lt;br /&gt;- Desculpe tê-la enganado... mas...&lt;br /&gt;- Estou acostumada a isto. Morgan me usou, não foi?&lt;br /&gt;Eles chegaram ao castelo a noite.&lt;br /&gt;- Tenho um presente para o Milord.&lt;br /&gt;Emma estava escondida em roupas distintas e se curvou para cumprimentar o homem. Logo, ele voltou e eles entraram.&lt;br /&gt;- Por favor, Emma, contenha-se, está bem? Eu voltarei!&lt;br /&gt;Ela ficou quieta. O que tinha a ser dito? Tudo mudou quando descobriram o que ela podia fazer, quando Declan a viu ir e vir e contar as histórias sobre o tempo e o espaço, o tempo em que ela e o irmão ainda eram próximos, ainda eram presentes um para o outro. Quando Morgan surgiu e sorriu para ela há tantos anos atrás no salão da casa deles, ela, sinceramente, achou que ele era alguém que pudesse fazer algum bem e, no entanto, ela percebeu com o passar dos anos que ele era nada mais do que uma sombra do passado. Se ela o amara? Algum dia, talvez, naquele breve momento, em que seus olhos cruzaram com os dela. Não havia mais nada a ser dito e ela dançou para aquele homem barbado, de cara fechada e corpo talhado por batalhas inomináveis. Ele sorriu ao ver o que Arturo tinha a oferecer e ela foi negociada sem que pudesse falar alguma coisa. Sentiu falta do mundo em que nascera, onde as mulheres falavam e podiam ser o que queriam. Ela dançou para o bárbaro e ele a possuía enquanto lágrimas nos olhos surgiam. Tudo que ela queria era poder acabar com aquilo logo de uma vez. Ela tinha que dançar noite após noite, era a atração daquele lugar. As mulheres lançavam olhares hostis e os homens lançavam olhares de desejo, que a incomodavam. Quanto mais aguentaria aquilo? &lt;br /&gt;Arturo sabia que levaria muito tempo até que ela tivesse capacidade de perdoá-lo e entender o papel deles naquilo tudo mas ele precisava reunir as tropas para vingar as mortes do vilarejo. Então, antes que ele chegasse, um outro Senhor quis invadir o castelo. Sem que Arturo soubesse, ela havia comprado uma adaga e, naquela noite sangrenta, ela assassinou aquele homem nojento que a tocava sem que ela quisesse. Arturo apareceu sem que pudesse impedir o que aconteceu.&lt;br /&gt;- Puta que pariu!&lt;br /&gt;Ela tinha lágrimas nos olhos e tudo passou em câmera lenta depois daquilo.Nada fazia sentido. Veio o fogo e tudo que ela se lembra é ter sido retirada de lá e Arturo entendeu que a vingança não o faria se sentir melhor porque era para ele ter matado aquele homem. Ele apertou Emma contra si e ele a levou para o mundo do futuro, onde ele era um tecnomago e onde ele cuidou das feridas dela e das dele próprio.&lt;br /&gt;"Sinceramente, coração mole, espero que você tenha conseguido fazer o que precisava!"&lt;br /&gt;Morgan estava em silêncio. Declan se virou para o outro lado. Ambos se perguntavam o que tinham feito a Emma. Eles haviam esquecido do coração dela, da bondade, do olhar, do carinho, da gentileza... Emma tinha rompantes de agressividade mas, nada que a diferenciasse de outros seres humanos.&lt;br /&gt;Emma surgiu no batente da porta com o cabelo desgrenhado, se agarrando em dor.&lt;br /&gt;- Eu não sei o seu nome...mas...&lt;br /&gt;Arturo a segurou.&lt;br /&gt;- ... eu consegui. Destruí o objeto de destruição deles antes... você deveria ver... coração mole!&lt;br /&gt;- O que eles fizeram com você?&lt;br /&gt;Ele sentiu o sangue dela em suas mãos e baixou a cabeça. Abriu o casaco e viu o buraco no corpo dela. Ele encarou os outros dois homens, passou a mão no rosto dela.&lt;br /&gt;- Eu sabia que você daria conta de fazer qualquer coisa doida!&lt;br /&gt;- Eu perdôo você...&lt;br /&gt;As lágrimas pingavam do rosto de Arturo.&lt;br /&gt;- A gente só diz este tipo de coisa quando...&lt;br /&gt;- Ele está aqui... ele...&lt;br /&gt;- Quem, coração mole?&lt;br /&gt;- Seu Merlin! Eu falei para você...&lt;br /&gt;- Shhhhhhhh! Fica quieta! Sabe, ele tem razão... você suavizou meu coração. &lt;br /&gt;Ele pousou a mão sobre a ferida dela.&lt;br /&gt;- Eles disseram... que... nem alguém poderoso como você...&lt;br /&gt;Ele sorriu.&lt;br /&gt;- Eles não me conheceram no passado.&lt;br /&gt;"Deixa ir a sombra, Arturo... simplesmente, deixe ir embora..."&lt;br /&gt;Ele se concentrou e o amor que ele tinha por ela fluiu.&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;- Fica quieta...&lt;br /&gt;- Eu sei as consequências!&lt;br /&gt;O corpo dela tombou e o silêncio se fez presente para eles todos. As lágrimas rolaram pelo rosto dele. Merlin veio por trás dele, pousou a mão no ombro dele e encarou os outros dois homens com bondade.&lt;br /&gt;- Todos fizemos o que tínhamos que fazer. Sim, ela está morta.&lt;br /&gt;- Venha, Godric.&lt;br /&gt;- Seu nome não é...&lt;br /&gt;Ele sorriu. Imagina! Arturo?! Só se ele fosse o próprio em pessoa. Ele voltou para casa e começou a beber, quieto no seu canto, desesperado por ter perdido a única oportunidade de amar da sua vida. Merlin vinha, vez ou outra, sorria e partia. Um dia, ele começou a ter uma visão e só podia ser porque ele podia jurar que ele via Emma se aproximando com um sorriso. Ele estava cansado daquilo e foi para um dos penhascos no outono, sentir os respingos da água.&lt;br /&gt;- Ei, coração mole!&lt;br /&gt;- Agora, dei para ouvir vozes também!&lt;br /&gt;Ela se sentou ao lado dele e pousou a mão sobre a dele. Ele se virou e passou o braço por sobre o ombro dela.&lt;br /&gt;- Sabe, querido, agora, eu só vou dançar para você. Que você acha?&lt;br /&gt;- Eu não ia querer de nenhuma outra forma! Eu quis morrer quando deixei você nas mãos daquele...&lt;br /&gt;- Você sabe que não posso voltar para... só você pode visitá-los!&lt;br /&gt;- E por que eu faria isso?&lt;br /&gt;- Você deve dizer que o Apocalipse que eles causariam não vai mais acontecer e que qualquer tentativa será impedida por um de nós e para dizer a Declan que estou bem, de alguma forma! &lt;br /&gt;- Eu não vou beber mais!&lt;br /&gt;Ela deu uma gargalhada gostosa.&lt;br /&gt;- Bom mesmo! Eu desisti de coisas muito boas para estar com você. Se não fosse seu amigo Merlin... vocês podem se casar?&lt;br /&gt;Ele a abraçou.&lt;br /&gt;- Claro! E também podemos fazer os rituais!&lt;br /&gt;- Ei! Ei! Só se for com uma única parceira, entendeu?&lt;br /&gt;Ele riu!&lt;br /&gt;- Estou provocando você! Vamos! Temos muito que fazer, Emma! O inverno se aproxima e aqui não tem as facilidades do seu mundo. &lt;br /&gt;- Você bem que podia trazer algumas coisas dos tecnomagos, né? Sinto falta dos banhos quentes.&lt;br /&gt;Ele riu gostoso. Emma era tudo na vida dele e sempre foi a partir daquele instante. Ele se tornou um grande mago e ela a sacerdotisa do vilarejo. Ambos transformaram o mundo e desconheciam a luta daqueles como ele para manter o mundo em paz porque uma guerra havia sido feita quando ela mudou a história do futuro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-5395197005199776365?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/5395197005199776365/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=5395197005199776365' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5395197005199776365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5395197005199776365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/06/o-sonho-de-emma.html' title='O sonho de Emma'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-2273240580446968586</id><published>2011-06-21T08:47:00.000-07:00</published><updated>2011-06-21T08:47:09.827-07:00</updated><title type='text'>Joanne</title><content type='html'>A vida adulta traz um misto de sentimentos diversos e um saudosismo de coisas que, talvez, jamais tenhamos vivido de verdade. As lembranças que ficam de tempos idos dependem unicamente do que parece que existiu dentro de nós mesmos. A minha história difere da história contada por outra pessoa. Uma vez, eu recordei fatos, esquecidos por quem amei. Estes eram os momentos que eu queria esquecer porque era um amor injusto. Era secreto para mim mesma. Desde criança, eu sonhei com um amor possível, provável e verossímil. Nenhuma das profecias que imaginei para mim do meu mundo distante de imaginação realmente aconteceu. Eu lembro de desejar o amor perfeito de tudo que há no mundo. Uma amiga me disse dia destes que não sabe o que é pior, se a ausência de uma mãe que está ali mas não está ou se a ausência da mãe que abandonou de verdade, seja por qual razão for. Talvez, a gente possa sonhar com a mãe que nos abandonou. Afinal, a gente pode criar uma mãe inteiramente nova. Minhas memórias me levam a uma mãe, que se trancava no quarto e dizia que ia se matar. Eu ficava na porta do quarto, esperando. Eu gostaria de poder brincar com os pés descalços, nadar na piscina como uma criança... ter os olhos infantis da descoberta eterna. &lt;br /&gt;Quando a gente cresce, o mundo se modifica e as rosas têm mais espinhos. Talvez, elas tivessem menos espinhos porque nós ríamos mais, éramos mais capazes de ficarmos deslumbrados com tudo que ocorria à nossa volta. Eu me pergunto e sempre me perguntei, desde que comecei a perceber o vazio que sentia, em que momento da vida nós nos perdemos... quando a gente deixa para trás a criança que fomos. É como se, em algum momento, a gente larga a pequena mão e segue em frente, achando que vai dar conta de viver sem aquele pedaço nosso. Fazemos questão de enterrar bem fundo tudo de bom que temos e deixamos de acreditar que o mundo tem nuances de cores pastéis ou que podemos nadar em aquarelas diversas. A pergunta não se cala ainda hoje, tantos depois em que larguei a mão de quem eu fui, de quem sonhava por um mundo melhor, de quem acreditava que poderia mudar o mundo com as palavras que escrevia. Eu não posso nada! Mal posso lembrar da minha infância... são flashes de momentos tão estranhos que soa como se não fosse minha própria vida! Eu queria pinçar momento a momento, como frames para solidificar em gelo eterno, em cristalos, como os gregos chamavam os cristais, gelo eterno, para poder lembrar para sempre do que me faz bem e, assim, buscar preencher os buracos que ficaram no coração ao longo dos tempos, dos séculos de vida que parecem existir em mim.&lt;br /&gt;Talvez, esta seja a explicação porque eu tenha amigos mas uma vida amorosa que deixa muito a desejar. Um amigo já disse que minhas histórias dariam um livro. Acredito que todas as vidas dariam bons livros... a minha é... parecer ser bastante ordinária porque é a história de todo mundo. Não tem nada de diferente do que outras pessoas vivem. Eu me apaixono. Meu coração se espatifa. Sou obrigada a perceber como a vida funciona fora do meu mundo de faz-de-conta em que as pessoas deveriam ser legais. &lt;br /&gt;O suor escorre da minha testa. Meu cabelo gruda na testa. Eu seguro a arma e aguardo as ordens de atirar. Não acho justo nada do que acontece. Sim, eu queria mudar o mundo de outra forma e não desta forma, não segurando uma arma... não vivendo aqui e agora. Eu queria que tudo pudesse ter sido mudado e... não tem outro jeito. Eu tinha sonhos de fazer a paz e faço guerra. Quão justo é este mundo? Fomos todos obrigados a entrar em equipes de proteção contra nós mesmos depois que tudo desmoronou. Eu queria lembrar mais dos momentos bons, dos meninos que beijei, daqueles lugares inocentes que habitei. Por sorte, ainda não matei ninguém nestes becos escuros que somos obrigados a enfrentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Joanne?!&lt;br /&gt;Ela abriu os olhos.&lt;br /&gt;- Do que se lembrou?&lt;br /&gt;- As imagens não aparecem no visor?&lt;br /&gt;- As mesmas de antes! Sua vida, Joanne! Você sabe que não estamos neste projeto para você revisitar seu passado. Você se alistou por outras razões. Nós resgatamos você praticamente à beira da morte daquele lugar...&lt;br /&gt;Ela crispou as mãos porque deixara de ter emoções há muito tempo. O treinamento árduo, as marchas, a dureza da vida que ela escolhera quando Joe partira. Ela ainda tinha esperança de que o veria voltar quando estava com 18 anos. Ele voltou, não para ela mas para Tilly. Foi um casamento bonito. Perfeito até a última taça de espumante. Simples, palavras gostosas e ela só se lembra de vomitar as tripas depois de tudo e alguém segurar-lhe o cabelo. No dia seguinte, ela foi em frente ao espelho e mutilou o cabelo, encarou o corpo e decidiu pelo exército. Era dedicada e imbatível. Seu mestre de artes marciais a chamou em um canto.&lt;br /&gt;- Joanne, relaxe.&lt;br /&gt;Ela soltou os ombros e respirou fundo pela primeira vez em anos. O corpo de bailarina moldado agora para a guerra. &lt;br /&gt;- Eu sei que você é boa mas lhe falta um foco... você está aqui pelas razões erradas! &lt;br /&gt;Ela queria refutar, dizer que não. Mas a verdade era que Joe voltara para Tilly e não houve o que ela pudesse ter feito para impedir o enlace matrimonial e os sorrisos nos rostos dos noivos. Aquela conversa veio à tona e ela encarou o cientista á frente dela. Era outra escalação porque seu corpo não estava mais moldado para a guerra. Perdera partes vitais e se passasse por qualquer estresse que um trabalho de campo causa, seria sua ruína para todo sempre. Antes ela tivesse sido largada para morrer! Antes... então, seus olhos se cruzaram com os olhos de Joe. O coração parou por um instante. Ela engoliu em seco sem pensar em mais nada. Ele seguiu em direção ao laboratório.&lt;br /&gt;- Ah! Foi ele quem a salvou!&lt;br /&gt;Sim, antes ela tivesse morrido naquela ação! Aliás, ela praticamente se jogara para a morte. Tom segurou no braço dela e balançou a cabeça mas havia ordens a serem cumpridas, crianças a serem salvas e ela entrou naquela sala, computando cada ato insano que a levou à quase morte. Seu corpo e sua mente engajados em conseguir agir. Assim que ela liberou a passagem, os outros vieram a seguir, fizeram o resgate mas, ela precisou ficar para poder dar tempo a eles de libertar os reféns. Ela foi crivada de balas e foi deixada para morrer com uma bomba. Joe abriu a porta e o cientista não fez continência. Eram todos civis naquela sala, embora ele usasse o uniforme.&lt;br /&gt;- Vim ver como você está, Pequena!&lt;br /&gt;O ódio subiu ao rosto. Qualquer palavra, naquele instante, faria a fúria surgir e destrancar uma besta interna, desconhecida de todos ali. Kim observou as reações e, imediatamente, deu uma desculpa qualquer e a retirou de perto de Joe. Ele a empurrou para a parede, absorvendo o impacto das sensações e sentimentos. Joanne ouviu em sua mente: Eu sei o que eles fizeram com você! Não era uma bomba, não é? Ele se afastou, os olhos dela colaram nos dele.&lt;br /&gt;- Como você descobriu? &lt;br /&gt;Ele foi arrumar o laboratório. Àquela hora, só tinha os dois. &lt;br /&gt;- Eu leio mentes. Fui treinado para isto como você absorve o impacto de pancadas e coisas do gênero. Mas, desta feita, seu corpo não conseguiu absorver a bomba atômica, não foi? Eles também sabiam do que você era capaz. Há quanto tempo você está com isso ampliado, Joanne?&lt;br /&gt;Joanne não teve coragem de falar. Havia uma densidade profunda entre eles. Kim se encostou na mesa.&lt;br /&gt;- Vamos tomar um café.&lt;br /&gt;Joanne vestiu o casaco porque o vento fustigava naquela noite de inverno. Eles se encolheram em seus casacos. Cada qual com seus pensamentos. Joanne percebeu a presença de Joe na saída do prédio e Kim esperou pelo encontro inevitável.&lt;br /&gt;- Peque...&lt;br /&gt;Ela encarou os olhos de Kim, que pareciam tranquilizá-la. Ela se virou ereta e olhou direto nos olhos dele.&lt;br /&gt;- Eu vim ver se você estava bem. O pelotão sempre pergunta de você. Você sabe como é, né?&lt;br /&gt;- Estou bem. Se eles estão preocupados que venham me visitar eles mesmos. Diga que agradeço as flores e também agradeço o salvamento mas...&lt;br /&gt;Kim balançou a cabeça.&lt;br /&gt;- Ah! Sim, como ia esquecer? Mande lembranças a Tilly por mim!&lt;br /&gt;Kim não pode evitar as palavras de Joanne porque ele sabia a razão dela nunca passar de um determinado ponto nas experiências e a verba seria cortada caso não conseguissem algum progresso. De certa forma, o que manteve o projeto em movimento havia sido Joe porque ele sabia que se Kim não tivesse levado Joanne para lá, ela teria morrido de uma forma bastante cruel. Ele agradeceu na mente de Joe.&lt;br /&gt;- Não agradeça, Doutor! &lt;br /&gt;Kim repousou a mão no ombro dela.&lt;br /&gt;- Chega, Joanne! Vamos!&lt;br /&gt;- Você acha que poderemos conversar? - Joe perguntou.&lt;br /&gt;Ela se virou sobre os calcanhares.&lt;br /&gt;- Você quer conversar? Então, conversemos aqui e agora! O que diabos você quer, Joe?! São os meus dons para a zona de guerra? Vocês estão perdendo? Quer saber quando eu poderei voltar?&lt;br /&gt;Ele se encolheu quando uma rajada de vento passou entre eles.&lt;br /&gt;- Não! Eu sinto muito, Joanne. Mas quando eu prometi que voltaria para você, você tinha 15 anos! Eu era bem mais velho e Tilly estava pronta para mim quando eu retornei. Não era uma menina!&lt;br /&gt;Kim pousou a mão no rosto e encostou no carro. Aquilo não acabaria bem para nenhum dos dois.&lt;br /&gt;- Tilly estava pronta?! Caralho... Joe! Eu era uma menina?! Eu vi meio mundo explodir quando eu tinha 11 anos de idade. Eu vi as vísceras do meu pai espalhadas pela casa aos 13 anos e minha mãe ser estuprada, quando ainda estava grávida. Sabe o que eles fizeram? Abriram a barriga dela e retiraram as crianças e deixaram as três morrerem. E o que diabos você acha que isso faz com uma pessoa? Deixa ela muito bem, é claro!&lt;br /&gt;Joe a encarou com olhos tristes.&lt;br /&gt;- Ah! A linda e suave Tilly... sua preciosa e querida Tilly, sempre presente para tudo... meu coração morreu no dia que você se casou. Tenho missões a cumprir e assim o farei.&lt;br /&gt;Ele parou. Não adiantaria discutir com ela.&lt;br /&gt;- Você foi a bailarina mais linda que já vi dançar na vida! Agora, eu posso dizer isso. Eu conheço o mundo.&lt;br /&gt;Os olhos marejaram de uma forma imperceptível para ele mas de forma que um maremoto foi percebido por Kim. Não adiantaria fazer mais nada.&lt;br /&gt;- Eu não tinha a intenção...&lt;br /&gt;- A gente nunca tem a intenção de machucar ninguém quando está se divertindo!&lt;br /&gt;O vento começou a soprar mais forte e ele gritou para que pudesse ser ouvido.&lt;br /&gt;- Foi meu irmão quem cuidou de você depois do casamento, Jo. Foi um pedido meu... eu sempre... &lt;br /&gt;Ela segurou no braço de Kim.&lt;br /&gt;- Vamos embora! &lt;br /&gt;Ela não quis ouvir o que ele tinha para dizer. Kim dirigiu para um café que ficava distante do laboratório para ter certeza de que ninguém os seguiria. Era preciso cautela naqueles tempos de guerra. Ela não comia nem bebia nada do que ele pedira e a garçonete olhava apressada para os dois. Ele abanou a mão e a fez desaparecer.&lt;br /&gt;- Eu sei que dói mas...&lt;br /&gt;Ela o encarou com seriedade.&lt;br /&gt;- Está alojado no lugar mais profundo de mim.&lt;br /&gt;- Eu vi o dia que você voltou a treinar. Socar não vai fazer você lembrar o que eles querem e, mesmo que você queira voltar a dançar, o que eu recomendo, eles não deixarão você ir embora! Você sabe demais.&lt;br /&gt;Ela suspirou.&lt;br /&gt;- Uma emoção humana! &lt;br /&gt;Os olhos de Kim brilharam. Ela o encarou sem esperanças.&lt;br /&gt;- Há um jeito!&lt;br /&gt;- O que?&lt;br /&gt;- Dance! A resposta virá!!!&lt;br /&gt;- Eu não posso dançar. Você mesmo falou...&lt;br /&gt;Ele se recostou no banco, pediu que ela se aproximasse e deu um sorriso largo bem sacana.&lt;br /&gt;- Você sabe que posso bagunçar a cabeça das pessoas, né?&lt;br /&gt;- Você não...&lt;br /&gt;Ele continuou sorrindo.&lt;br /&gt;- Joanne, eu sabia do seu potencial e eu precisava de você no laboratório. Então, eu menti ao dizer que seu coração estava bastante comprometido e que seus órgãos vitais estavam bastante danificados. &lt;br /&gt;Joanne sentiu um tum depois do outro dentro do peito.&lt;br /&gt;- Assim... não que você não esteja danificada. Eu diria que trabalho de campo para você é algo bastante arriscado e realmente coloca a vida dos seus companheiros em risco e a sua própria mas, você pode dançar. Eu providenciarei um lugar para você voltar a dançar e alguém adequado.&lt;br /&gt;Joanne sentiu uma capa de gelo se dissolver, a que estava mais distante. No dia seguinte, quando ela chegou ao laboratório, ela foi levada para uma sala grande com um espelho, linóleo novo e alguém mediu seus pés para trazer as sapatilhas corretas. Ela simplesmente brincou por alguns minutos e sorriu para Kim pela primeira vez desde que colocara os pés no laboratório.&lt;br /&gt;- Você tem certeza de que isso dará certo, Kim? É o seu pescoço...&lt;br /&gt;- Tenho, Comandante!&lt;br /&gt;Era bom dar certo porque eles podiam ser riscados do mapa caso eles não conseguissem. Ele sabia que Joanne era capaz de acessar o que vira na mente do inimigo. Finalmente, Devin chegou e eles se cumprimentaram de uma forma estranha para dois irmãos que cresceram de forma íntima e unida. O tempo os afastara e os levara para caminhos diversos. Sentaram-se no restaurante do hotel que Devin que escolhera, fizeram seus pedidos e o irmão foi direto ao assunto.&lt;br /&gt;- O que você quer? Você não me faria largar a companhia no meio de uma turnê para um passeio turístico.&lt;br /&gt;- Quando aprendeu a ser tão direto?&lt;br /&gt;- Quando Eilleen quebrou meu coração...&lt;br /&gt;- Eu nunca tive a intenção, Devin...&lt;br /&gt;Ele fez um gesto como quem diz que o passado não importava.&lt;br /&gt;- Ela não era a mulher da minha vida. Mas há certas coisas que causam profundas feridas que deixam cicatrizes feias. &lt;br /&gt;- Eu já...&lt;br /&gt;- Isso já está no passado, Kim. O que você quer?&lt;br /&gt;- Estou com um problema!&lt;br /&gt;- Ah! A moça dos sonhos.&lt;br /&gt;Kim se recostou. Eles ainda tinham a conexão.&lt;br /&gt;- Você ainda tem isso? Há quanto tempo sonha com ela?&lt;br /&gt;Devin sorriu com leveza.&lt;br /&gt;- Desde sempre. Ela é perfeita e você me ajudará a tirá-la desse inferno. Você prometeu há muito tempo atrás, Kim!&lt;br /&gt;O mundo da infância foi voltando sem que Kim quisesse realmente saber o que iria acontecer a seguir. &lt;br /&gt;- Eu sei, eu prometi quando vimos juntos o futuro, não é?&lt;br /&gt;- Sim! Ela fará um bem maior à humanidade dançando do que se tornando... você sabe!&lt;br /&gt;Devin foi instalado perto do laboratório e foi para a sala de dança. Foi apresentado à Joanne e eles se deram as mãos friamente e ele começou o treinamento dela. Depois de um dia árduo para Joanne, em que seu corpo havia se desabituado aos movimentos da dança, eles se despediram.&lt;br /&gt;- Nada mal mas há muito a ser trabalhado.&lt;br /&gt;Joanne apenas o encarou, queria responder e ficou quieta. Os dias se passavam entre os exercícios de barra, diagonal e centro. Joanne havia esquecido tudo e queria ter mantido no esquecimento porque se lembrou que Joe a visitava para vê-la dançar. Um dia, ela se lembrou no meio de um salto e caiu com um barulho que a trouxe de volta. O tornozelo inchou e Kim apareceu no ambulatório, onde ela já se levantava da cama.&lt;br /&gt;- Não! Deite-se!&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;- O que você se lembrou?&lt;br /&gt;Ela baixou o olhar. &lt;br /&gt;- Você sabe!&lt;br /&gt;Ele suspirou e, pela primeira vez, ele foi duro com ela.&lt;br /&gt;- Olha só! Falarei apenas uma única vez. Ele não é metade do que você é. Você brilha quando sorri,Joanne! Você tem coisas que nem ele nem Tilly jamais chegarão a saber o que é! Por favor, olhe para si mesma! Olha o que está fazendo aqui! Você está dentro de uma instalação militar, uma guerra comendo solta lá fora e você está dançando pelo que tem dentro do seu cérebro.&lt;br /&gt;Ela tentou andar até ele. Ele a segurou e a levou de volta para cama.&lt;br /&gt;- Não! Não! Não!&lt;br /&gt;Devin chegou e se sentou ao lado dela. &lt;br /&gt;- Muito bem! Vamos ensaiar. Fecha os olhos e começa os movimentos.&lt;br /&gt;Todos os dias até o fator de cura fazer efeito, ele veio e fez ela treinar mentalmente. Finalmente, ela ficou boa e ele gritava que queria vê-la dançar melhor e melhor e melhor e ela chorava à noite porque não conseguia e chorava porque Joe não estava na vida dela. Finalmente, ela se arrastou a noite para fora do alojamento, pegou um cigarro e acendeu. Ela viu uma sombra no frio cortante e sabia que era Joe.&lt;br /&gt;- Eu vim em paz! Você não fuma!&lt;br /&gt;- Como sabe o que eu faço ou deixo de fazer, Joe?&lt;br /&gt;Ele sorriu triste e deu de ombros.&lt;br /&gt;- Eu não estou no meu corpo, sabe? Estou num hospital... estou vivendo uma daquelas coisas que você me disse que existia... eu vejo tanta coisa... eu vi sua dor... mas eu já sabia. Não tinha como desfazer quando eu percebi.&lt;br /&gt;As lágrimas correram no rosto. A fumaça era soprada.&lt;br /&gt;- Ah! Pequena... eu amo você! &lt;br /&gt;Ela jogou o cigarro no chão.&lt;br /&gt;- Não ouse! Não agora! Não neste momento! Não ouse bancar este papel de vítima de "estou morrendo e quero partir em paz" para cima de mim! Doeu pra caralho! Joe, volta para casa, para a Tilly. Eu tenho coisas para fazer e as farei.&lt;br /&gt;Ele a encarou.&lt;br /&gt;- Eu posso viver, então?&lt;br /&gt;Ela suspirou.&lt;br /&gt;- Pode!&lt;br /&gt;Ela não ousou dizer que Tilly o traíra com um grande amigo dele, que ele descobrisse quando seus olhos estivessem abertos. Devin surgiu por trás dela.&lt;br /&gt;- Muito bem!&lt;br /&gt;Ela saltou de susto.&lt;br /&gt;- Caralho! Num dá para avisar quando chegar de soslaio?&lt;br /&gt;- Eu quero que você coloque emoção quando dança, Joanne... falta alguma coisa quando você movimenta seu corpo. Eu já vi...&lt;br /&gt;Ela deu uns passos para trás e ia cair quando, num reflexo, ele a puxou e ela se recostou no peito musculoso dele, no corpo quente. Ele a enlaçou, puxou o corpo dela, deixou que a respiração dos dois ficasse no mesmo compasso e ela quase cedeu a tentação de beijá-lo. Finalmente, ele se afastou. &lt;br /&gt;- É isso que quero de você!&lt;br /&gt;Ela acordou e seguiu para os exercícios. Por dias, Devin não comparaceu. Estava só ela e o pianista.&lt;br /&gt;- O que aconteceu com ele?&lt;br /&gt;- O irmão dele o retirou de turnê para poder vir para cá, Joanne. Você não sabia o que Kim fez?&lt;br /&gt;Finalmente, ela entendeu o que o destino traçara para ela... e o que ela tinha absorvido naquele dia. O que o governo queria ou quem quer que financiasse o laboratório era o potencial que ela tinha de ser uma bomba. Ela se deixou aquela noite sem pregar os olhos. Kim já devia saber disso há muito tempo. Ela sentiu a respiração suave de alguém dentro do quarto dela. Era Devin.&lt;br /&gt;- Vamos! É a hora de escolher! &lt;br /&gt;Ela se sentou aturdida. Mataria ou dançaria para sempre? Mas e o Kim?&lt;br /&gt;Devin a encarou desesperado.&lt;br /&gt;- Ele vai morrer cedo ou tarde. O coração dele...&lt;br /&gt;Ela tocou a cicatriz no centro do peito.&lt;br /&gt;- Por que ele fez algo tão estúpido?&lt;br /&gt;Devin suspirou com raiva.&lt;br /&gt;- Então, você não sabe?&lt;br /&gt;Ele ofereceu a mão para ela.&lt;br /&gt;- Vamos! Não temos muito tempo.&lt;br /&gt;- Ele sabia sobre você... eu voltar a dançar...&lt;br /&gt;- Você nunca soube?&lt;br /&gt;Devin saiu arrastando Joanne pela mão e eles entraram num jipe, dirigido por Kim. Era para ela fingir estar passando mal enquanto Devin a segurava. Eles conseguiram passar pela primeira guarita, pela segunda guarita. O problema era passar pela fronteira. O carro prosseguia na noite densa e escura até que eles foram encurralados e tudo aconteceu como previsto. Devin correu com ela pela floresta e Kim levou tiros para que eles ganhassem tempo. Ele não queria que ela se tornasse uma arma para qualquer governo nem que ele fosse estudado para ser de alguma utilidade. Kim morreu com orgulho. Devin sentiu que o irmão cumprira sua função e ele atravessou Joanne como sua esposa pela fronteira. Ambos correram riscos inimagináveis até o momento em que o avião pousou do outro lado do mundo com Joanne segura. Devin deu novas identidades para ela e ao dançar todo brilho que ela tinha dentro de si se expandia no palco, para a platéia e ele a fez brilhar como a mais bela estrela de todo o céu, sem ofuscar em excesso e sem deixar de brilhar. Era sempre o cheiro dele que ela buscava na noite profunda quando os sonhos perturbavam e era com o aconchego de Kim que sonhava quando a alma ardia num clamor latente de tristeza. Assim, Joanne não precisou explodir o mundo com seu corpo porque explodia vida para quem tivesse o prazer de assisti-la!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-2273240580446968586?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/2273240580446968586/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=2273240580446968586' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2273240580446968586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2273240580446968586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/06/joanne.html' title='Joanne'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-2601403618943707673</id><published>2011-05-28T20:59:00.001-07:00</published><updated>2011-05-28T20:59:07.627-07:00</updated><title type='text'>E se eu falasse</title><content type='html'>E se eu falasse para você que porque você é você, eu ficaria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu falasse que meu coração acelera quando ouço sua voz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se eu falasse que a última vez que me senti assim foi porque doeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com você, eu sorrio, é como sentir uma brisa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com você, eu sinto vibrar brisa em alma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que não enxerga que por você é você&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou capaz de ser mar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou capaz de flutuar em seus beijos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, sei lá de você comigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei de mim com você&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque você me faz bem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, nem se dê conta disso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, talvez, seja como outro qualquer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu seja a iludida aqui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas e se eu falasse...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-2601403618943707673?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/2601403618943707673/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=2601403618943707673' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2601403618943707673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2601403618943707673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/05/e-se-eu-falasse.html' title='E se eu falasse'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-2843391031332408359</id><published>2011-05-01T00:05:00.001-07:00</published><updated>2011-05-01T00:05:01.318-07:00</updated><title type='text'>Camille is a friend and is in my heart</title><content type='html'>Camille estava deitada no banco, no colo de um amigo, elevando a mão para o céu, brincando com seus dedos contra o azul piscina. Os pensamentos voavam por tanta coisa. Por que a humanidade tinha que ser tão cruel? Onde estava Deus, de verdade? Havia as guerras, as crianças mortas, os animais maltratados, a vida que se esvaía por nada, a mudança radical na vida daqueles que enfrentavam suas próprias vidas de modo heróico. Nem todos seriam os protagonistas de suas próprias histórias não porque não merecessem ser chamados de heróis mas porque desistiram de lutar por si mesmos. Jean estava fumando com a cabeça para trás no banco. Ele e Camille não podiam ser mais diferentes: Camille não fumava nem usava as roupas que poderiam classificá-la como uma rebelde como ele, que usava as calças jeans rasgadas, o casaco de couro e a atitude de roqueiro. Eles haviam se conhecido na escola e ficaram amigos. Ninguém diria que ele iria se tornar médico e Camille se perder por um tempo... Ninguém diria... mas ainda era primavera para eles. Quem os visse também diria que eles estavam juntos. Ela estava com uma blusa cor-de-rosa, calça impecável e os sapatos que combinavam com tudo. Jean não se importava que ela andasse com ele e ela também não se importava com os comentários. Eles tinham tido que fazer um trabalho de escola juntos e nunca mais se separaram. Jean se sentia confortável com a presença de Camille e Camille estava apenas ali porque não queria estar em nenhum outro lugar.&lt;br /&gt;- E os seus amigos?&lt;br /&gt;- O que tem eles?&lt;br /&gt;- O que falam de mim?&lt;br /&gt;- Ah! Camille... por que você se preocupa?&lt;br /&gt;Ele nunca respondia e ela sabia o que eles diziam pelos olhares. Ele não sabia mas ela lia os pensamentos alheios, às vezes, como quando eles se juntaram e ela pode ouvir: Puta que pariu! Uma patricinha!!! Lei de Murphy, né? Que tinha de errado Camille querer se vestir bem? Era a máscara para esconder o coração rasgado... as decepções com a vida, que começaram cedo demais: descaso do pai, a morte da mãe, a solidão avassaladora. Ela sorriu simpática e escreveu coisas e mostrou para ele coisas que ela escrevia. Com o tempo, Jean percebeu que aquela menina de sorriso aberto para todos, não era o que ele pensava e ela entrou no mundo dele. Mas, de uma forma escondida. Camille não tinha autorização de entrar no mundo dele. Uma vez, ela estava com uma amiga num bar e os olhares deles se cruzaram. Jean virou a cara e, logo em seguida, Camille partiu para a vida dela. Foi quando Jean percebeu que ela fazia falta e a abordou no corredor. Camille queria gritar com ele mas ignorou com as palavras que saíram:&lt;br /&gt;- Então, é assim? - ela disse baixo. - Eu não preciso disso.&lt;br /&gt;Ele quis segurá-la e a viu escapar como areia fina pelos dedos. Uns dois meses depois, eles se viram de novo juntos por um trabalho da escola com outras duas pessoas completamente estranha e ele viu ela sorrir para elas e sentiu um desgosto como um fel que sobe pela garganta. A aula acabou e ele foi até ela. &lt;br /&gt;- Eu deixo você em casa, Camille.&lt;br /&gt;- Você não tem carteira ainda!&lt;br /&gt;- Você quem sabe!&lt;br /&gt;- Está bem!&lt;br /&gt;Lá estava o lindo carro preto dele. Jean vinha trabalhando para consertar o carro desde os quinze anos. Ela se encolheu no banco do passageiro, colocou os pés descalços em cima do banco e Jean se incomodou mas, era Camille. &lt;br /&gt;- Eu não quero ir para casa!&lt;br /&gt;Ele deu de ombros.&lt;br /&gt;- Para onde quer ir?&lt;br /&gt;- Qualquer lugar.&lt;br /&gt;Ele rodou um pouco com um cigarro na mão e resolveu pegar a estrada com ela e o que quer que estivesse na cabeça de Camille a distraiu de perceber que estavam saindo da cidade e indo para qualquer lugar longe dali. O tempo passou e ela finalmente percebeu a mudança na paisagem, as casas e comércio de cidades de beira de estrada. &lt;br /&gt;- Enlouqueceu?&lt;br /&gt;- Não. Você disse qualquer lugar. &lt;br /&gt;Ela suspirou.&lt;br /&gt;- Para onde vamos?&lt;br /&gt;- Falta pouco. Quer parar para comer?&lt;br /&gt;- Não... vamos.&lt;br /&gt;Ele continuou a dirigir. Ele tinha os próprios pensamentos que invadiam a mente. Jean tinha o costume de dirigir para espairecer. Foi o que tinha feito quando ela parou de falar com ele, o que ela tinha todo direito. Afinal, ele a tratara com descaso. Camille pensava na morte, o quanto fora terrível ver a mãe morrer pouco a pouco, não ter podido fazer nada e sentir aquela dor que não era sua. Ela era criança ainda mas ver alguém morrer perto é o tipo de coisa que corta os botões de rosa e Camille estava sobrecarregada agora com o fato de que uma nova vida surgiria em casa. Era evidente que o pai se casaria de novo e não que sua madrasta fosse uma pessoa ruim. Mas ela era como um fantasma na casa. Ela sorriu. Realmente, não faria tanta diferença assim ela estar em casa. Ninguém sentia falta dela. &lt;br /&gt;- Tem certeza que não quer comer nada agora, Camille?&lt;br /&gt;- Tenho.&lt;br /&gt;Ele deu ombros. Camille o observou. O jeito de bad boy era apenas fachada para alguma coisa. Talvez, fosse a necessidade de se auto-afirmar que todo adolescente tem, de mostrar a que veio, ia ficar aquela fotografia para trás para eles rirem daquele passado que tiveram, um dia. Camille olhava a estrada, sentindo calor, sem preocupação quando sua mente se perturbou.&lt;br /&gt;- Jean, você não tem carteira e nós estamos numa estrada! Eu não trouxe nenhuma roupa além dessa daqui!&lt;br /&gt;Ele sorriu.&lt;br /&gt;- O que vale a vida sem um pouco de aventura? A gente compra uma roupa para você quando a gente chegar lá.&lt;br /&gt;- E você tem dinheiro? Às vezes, acho que você é traficante.&lt;br /&gt;Ele sorriu enigmático. Se ela sequer soubesse a verdade... mas a verdade ia demorar para aparecer ou, talvez, nunca aparecesse. Nem ele sabia direito porque estava fazendo aquilo. Qual seria o destino dele se soubessem do paradeiro dele? Afastou os pensamentos quase como se soubesse que Camille pudesse saber o que ele pensava. Ela estava quieta.&lt;br /&gt;- Você acredita em coisas sobre naturais?&lt;br /&gt;- Hã?! Tipo o quê?&lt;br /&gt;- Telepatia... gente que move objetos com a força do pensamento, essas coisas assim!&lt;br /&gt;Ele olhou para ela surpreso.&lt;br /&gt;- Cuidado! - ela gritou porque ele ia para o outro lado da estrada.&lt;br /&gt;Será que ele encontrara quem ele precisava? Ele seguiu com o carro até uma cidade pequena de lajotas antigas e de lugares encantadores. Parou o carro em um hotel caro e Camille estava achando aquilo tudo muito fantasioso. Como assim? Mas também não perguntou nada. Estava cansada. Ele pediu um quarto para os dois e camas separadas. Camille também pareceu não se importar. Então, antes que as lojas fechassem, ele levou Camille para fazer compras e a última loja foi uma de peças de prata. Ele comprou um anel para ela.&lt;br /&gt;- Camille, quero que se lembre sempre de que sou seu amigo, entendeu?&lt;br /&gt;Ela meneou a cabeça sem entender nada e estava tudo confuso e ela tinha sonhado com aquele anel de prata com uma pedra preta incrustada.&lt;br /&gt;- Jean, fala sério. Como você consegue seu dinheiro?&lt;br /&gt;- Eu vendi minha guitarra.&lt;br /&gt;- Sério, Jean!&lt;br /&gt;- Sério, Camille. Eu vendi minha guitarra.&lt;br /&gt;- E resolveu gastar tudo aqui comigo?&lt;br /&gt;Ele sorriu do jeito dele.&lt;br /&gt;- Tem certas coisas que valem a pena.&lt;br /&gt;Ele a levou a uma pizzaria com música ao vivo com a voz de um sujeito que cantava com suavidade que ficaria guardado na mente dela. Finalmente, eles foram para o hotel e ela estava cansada demais para qualquer coisa e dormiu pesado pela primeira vez em anos. O choro de todas as noites não veio. A manhã surgiu e Camille acordou com Jean cantando o refrão de uma música que ela não conhecia: Camille is a friend and is in my heart. Jean estava no banho e ela abriu um olho, depois  o outro, sem querer se levantar de verdade. Um raio de sol entrava pela fresta da janela e, pouco a pouco, ela começou a se lembrar do dia anterior, da noite, de ter apagado e: Caralho! Que horas deviam ser? Ela se sentou na cama, pulando, colocando a calça impecável dela. &lt;br /&gt;- Jean! Nós temos que ir!&lt;br /&gt;- Nós já perdemos a aula mesmo... relaxa!&lt;br /&gt;Como relaxar se ela era boa aluna? Se o mundo dela se resumia em ir para a escola? Mas... a escola era um lugar oco, para preencher a lacuna que existia no dia, para fazer alguma coisa enquanto o mundo girava e ela gostaria que o mundo parasse de girar e ficasse naqueles dias para sempre. Jean se olhou no espelho, encarando seus olhos amarelos no espelho e sabia que tinha que bloquear a curiosidade dela porque senão tudo estaria perdido... se bem que ele já arriscara muita coisa com aquela pequena aventura deles dois. Ele saiu com a toalha enrolada na cintura e ela estava sentada na cama com a calça vestida pela metade. O que diabos ela estava fazendo?&lt;br /&gt;- Acho melhor você ir tomar banho. Nós vamos voltar agora.&lt;br /&gt;- Aham!&lt;br /&gt;Ela foi para o banheiro, tentando entender o que estava acontecendo ali e não quis pensar mais. Sentiu a água quente escorrer pelo seu corpo prazerosamente. Era o dia do prazer, então, era hora de deixar tudo para trás... toda a dor, todo o momento de vida que tivera até ali, até mesmo os mais alegres. A única coisa que ela não queria esquecer era a mãe... as gargalhadas da mãe, o amor, o abraço, o carinho e já estava tão distante, tão perdidamente distante... O banho acabou e ela se apoio na pia do banheiro enquanto chorava, o cabelo escorria água. Ela escorria água como nunca antes. Ela não se lembrava de ter deixado lágrimas tão soltas como aquelas que saíam de forma tão natural. O toque da mãe... e o coração apertou! Ela não percebeu que ele a abraçava sem perguntar a razão dela romper os diques de si mesma e ela nem reparou que a mente dele era um branco ou um preto. Eles tomaram o desjejum e entraram no carro. A estrada tinha uma cor diferente e o choro se fez presente enquanto ele cantarolou: Camille is a friend and is in my heart. Então, ela se lembrou de um outro tempo, de um lugar que não era ali, da voz da mãe cantando a mesma música para ela e foi como se tudo explodisse de uma única vez para sempre porque era uma dor que não tinha fim. Afinal, a mãe dela não estava  mais ali para ajudar nos desafios nem vibrar com as vitórias mais doces. Será que ela era o que a mãe gostaria que ela fosse? Será que ela corresponderia ao que a mãe esperava dela? Jean olhou de soslaio enquanto dirigia. As cores de Camille haviam mudado, era outra pessoa que estava ali. Ele nunca vira as sombras que haviam naquela criatura. Talvez, por isso, ela fosse tão impecável. &lt;br /&gt;- Quer falar a respeito?&lt;br /&gt;- Saudade, cher Jean.&lt;br /&gt;- Sua mãe?&lt;br /&gt;Ela não respondeu mas ele sabia que era saudade da mãe, sim. Segurou a mão de Camille e a apertou e aquele aperto durou a eternidade. O caminho despertou a dor e o choro era como as nuvens que se formavam no céu. Ele olhou para cima.&lt;br /&gt;- Você vai fazer chover com seu choro!&lt;br /&gt;Ela sorriu, tentando parecer natural.&lt;br /&gt;- Desculpe. Não tinha a intenção de ser...&lt;br /&gt;- Não! É bom desaguar...&lt;br /&gt;Voltaram para a cidade e Camille era outra pessoa para ele agora. Era como se ela tivesse deixado de ser aquela criatura impecável e intocável para se transformar em alguém, não ordinário nem comum, mas alguém que era diferente daquelas pessoas. Ela passou a mostrar coisas que escrevia e fazia que ninguém conhecia, a vontade que ela tinha de colocar as pessoas no colo, de ajudar o mundo a ser um lugar melhor, a dor que tinha quando cada criatura sofria. Foi naquele dia em que as mãos se juntaram que Camille e Jean não se desgrudaram mais. Lógico que ela percebia atitudes suspeitas da parte dele. &lt;br /&gt;Naquela tarde, não havia nada demais. Apenas um céu azul. Nuvens brancas de formatos variados. Jean sendo Jean. Camille sendo Camille. Ela percebeu, ao longe, um homem diferente e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Jean se empertigou e pediu para ela se sentar.&lt;br /&gt;- Já volto, Camille.&lt;br /&gt;Ela não gostou do que estava sentindo e tentou invadir a mente de Jean, sem sucesso e foi quando o terror e a compreensão a invadiram. Jean tinha o poder de bloquear. Portanto, ele era treinado para encontrar pessoas como ela! Ela sabia dos casos de adolescentes que sumiam mas, eles estavam em sua mente. Os adolescentes pediam socorro em seus sonhos. Eles estavam em lugar ruim. Camille começou a tremer e se encolheu. Aquele homem era mau. Sem perceber, ela se levantou e foi se afastando dele. Jean a alcançou, segurando-a pelo braço.&lt;br /&gt;- Onde você vai?&lt;br /&gt;- Quem é você?&lt;br /&gt;- Sou seu amigo.&lt;br /&gt;- De verdade, Jean. Quem é você? Aquele homem... ele... eu... você sabe...&lt;br /&gt;Ele ficou quieto.&lt;br /&gt;- Quem é você?&lt;br /&gt;- Eu não posso... eu queria poder lhe contar e não tente ler minha mente, Camille!&lt;br /&gt;Já era tarde demais para Camille se afastar dele. Tudo que era perfeito em seu mundo ruía. Esta era a razão dela parecer certinha demais. Ninguém poderia saber da verdade. Afinal, fora aquilo que matara sua mãe... e ela sabia porque vira um milhão de vezes a cena se passando na mente do pai, o fato dele ter deixado alguém levar ela. Camille sentiu as lágrimas queimarem o rosto e ele a abraçou com força.&lt;br /&gt;- Calma! Camille, calma!&lt;br /&gt;Finalmente, ela se desvencilhou do abraço de Jean e correu para longe mas, não tinha para onde fugir, não para sempre. No entanto, ele também não a alcançou. Pela primeira vez na vida, Camille não tinha para onde ir e andou pelas ruas da cidade com um choro de estrelas azuis escuras, perdidas no veludo da noite, sem brilho. Elas escorriam pelas ruas de Camille como se nada pudesse parar. De repente, as lágrimas se confundiram com a chuva que se instaurou na cidade. Batida de carros na cidade, ventania levando árvores e Camille sumia na paisagem que rugia ao seu redor. O tempo passou e ela perdeu o rumo de casa, de qualquer lugar que conhecesse. Não sabia mais onde estava. As pessoas passavam por ela como se fosem um grande borrão. Era preciso se esconder, se perder entre os pingos de água que insistiam em ser presença constante na alma dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jean passou a mão na cabeça frustrado por ter perdido Camille. Nem tanto pelo seu trabalho em protegê-la da rede que queria pegá-la por ela ter poderes mentais. O homem que estava próximo se aproximou devagar.&lt;br /&gt;- Como a deixou escapar? Eu paguei você para poder vigiá-la de perto.&lt;br /&gt;O avô de Camille, pai de sua mãe, que ela nunca conheceu por ele ter uma rixa com seu pai. Jean respirou fundo.&lt;br /&gt;- Ela é muito sensível... ela voltará para a casa. Cedo ou tarde, você terá que falar para ela a verdade sobre a morte da mãe dela.&lt;br /&gt;O velho suspirou cansado. Sophie só morrera por negligência dele... Não podia se culpar por algo que acontecera no passado. &lt;br /&gt;- Ache-a!&lt;br /&gt;Jean tentou vasculhar a cidade mas só via a chuva molhando tudo. Merda! Camille... você se escondeu junto dos pingos de água! Quem ensinou você a ser tão esperta? &lt;br /&gt;"A vida!" - veio a resposta inesperada.&lt;br /&gt;O coração de Jean deu um pulo inesperado. Um contato como aquele só podia acontecer se houvesse algum sentimento envolvido entre as partes.&lt;br /&gt;"Camille! Volte para cá... você não entende... você corre perigo!"&lt;br /&gt;"Quem não entende é você, Jean! Agora, o jogo mudou! Vocês nunca mais me encontrarão!"&lt;br /&gt;Camille manteve a promessa durante anos e usou de tudo para que jamais fosse encontrada e só havia um meio de uma pessoa como ela jamais ser encontrada: o elixir azul, vendido a um preço alto para aqueles que quisessem que seus poderes nunca fossem descobertos por facção alguma. Camille conseguiu ficar um par de anos perdidas e quando seu coração parou na rua enquanto se prostituía, ela foi levada para o hospital público da cidade. Jean sentiu um salto diferente em seu coração quando ouviu o barulho da ambulância. Ele sabia que ela estava lá! Puta que pariu, Camille! Que você foi fazer, cabeça de vento??? Como alguém como ela era capaz de arruinar a vida daquele jeito? Jean lembrava dela tão perfeita... Ele sorriu! Ninguém era perfeito. A vida lhe trouxera uma parcela de eventos para comprovar que era o fluir da onda que fazia com que a vida fosse boa. Ela foi internada e os médicos, enfermeiros e ajudantes odiavam lidar com aqueles que tentavam se matar ou com os drogados que surgiam, simplesmente, porque ambos pareciam não se importar para suas vidas. Jean ficou perto de Camille enquanto ela ainda estava inconsciente. Ela abriu os olhos e vomitou. Ele respirou aliviado. Ela o encarou surpresa com um misto de raiva e gratidão. Já ouvira histórias terríveis sobre pessoas como ela que eram jogadas de novo na rua por médicos que queriam dar leitos para doentes de verdade.&lt;br /&gt;- Obrigada! - ela disse.&lt;br /&gt;Ele não respondeu de imediato.&lt;br /&gt;- Seu avô ficará feliz em saber que está viva! Você é boa em se esconder. Gostei de ter se misturado às gotas de chuva.&lt;br /&gt;Ela queria dizer que sentia muito mas, tinha muita vergonha.&lt;br /&gt;- Desde quando você...&lt;br /&gt;- Eu já estava estudando quando nos conhecemos. Eu precisava de dinheiro e era um dos melhores no que fazia.&lt;br /&gt;Um silêncio profundo pairou entre eles, na tentativa que mantinham de resgatar o mundo que haviam deixado para trás.&lt;br /&gt;- Jean?!&lt;br /&gt;Ele queria ir até ela.&lt;br /&gt;- Descanse! Se você quiser, há como se recuperar. Depende de você! Volto para ver como está seu corpo quanto a substância que ingeriu.&lt;br /&gt;Ela sabia! A escolha era dela. O pai mal a reconheceu e o avô se emocionou ao vê-la e contou como a mãe morreu na loucura de ter os dons aguçados e por ter sido perseguida por várias facções. Jean não apareceu no quarto e ela o seguia quando saía do corpo. Uma tarde, ele abriu a porta com força e ela foi tragada de volta para o corpo.&lt;br /&gt;- Como assim? Você tem menos da taxa mínima da droga no seu organismo, Camille! O que diabos você fez para alterar os resultados? Você chegou aqui com uma overdose! Caralho! O que diabos você aprontou?&lt;br /&gt;Ela encarou o chão. A verdade, finalmente?&lt;br /&gt;- Eu estava andando na rua e passei na porta do hospital. Eu mantive trabalhos em que pudesse passar despercebida quando eu o vi aqui... eu precisava dar um jeito de voltar.&lt;br /&gt;Ele estava furioso.&lt;br /&gt;- Camille... não podia simplesmente ter pedido para falar comigo?&lt;br /&gt;- Você me atenderia?&lt;br /&gt;Ela tinha razão! Não, ele não atenderia porque ele não acreditaria que era ela. Era bem verdade que estava mesmo se prostituindo para conseguir sobreviver um pouco mais. Ela começara a usar o elixir a partir do momento em que o vira na porta do hospital. &lt;br /&gt;- Eu sinto muito por todo o transtorno e...&lt;br /&gt;Ele se aproximou dela e a beijou num ímpeto que nem ele mesmo entendeu.&lt;br /&gt;- E nunca mais mas, nunca mais mesmo, fuja de mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camille voltou do sonho de olhos acordados olhando para as poucas nuvens no céu, colocando sua mão contra o céu azul. Ela se sentou, olhou fundo nos olhos de Jean e respondeu sem que ele perguntasse:&lt;br /&gt;- Eu também! E eu nunca vou fugir de você se você quer saber! Este futuro não existe mais. Este é o seu dom, não é?&lt;br /&gt;Ele a olhou surpreso.&lt;br /&gt;- Um deles.&lt;br /&gt;- Eu prometo!&lt;br /&gt;Ele sorriu surpreso de que ela tivesse visto tudo aquilo e cantou baixinho: Camille is a friend and is in my heart quando ela repousou de novo a cabeça no seu colo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-2843391031332408359?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/2843391031332408359/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=2843391031332408359' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2843391031332408359'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2843391031332408359'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/05/camille-is-friend-and-is-in-my-heart.html' title='Camille is a friend and is in my heart'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-2819392672660156166</id><published>2011-03-28T14:21:00.001-07:00</published><updated>2011-03-28T14:21:01.471-07:00</updated><title type='text'>Um momento de vida</title><content type='html'>Esta estória que vou contar é o começo do meu aprendizado como ser humano, quando, finalmente, aprendi o significado da amizade, honra, amor e liberdade. Era um tempo em que sonhos eram possíveis, em que ficaríamos eternos Peter Pans. Naquela época havia uma magia, ainda existe, mas é diferente. Aqueles dias ainda são agradáveis e mágicas recordações. As lembranças vêm como se fossem um néctar de gosto doce e raro. A propósito, a magia da vida nunca acaba... Vivi aventuras doces e amargas. &lt;br /&gt;Falo já como velho, mas não sou tão velho e nem tão novo. Bem, isso não vem ao caso. Esta é a estória de três jovens que tinham muitos sonhos. Nós queríamos muito da vida. Creio que tenhamos conseguido realizar nossos sonhos de outrora, mas ainda não paramos de sonhar. Olho para trás e ainda tenho a foto mental que fiz de Liz e Caco. Ainda somos amigos.&lt;br /&gt;Caco, Liz e eu desejávamos aventuras como todos os jovens. Liz queria ser atriz, sonhava com um mundo de glamour e alegrias para si mesma, apesar de eu lhe dizer que teria mais sucesso escrevendo. Ela nunca me ouviu, dava de ombros e sorria. Se soubesse o que ia pela sua alma teria mantido minha boca fechada. Caco queria ser músico, estudara música a sua vida inteira e tinha um talento como poucos para tal. E eu? Queria me encontrar e saber como a vida funcionava, ainda tenho antigas dúvidas, mas tudo passa, não é? Como diz Caco, eu quero desvendar os segredos do Universo.&lt;br /&gt;Tudo começou quando Caco teve a primeira briga séria com seu pai. Ele veio para casa. Lembro-me bem dele sentado na cadeira com os pés em cima da mesa, tinha um ar sombrio como poucas vezes eu vira, o olhar estava fixo e triste. Acho que não prestava atenção ao que eu dizia.&lt;br /&gt;- Zen, o que eu faço? - e ficava remoendo a tristeza até a ira tomar conta dele. - Um dia, eu saio de lá e nunca mais eu quero saber do meu pai!&lt;br /&gt;Nem mesmo chegava a me ouvir. Do jeito que entrava saía. Com o tempo, parei de falar o que fosse. Olhava-o partir da janela do quarto. Sentia-me uma coisa inútil. E, mesmo depois, ainda olhava pela janela devaneando perdido em meus próprios pensamentos. Tinha certeza de que o pai o amava, mas ele precisava ver isto sozinho. Pensava em como me envolvera com aquela figura um tanto exótica. Nós no conhecemos na escola. Ele era bem adverso de mim. Por um tempo, meu medo dele foi maior que o fascínio. Ele fazia o tipo rebelde, um James Dean... E, na minha vasta imaginação adolescente ele vivia aventuras, ele era um herói fictício dos meus quadrinhos. A vida dele parecia ser uma grande montanha-russa. O destino nos colocou juntos num trabalho de escola e quando dei por mim já estava completamente envolvido pelo brilho dele, pelo jeito quase infantil como levava a vida. Liz veio depois, mas uma coisa por vez! Nem sempre saía com ele para estudar. A princípio, ele me parecia o tipo de cara que nunca pegaria num livro, mas, bem, a vida nos surpreende. Caco era uma pessoa amável, porém uma pedra preciosa a ser lapidada. Às vezes, ele se tornava estranho, metia-se num silêncio profundo. Eu sentia vontade, por vezes, de nunca tê-lo conhecido, entretanto, algo me impelia para ele, creio que era a vontade de proteger e defender aos que amava... E, nestes momentos, eu descobria que amava aquele sujeito. É estranho dizer isto para um homem, cheguei mesmo a duvidar da minha sexualidade...&lt;br /&gt;Antes de Liz aparecer em nossas vidas eu já havia reparado nela mas nunca pensei que a conheceria. Ao ser apresentado a ela por Caco senti o fascínio imediato, ela tinha ar de anjo perdido e carente. Começamos a andar os três juntos. Eles não se importavam de eu estar com eles porque quando queriam privacidade eu me guiava para os meus próprios momentos melancólicos noite adentro. Eles eram a porta proibida para mim. Afinal, tinha pais amáveis e uma vida estável. Emocionante? Nem tanto. Eles eram a emoção da minha vida, a pitada de adrenalina que me faltava no sangue. Estar com aqueles dois era uma aventura infantil, era quando eu podia sentir que eu estava vivendo e, não me levem a mal, mas isso era uma ilusão como tudo no mundo. Nada é real nesta nossa vida a não se a certeza de que temos um coração e que podemos nos entregar a ele. Acho que ainda hoje devaneio nos redemoinhos de verão que me assolam... Voltemos, então, ao pequeno relato dos pedaços de minhas vidas porque aqueles dois ainda me habitam.&lt;br /&gt;Ainda sinto o prazer quando me lembro do quase beijo que dei em Liz e a descoberta indecente da minha paixão e desejo ardentes por ela. Nós três matávamos aula em uma cachoeira, o sol trazia o calor dos dias de verão, o céu brilhava azul como uma jóia de extrema beleza. Eu estava em uma pedra, estirado como lagarto deixando o sol levar embora as gotas de água que haviam em meu corpo. Caco e Liz se divertiam. Ouvia apenas os risos. De repente, eles cessaram mas não me importava, queria apenas que aquilo fosse eterno, que momentos perdurassem tempo adentro. Quando abri os olhos vi Liz em cima de mim pingando água. Eu me sentei e ela se sentou ao meu lado. Encarava-me e olhei no fundo dos olhos dela tentando absorver sua alma. E, ali, chocado e surpreso, descobri-me apaixonado pela namorada do meu melhor amigo. Aquele instante eternizou-se em mim; cristalino e forte.&lt;br /&gt;Na verdade, a maior aventura adolescente começou quando o telefone tocou de madrugada. Era Liz pedindo que a fosse buscar em um lugar sinistro  e longe. Ela desligou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Lá me fui arrastando meu corpo. Procurei-a por um tempo e a única criatura embaixo do prédio além de mim era uma menina que abraçava as próprias pernas esguias, o rosto borrado pela maquiagem preta, a pele pálida... E qual não foi a minha surpresa e frustração quando a reconheci! Ela se aconchegou em mim e eu a abracei meio sem saber o que fazer, o coração acelerado. No carro, ela pediu que segurasse sua mão. Como recusar o pedido dela? Levei-a para casa e a deixei dormir na minha cama. O que diria se minha mãe a visse? A verdade! Era fato de que meus pais não gostavam muito de Caco, mas ele era meu amigo e eles o respeitavam por isso. Adormeci na cadeira e acordei com Caco jogando pedras na minha janela. Estava meio zonzo e fi-lo entrar. Acomodei-o na sala.&lt;br /&gt;- Que houve?&lt;br /&gt;- Ele me expulsou de casa!&lt;br /&gt;Pronto! Tudo que eu precisava ouvir.&lt;br /&gt;- Caco, cê deve ter entendido mal...&lt;br /&gt;- Ele foi bem claro.&lt;br /&gt;Mudei de assunto.&lt;br /&gt;- Você brigou com a Liz?&lt;br /&gt;- Não, nem saí com ela. Por quê?&lt;br /&gt;Isso o distraiu um pouco. Levei-o até meu quarto.&lt;br /&gt;- O que ela faz aqui?&lt;br /&gt;- Pediu que fosse buscá-la.&lt;br /&gt;Ele se aproximou dela e acariciou seu rosto beijando-a levemente na face. E entendi que havia um segredo entre eles, algo íntimo e profundo que me feriu. Eu não era um bom amigo? Saímos do quarto em silêncio, eu mais pela frustração e ele preocupado. Decidi levá-lo para casa. Novamente, sonolento segui para a casa dele. Ele foi a contra-gosto mas queria tentar ajudá-lo. Entramos pela cozinha e a mãe tomava o desjejum. Cumprimentou-me secamente. O pai apareceu e limitou-se a olhar para mim.&lt;br /&gt;- Carlos Eduardo, quero falar com você.&lt;br /&gt;Caco se foi. Constrangido, ouvia os gritos dentro da casa. Naquela hora, devia ter-me ido mas fiquei desobedecendo as ordens internas de fugir da vida dele. Caco voltou irritado com o olhar em fogo e eu sabia que aquilo significava encrenca. Ele pegou a chave do carro e saiu me empurrando e me fez entrar no carro do pai e fomos para minha casa. Ele acordou Liz suavemente e disse que precisavam ir. Para onde? Foi aí que enlouqueci porque decidi ir com eles. Qualquer problema eu evitaria, não é? Juntei uma muda de roupas na mochila, peguei minha escova de dentes e lá me fui, o coração parecia saltar do peito, mal conseguia respirar... Meu pai acordou naquele momento, talvez, por causa do barulho. O que eu estaria fazendo acordado em pleno sábado de manhã cedo?&lt;br /&gt;- Onde você vai?&lt;br /&gt;- Eu ligo. Explico depois.&lt;br /&gt;Meu pai deu de ombros. Entramos no carro e Caco corria com o carro, o desespero estampado no rosto. Quase gritei para que chorasse porque era meu desespero também. Éramos fugitivos, mas de que mesmo? Por que fugíamos? Aliás, eu não entendia o que eu estava fazendo ali. Por que não os deixei partir? Porque os amava o suficiente para me sacrificar por eles, para dar minha vida se preciso fosse.&lt;br /&gt;- Se você está fugindo de casa você diz que vai ligar? Não, claro que não!&lt;br /&gt;Liz me olhava penalizada e segurava minha mão. Aquilo me fez continuar com eles. Eu estava prestes a chorar. Eu não fugia de casa, estava tentando protegê-los, impedi-los de fazer algo que pudessem se arrepender depois como matar alguém. Paramos num posto de gasolina e ele comprou cigarros. O nariz de Liz começou a sangrar e dei uma camisa minha para ela limpar. Caco voltou com um mapa também.&lt;br /&gt;- Para onde vamos?&lt;br /&gt;- Para bem longe, a gente vende o carro e começa a viver...&lt;br /&gt;Eu me assustei. Caco enlouquecera! A polícia estaria atrás de nós. Mas, antes que estivéssemos muito longe algo aconteceu. Claro que a polícia não estaria atrás de nós mas como bom paranóico que eu era na minha vã imaginação a polícia viria prender a gente. De repente, no escuro da noite Liz pediu para parar o carro, tirou um pacote da bolsa e separou um pó branco em duas finas carreiras e aspirou aquilo com um tubo de caneta. Desci do carro e vomitei. Então, era isso? O segredo de ambos era que aquela mulher era uma drogada? Deus do céu! Lágrimas me vieram aos olhos. Caco veio até mim.&lt;br /&gt;- Desculpe mas achamos que não entenderia...&lt;br /&gt;- ENTENDER!? O quê? Sua namorada é uma louca drogada!&lt;br /&gt;Caco me encarava com as mãos no bolso.&lt;br /&gt;- Ela já tentou parar...&lt;br /&gt;- Isso não se para assim quando se quer!&lt;br /&gt;Julio! Era a pessoa que me vinha a mente. Meu irmão de consideração, meu amigo inseparável morrera nos meus braços de overdose. Eu não me importava que ele se drogasse, e daí? Tudo bem que ele se exaltava, ficava agressivo mas era meu irmão e eu gostava do cara até que ele morreu... até que tive a vida ameaçada pelos traficantes... Julio devia até o rabo!!! Às vezes, eu pagava suas contas porque não queria que ele morresse na mão de gente que não prestava. A mãe dele me fuzilou no enterro e sofria ainda mais por ter sido conivente com tudo aquilo. Nunca contara isso a ninguém... Os olhos de Caco brilharam.&lt;br /&gt;- Eu a amo mesmo assim. Era por causa dela que vinha brigando com meu pai. Ele achava que ela não era companhia para mim. Ele não sabe mas você sabe como meu pai saca as coisas... Eu juro, Zen, que nunca experimentei.&lt;br /&gt;Eu também a amava e desisti. Acreditava no sujeito, afinal, era meu melhor amigo. O choque começava a passar. Um dia, contaria a estória de Julio para ele. Voltamos para o carro e Liz estava com os olhos fora de órbita e debatia-se. De novo, não! Eu dirigi nervoso e desesperado para o hospital mais próximo rezando a todos os santos. Que sina eu escolhia para mim! Caco tentava aplicar os primeiros socorros. Chegamos afobados no meio do nosso desespero dentro do hospital. O médico nos acalmou dizendo que ela sobreviveria. Eu encostei na parede e Caco ficou lá fora fumando. Eu me aproximei dela sem que ninguém reparasse. Ela tinha tubos e aparelhos ligados em seu corpo. A pele estava pálida, o rosto sem expressão... Tirei o cabelo que insistia em ficar no seu rosto, as lágrimas insistindo em sair.&lt;br /&gt;- Liz, eu amo você! - disse no meio de lágrimas.&lt;br /&gt;E o que sabia sobre o amor? Nunca amara, achei ter amado aquela menina e foi um pouco de amor mas nada verdadeiro, foi uma paixão e só! Desejo de adolescente.&lt;br /&gt;Fui fazer companhia para Caco lá fora e pedi um cigarro. Na noite, ele não poderia ver minhas lágrimas. Ele me olhou desconfiado.&lt;br /&gt;- Você não fuma!&lt;br /&gt;- Agora, eu fumo!&lt;br /&gt;E, de repente, eu o vi com as mãos em meu pescoço.&lt;br /&gt;- Seu amigo filho da puta! Você a desejou todo este tempo! E eu achando que tinha achado um amigo de verdade!&lt;br /&gt;Eu tentava retirar suas mãos de meu pescoço para tentar explicar e não conseguia. Ele me soltou, virou-se e voltou-se dando um soco que me fez girar nos calcanhares e cair de cara na lama. Sentei-me atordoado. As pessoas nos olhavam e faziam cara de nojo. Eu o encarei tentando manter um pouco da minha dignidade.&lt;br /&gt;- Por um acaso, você vai se casar com ela? É a mulher da sua vida? Ela vale toda essa fúria?&lt;br /&gt;Ele parou e me encarou. Veio até mim e esticou a mão.&lt;br /&gt;- Desculpe.&lt;br /&gt;Eu o puxei e estávamos os dois na lama e rimos. A tensão passara, talvez, porque ele estaria livre de carregá-la nas costas, de esconder a verdade... Eu sabia o que isso significava. Eu saíra como grande vilão para os pais de Julio, devem ter achado que fora eu que influenciara o filho deles mas nunca usara droga alguma... Por isso, talvez, meu pai implicasse com Caco. Liguei para casa do hospital e expliquei do modo mais breve que pude o que ocorrera. Ouvi um comentário simpático do meu pai: “Você gosta de atrair confusão, hein?”. Ri desajeitado. Ia dizer o quê? Soube que o pai de Caco estava furioso mas meu pai conhecia Caco muito bem e, sutilmente, colocou o outro em seu devido lugar para me defender. Afinal, pais defendem seus filhos mesmo que estes não estejam certos. Depois, ligamos para os pais de Liz e contamos o ocorrido com um pesar enorme. Eles nada sabiam e senti o choque deles pela descoberta. Amanheceu e continuávamos amigos. Os pais de Liz chegaram apreensivos e atordoados, não sabiam da profunda dor de Liz.&lt;br /&gt;Quando voltamos Caco começou a se entender com o pai porque a verdade veio para a superfície daquela família. Caco disse da profunda angústia que o corroia, era um peso que se ia para sempre. E eu tive que dar muitas explicações. Liz entrou num programa para recuperação de drogados. No ano seguinte, fiz outros amigos mas os carreguei comigo em meu coração. Vez ou outra, saía com Caco. Agora, estamos todos bem. Liz tornou-se psicóloga e atende, em sua maioria, dependentes de drogas. Ela faz um trabalho muito bonito no tratamento deles.&lt;br /&gt;E eu? Tenho uma vida pacata e agradável com uma mulher maravilhosa. Enfim, a vida que sempre soubera que ia ter. Emocionante, no sentido de que estou sempre aprendendo, todos os dias, todos os minutos... Creio que aquela também foi a maior aventura da vida de meus amigos. Caco e Liz não se casaram como imaginei, cada um seguiu seu caminho com uma estrela especial dentro de seus corações. Caco encontrou o amor muito tempo depois mas esta é uma estória que em outra oportunidade eu conto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-2819392672660156166?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/2819392672660156166/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=2819392672660156166' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2819392672660156166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2819392672660156166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/um-momento-de-vida.html' title='Um momento de vida'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-7404809861920671210</id><published>2011-03-28T13:17:00.001-07:00</published><updated>2011-03-28T13:17:30.297-07:00</updated><title type='text'>Uma história em tempos de guerra</title><content type='html'>Eu queria beber para esquecer. Aquele era o tipo de ambiente perfeito para prostitutas e pessoas que quisessem fugir do mundo moralista em que tudo se fazia escondido. Por anos aquela conversa, que ouvi sem querer, ficou na minha mente. Eu concordava com aqueles dois. E, hoje, o mundo não mudou muito. Apenas tem mais máscaras e elas são piores do que há alguns anos.&lt;br /&gt;Era jornalista, alguém que desacreditava no mundo como qualquer pessoa que vivia o caos da guerra. Queria esquecer os mortos, as matérias que tinha feito sobre as atrocidades daquela guerra. Bebia e creio que ninguém reparou que chorava. Chorava por aquelas mulheres que esperavam ansiosamente seus maridos, que estavam mortos em algum imundo campo de batalha e também por aqueles que jamais veriam seus parentes vivos. Era uma época deprimente. Ainda é. Ou talvez sejam apenas resquícios que ficaram em minha alma e que nunca me deixarão em paz.&lt;br /&gt;Bem, não estou aqui para ficar divagando sobre o meu ponto de vista. Hoje, depois de muito tempo resolvi relatar a experiência daquelas duas almas. Talvez estejam mortos ou não. Não importa, eles ainda vivem em mim. Aquelas palavras entraram fundo dentro de mim, foram elas que me acordaram para que visse os dois lados do mundo: um bom e outro ruim. Ninguém é totalmente ruim ou bom. As pessoas se tornam de acordo com sua evolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava naquele bar de quinta categoria, algo que os soldados freqüentavam para agarrar garotas. Via-se em seus olhos o medo da morte. Antes de toda aquela loucura achavam-se heróis, mas ali via-se a morte e eles levariam aquela dor até o final de suas vidas. Afinal, eles viam amigos queridos morrendo. Uma vez um daqueles soldados sentou-se ao meu lado e contou-me a história de um amigo de infância que morrera de hemorragia por ter perdido um pedaço da perna. Ele queria salvá-lo, mas não sabia como. Suas lágrimas escorriam como se ainda fosse uma criança. Tive vontade de protegê-lo, porém não havia nada que pudesse fazer em relação a isso. Apenas via sua juventude ir embora. Aqueles rapazes tinham sonhos, queriam ser felizes e queriam ser heróis. Ali descobriram que a guerra não era como nas brincadeiras infantis, que ora eram heróis ora bandidos. As pessoas morriam e não podiam fazer nada que as trouxesse de volta.&lt;br /&gt;Naquele lugar de prostitutas, podia ao menos esquecer um pouco os mortos e sonhar com dias melhores que talvez nunca cheguem. A vida me cansa. De novo, perco-me em devaneios do passado e esqueço o verdadeiro motivo de escrever.&lt;br /&gt;Uma certa noite enquanto bebia entrou uma mulher muito elegante. Suas feições eram tristes, as de alguém que parecia morto sem nem ao menos ter vivido. O que me chamou a atenção para ela foi seu porte elegante. Devia ter seus quarenta anos de idade. Tinha uma pele clara, olhos molhados e a beleza de uma deusa grega. O tipo de pessoa que nunca passa despercebida. Pensava comigo o que aquele tipo de mulher estaria fazendo num lugar daqueles. O local não combinava com ela. Logo que a vi algo me era familiar. Mais tarde descobri o porquê. Ela chegou e pediu uma bebida forte. Era estranho que ela bebesse algo que não combinasse com ela, mas ela tinha seus motivos. Sentou-se perto do bar e de lá observava, principalmente as mulheres que se entregavam aos homens por dinheiro com olhar de cobiça como se quisesse ser aquelas mulheres. Ela parecia estar se lembrando. Talvez estivesse ali pelo mesmo motivo que eu: para esquecer. Mas por que uma mulher como aquela sofreria? Tinha tudo para ser feliz; dinheiro, beleza e podia fugir daquele inferno quando quisesse.&lt;br /&gt;Algum tempo depois, talvez uma ou duas horas depois da chegada dela, apareceu um homem. Eu o conhecia, era um aristocrata, alguém que também podia fugir daquela merda. Era empresário. Seus olhos também tinham o brilho daqueles que sofrem. Ele também era bonito, tinha olhos azuis muito claros, aqueles olhos que passam limpidez. Eu os observei, formavam um par perfeito. Depois de observar durante um tempo eu os esqueci. Havia uma garota na mesa e fiquei conversando com ela. Era uma das minhas preferidas, ela era meiga e sonhadora. Queria se casar e ter filhos, mas será que realizaria seus sonhos? Tinha pena dela. Era a única pessoa, além daqueles dois, que por alguns momentos me fez acreditar que o mundo seria bom.&lt;br /&gt;Depois de algum tempo dirigi-me até o bar para pedir mais um copo daquele velho uísque barato que costumava beber. E, foi neste instante que me interessei naqueles dois seres. Enquanto pedia a bebida começaram a conversar. Ele puxou papo. Ele já estava de fogo, talvez não estivesse acostumado àquele tipo de bebida.&lt;br /&gt;- Sabe, este mundo é uma porcaria? Por que as pessoas não podem ser aquilo que elas são? Por que somos obrigados a fazer coisas que não queremos?&lt;br /&gt;- Perdão, cavalheiro. Está falando comigo?&lt;br /&gt;- Não sei. Quero apenas entender por que não podemos tirar nossas máscaras.&lt;br /&gt;- Talvez porque não somos inocentes. Já perdemos tudo de inocente que havia dentro de nós.&lt;br /&gt;Ela disse isso com lágrimas nos olhos. Queria voltar a ser criança! Isso era óbvio. Apenas as crianças são completamente inocentes. Somente eu percebi aquelas lágrimas. Tive vontade de chorar também porque queria voltar a ser criança para correr para os braços de minha mão quando tivesse medo. Entretanto, minha mãe estava bem longe de mim e não podia correr para os braços de ninguém que amava. Todos estavam longe! E, aqueles dois pareciam meus únicos amigos. Depois que peguei minha bebida fui para uma mesa privada em que havia biombos em volta. Queria ficar só. Apenas eu e meus pensamentos. Mas, aquela não era uma noite para ficar só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco tempo depois eles vieram. Sentaram-se numa mesa ao lado da minha. Apesar do biombo poderia ouvir o que tinham a dizer um ao outro. Durante todo tempo fiquei invisível. Não fazia nenhum barulho. Parecia tê-los atraído para mim. Havia algo em comum entre nós três. Talvez fosse a solidão que nos fizesse igual. Nunca havia sentido um sentimento tão forte de amor por desconhecidos. Nós fomos irmãos naquela noite. Caros amigos, gostaria de agradecer-lhes pelo que fizeram por mim naquele dia.&lt;br /&gt;Durante algum tempo ficaram calados. Pareciam estar se reconhecendo um no outro. Mesmo que não pudesse vê-los podia senti-los. De repente tudo que tinha naquele lugar perdeu o sentido para mim. Havia apenas nós três.&lt;br /&gt;- Madame, diga-me: o que uma senhora tão elegante faz neste bueiro? -disse de uma maneira sarcástica.&lt;br /&gt;- E o senhor? Você não me parece alguém que frequenta este tipo de lugar também.&lt;br /&gt;Vibrei com a resposta. Uma maneira elegante de responder à falta de tato de um bêbado. Ele pareceu perder o rebolado por alguns segundos.&lt;br /&gt;- Está bem, Madame. A senhora tem razão. Este não é o lugar para nenhum de nós dois. Mas, afinal, por que o lugar é tão importante? Temos direito de ir aonde quisermos. Somos cidadãos livres. Além do mais, não suporto mais aquela corja de falsos. São todos raposas querendo algo porque se tem dinheiro. Aqui, pelo menos, as pessoas não finjem seus sentimentos.&lt;br /&gt;  - Discordo do senhor em uma afirmação. Não somos livres! Somos prisioneiros do nosso mundo. Pergunto-me ainda porque escolhi esta vida. Desde garota queria sair pelo mundo e aventurar-me como os homens. Talvez até mesmo acreditar como estes jovens que eu poderia ser heroína, mesmo que morta. Porém, que escolhas me deram? E quem disse que as pessoas não finjem seus sentimentos neste lugar? E as prostitutas?&lt;br /&gt;  - Madame, de novo tenho que concordar com a senhora. Mas, será que nenhuma delas é feliz? Nenhuma sonha?&lt;br /&gt;  Neste momento tive vontade de responder. Sim, quase todas elas sonham: querem ter uma família, entretanto perderam as esperanças de um mundo melhor. Creêm que esta guerra é o fim do mundo. Resguardei-me com medo de afastá-los de mim.&lt;br /&gt;  - Talvez elas sonhem. Olhe seus rostos. São jovens como um dia nós dois fomos. Queríamos mudar o mundo. Por que ninguém consegue mostrar que por mais que sejamos adultos ainda somos crianças? Que também precisamos ser protegidos e amados? Homens têm medo de tocar homens. Será que ninguém enxerga que seres humanos por mais velhos que estajam precisam de amor e carinho?&lt;br /&gt;  - Do que a senhora fala? Será a senhora infeliz no casamento? Eu sei que é casada! -disse do mesmo modo sarcástico.&lt;br /&gt;  Parecia que eu a conhecia bem demais. Fechei meus olhos e a imaginei olhando para ele com um olhar fulminante. Ela abria seu coração e aquele porco brincava com ela, mas a vida o ensinara a ser daquele jeito. Eu o julgava sem conhecer a sua história.&lt;br /&gt;   -Esperava mais da vida... Tinha sonhos de voar num avião em alguma missão suicida. Meu irmão o fez por mim. Não fica bem mulheres enfrentando perigos na altura. Dizem que isso foi feito para homens apenas. E nós, mulheres,somos o quê? Apenas seres que casam e dão filhos a seus maridos, enquanto estes por respeitarem demais suas esposas procuram prostitutas e até mesmo amantes? Será que não somos seres humanos com sentimentos? Que sentem algo além do que eles pensam?&lt;br /&gt;  - Sim, a senhora é infeliz. Sei como se sente. Querer se libertar... Viver de acordo com suas próprias regras. Qual terá sido nosso pecado? Será que realmente somos tão culpados de querer viver?&lt;br /&gt;  Reparei que a voz dele tinha um profundo ar de melancolia. Por quê? O que o afligia tanto? Sentia-me parte de ambos. Amava-os mesmo sem conhecê-los. Queria protegê-los, tirá-los do mundo oprimido e selvagem que os envolvia.&lt;br /&gt;  - Pecado? O que é pecado? Se for seguir os impulsos de nós mesmos, aquela alma latente que grita para ser livre, que diz para esquecermos tudo que aprendemos e recomeçar a vida. Então, jamais cometemos um pecado que seja. Temos apenas medo de mostrar o que somos porque as pessoas nos julgariam loucos e nós precisamos delas. Elas nos dizem o que fazer e nós as seguimos cegamente.&lt;br /&gt;  Cada um parecia pensar para si. Eles abriam o peito para mim. Eles tinham razão. Novamente fechei meus olhos e o vi. Ele a olhava pensativo. O que estaria pensando?&lt;br /&gt;  - Sabe o que eu realmente queria ser? Um ator! Sim, alguém que usasse as máscaras para mostrar quão desgraçada é a vida. Meu pai jamais concordaria. Uma vez cheguei a fugir de casa. Devia ter uns quinze anos. Arrependi-me no meio do caminho e voltei para casa. Resignei-me de que jamais poderia fugir daquele destino que meu pai sonhava para mim. Então, os sonhos morreram dentro de mim. E agora sou o que todos esperavam! Engraçado, não? -começou a rir. Era um riso de desespero, daqueles que procuram ser cínico para que as dores não voltem a afligir.&lt;br /&gt;  E que dores os afligiam? A minha curiosidade estava à flor da pele. O que aconteceria dali por diante? Sentia que ainda havia muita coisa para acontecer. Meu coração pulsava aceleradamente... Estava com medo!&lt;br /&gt;  - Você é tão amargo! Por que será que fomos tão covardes? Por que não usamos nossa rebeldia juvenil para realizer nossos sonhos? Somos iguais a estes soldados que enfrentam a morte todos os dias. Cada dia é, para nós, uma morte. Procuramos no armário que máscara usar como se fosse uma roupa. Por que somos tão hipócritas? Por que temos que fingir o tempo todo que somos felizes? Sabe, às vezes, tenho vontade de arrebentar todos os móveis e acertar um murro na cara daquele maldito homem! Porém, devo me comportar como uma senhora perante os outros. Na verdade, quero ser uma prostituta para, ao menos, ter um pouco de prazer. Os homens acham que a mulher não tem prazer? - ela chorava ao dizer estas palavras.&lt;br /&gt;  - Minha cara, você ainda pode fazer algo. E eu? O que posso fazer? Meus pais morreriam se soubessem que tenho um caso. Quer saber mesmo por que sou tão sinistro? Minha esposa está insatisfeita pois não sou o que ela esperava. Procura prazer com outros homens porque não sou capaz de lhe dar prazer. E vejo em cada um de seus amantes meus amantes também. Aqueles homens que a beijam voluptuosamente também me beijam e me acariciam! Eu a amo, mas é algo mais forte que eu. Não há controle. O que diriam as velhas raposas caso me vissem beijando outro homem? Será que já experimentaram tal prazer? Acho que sim! São todos homossexuais. Sei de histórias que o mundo coraria em ouvir.&lt;br /&gt;Aquilo estava ficando interessante. Então, ele era homossexual? Puxa, ele devia sofrer por não poder assumir sua verdadeira face! Comecei a compreendê-lo. Não era mau porque queria, apenas queria libertar-se dos conceitos que impuseram na sua cabeça. Dentro dele lutava o que aprendera ser errado e o que realmente era certo para ele. Era alguém que queria amar sem ser julgado!&lt;br /&gt;Eu a vi encarando aqueles olhos tranquilos e eles choravam!&lt;br /&gt;- Também conheço essas histórias. Conheço senhoras que aparecem publicamente como santas, mas são demônios. E eu sou uma delas! Pouco tempo depois de me ter casado apaixonei-me por uma mulher. Eu a conheci numa festa. Era independente. Brigara com o pai por não querer ser entregue a um homem que não amasse. Era cantora. Ficamos amigas por termos idéias que coincidiam. Um dia fui à casa dela porque descobrira que meu marido tinha uma amante e que, provavelmente, fazia de tudo que queria com ela. Para dizer a verdade, queria ser aquela mulher que podia ter prazer. Não me importaria com os nomes que me dariam. Contei a ela.&lt;br /&gt;E ela colocou minha cabeça em seu colo e acariciou meu cabelo. Depois passou a mão pelo meu rosto carinhosamente. Fez isso até que me acalmasse. Colocou-me sentada e me beijou. Primeiro veio o terror, depois o prazer de poder me vingar daquela maneira de meu marido. Deixei que uma mulher me desse o prazer que um homem não fora capaz de me dar. Ela era amável e carinhosa, sabia como tratar um ser humano. Durante um ano mantivemos esta relação. Entretanto, meus receios e culpa foram mais fortes que eu. Eu a deixei. Sei que sofreu porque vi em seus olhos na hora que disse que não podia manter aquilo. Realmente a amei, talvez a única pessoa que tenha realmente amado na minha vida e que tenha me amado!&lt;br /&gt;Vi as lágrimas correrem daqueles olhos. Escorriam calmamente como se a dor já tivesse abrandado. Duvidava muito que isso fosse verdade. A dor dela era muito profunda. Não havia palavras nem gestos que pudesse exprimir o que sentia. Eu sabia o que era amar assim! E, de repente, do nada, ter que dizer adeus! Ali, depois de anos reprimindo o que sentia, deixei que aquelas lágrimas silenciosas, que nada parecem dizer, mas que queimam, saíssem. Via como se aquele fosse um instante do meu passado que voltava; a pessoa que amava. Ambos sofremos com a minha partida. Procurei esquecer aquilo até aquele momento. Creio que teria sido melhor se não tivesse me envolvido naquela aventura.&lt;br /&gt;  O que valia aquilo naquele momento? Deixara promessas de felicidade para viver a morte. Era justo? Espero que sim. Espero poder deixar algo de bom de mim.&lt;br /&gt;  - Sim, eu me lembro de você feliz. De repente, seus olhos perderam o brilho! Sabia que se apaixonara! Sinto tanto por você. Creio que você teve uma educação rígida demais. O modo como fomos criados faz com que sintamos nojo de nós mesmos por sermos o que somos. Creio que ainda tenho um pouco daquele jovem rebelde dentro de mim. Aquela criatura que berra para eu sair do casulo. Mas, tenho medo. E... também tenho vergonha. Não sei em relação a você, porém sempre fui ensinado a ser homem. E, toda vez que eu me entrego a alguém tenho a sensação de estar fazendo algo errado. E, ainda por cima, eu a amo! Ela é tão frágil, meiga e inocente. Não queria traí-la... e é tão inevitável. Por que não pode ser mais fácil?&lt;br /&gt;- Será que é realmente tão difícil? Eu nunca amei meu marido. Tive que me casar por causa dos meus pais. Eles exigiram. Tenho saudade do meu irmão. Ele deve estar lutando nesta maldita guerra! Será que teremos algo de bom para oferecer no futuro? O que poderemos deixar para os nossos netos? -riu histericamente. -Que netos? Jamais terei um filho. Aquele porco me fez tirar uma criança que nascia dentro de mim. Disse que não era hora de termos uma criança. Sou estéril! -riu novamente. -Eles tiraram a criança e metade do meu útero junto. Coisa horrível de se fazer, não é? Um aborto!&lt;br /&gt;Meu Deus! Que coisa horrível para se fazer com uma mulher! Obrigá-la a abortar porque não é hora de se ter filhos! Que tipo de ser humano seria o marido daquela mulher? Com certeza, algum monstro impiedoso. Este tipo de gente deveria ser exterminada! Ele teve seu castigo como depois ela contou.&lt;br /&gt;- Acho que escolhemos esta vida para provarmos algo a nós mesmos. E o que será que nos aguarda? Será que o mundo estará melhor daqui a alguns anos? Creio que minha esposa está grávida e queria que essa criança vivesse num mundo mais puro mesmo que não fosse meu filho. - ela chorava. Sentia-se culpada por ter tirado o filho de dentro de seu corpo. -Sinto muito, senhora. Não tive a intenção de magoá-la.&lt;br /&gt;- Não se preocupe. Algum tempo depois de ter abortado descobri que a amante dele estava esperando um filho. Fiz-lhe uma proposta. Disse que se ela quisesse vê-lo novamente aquela criança ficaria sob a minha tutela. Preferiu manter o romance a ficar com o filho. Ele jamais soube que ela teve um filho dele. Mantenho a criança bem longe dos olhos dele. Eu amei aquele garoto desde que o vi pela primeira vez. Era como se fosse a criança que arrancaram de mim sem que pudesse, ao menos, lutar.&lt;br /&gt;- Por que será que nos deixamos levar por essas armadilhas? Por que não temos coragem de lutar? Admiro aqueles que não se deixaram vencer por idéias falsas, que lutaram por seus ideais. Queria ter sido um desses fantásticos aventureiros, desses que saem mundo afora.&lt;br /&gt;- Eu também. Queria ter-me enfiado em alguma luta de facas num beco. Quem sabe alguém não esteja fazendo isso por nós dois?&lt;br /&gt;Não era por acaso que estava do lado deles. Eu lutava para que eles permanecessem livres. Havia uma razão para estar ali, vivendo coisas que muitos seres humanos queriam viver. Porém, ainda me perguntava se valeria a pena. Por que jovens inocentes tinham que morrer? Sem que soubessem responderam minhas dúvidas!&lt;br /&gt;- Quem sabe um desses garotos não esteja enfrentando estas aventuras por nós? Eles arriscam seus pescoços para realizarem sonhos alheios. Pessoas que fariam qualquer coisa para estar no lugar deles. Eu sei que a guerra está sendo um mal. Mas, as aventuras devem ser incríveis. Pessoas que mentem para conseguir o que querem. É um mundo interessante.&lt;br /&gt;De repente, eles se calaram. Fiquei pensando se já iriam embora. Queria que não fossem. Também participava daquela conversa. Queria me sentar à mesa com eles e dizer sobre o que achava daquele mundo em que vivíamos. Hoje, vejo que aquela época era inocente, que sonhos existiam. As pessoas acreditavam que o mundo poderia se tornar melhor depois da guerra. Entretanto, não foi isso que a humanidade provou... O mundo continua um lugar perigoso para se morar. Depois de tantos anos tendo esperança desisti de esperar qualquer melhora. Todavia, quando me lembro da conversa daqueles dois, acho que eles tinham razão: o mundo tem jeito. Fico pensando porque nunca mais os encontrei, queria lhes dizer que ouvira aquela conversa. Creio que queira fazer isso pelo fato de sentir como se estivesse invadindo o espaço deles.&lt;br /&gt;Eles não se foram, apenas se mantiveram em silêncio. Pediram outra bebida. Imagino que tenham ficado olhando um para o outro durante aquele silêncio que, para mim, tornava-se eterno. Sorviam suas bebidas devagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei ali, esperando, para continuar a ouvir. Sabia que não era da minha conta, mas aqueles dois tinham idéias muito parecidas com as minhas. Talvez tivéssemos nascido numa época errada em que não poderíamos ser aceitos. De repente a voz dela se fez ouvir.&lt;br /&gt;- Imagine o que diriam se nos vissem neste lugar. Seria divertido, não? Imagine meu marido e sua corja me vendo aqui! Provavelmente, arrastar-me-iam pelo cabelo!- disse rindo.&lt;br /&gt;- Acho que você queria que ele lhe visse aqui. Você ainda quer se vingar dele. Esta é a verdade. Ele lhe feriu bem fundo no seu ego. Não a condeno. Se pudesse cravaria um punhal nas costas de cada um que me obriga a ficar nesta condição ignóbil de um ator.&lt;br /&gt;É engraçado que tenhamos nos encontrado dessa forma e neste lugar! Acredito que haja alguma razão para estarmos aqui. Sinto que se tivéssemos nos casado seríamos perfeitos um para o outro. Somos tão iguais!&lt;br /&gt;- Acho que está errado, meu caro Barão. Não é porque somos parecidos que seríamos felizes ao lado um do outro. Creio que seríamos ainda mais tristes. Sentiria necessidade de me libertar do mesmo modo. É melhor que sejamos cúmplices apenas por hoje. Talvez, pudéssemos ter sido amantes, mas, ainda assim não seríamos felizes. Nossa felicidade não está aqui.&lt;br /&gt;- Então, aonde poderemos ser livres? Em que mundo, cara Condessa?&lt;br /&gt;- Por que me chama assim? Não tenho mais o direito de ser chamada assim, apenas meu irmão. Questão de hierarquia familiar. Primeiro, os homens e, se não houver estes, que venham as mulheres!&lt;br /&gt;E eles riam com um sarcasmo que pensei que só eu tivesse. Era estranho saber que não era a única pessoa a me proteger daquela forma.&lt;br /&gt;- Já é tarde. Creio que devemos nos dirigir para nossas casas.&lt;br /&gt;- Hoje não. Quero ficar longe por bastante tempo. Não suporto mais nada... O que você acha de alugarmos um quarto e passarmos o resto da noite juntos?&lt;br /&gt;- Se fosse alguns anos atrás... Porém, agora já é tarde para que sejamos amantes.&lt;br /&gt;- Acho que amo a senhora. Não sei, parece loucura, mas é o que sinto. Sei que poderia fugir com você sem que ficasse chateado. A vida seria uma eterna aventura! Teríamos apenas prazeres. É estranho se amar alguém que se conhece apenas há algumas horas! Creio que mesmo antes de termos esta conversa eu já a admirava. Observava você nas festas, mas nunca tive coragem de me aproximar!&lt;br /&gt;- Sinto a mesma coisa. Também lhe observava, mas creio que não seria capaz de dividi-lo com seus amantes. Sou possessiva demais. Seria penoso para ambos. Não saberíamos como deixar o outro livre e acabaríamos nos odiando. Prefiro guardar este momento como único em minha lembrança. E, além do mais, já é muito tarde para começar um caso. Estou velha e meu corpo já não é o mesmo.&lt;br /&gt;- Não me importo. Creio que por você seria capaz de abandonar estas coisas mundanas. Você é a primeira pessoa com a qual pude ser o que sou sem sentir medo. Deixe-me desfrutar sua companhia por mais vezes. Creio que não conseguiria viver sem você depois desta noite.&lt;br /&gt;Podia vê-lo segurando a mão dela como que implorando. Era algo bonito e ao mesmo tempo aterrador que eles se amassem. Bonito porque o amor é bonito, aterrador porque era estranho que se amassem! Creio que chegava a ser bizarro. Imaginava-os se destruindo um ao outro; acusações, brigas e garrafas que voavam em direção de ambos. Depois beijavam-se ardentemente e faziam amor. Será que ele seria capaz de abandonar seus amantes e se entregar aquela mulher estonteante?&lt;br /&gt;Puxa, aquilo estava ficando interessante. Via as cenas em que se encontravam como clandestinos e se amavam com a volúpia de quem quer viver tudo ao mesmo tempo ou, então, de quem quer recuperar a vida perdida. Cada vez meu encanto em relação a eles aumentava. Estava vendo crescer ali um amor que, talvez, fosse impossível de se realizar. Estava ficando em êxtase. Minha mente imaginava situações entre eles. Era como se tudo pudesse ser possível naquele curto período de tempo. Queria fazer parte daquilo.&lt;br /&gt;Eu a via afagando seus cabelos e encarando-o com o olhar triste de quem diz que aquele amor era impossível. Como ele acreditava que tudo era possível, bastava querer. Hoje, a minha descrença vem do fato de que só consigo ver o mundo na sua forma mais cruel, entretanto naquele dia pude acreditar que o mundo mudaria por causa daqueles dois. Ainda creio nisso, a minha esperança se esconde por trás de um véu. Ainda tenho medo de acreditar que pode ser diferente. Muitas coisas aconteceram desde então. Coisas que jamais esperei. Mas estarei indo longe demais se falar no presente.&lt;br /&gt;- Creio que você usa seus amantes para se rebelar contra a sociedade. A sua rebeldia é silenciosa. Será que seríamos capazes de conseguir ser felizes? Tudo é tão difícil... Talvez, a morte ainda seja o melhor caminho.&lt;br /&gt;- Não, nunca mais diga isso. Podemos ser felizes, você sabe que é possível. Acredite! - ele implorava.&lt;br /&gt;- Como? Você sabe que eu vivo com seguranças por causa do que o meu marido faz.&lt;br /&gt;- Então como conseguiu escapar hoje?&lt;br /&gt;- Fingi estar passando mal e saí às escondidas. Por favor, não insista!&lt;br /&gt;- Como nos apaixonamos rápido um pelo outro. Será uma desgraça ou uma alegria? Finalmente livre! Sinto que posso fazer tudo que quero! Devo esta liberdade à você!&lt;br /&gt;Naquele momento levantei-me por necessidades fisiológicas. Creio que devem ter me visto. Eu os olhei discretamente. Era tão magnífico ver dois seres apaixonados, mas era estranho que tivessem se apaixonado tão rápido. A vida tem disso! Lembro-me de quando conheci uma pessoa... Ficamos horas conversando, aquele momento pareceu eterno para mim. Naquele instante soube que não precisava ter deixado essa pessoa. Será que algum dia eu a veria novamente? Esperava que sim.&lt;br /&gt;  Quando voltei ao meu lugar eles já haviam saído. Fiquei imaginando para onde teriam ido. Talvez tivessem ido para um hotel de luxo para consumar aquele amor latente ou então, para suas casas. Já era tarde quando saíram. Logo amanheceria e eu deveria dormir. Afinal, tinha trabalho a fazer. A guerra me deixou marcas que só se apagarão no dia de minha morte, que não deve estar muito longe.&lt;br /&gt;Hoje, estou em um banco olhando as flores e as árvores. O tempo está frio e bate um vento que gela até a alma. Estou defronte à lápide do homem ao qual ouvi a conversa. No mesmo cemitério está, talvez, a única mulher a quem ele amou, a mulher que conversara com ele aquela noite. Olhava o céu cinzento e as árvores balançando. Naquele momento estava em paz. Entendi que, em qualquer lugar e em qualquer tempo haverá amor, mesmo quando a terra for árida. Acredito nisso por causa daquelas duas pessoas. Compreendo agora o que eles tinham para me dizer.&lt;br /&gt;Finalmente, estou livre dos meus males e dores, que carreguei durante toda esta vida até este momento. Sei que posso morrer sem sentir o peso da morte. Fumo mais um cigarro. Tenho uma doença fatal que me matará dentro de dias ou anos. Não sei quanto tempo mais, mas sei que o que importa, agora, é o presente e foi sempre isso que importou. Passei toda uma vida para descobrir o sentido que deveria ter.&lt;br /&gt;Entendo agora que as respostas estavam ao meu alcance e não sabia disso. Agora, eu sei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-7404809861920671210?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/7404809861920671210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=7404809861920671210' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7404809861920671210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7404809861920671210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/uma-historia-em-tempos-de-guerra.html' title='Uma história em tempos de guerra'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-6122381322272380712</id><published>2011-03-25T07:58:00.001-07:00</published><updated>2011-03-25T07:58:17.299-07:00</updated><title type='text'>A flor do deserto</title><content type='html'>De acordo com alguns, o deserto é um lugar em que é praticamente impossível que exista vida, onde sobreviver é um ato bravo, desafiante e difícil de entender. O calor faz os seres humanos sentirem um bocado de desconforto. Mas, às vezes, há coisas no deserto para as quais não existe explicação. Um milagre acontece e tudo à volta brilha e um desses milagres aconteceu agora há pouco... um milagre, por certo e algo que, definitivamente não tem explicação para a compreensão humana. Havia uma tribo no deserto, de homens e mulheres de coração duros e não poderia ser diferente para sobreviver em temperaturas altas, tempestades de areia e uma vida cheia de privação. AS mulheres eram responsáveis por tomar conta de seus maridos, quando casadas.&lt;br /&gt;A tribo estava por tempo demais no mesmo local mas as tempestades de areia costumavam durar muito naquela parte do mundo e tudo que homens e mulheres podiam fazer era esperar que a tempestade partisse para que eles pudessem ir embora. O tempo passava lentamente nestes períodos, o zumbido do vento era ouvido ao longe dentro das tendas. Ninguém ousava sair do que era seguro para apenas dar uma espiada. Tudo zunia e as pessoas ficavam quietas evocando suas rezas e meditando. Este rea o respeito pelo deserto, pela pouca vida que havia naquele lugar.&lt;br /&gt;Finalmente, a tempestade de deserto acabou e o sol voltou novamente. Homens e mulheres saíram de suas tendas e saudaram uns aos outros com certa alegrai e começaram a desfazer o acampamento. Era hora de partir para longe de novo. Então, uma mulher deu um estranho grito e outros começaram a conversar ao mesmo tempo. Havia algo diferente naquele dia, algo que não deveria estar ali e estava. Uma vida veio da terra de forma inocente, algo que desafiava até mesmo o homem mais razoável. Um homem duro e alto apareceu e observou de modo frio o que acontecera.&lt;br /&gt;- Vamos! - ele disse de modo seco.&lt;br /&gt;No entanto, ninguém queria partir. Apenas poucos humanos tinham tido a oportunidade de ver uma maestria como aquela: uma planta com uma flor na ponta, uma flor de um rosa pálido, que se parecia um pompom e tão bonita que fazia com que as pessoas sentissem a beleza e a paz em suas almas. Todos estavam admirados. Era o sinal de que coisas boas estavam por vir, sinal de riqueza e prosperidade para aqueles com uma vida tão dura. As pessoas não queriam partir. Mas o homem com ordens diretas disse aos outros para desfazer o acampamento. Ele era o tipo de homem que deveria ser obedecido, que deveria ser respeitado por seu modo ereto de andar. Nenhum homem ousava discutir suas ordens. Eles o temiam. Então, ele encarou o horizonte. As mulheres ainda comentavam do belo espetáculo de uma planta desafiando o deserto, de ousar mostrar suas cores num lugar em que as cores eram a areia e o azul do céu...&lt;br /&gt;O homem que gritou as ordens pareceu estar muito perturbado. Ele era a única pessoa que já havia visto algo similar e naquele momento seu coração foi roubado pela mulher mais bela na qual seus olhos já tinham vist, uma mulher que o seduziu apenas com seu olhar e ninguém poderia saber que ele havia caído, que ele fora fraco uma vez.&lt;br /&gt;Ela entrou em sua tenda e se deitou ao lado dele. Ele a aceitou porque ele achou que ela era alguma moça da tripo. Ele acordou e a mulher partira do mesmo modo que a flor. Então, ele se enfureceu e cortou a planta que produzira a flor com sua espada. E lá estava ela de novo.&lt;br /&gt;A noite veio e ele esperou. Ela veio.&lt;br /&gt;- Vá, mulher!&lt;br /&gt;Ele pegou a espada e a ameaçou. Ela escapou do golpe com agilidade e suavidade. Ela tinha aconchego em seus olhos.&lt;br /&gt;- Eu vim lhe trazer seu filho. Ele é grande o bastante e deve ficar sob seus cuidados como ele mesmo escolheu.&lt;br /&gt;Um garoto de seus doze anos entrou na tenda. Seus olhos eram verdes e a pele mais pálida do que o povo de seu pai.&lt;br /&gt;- O que é isto?&lt;br /&gt;Ela suspirou sem paciência.&lt;br /&gt;- Você não sabe? Desde muito tempo, eu sigo você em suas andanças aventureiras. Não sabe quem eu sou?&lt;br /&gt;Muhir sentiu a avalanche de emoções e a mão tremeu.&lt;br /&gt;- Você é...&lt;br /&gt;- Sim. Você sabe quem eu sou. Uma deusa, há muito esquecida pelas pessoas. Meu símbolo é a flor que você viu.&lt;br /&gt;A flor no deserto não mostrava apenas uma beleza rara e única mas também ousadia e bravura por ser capaz de sobreviver em condição tão incerta.&lt;br /&gt;- Ah! Meu querido, você não se lembra?&lt;br /&gt;Uma memória veio à sua mente... quando ele ousou amar uma Deusa e a teve para ele mesmo de forma ousada. Quando ele desafiou o pai dele... Ela também desafiou o Senhor dos Desertos quando ela se apaixonou por ele, quando ela deu seu coração a um homem mortal, um forte guerreiro chamado Muhir. Ele se lembrou de desembainhar sua espada e tentar lugar. Ela foi levada embora e a punição dela foi se transformar em uma flor do deserto e a punição dele era viver eternamente procurando por ela. Mas havia dias que o homem podia achar a flor e em um destes encontros ela conseguiu ter um corpo, engravidou e deu à luz a uma criança mágica, uma criança dividida entre dois mundos, um garoto que era toda a lembrança de que ele poderia ter dela.&lt;br /&gt;- Ele escolheu viver como você... Eu ofereci a ele um mundo sem dor, não como seu. Mas ele quis vir de qualquer modo. Já desafiei por demais todos os Deuses neste momento.&lt;br /&gt;Lágrimas vieram aos olhos dela.&lt;br /&gt;- Agora, vá para sempre. Esta flor será tudo você terá de mim. Enquanto ela existir, meu amor por você existirá e eu esperarei o momento certo para me unir a você de novo.&lt;br /&gt;Ela partiu sem o menino. O acampamento estava desfeito e a tribo seguiu em frente. Ninguém ousou perguntar sobre aquele garoto que apareceu do nada. As mulheres disseram que era um gênio mágico e isso era tudo.&lt;br /&gt;Muhir partiu sem olhar para trás com um coração duro e frio. Apenas uma flor foi deixada, cercada por muros de diamante, em seu coração. Ele viu pessoas nascerem e morrerem porque ele tinha vida eterna.&lt;br /&gt;O tempo passou e o garoto se tornou um homem honrado e justo. Finalmente, o pai envelheceu e morreu, quando a mãe da Deusa, A Rainha das Tempestades do Deserto, se apiedou de sua filha por não conseguir vê-la em sofrimento. Por isso, foi-lhe permitido que se juntasse a ela uma vez mais. Em seus últimos momentos, ele viveu tempo suficiente para pegar uma planta verde com uma flor de um rosa pálido. Ali, ele foi enterrado conforme seus desejo.&lt;br /&gt;Uma tempestade de areia veio e a flor que desafiou o mundo desapareceu bem como o lugar onde ela estava.&lt;br /&gt;Ali foi o lugar onde o guerreiro foi enterrado e onde as pessoas se perdiam no caminho para casa e aquele canto se tornou uma lenda no deserto.&lt;br /&gt;Atualmente, o homem e a Deusa não querem ser perturbados. Finalmente, juntos, eles apenas querem viver o amor por algum tempo. Um dia, ele voltará para seu mundo e a flor seguirá seu destino também.&lt;br /&gt;Eles se amaram profundamente e por causa disso entenderam seus próprios caminhs. Assim, ela era uma Deusa e ele um bravo guerreiro que ousou amar uma Deusa.&lt;br /&gt;Talvez, um dia, seremos capazes de vê-los juntos novamente... desde que o Senhor do Deserto perdoe sua filha pela ousadia e entenda o gest ode amor de um velho guerreiro. Enquanto isto não acontece, a roda do destino continua a girar.&lt;br /&gt;De uma maneira estranha, uma flor no deserto nasceu de novo... desafiando, ousando sobreviver em tão difíceis condições.&lt;br /&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-6122381322272380712?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/6122381322272380712/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=6122381322272380712' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6122381322272380712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6122381322272380712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/flor-do-deserto.html' title='A flor do deserto'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-2994455021459412382</id><published>2011-03-23T20:25:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T20:25:58.043-07:00</updated><title type='text'>Antônio e Estrela</title><content type='html'>Uma explosão no céu vibrou por todo o universo. Era uma explosão bela, de cores suaves como na Aurora Boreal do planeta Terra. O primeiro brilho foi de um sol e se dissipou em várias cores delicadas de tons pasteis, de lilás, rosas, azuis, amarelos suaves. Tudo muito delicado e belo.&lt;br /&gt;Lia respirou fundo mais uma vez e se acalmou ao ver aquele belo espetáculo dançante nos céus escuros. Um brilho momentâneo para ela. De sua janela, ela percebia, aquelas luzes belas e se deixava levar. Uma menina nasceu e Lia adormeceu para nunca mais acordar. Deu o nome à filha de Estrela de Luz. Estrela era uma linda princesa de cabelos castanhos e olhos dourados. Não havia quem, no reino, que não gostasse de seus olhos inquisidores e sua espetacular beleza. Muitas pessoas vinham de reinos distantes para ter a bênção da princesa que nascera no dia da luz de fogo do céu. As pessoas a consideravam mágica. No entanto, como toda criança, ela brincava alheia a estas coisas. Seu pai a encarava preocupado. Sua filha tinha um ar pacífico  e calmo, o porte austero da mãe e um brilho no sorriso que o fazia derreter. Na falta da mãe, o rei a fazia dormir e se tornava difícil estar sem Lia. Estrela lembrava imensamente a mãe e o coração do pobre rei se endurecia com o passar dos anos. &lt;br /&gt;Finalmente, Estrela atingiu a idade que a compreensão das coisas começa a se fazer presente. Aos olhos de todos, a princesa era um encanto de pessoa. Mas no fundo de sua alma, ela trazia uma curiosidade intensa e incansável. Seu melhor amigo no castelo de cristal era um rapaz sério e pouco dado às travessuras de Estrela. Ele a trazia para o senso e a repreendia. Ele ajudava no castelo e era um dos poucos aldeões que podia ter acesso a todos os cantos do encantado castelo de cristal. Antônio era perseguido pela curiosa princesa, que tinha vontade de sair das imediações do castelo. Antônio, normalmente, ficava irritado com as constantes interrupções da princesa mas, ao encarar seus olhos, ele se enternecia e sorria. Não foram raras as vezes que escondeu Estrela nas cortinas ou atrás de estátuas para levar broncas por ela. A mãe de Antônio era a camareira de Estrela, que era tomada por mãe já que o rei não era a pessoa mais adequada para ensinar modos para a filha. Estrela tinha constantes acessos com Diva de muxoxos e Diva endurecia.&lt;br /&gt;- Estrela, veste logo o vestido...&lt;br /&gt;- Não quero! Não vou vestir!&lt;br /&gt;- Ah, é? Vou chamar seu pai e ele vai cuidar de você muito bem, mocinha. Coloque logo o vestido!&lt;br /&gt;- Por que não posso usar calças?&lt;br /&gt;- Por que só meninos podem.&lt;br /&gt;- Por quê?&lt;br /&gt;- Estrela, você vai ficar sem jantar!&lt;br /&gt;Todos os dias era a mesma coisa. Se não era por causa do jantar, era por causa do banho. Antônio ajudava a limpar o castelo e mal se pronunciava a não ser quando interrogado por Estrela sobre a vida fora do castelo e Antônio já previa confusões... Ele sabia que não tardaria o dia em Estrela lhe pediria para ajudá-la a atravessar os portões do castelo de cristal. Ela jamais entenderia a necessidade de se manter ali. Havia uma profecia muito antiga de que a criança que nascesse no dia da grande explosão traria paz a todos os cantos do planeta, que seria uma criança mágica... Estrela vivia alheia ao peso do seu nascimento e tudo que ansiava em seu coração era ser como uma criança normal. Finalmente, o dia que Antônio jamais queria que chegasse, raiou. Estrela apareceu em seu quarto e o acordou quando a manhã ainda não havia raiado.&lt;br /&gt;- Oi!&lt;br /&gt;Antônio ainda estava sonolento, querendo apenas ter mais alguns momentos de descanso.&lt;br /&gt;- Acorda!&lt;br /&gt;- Que foi? &lt;br /&gt;Um sino tocou no fundo da sua mente e ele se deu conta de que era a princesa. Sentou de um pulo na cama, sentindo o coração bater forte.&lt;br /&gt;- Descobri que hoje você vai ao mercado. Leve-me com você...&lt;br /&gt;Antônio ainda demorou para entender o pedido, que vinha mais como uma ordem dita com uma doçura incalculável. Ele a encarou assustado. Nada a faria desistir e se a pegassem com ele na feira... não quis nem pensar no que poderia acontecer a ele e a ela. Provavelmente, seriam separados e só de pensar nisso o coração de Antônio deu um pulo maior do que os outros. Ao despertar por inteiro, viu que Estrela estava vestida como um menino.&lt;br /&gt;- Aonde conseguiu as roupas?&lt;br /&gt;- Eu as roubei no varal do castelo...&lt;br /&gt;Ele balançou a cabeça.&lt;br /&gt;- Alguém vai ficar sem roupas e isto não é bom. As pessoas precisam de cada peça...&lt;br /&gt;- Depois, eu peço para o papai dar um jeito. Só uma vez... por favor?&lt;br /&gt;A súplica naqueles olhos derretia o coração de qualquer um. Antônio mandou que ela saísse de seu quarto para se trocar. No entanto, nenhum dos dois sabia da profecia que dizia que a cada 10 anos o sol surgia no céu, enchendo o castelo de cristal de cores mágicas e quando isso acontecia o portal entre os mundos era aberto... Não, Antônio não sabia e se soubesse teria impedido Estrela de prosseguir naquele dia... Estrela teria ido de qualquer jeito. As estórias eram contadas a noite, nos quartos das crianças para assustá-las para que permanecessem sempre às vistas de suas mães. Era comum histórias das crianças desaparecidas. &lt;br /&gt;No castelo, havia uma única porta mágica, diferente das outras que se abriam. Apenas os magos e bruxos experientes poderiam atravessá-la. Mesmo os portais comuns não eram visitados por muitos a não ser magos muito sábios e há muito tempo no mundo. Claro que haviam também os desvios, criados por magos que contrabandeavam produtos de outros cantos do universo e os vendiam por preços exorbitantes. Estes também traziam animais que pouco tempo depois morriam. Naquele dia específico, o rei não se preocupou com Estrela porque era o dia do sol brilhar e era preciso tomar cuidado. O rei também não podia ficar sem a única filha porque ela o sucederia no trono já que ele se recusava a se casar novamente. Ele chamou seu Conselheiro Chefe, que era também um dos magos mais poderosos do reino.&lt;br /&gt;- Está tudo seguro?&lt;br /&gt;- Sim, Senhor. Mas vislumbro um ar preocupado, Senhor.&lt;br /&gt;- A profecia que diz que a estrela alva sumirá neste dia. Já descobriu o que isto significa?&lt;br /&gt;- Ainda não, senhor... leva-se tempo. Tenho que achar a conjuntura correta dos planetas e há coisas difíceis de entender...&lt;br /&gt;- Entendo...&lt;br /&gt;O Conselheiro saiu e deixou o rei sozinho, pensativo, desejando que Lia ainda estivesse viva. Ela poderia saber o que fazer. Por muitos anos, aquele reino conhecera a prosperidade, uma vida decente, as crianças eram felizes. No entanto, o rei sabia da profecia e a temia porque tudo por que lutara seria devastado com a ida da Estrela Divina como era conhecida na profecia e quando ela se fosse o reino cairia em um grande período de trevas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio se esgueirou com Estrela do castelo, temeroso em ser descoberto por estar fazendo algo proibido. De alguma forma, ele sentia pena da princesa que não tinha outra companhia senão a dele, que não brincava de outra coisa a não ser pregando peças nos empregados do castelo ou com os animais. Estrela era viva e sentia a necessidade de viver toda sua pulsante energia. Antônio pensou que apenas uma pequena espiada não lhe faria mal. Ele teve cuidado de que o vissem saindo sozinho. Cumprimentou os guardas, as pessoas do castelo e retirou Estrela da carroça de compras depois. Ela olhava tudo maravilhada. Nada do que via se comparava ao que tinha sonhado. Era tudo mais vivo, mais maravilhoso. Antônio lhe dizia coisas das quais ela não queria saber.&lt;br /&gt;- Está me ouvindo?&lt;br /&gt;- Hum-hum.&lt;br /&gt;- Então, fique sempre perto de mim e cuidado com os meninos encrequeiros... Eles gostam de chamar as pessoas para as brigas, entendeu? Não dê uma de durona, está bem?&lt;br /&gt;Ela apenas resmungava, deslumbrada com o caminho cheio da árvores, de pessoas que se vestiam diferente das pessoas no castelo, das cestas de flores das floristas, dos sorrisos dos vendedores... as cores das frutas e os cheiros eram agradáveis e fenomenais. Antônio fazia as compras e ela o acompanhava até que ela viu crianças brincando em um campo. Seu olhar se prendeu imediatamente e seguia Antônio sem desgrudar os olhos até que um menino grande e forte barrou o caminho dos dois.&lt;br /&gt;- Trouxe companhia do castelo? É a sua guarda real?&lt;br /&gt;Outros meninos riram da piada. Antônio não era bem quisto porque ele sempre defendia as pessoas do castelo. Rondo era indelicado mas ele não toleraria que se falasse nada na frente da princesa...&lt;br /&gt;- Este garoto parece uma menina.&lt;br /&gt;Rondo empurrou Estrela para o meio dos outros garotos e cada um empurrava ela para os braços de outro. Ela começou a ficar tonta e dela começaram a sair raios coloridos que davam choque. Estrela começou a rir e gargalhar e os raios começaram a despontar. De repente, o mercado começou a silenciar. Os gritos cessaram e Antônio a puxou assustado. A princesa estava grogue. Um mago que a tudo via escondido, deu um sorriso malicioso. O tempo da morte se aproximava...&lt;br /&gt;Antônio terminou suas compras rapidamente e levou Estrela para uma tenda de uma cigana amiga para ver se alguma erva poderia ajudar. A cigana o recebeu com um sorriso malicioso mas era uma boa pessoa.&lt;br /&gt;- Coloque-a deitada ali. – disse com a voz mole. – Deixe-me ver a mão dela.&lt;br /&gt;Ao abrir a palma da mão de Estrela, a cigana estremeceu e deu um passo para trás. &lt;br /&gt;- Você sabe quem ela é, garoto? – a voz tremia fortemente. &lt;br /&gt;Então, Antônio reparou na mão de Estrela. Seu semblante se tornou sombrio e fechado ao vislumbrar a estrela com outras estrelas pequenas à volta e um rabo. Se fosse no planeta Terra, seria como um cometa com raios à volta. Mas naquele mundo, era uma estrela com outras estrelas à volta. A marca parecia ter sido tatuada e isto era impossível porque ela nunca saíra do castelo.&lt;br /&gt;- Você sabe o que isto significa? – ele perguntou ingenuamente.&lt;br /&gt;Ela encarava o céu fora da tenda e não se virou para olhá-lo. De repente, a voz da cigana perdeu o tom pastoso e adquiriu um tom suave.&lt;br /&gt;- Há muito nosso povo espera a vinda dela... - Ela se virou abruptamente para Antônio.&lt;br /&gt;- Prometa uma coisa? Se é você que está aqui é porque é o escolhido. Dê-me suas mãos... Depressa. Só posso ficar mais alguns momentos. &lt;br /&gt;Ele virou as palmas das mãos para cima e ela passava os dedos delicadamente, de olhos fechados.&lt;br /&gt;- Sim... é mesmo... é... é você mesmo. A espada é quase física...&lt;br /&gt;Ela abriu os olhos abruptamente e eles eram diferentes. A expressão, a pele, o rosto... tudo se modificava.&lt;br /&gt;- Escute, não tenho muito tempo. Você é o Guardião do Caminho Estelar. Não tenho tempo para lhe explicar nada... mas a menina é muito mais que apenas a sua princesa em seu mundo. Ela é uma fonte de energia... Ela é a esperança de todos os povos. Mas não é isto que deve saber ainda. Você é o guardião dela. Você é quem deve cuidar para protegê-la, garoto. A espada é sua... Farei uma cerimônia simples... O tempo urge.&lt;br /&gt;Realmente, ela parecia ter pressa em sua voz. Antônio estava confuso e apavorado. Curioso e orgulhoso. Sabia que aquele era um momento solene e que sua vida jamais seria a mesma. A cigana pegou uma espada, vinda de lugar algum.&lt;br /&gt;- Ajoelhe-se.&lt;br /&gt;Ele obedeceu. Havia algo em sua voz que fez com que ele se curvasse diante daquela mulher estranha.&lt;br /&gt;- Eu o ordeno o Guardião do Caminho Estelar pelo pode a mim concedido como Sacerdotisa Suprema da Ordem das Estrelas. Que esta espada o ajude a desbravar seu caminho e que lhe ensine o caminho real das virtudes e honras.&lt;br /&gt;Ela tocou a espada na fronte de Antônio. Ele sentiu um leve formigamento na testa.&lt;br /&gt;- Prometa agora que vai ser justo em suas ações, que protegerá os fracos e confiará no que o destino lhe trouxer?&lt;br /&gt;Antônio repetiu cada palavra e sentia um calor se aproximar dele, luzes chicoteavam à sua volta. Primeiro, um dourado intenso, depois o vermelho, fogo dos dragões, azul das águas, verde das matas, branco das brisas e tudo ficou quieto. A mulher sumiu. A espada estava aos seus pés. Ele pegou a bainha dela e a guardou. Ele sabia que a espada era uma coisa viva... de algum modo estranho, havia vida em um objeto que não deveria ter vida. Estrela começou a despertar e se levantou lentamente. &lt;br /&gt;- Oi... Estou com fome.&lt;br /&gt;Ele a retirou da tenda e andava desconfiado.&lt;br /&gt;- Vamos... &lt;br /&gt;Ela parava em todas as bancas para experimentar as coisas. Antônio estava apreensivo. Havia coisas que ele não conhecia e não queria conhecer... havia coisas demais em sua mente. Uma responsabilidade que ele conhecia desde que nascera... sua mãe o mataria. Ela mesma era parte do povo cigano. Seu pai era um homem da vila, comum e de grande coração. Rondo era seu primo por parte de mãe. Mas os ciganos desprezavam aqueles que descendiam de gente comum. Diziam que os dons mágicos eram diluídos. Ele já ouvira a menção da Lenda da Estrela, do Caminho Azul mas eram estórias para assustar crianças. &lt;br /&gt;Ele segurava a princesa pela mão e quase corria. Ela estava reclamando e tinha raiva porque ele a retirara da única oportunidade de ir à feira... Ele estava estragando tudo e desta vez, ela não podia ir no carro de compras porque ele estava cheio de mantimentos. A guarda real se aproximava. Antônio se embrenhou mato adentro e Estrela não se divertia mais. &lt;br /&gt;- Vamos, Estrela... você quer que nos separem para sempre?&lt;br /&gt;Ela suspirou resignada e seguiu atrás dele. Havia algo de errado... Antônio não conhecia aquela trilha... e ela estava diferente. Estrela parou, de repente.&lt;br /&gt;- Veja! Uma porta no muro!!! Deve dar no castelo...&lt;br /&gt;Antes que ele pudesse dizer que não a tocasse, ela já havia entrado para o escuro e a porta se fechou atrás dela. Ao longe, Antônio ouviu uma risada malévola. Estrela estava em outra dimensão e jamais seria resgatada novamente. Ele se sentou no chão e chorou amargamente. Com certeza, ele seria expulso do castelo. Ele havia esmurrado aquela porta, havia tentado tirar a espada... nada funcionara. Ele era um homem morto. Estava tão desolado que mal reparou no homem de capa lilás claro que se encontrava ao lado dele. Assustou-se ao ouvir uma voz suave.&lt;br /&gt;- Tudo tem uma razão, filho.&lt;br /&gt;- Lute comigo...&lt;br /&gt;Antônio assustou-se.&lt;br /&gt;- Foi você!&lt;br /&gt;O homem apenas jogou o manto no chão e desafiou Antônio. A espada, finalmente, cedeu e ele a manuseava de modo desajeitando, escapando das estocadas e golpes do outro.&lt;br /&gt;- Bom... você é bom... como uma porca!&lt;br /&gt;Ouviu novamente a risada do homem. Depois de um par de horas, o homem parou sem demonstrar cansaço e Antônio arfava como se o coração fosse lhe sair pela boca. Ele se sentou exausto e lembrou-se de que teria que ir para o castelo contar ao rei sobre o sumiço da princesa.&lt;br /&gt;- Não se preocupe. Dragoar já deve ter decifrado a profecia neste momento. Se ele tivesse perguntado ao seu povo...&lt;br /&gt;- Quem é você?&lt;br /&gt;- Eu? Um amigo. Venha.&lt;br /&gt;Ofereceu a mão e no momento seguinte Antônio se jogava contra ele. De repente, ele abraçava o vazio e o homem estranho surgia às suas costas.&lt;br /&gt;- Não! Muito indelicado. Não pertenço ao seu mundo mas devo permanecer nele por ordens do meu Senhor. Venho do futuro... Vai ser estranho ficar aqui um tempo. Venha, garoto. &lt;br /&gt;- Quem é você?&lt;br /&gt;Antônio ainda trazia uma certa fúria em seu ser.&lt;br /&gt;- Não interessa. Interessa o que tenho para lhe ensinar porque você terá de retirá-la da bolha dimensional em que está. Não se preocupe... ela vai ter muitos sonhos. Vai ficar bem. Vai ser preciso. &lt;br /&gt;Antônio respirou fundo. Se ele não tivesse cedido aos encantos de Estrela...&lt;br /&gt;- Ela teria ido sem você. Melhor assim. As pessoas vão sabe agora quem ela é e quem você é, jovem cavaleiro.&lt;br /&gt;Antônio voltou para o castelo com um turbilhão de emoções mas assumiria seus erros perante o rei e à comunidade. Ele não iria fugir. Brigara com Rondo inúmeras vezes, mesmo o primo sendo maior que ele... e lutara também com os outros meninos. A princesa era sua responsabilidade e ele prometera agir com honra e assim o faria. As pessoas no castelo corriam de um lado para o outro e se calavam enquanto ele passava de cabeça erguida. O homem vinha logo atrás dele... sem que ninguém o percebesse. Ao avistá-lo a mãe veio ao seu encontro e já se preparava para lhe puxar a orelha quando ela reparou que não se encontrava mais diante de um garoto mas de um homem e ele era seu filho. Ela falou algo para ele na língua dos ciganos. Ele abriu as mãos e ela baixou a cabeça.&lt;br /&gt;- Você foi escolhido...&lt;br /&gt;Ele não entendeu a tristeza no semblante da mãe.&lt;br /&gt;- Você não entende? Os escolhidos pelos céus têm árduas provas pela frente... A primeira você já teve... agora, daqui para frente, virão tantas e não sei se aguentarei vê-lo enfrentar os dragões...&lt;br /&gt;Ele segurou o queixo dela e a abraçou, sussurrando em seus ouvidos:&lt;br /&gt;- Sempre voltarei.&lt;br /&gt;Seguiu adiante e entrou na sala do rei, que encarava o céu se tornar escuro. O castelo havia brilhado mais uma vez e as cores partiam mais uma vez. Antônio se curvou.&lt;br /&gt;- Senhor...&lt;br /&gt;- Por que você a levou?&lt;br /&gt;- Ela teria ido de qualquer jeito...&lt;br /&gt;- O que você tem a dizer a seu favor?&lt;br /&gt;- Que nossas vidas não estão em nossas mãos, Senhor.&lt;br /&gt;Um brilho estranho perpassou pelos olhos do rei, que parecia cansado e perdido.&lt;br /&gt;- Lia dizia o mesmo. O símbolo dela era uma rosa e ela dizia que embora delicada os que nasciam com aquele símbolo nas mãos tinham vida curta... Eu quis preservá-la de tudo... e você me tirou a última das coisas boas da minha vida!&lt;br /&gt;Antônio manteve o olhar. O rei estava em dor e com razão. De acordo com a profecia, uma tempestade se abateria sobre os povos. A fome e a miséria se aproximariam do mundo por um tempo e tudo se transformaria em caos. &lt;br /&gt;- Você e sua mãe estão banidos do castelo para todo o sempre. A punição de sua família vai ser a de se afastar. Seu pai me prestou um juramento e ficará ao meu lado a partir de agora.&lt;br /&gt;- Sua Vontade seja feita, Majestade.&lt;br /&gt;- Nada poderão tirar do castelo.&lt;br /&gt;Era a humilhação máxima. Antônio poderia aceitá-la mas sua mãe... Eles tiveram direito de se despedir do Chefe da Guarda, pai de Antônio. O menino segurou as lágrimas e cuidou da mãe aos prantos.&lt;br /&gt;- Eu sabia que ia acontecer... – disse a mãe na porta do castelo, ao se despedir da vida.&lt;br /&gt;Antônio ficou quieto. O homem que lutara com ele mais cedo os aguardava mas silenciou para que a pequena família lamentasse a perda. Uma voz surgiu na noite.&lt;br /&gt;- Laura?&lt;br /&gt;A mãe de Antônio parou de repente. Antônio colocou a mão na espada e um homem surgiu à frente deles.&lt;br /&gt;- Irmão...&lt;br /&gt;- Não podemos aceitá-la de volta mas também não podemos deixá-la. São as regras. Você sabe disso...&lt;br /&gt;Um pequeno pedaço da espada brilhou quando Antônio a tocou para retirá-la. Igor colocou as mãos na frente dos olhos e foi em direção de Antônio, segurando em seu pulso.&lt;br /&gt;- Você é um impuro... não pode tocar... quem deu isto a você, fedelho? Só um...&lt;br /&gt;Finalmente, o homem que os acompanhava se revelou. Igor se sentiu desconfortável e encarou a irmã com ódio.&lt;br /&gt;- Nem bem sai...&lt;br /&gt;- Cuidado com as palavras! Não é nada do que está pensando... você não se lembra, Igor, como seu pai me recebeu da última vez em que estive com vocês?&lt;br /&gt;Igor franziu levemente a testa e fez um cumprimento ao homem.&lt;br /&gt;- Chama meu irmão de impuro? Ele largou tudo que tinha em nossas terras pelo amor desta mulher... oras, mas que coisa... se bem me lembro, seu pai me empurrou uma de suas irmãs mas eu não posso me casar, lembra? Seu pai cometeu uma grande descortesia. Meu irmão largou seu posto de rei para estar ao lado desta mulher.&lt;br /&gt;Um silêncio pesado pairou entre os quatro.&lt;br /&gt;- Seu sobrinho foi o escolhido. Rondo vai entender. Ele também traz a marca da espada, não é? Ele deveria ter sido o escolhido? Esta decisão não cabe a nós. Seu filho receberá a espada dele no tempo certo. Agora, vamos que o tempo urge. Preciso preparar os garotos para se comportarem bem quando chegar a hora.&lt;br /&gt;Foi uma triste caminhada até o acampamento. Havia um silêncio profundo. Rondo esperava o pai acordado. O resto da tribo se escondia dentro da tendas mas muitos olhos e ouvidos estavam atentos naquela noite. Igor aceitou sua derrota. Havia muitos anos que aquele homem comparecia na comunidade. Igor o levou ao pai moribundo. &lt;br /&gt;- Muito bem... seus dois netos foram os escolhidos... ao menos nisso, suas ciganas estavam corretas. Elas erraram sobre a Estrela... enfim, isto já não é problema. Você me ofendeu há anos atrás. Vim cobrar minha dívida... Quero que os garotos partam comigo e que cuidem de Laura para meu irmão. Se souber que ela foi destratada de qualquer modo, eu mesmo virei e vocês lamentarão suas existências.&lt;br /&gt;O homem concordou com o olhar. &lt;br /&gt;- Rondo já recebeu a espada?&lt;br /&gt;Sim, ele havia recebido. &lt;br /&gt;- Muito bem... agora, devemos partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laura voltou para seu povo. Rondo e Antônio aprendiam as técnicas de batalha com Glanduir, o cavaleiro misterioso que nunca falava de sua vida e  tinha muito da vida. Rondo não entendia muito bem a razão de treinar todos os dias durante horas... ele sabia que havia algo a ser cumprido, sabia um pouco da profecia mas nada que o motivasse profundamente. Já Antônio dormia com os sorrisos de Estrela e quase podia tocá-la... Ele a via na bolha, adormecida, sorrindo e chorando mas jamais poderia tocá-la. A imagem de Estrela da Luz o mantinha alerta, fazia com que ele seguisse em frente. Antônio cresceu sob um código de honra rígido, que não poderia ser quebrado em momento algum. Ele sonhava com a mãe em alguns momentos. Nenhuma informação do mundo exterior chegavam até eles. Era como se estivessem suspensos nas nuvens naquela cidade estranhamente úmida. Ele via o sofrimento das almas de sua terra natal, a devastação, a destruição, a guerra, o desespero... Coisas que nunca antes haviam tocado o coração de seu povo. O rei estava velho e doente e já se falava em substituí-lo por um jovem intrépido e orgulhoso, que seria ruína de todo reino já que pouco apreciava os ciganos, gostava de festas glamurosas e do dinheiro dos impostos, que eram minguados e escassos em tempos como aqueles.&lt;br /&gt;No entanto, os velhos que haviam conhecido a riqueza do mundo, o compartilhar, a aceitação plena e mútua dos povos sentiam um força estranha brilhar em seus corações. Antônio sentia esta força multiplicada muitas vezes mais... ao lembrar de seus sonhos. Glanduir pouco conversava com os rapazes mas Rondo visitava seus familiares vez ou outra. Ele permanecia treinando.&lt;br /&gt;- Chega! Vá descansar.&lt;br /&gt;- Não posso...&lt;br /&gt;- Pode, sim. Você a verá novamente.&lt;br /&gt;Ele parou.&lt;br /&gt;- Eu conheço os seus sentimentos porque eu já passei por eles. Tem algo que você precisa saber.&lt;br /&gt;- Eu jamais poderei ficar com ela. Por que Rondo?&lt;br /&gt;- Por que você?&lt;br /&gt;- O sangue mágico. Vocês descendem de um tipo raro de seres. O sangue já está bastante diluído mas ainda está lá, parte em você, parte em Rondo.&lt;br /&gt;- E ela?&lt;br /&gt;Glanduir se calou. Uma mulher surgiu do nada.&lt;br /&gt;- Finalmente, nós nos encontramos de novo.&lt;br /&gt;O cavaleiro se levantou e um sorriso morreu em seu rosto. Seus olhos se tornaram escuros. Ela desviou o olhar.&lt;br /&gt;- Agora, tenho mais tempo para sanar suas dúvidas, meu querido Antônio. Naqueles dias, tudo era muito perigoso para os seres mágicos como eu... Você desconhece meu mundo... ou pode conhecê-lo... Não importa agora. Você quer saber sobre ela? Ora, meu querido, ela traz nas veias o sangue dos encantados, dos seres mágicos como eu... como... Ele vai entender, Glanduir.&lt;br /&gt;Ele olhou para o mestre e o viu tombar diante da mulher.&lt;br /&gt;- Há muito Estrela é esperada em seu mundo... Ela é a razão da vida existir. Por ela, as energias dos mundos transbordam e prosperam. Todos têm esta capacidade... mas ela é a que concentra a energia e que a distribui. Ela é...&lt;br /&gt;Antônio fechou o semblante.&lt;br /&gt;- Eu sei... por que Rondo?&lt;br /&gt;Glanduir deu de ombros. Ele teria que saber a verdade.&lt;br /&gt;- Vocês são irmãos. Sua mãe foi obrigada a deixá-lo para trás. Vocês compartilharam o mesmo útero. &lt;br /&gt;Antônio controlava a fúria que o consumia. Era tudo que poderia fazer naquele instante. Aprendera muito com Glanduir. A sacerdotisa o encarou com doçura e passou a mão pelo seu rosto e uma lágrima delicada caiu de seus olhos.&lt;br /&gt;- Ela o espera...&lt;br /&gt;- As coisas poderiam ser diferentes...&lt;br /&gt;- Sim, poderiam. Mas há seres que se alimentam da miséria das almas e quanto pior for a dor da alma, mais eles se alimentam. Um mago libertou estas criaturas. Estrela pode parar com isto...&lt;br /&gt;Antônio virou o rosto para não mostrar as lágrimas que corriam em seu rosto. Mesmo que Estrela saísse da bolha dimensional, ele ficaria com o amor em sua alma. A sacerdotisa e Glanduir o deixaram em paz e ele treinou com afinco.&lt;br /&gt;- Ele sabe aonde está?&lt;br /&gt;- Desconfia, Lika.&lt;br /&gt;Ela encarou a janela e segurou o parapeito com firmeza. Ele estava ao lado dela e segurou em sua mão. Ela se deixou ficar mas olhava para frente como ele também encarava as nuvens. O silêncio era cortante e havia muitas coisas a se dizer. Ela se virou.&lt;br /&gt;- Tenho que ir... há muito a fazer para preparar a chegada...&lt;br /&gt;- Espere...&lt;br /&gt;Ela já partira. Antônio presenciara a cena.&lt;br /&gt;- É assim? Vai ser assim para sempre? &lt;br /&gt;Glanduir o encarou com tristeza.&lt;br /&gt;- Quer saber? Não, eu não vou libertá-la. &lt;br /&gt;Jogou a espada aos pés de Glanduir, que o encarou chocado.&lt;br /&gt;- Não seja estúpido!&lt;br /&gt;- Durante estes anos, eu tinha apenas um objetivo: poder estar com ela. Você sabe que a vejo nos sonhos.&lt;br /&gt;Glanduir nunca havia reparado o tanto que o garoto se transformara. Diante dele, ele tinha um homem tenaz, impetuoso e que seguia a vontade de seu coração.&lt;br /&gt;- Meu coração ficou partido quando aquela porta se fechou para sempre e fui afastado da coisa que mais prezava no mundo, a minha família. Nada vai me afastar dela de novo.&lt;br /&gt;Rondo havia acabado de chegar.&lt;br /&gt;- Eu a vi apenas por um momento e quando os raios me tocaram, senti algo que nunca senti na vida e busco aquela sensação de novo... Não, Glanduir, você não vai tirar nada de meu irmão.&lt;br /&gt;Glanduir suspirou.&lt;br /&gt;- Não sou eu...&lt;br /&gt;Cada um seguiu para seus aposentos. Antônio mal fechou os olhos. Havia algo mais naquela porta... ele ouvia as palavras sendo pronunciadas... mas aonde já ouvira palavras assim antes? Aonde? Ele conhecia algumas... quem as entoava? Seus pensamentos voltaram para seu pai na corte do velho rei. O único cavaleiro que restara fiel ao rei, o último homem que restara e não parecia ter envelhecido. Então, ele ouviu as palavras quando ainda era garoto pequeno... Seu pai o levara a um lugar da floresta e cantara algumas das palavras. Uma porta dourada se abriu e seu pai entregou um objeto a um homem que se parecia...&lt;br /&gt;Antônio pulou da cama e encontrou Glanduir na janela.&lt;br /&gt;- Quais são as palavras mágicas?&lt;br /&gt;- Apenas seu pai as conhece. Ele morou neste mundo. Eu não. Ele me chamava, eu vinha. &lt;br /&gt;- Então, chegou a hora.&lt;br /&gt;Antônio abriu a porta e saltou. Glanduir sorriu. Os meninos haviam aprendido muito.&lt;br /&gt;- Ele já foi?&lt;br /&gt;- Já, Rondo.&lt;br /&gt;- O que fazemos?&lt;br /&gt;- Ao portal.&lt;br /&gt;Antônio havia aprendido bem e chegou ao castelo de cristal sem ser notado. Teve um choque imenso ao ver as torres destruídas, as paredes destroçadas e soube que seu pai e o rei estavam presos onde, um dia, fora seu quarto. Ele passou despercebido pelos seus soldados mas os magos saberiam detectá-lo. Então, ele se vestiu como um dos soldados do novo rei e seguiu para o confinamento. Tudo muito fácil... simples demais. Havia algo errado e ele se virou com a espada e acertou o primeiro homem. Foi uma luta como poucas que já se viu, uma luta que ainda habita a alma de Antônio e é algo que ele quer esquecer para sempre. Ele não sabe de onde mas outros se juntaram a ele e lhe deu tempo de chegar ao pai e ao rei. O rei o encarou embevecido.&lt;br /&gt;- Quem é você?&lt;br /&gt;- Pai?!&lt;br /&gt;Um homem de rosto duro apareceu das sombras.&lt;br /&gt;- Você demorou! Vamos.&lt;br /&gt;O rei os encarou.&lt;br /&gt;- Lamento.&lt;br /&gt;- Depois. Agora, temos que ir.&lt;br /&gt;Eles se desviaram da batalha que se seguiu e correram para os portões do castelo. Antônio se virou para a esquerda e seguiu e procurou ouvir os batimentos do coração do irmão. Cada ser tinha uma batida única como um tambor.  Eles chegaram ao local e era preciso agir rapidamente. Entretanto, um homem de dentes podres e rosto cheio de rugas se aproximou.&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;Antônio se retesou e empunhou a espada. A sacerdotisa apareceu.&lt;br /&gt;- Venha, velho! &lt;br /&gt;O homem gargalhou. Ela juntou suas mãos e lançou uma luz que o fez desaparecer junto com ela.&lt;br /&gt;- Pai?!&lt;br /&gt;O pai de Antônio disse as palavras mágicas e a porta se abriu. &lt;br /&gt;- Venha, Rondo.&lt;br /&gt;Os irmãos entraram no escuro mas ali muitas bolhas brilhavam. Os irmãos se entreolharam e cortaram todas as bolsas dimensionais. Vários seres acordaram. Mas Antônio não conseguia encontrar a única que ele queria e seu coração começava a bater forte, perdendo o foco.&lt;br /&gt;- Agora, não! Toni... concentre-se! Ela está aqui... você a conhece. Ela chamou você em seus sonhos...&lt;br /&gt;- Eu não consigo, Rondo.&lt;br /&gt;- Você esperou por este momento desde que a porta se fechou!&lt;br /&gt;Antônio continuou cortando até que achou a bolha dimensional que procurava. Ela dormia... tão pura e bela que Antônio ficou alguns momentos admirando-a. Rondo cortou a bolha e ela abriu os olhos, encontrando os olhos de Antônio, tentando achar o menino, encontrando um homem de olhos profundos. Ele a segurou pela mão e a puxou para fora bem a tempo. A porta se fechou. Outros mundos também seriam salvos como o dele. Ela o encarou.&lt;br /&gt;- Sonhei com tantos lugares... vivi tanta coisa... você devia ver o que vi. Conheci outros mundo. Conheci outros seres. Vivi...&lt;br /&gt;Ela olhou à volta e viu seu pai, envelhecido e abatido. Glanduir, que se curvou diante dela. O Chefe da Guarda e Rondo.&lt;br /&gt;- Ei... foi você que...&lt;br /&gt;Rondo sorriu enrubescendo. Ela abraçou o pai.&lt;br /&gt;- Está tudo bem, papai?&lt;br /&gt;Ele a abraçou com lágrimas nos olhos.&lt;br /&gt;- Agora, está.&lt;br /&gt;Ela olhou para Glanduir.&lt;br /&gt;- Eu conheço você... eu via com os olhos dele. &lt;br /&gt;- Eu sei. &lt;br /&gt;A sacerdotisa apareceu.&lt;br /&gt;- Vamos, Estrela.&lt;br /&gt;Ela a encarou surpresa.&lt;br /&gt;- Eu conheço você! Não, eu não vou... você não vai me tirar...&lt;br /&gt;Ela segurou com força a mão de Antônio.&lt;br /&gt;Antônio a levou um pouco para longe.&lt;br /&gt;- Estrela, eu amo você e...&lt;br /&gt;Ela o puxou e o beijou. Antônio se sentiu flutuar, cores faiscavam a volta deles e nada mais existia para eles além da presença um do outro. Finalmente, eles pararam de flutuar e Antônio sentia o coração bater com força no coração. Estrela encarou a sacerdotisa.&lt;br /&gt;- Não quero ter uma vida miserável como a sua. Não escolhi o sacerdócio. Você quer impô-lo a mim. É esta a liberdade que prega?&lt;br /&gt;Lika deu um passo para trás chocada com a força que aquela criatura tinha e a audácia.&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;- O que você quer, Toni?&lt;br /&gt;Ele jamais poderia negar que gostaria de estar com ela. O casamento ocorreu logo após o castelo de cristal ser restaurado, ainda mais esplendoroso que antes. O planeta voltou a prosperar e a lenda da Estrela se propagou aos cantos mais distantes do mundo.&lt;br /&gt;Estrela e Antônio conseguiram viver seu amor por muito e muitos anos. O Chefe da Guarda levou sua esposa para seu mundo. Glanduir continuou suas andanças pelos vários universos em busca de novas aventuras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-2994455021459412382?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/2994455021459412382/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=2994455021459412382' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2994455021459412382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2994455021459412382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/antonio-e-estrela.html' title='Antônio e Estrela'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-93779934603220432</id><published>2011-03-23T19:40:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T19:40:04.707-07:00</updated><title type='text'>A tecelã</title><content type='html'>Ela ficava na loja o dia todo... a luz mal penetrava pelas janelas. Às vezes, tinha uma velha de pele enrugada tecendo alguma coisa ou, às vezes, tinha uma moça muito bela de cabelos sedosos sentada atrás do balcão. Seus olhos não saíam dos tecidos que faziam. Tanto a velha quanto a jovem ficavam entretidas em seu tecido... as mãos da jovem delicadas e sedosas trançavam com agilidade. As mãos da velha rugosas e grossas agiam devagar mas com mais precisão como se o tempo a tivesse tornado mais hábil. Era uma loja escondida em um beco da cidade, um lugar escondido até mesmo dos deuses e lá elas teciam com a habilidade da aranha que tece sua teia.&lt;br /&gt;E mesmo sendo tão ermo, as pessoas insistiam em ir naquele canto obscuro da cidade porque lá haviam os tecidos mais belos. As sedas eram tão suaves que podia se pensar em nuvens ao tocá-las. Havia tantos e maravilhosos tecidos como algodões que nunca ninguém jamais viu em outro lugar... e havia os bordados e as malhas em tricot que ninguém era capaz de produzir. Era possível ver senhoras em ricas jóias e finos trajes na loja rindo e escolhendo os tecidos para as festas e casamentos. Elas falavam dos grandes acontecimentos sociais. A velha limitava-se a balançar a cabeça e voltava ao seu trabalho de tecer alguma coisa. Às vezes, as pessoas lhe faziam encomendas, coisa que quase nunca fazia. Um dia, as moças de trajes finos riam e se empertigavam. Uma moça de pele morena escura e cabelos cacheados entrou na loja timidamente... tinha uma bolsa de couro surrada e usava roupas simples e sandálias velhas. Ela se encurvou envergonhada por sua condição. Era visível o ventre inchado pela nova vida que viria de suas entranhas. Ela se aproximou do balcão.&lt;br /&gt;- Moça, preciso fazer uma manta... mas acho que vou procurar em outro lugar.&lt;br /&gt;Uma mão tocou-lhe o ante-braço e um sorriso amigo surgiu para ela.&lt;br /&gt;- Creio que tenho o que precisa...&lt;br /&gt;As jovens continuavam entretidas em achar um tecido para alguma roupa e riam em sua felicidade juvenil, fazendo um pequeno esgar para a jovem que entrava na loja.&lt;br /&gt;Um tecido delicado e belo se fez presente no balcão... um bordado delicado e complexo entremeava-se ao tecido branco. Era quase como aquela fazenda pudesse brilhar. A moça encarou o tecido maravilhada e o pegou com tanta admiração, quase com medo de que o tecido se desfizesse em suas mãos escuras... por um momento, ela se esqueceu do mundo de terror em que vivia, dos dias difíceis, das dores nas costas... por um breve momento, ela era uma princesa tal qual as moças ao seu lado que haviam desaparecido. Ela se voltou para o balcão e com olhos muito tristes encarou os olhos do outro lado.&lt;br /&gt;- Não posso pagar...&lt;br /&gt;As moças observaram tal tecido e voaram ao balcão tal qual duas aves de rapina ao olhar a carne no chão. Sem olhar para a moça ao lado, perguntaram quanto era, como poderiam pagar... Elas podiam pagar qualquer coisa por aquele pedaço de tecido!!! Vamos... fale!&lt;br /&gt;- Senhoritas, por favor, estava atendendo esta jovem primeiro. Continuem a escolher. Há lindos tecidos nesta loja!&lt;br /&gt;As jovens queriam aquele mas conheciam a fama do má gênio daquela senhora idosa que deveria ser louca. Uma amiga havia dado um escândalo por causa de uma bela fazenda que queria para um vestido de festa. A velha a enxotou da loja, fazendo imprecações que nunca foram entendidas. Elas se juntaram a um canto e admiravam um veludo negro bordado em dourado.&lt;br /&gt;- O que você tem aí?&lt;br /&gt;A moça a olhou e esticou a mão, oferecendo o dinheiro pelo qual batalhara tanto para comprar um tecido para que ela mesma fizesse a manta para seu rebento. Ela queria que a criança soubesse o quanto era amada antes mesmo de seu nascimento. As mãos ávidas pegaram o dinheiro e avaliaram por entre os parcos raios de luz que insistiam em entrar na janela. Ao colocar cada cédula de volta ao balcão, a jovem viu os valores das notas serem aumentados.&lt;br /&gt;- Quantos metros vai precisar?&lt;br /&gt;A jovem balbuciou algo, incrédula no que via. As lágrimas quase rompendo nos seus olhos.&lt;br /&gt;- Ora! Justamente a medida que tenho aqui...&lt;br /&gt;Encarou as jovens com um olhar ferino que lhes atravessou a alma. Ela fez um embrulho com um papel pardo e barbante, entregando-a a futura mãe. A jovem grávida pode ouvir em sua mente:&lt;br /&gt;"Aceite este presente e embale seu filho nesta manta quando ele sentir que o mundo não o quer... Mostre seu amor a ele e ele mostrará a você o amor dele! Cante as canções com seu coração! Ele vai entender..."&lt;br /&gt;- Obrigada, moça!&lt;br /&gt;A jovem agarrou o pacote como se sua vida dependesse daquilo. Finalmente, a velha voltou-se às jovens que a esperavam com um sorriso que transformava seu rosto em uma máscara horrorosa.&lt;br /&gt;- Em que posso ajudá-las, senhoritas?&lt;br /&gt;As moças sentiram uma vontade de sair correndo e nunca mais voltar. Mas aquela era a única loja em que poderiam encontrar o tecido certo para o casamento.&lt;br /&gt;- Vou me casar, senhora... veja bem, preciso de um tecido fino e...&lt;br /&gt;Sem que pudessem ver de onde surgira, uma rica renda bordada com fios de ouro apareceu na frente das moças. Uma renda que lembrava um tom champagne tão delicado que era quase um branco. A velha ainda apareceu com um forro branco que fazia com que a renda fosse destacada. As moças se encantaram com a perfeição do tecido que estava a sua frente. Elas pegaram a revista que tinham em mãos e imaginaram o vestido de noiva. Sim, aquele tecido era perfeito... a velha de novo cortou a fazenda com sua lentidão costumeira, dobrou delicadamente o tecido e o colocou no papel pardo, amarrando-o com o barbante. A jovem lhe deu o cheque e tocou na mão da senhora e ouviu em algum lugar um sussurro: &lt;br /&gt;"Encontre a felicidade nos olhos do seu amado... deixe a vida lhe presentear com amor não só por ele mas pelos outros. Sinta compaixão em seu coração mesquinho... permita-se sentir o amor em sua plenitude que sempre será abençoada!"&lt;br /&gt;A moça sentiu um certo desconforto mas de tão contente fingiu não ouvir as palavras que o vento sussurrava em seus ouvidos. Elas saíram da loja e seguiram apressadas para o carro com motorista... era arriscado ficar ali por muito tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora voltou aos seus afazeres quando a porta se abriu num rompante e ela encarou os olhos de um menino assustado.&lt;br /&gt;- Menina, escuta aqui... num vou facilitar para você, não, viu? &lt;br /&gt;O menino carregava uma arma e seus olhos estavam vermelhos e podia se ver que estava grogue devido a alguma substância da qual fizera uso indevido. Os olhos da menina o encararam com simplicidade e ela continuou em silêncio...&lt;br /&gt;- Eu quero seu dinheiro... passa logo para cá... eu vi as donas que saíram daqui!&lt;br /&gt;A polícia passou pela porta e não entrou. O garoto ficou atordoado por um tempo mas prosseguiu enquanto a menina abria vagarosamente o caixa, entregando-lhe moedas e um cheque de pequeno valor. Ele a encarou furioso, dando-lhe um tapa na mão.&lt;br /&gt;- Eu vi... elas compraram alguma coisa...&lt;br /&gt;A menina respondeu:&lt;br /&gt;- Sim, botões! Elas não tinham troco e me pagaram e cheque...&lt;br /&gt;- EU QUERO ALGO DE VALOR!&lt;br /&gt;A menina subiu uma escada e suas mãos mal alcançavam uma caixa acima de sua cabeça. Ela desceu sem muitas dificuldades e pousou a caixa delicadamente sobre o balcão. &lt;br /&gt;- Anda logo...&lt;br /&gt;Ela o encarou com calma e ofereceu-lhe um botão.&lt;br /&gt;- É de ouro. Tudo que tenho de valor...&lt;br /&gt;Ele encarou o botão e o reflexo era seu próprio rosto magro, de olhos grandes e cheios de dores... Seus olhos se prenderam durante um tempo no reflexo cristalino e ele se viu morto. Deixou o botão cair e saiu correndo da loja, apavorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite chega para a menina ou a moça ou a velha que tecem e a loja é fechada. Nenhuma fresta fica aberta... mas dizem as lendas que a menina, a moça e a velha são, na verdade, uma só pessoa: uma entidade tecedora dos fios da vida dos homens. Ainda dizem as lendas que, na época, em que os homens ainda falavam com os animais, uma criança (fazedora de tapetes) desafiou uma aranha. A menina perdeu e tomou o lugar da aranha que saiu livre para o mundo para cuidar de sua vida. &lt;br /&gt;E dizem as lendas que uma aranha repousa na loja escura durante a noite, símbolo da menina tecedora de tapetes e que ela aguarda a vez para ser libertada da vontade infernal de tecer... já que desde de tempos imemoriais, ela tece o passado, o presente e o futuro das pessoas e sua teia se entremeia nos fios mágicos da vida dos homens. Dizem que ela sabe de cada um de nós e aqueles que a conhecem a procuram para buscar sabedoria, que ela dá ou não... &lt;br /&gt;Enfim, lendas existem para assustar crianças desavisadas... talvez, nem sejam reais... só que eu não ousaria duvidar da lenda da tecelã porque eu mesma a vi outro dia, tecendo um fio e outro lá na loja... e ela tece sem parar e sem descanso... eu vi!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-93779934603220432?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/93779934603220432/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=93779934603220432' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/93779934603220432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/93779934603220432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/tecela.html' title='A tecelã'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-4564445360860099463</id><published>2011-03-23T19:38:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T19:38:43.146-07:00</updated><title type='text'>Os dragões de água</title><content type='html'>Liana estava deitada perto do córrego, encostada em uma árvore de copa grande. Os raios do sol bailavam acima de sua cabeça entre as folhas pequenas da árvore, que formavam uma renda de beleza sem igual. Liana olhava divertida e absorta nos raios luminosos que teimavam em brincar com as folhas... Lauro deitava-se ao seu lado e ambos brincavam um com o outro... Implicavam-se, era verdade. Mas, eram coisas de irmãos. Liana divagava. &lt;br /&gt;- Lauro, você já viu que belo o sol batendo nas folhas? &lt;br /&gt;Ele observou. &lt;br /&gt;- Interessante os desenhos que se formam... o que será que tem por trás das folhas? &lt;br /&gt;Liana se espreguiçou, observou por mais algum tempo e dormiu acolhida pelas raízes da árvore que a alcançavam como braços acolhedores... Lauro também adormeceu depois de um tempo. Liana acordou e viu um rosto belo na árvore, uma mulher de pele castanha com manchas marrom e olhos cor de mel, era ela que embalava Liana e Lauro. A mulher sorriu e a encarou dizendo olá! Liana ainda estava meio atordoada... Lauro acordou espanando a poeira. Ele já estava mais acostumado com as viagens, cumprimentou a árvore e sorriu para Liana um sorriso maroto. &lt;br /&gt;Liana sentiu um impulso de ir até o córrego... e lá se foi ela. Então, ela viu uma flor vermelha boiar. Ao tocar os pés na água, a flor se transformou em uma linda mulher de vestes vermelhas róseas, pele branca suave e olhos indecifráveis. &lt;br /&gt;- Tem certeza de que quer entrar em minhas águas? &lt;br /&gt;- Algo me chama! &lt;br /&gt;- Está bem. Entre, mas, terá que provar que pode sair sem machucar os seres que aqui habitam. Muitos têm vindo aqui e levado embora pedaços deste lugar... Veja! &lt;br /&gt;O lugar tinha buracos negros onde antes havia luz e cores... Liana apertou a mão de Lauro no choque que a consumiu. Lauro foi atrás de Liana para livrá-la de possíveis problemas... Era sempre assim: Liana se metia aonde não devia e Lauro vinha em seu socorro! A mulher, então, estendeu um cálice dourado do qual ambos beberam água cristalina e de repente, a árvore ficou maior, as folhas do chão eram toldos enormes, sob os quais Lauro e Liana podiam se esconder. Eles riram um para o outro. Foi, então, que se sentiram impelidos a irem ao córrego e correram de mãos dadas, como se nada mais importasse na vida e mergulharam. Qual não foi a surpresa quando descobriram que podiam respirar dentro da água e que tinham nadadeiras no lugar de suas mãos e pés... e o melhor era que podiam enxergar as cores mágicas que havia no mundo aquático do qual faziam parte agora. Os peixes tinham cores fortes e suaves e nadavam sem reparar naquelas estranhas criaturas, que se assemelhavam com seres humanos. &lt;br /&gt;Então, Liana esbarrou em algo, que zuniu por ela, deixando-a atordoada. Tudo que ela pode ver foi um rastro lilás seguindo adiante. Ela seguiu atrás, pois, ela tinha nadadeiras e podia nadar rápido... Lauro foi atrás e ambos se surpreenderam ao ver uma colônia de seres aquáticos, que se assemelhavam com dragões... eles eram de todas as cores. Serpentes mágicas coloridas! Liana e Lauro observaram durante um longo tempo... até que as criaturas assustadas com algo correram dali. De novo, elas zuniram para longe de Lauro e Liana. Então, os irmãos viram pegadas negras e patas peludas... Quem eram aqueles? Eles ouviram risos maldosos e colocaram a cabeça para fora e descobriram seres pretos, peludos e malignos... Eles ouviram então: &lt;br /&gt;- Vamos pegar logo os dragões e vamos embora. Hoje não é um bom dia! &lt;br /&gt;Os dragões de água eram seres raros mesmo no mundo dos sonhos. Poucas pessoas e mesmo poucas fadas e seres do mundo encantado os conheciam. Uma das criaturas peludas havia conseguido agarrar um pobre pequeno dragão azul e branco. Ele guinchava tristemente. Liana ficou enfurecida e mordeu o pé da criatura peluda com toda força e foi chutada longe... Ela era pequena... Lauro foi atrás dela para ver como ela estava. Meio zonza e perdida. Então, Liana teve uma idéia. Ela era humana, certo? Então, ela pensou ser um enorme dragão de água e cresceu e cresceu e cresceu até ser muito grande. &lt;br /&gt;- Quem ousa perturbar meus filhos? &lt;br /&gt;As duas criaturas arregalaram os olhos e correram desesperadamente como se tivessem visto o próprio demônio e Lauro se transformou em um ser marinho monstruoso como se fosse guarda-costas da irmã. Liana rolou de rir e riu tanto que sua barriga doía e lágrimas rolavam de seu rosto. Lauro também riu. Os pequenos dragões de água observaram tudo ao longe, felizes por saberem que alguém lhes ajudara. Um grande dragão com bigodes esbranquiçados e olhos esbugalhados chamou os dois. &lt;br /&gt;- Meus caríssimos, há muito somos perseguidos por criaturas vis que nos vendem para seres ricos e poderosos. Somos apenas enfeites para eles... Mas, nossa função é cuidar das águas, ajudar a manter sempre limpas. Somos cada vez menos... Estamos sendo extintos pela ganância... No começo, éramos muitos. Agora, sobrou poucas colônias... mas, tudo tem seu tempo de florescer, de nascer e morrer... Quero agradecê-los por nos ajudarem. Agora, nossos bebês vão crescer e vão poder se espalhar graças a vocês! &lt;br /&gt;Liana e Lauro curvaram-se desajeitadamente e brincaram de apostar corrida montados nos dragões... Era como voar, mas, era ainda melhor que voar porque eles sentiam o toque suave da água em torno de seus corpos. Liana acordou com pingos caindo em seu rosto. Olhou para cima e viu nuvens começando a esconder a luz. Ela cutucou Lauro, que resmungou algo. Ambos levantaram ainda meio sonolentos e correram, meio sem vontade, para casa. Gostavam de banhos de chuva com sabor de algodão-doce e eles corriam através de um arco-íris e riam e se divertiam... Chegaram em casa e Lina já estava com as mãos na cintura reclamando que eles iam ficar doentes e que ela iria cuidar deles... Eles tiraram as roupas molhadas e foram para a sala brincar com o gato Catucho e foi quando ao olhar pela janela, eles vislumbraram um dragão lilás por entre as gotas de chuva. &lt;br /&gt;Ambos sorriram.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-4564445360860099463?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/4564445360860099463/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=4564445360860099463' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/4564445360860099463'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/4564445360860099463'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/os-dragoes-de-agua.html' title='Os dragões de água'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-6944540235155184824</id><published>2011-03-23T19:27:00.000-07:00</published><updated>2011-03-23T19:27:18.468-07:00</updated><title type='text'>A história do dragão de prata</title><content type='html'>Um dia desses, eu estava dormindo e senti uma presença penetrante... Então, eu vi em meus sonhos: um dragão. Mas, não era um dragão comum. A pele brilhava e seus olhos âmbar ardiam com toda força misteriosa. Ele estava em meu quarto e me observava. Era uma das criaturas mais lindas que já havia posto os olhos na vida: um dragão de prata. Ao ver que eu o encarava, abriu suas asas e partiu. Acordei sem lembrar do sonho mas com a nítida certeza de que uma força poderosa havia estado presente na minha casa.&lt;br /&gt;  Segui minha rotina diária: acordar, escovar dentes e cabelo, tomar desjejum, tomar banho, colocar uma roupa e sair para trabalhar. Estava atravessando uma rua para chegar ao trabalho quando me deparei com aquele ser de enorme beleza ao meu lado... mas, ele parecia não existir.&lt;br /&gt;  - Não existo. Sou espectro do que fui. Os dragões não existem para vocês...&lt;br /&gt;  A criatura falava! Não tinha palavras. Ele me acompanhou até a porta do prédio onde trabalhava e se despediu com olhos tristes e sua tristeza imensa me perseguiu. À noite, fiquei na janela observando o céu, procurando uma resposta para aquela aparição. Então, eu vi nas estrelas a forma de um dragão magnífico, imponente e forte. Quando me virei, lá estava ele. Os olhos continham a mesma tristeza.&lt;br /&gt;  - Preciso de sua ajuda, guerreiro.&lt;br /&gt;  Eu!? Guerreiro?&lt;br /&gt;  - Você é o único que pode encontrá-la.&lt;br /&gt;  Encontrar? Quem?&lt;br /&gt;  - Uma querida amiga que sumiu.&lt;br /&gt;  Adoro mistérios!!! Sentei-me desanimado.&lt;br /&gt;  - Vou contar a história e talvez, você possa me ajudar. &lt;br /&gt;  Ele começou.&lt;br /&gt;  “Há muito tempo, dragões habitavam este mundo e viviam pacificamente com humanos. Nós éramos espécies de guardiões de algumas pessoas, sacerdotisas e sacerdotes. Fazíamos o juramento de lhes ser fiéis e cuidadosos. Mas, com o tempo, os homens começaram a nos temer porque protegíamos também o planeta e atacávamos ferozmente contra qualquer um que machucasse nosso lar. Fomos caçados, um a um. Fui um dos últimos a tombar... Mas, não vim falar de nossa raça nem de nossa história. Vim lhe contar uma história...&lt;br /&gt;  A pessoa a quem jurei cuidar era uma mulher muito doce e alegre, sua voz era melodiosa e cantava lindas canções. Ela alimentava seus gatos e estes a adoravam. Ela vivia sozinha em uma floresta e tinha a minha companhia, vez ou outra. Veja bem, nós protegíamos quando eles nos chamavam porque precisávamos cuidar de nossas vidas, crias e afins. Os anos se passaram e ela foi envelhecendo. Seu sorriso era um alento. Nós cuidávamos dela e ela cuidava de nós. Foram tempos felizes os que ela esteve presente. Eu podia ver sua mágica sendo feita... Eu via as estrelas que saíam de suas mãos e de seu corpo. Você também gostaria, guerreiro.&lt;br /&gt;  Bom, enfim, o tempo passou e ela envelheceu. No seu leito de morte, fiz a promessa de sempre zelar por ela e ela me prometeu que sempre cuidaria de mim, de alguma forma...Continuei minha vida, voando pelos campos e prados. Mas, não era mais seguro para um dragão passear solto pelo mundo. Então, escondi-me por muito tempo... Estava velho e cansado e a vida já não trazia tanto prazer como antes. Então, fui apanhado... Meu espírito vagou à procura dela e nunca a encontrei. Em minhas visões, eu a vi. Mas, ela era um ser de fogo.&lt;br /&gt;  Deixe-me explicar melhor, um ser de fogo parece um homem ou mulher, mas, se chegam perto de água, suas chamas morrem e eles padecem. Eles voam como os dragões. Seus cabelos são vermelho, preto ou amarelo e eles têm uma casta própria. Eis a história dela: ela era uma camponesa muito graciosa, mas, algo fazia falta em seu coração e ela quis ir para longe e chegou em uma cachoeira. Suas forças estavam se esvaindo, quando um homem a recolheu e levou para seu lar. Ele cuidou dela e fez com que ela sorrisse novamente. Ele perguntou qual era o problema e ela disse sentir uma saudade infinita de algo que não conhecia. E o homem teve que ir, revelando a ela que era o príncipe e que não mais poderia ficar com ela. Ela compreendeu e voltou para sua vida. Mas, seu coração havia sido preenchido. Então, ela foi até o palácio, descobriu que o príncipe estava noivo e foi humilhada por todos ali, que ela não tinha direito de estar ali, que ela deveria voltar para onde era seu lugar. Ela se foi com o coração partido e, de novo, seguiu para a cachoeira.&lt;br /&gt;  Mas, o príncipe, esperto o suficiente, mandou segui-la e ela foi impedida por um grande amigo do príncipe e mago. Ele a levou para casa e cuidou dela. Ensinou-lhe tudo que sabia. Ele passava o bastão do conhecimento para ela. Então, em suas visões, ele soube que ela era uma princesa. Que ela era uma das filhas perdidas do Mundo dos Dragões. Ao descobrir sua verdadeira identidade, ela tomou o seu poder e entrou furiosa palácio adentro com sua majestade e poder.&lt;br /&gt;  - Um bom rei e uma boa rainha sabem olhar seus súditos sem julgamentos... Seu filho merece a coroa que usam...&lt;br /&gt;  Olhou para a noiva do príncipe.&lt;br /&gt;  - E você, mulher, por prepotência vai passar os dias em meu reino como vassala.&lt;br /&gt;  Diante do príncipe, ela se curvou, mas, partiu para seu caminho. Ela devia voltar para seu reino e lá ficar.”&lt;br /&gt;  - O que eu tenho com isso?&lt;br /&gt;  “Ainda não acabei. Lá, ela também procurou por mim. Mas, eu não pude entrar no Mundo dos Dragões porque precisava entrar por bravura, mas, não lutei. Simplesmente, entreguei-me. Nunca mais a vi até hoje. Mas, ela não vai me reconhecer... Por isso, preciso de você. Você a conhece... É a mulher do cabelo cor de fogo”.&lt;br /&gt;  Pelos deuses! Era a mulher por quem meu coração batia forte, que me habitava a alma e o espírito. Perto dela, eu era um garotinho... Podia sentir a força dela e ela me assustava pela profundidade do sentimento que tinha por ela. Então, ele me deu um anel prateado com uma pedra dourada.&lt;br /&gt;  - Coloque em sua mão e ela poderá me ver.&lt;br /&gt;  Então, no dia seguinte, em um reunião na casa do meu irmão, eu a vi. Ela estava radiante. Humildemente, aproximei-me dela, ajoelhei-me diante daquela mulher e pedi que experimentasse o anel. Ela sorriu e me levou para o pequeno jardim que havia ali.&lt;br /&gt;  - Vicki o encontrou!&lt;br /&gt;  Ela pulou em meu pescoço e me abraçou. Reconheci aquele abraço, o cheiro da alma dela, como se nunca estivesse estado distante. Ela me contou que uma mulher, com inveja, havia lançado um feitiço que nunca nos reconheceríamos até que o dragão voltou à sua vida em um sonho e lhe ofereceu sua serventia. Ela não podia ver com os olhos de sua alma, mas, o dragão sabia quem era. Vigonard piscou seus olhos e pude ver uma leve lágrima dourada em seus olhos. O amor que tinha por aquela mulher fez com que nos uníssemos... A alegria dela era sua alegria. Admirei-me por um amor tão devoto. Então, naquele momento, soube que eu o matara em fúria por ter achado que ele havia dado fim à vida da única mulher que realmente amei. &lt;br /&gt;  Estamos juntos, agora. Vez ou outra, sinto a presença poderosa do Dragão de Prata. Ele continua protegendo a minha mulher. Entendo porque, nunca havia visto criatura tão doce e cheia de vida. Ela me ensinou sua magia e seu amor pela vida. Entendi que também que nos encontraríamos por todo sempre, independente da dimensão, do espaço e do tempo. O amor supera todas as barreiras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-6944540235155184824?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/6944540235155184824/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=6944540235155184824' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6944540235155184824'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6944540235155184824'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/historia-do-dragao-de-prata.html' title='A história do dragão de prata'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-2596256828674100270</id><published>2011-03-23T19:09:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T19:09:27.883-07:00</updated><title type='text'>A rainha da lua</title><content type='html'>Lavanda abriu os olhos e encarou o céu cheio de estrelas acima de sua cabeça. Naquela noite, a lua ainda não se fazia presente. A relva era o colchão macio e as folhas os travesseiros. Os galhos das árvores acima escondia um pouco das estrelas mas ela não se importava. Tudo era belo naquele instante... só que o coração de Lavanda estava triste, havia algo que faltava na noite estrelada e mágica. Afinal, todas as noites eram mágicas. A mãe contava que quando ela nasceu a lua estava grande e redonda e despontava no céu e que seus olhos tinham um brilho escuro como a noite, que pareciam refletir a luz prata da lua.&lt;br /&gt;Lavanda cresceu fugindo de suas amas noite afora. As pessoas tinham medo que se machucasse... mas a noite era amiga e Lavanda enxergava como uma coruja na floresta escura, correndo sem tropeçar nos galhos como um animal que entende a floresta. Havia noites que ela ensandecia os empregados e os pais ao passar horas meditando embaixo da lua, sob as estrelas. O sol a despertava e ela brincava. &lt;br /&gt;Era a primeira vez que estava longe de casa por mais de um dia. Algo a chamou para longe de casa mas não era a lua como das outras vezes... era um outro chamado, uma voz interna tão clara e perfeita que Lavanda não pode abafar. Correu e correu até encontrar aquela árvore tão velha que tinha a melhor sombra da região e o melhor esconderijo. Ninguém nunca a achava nas brincadeiras... mas as brincadeiras eram coisa do passado. As meninas e os meninos se preocupavam com roupas e beleza e tudo que Lavanda queria era correr pelos campos como sempre fizera. Encarou a noite escura e pediu com seu coração que alguém dissesse a seus pais que ela estaria bem. O amor que ela tinha por eles era muito grande e não pretendia magoá-los... só que o chamado era mais forte e seguiu com o vento, uma das melhores sensações do mundo. O sono chegou até ela e, lentamente, ela se entregou a uma voz suave que cantarolava algo.&lt;br /&gt;Lavanda acordou em um outro mundo, onde a primavera estava presente e seguiu para a música alegre... suas vestes estavam diferentes. Mas ela não se importou, a música era o que importava! Esgueirando-se entre as plantas, observou seres mágicos que via, vez ou outra, na floresta. Não havia sido convidada e ficou por trás das plantas até que um duende mal-educado a empurrou fazendo com que ela empurrasse um jovem de porte elegante, orelhas pontudas e de pele cinza-esverdeda. Olhando para trás, ela viu o duende contorcendo-se de tanto rir. O jovem a encarou com um certo esnobismo mesmo diante do pedido de desculpas. De certa forma, os seres que vinham atrás a empurraram para dentro. &lt;br /&gt;Lavanda perdeu o ar ao descobrir que os seres encantados das histórias estavam todos reunidos ali... fadas, gnomos, elfos e tantos outros que ela nunca ouvira falar! Uma linda mulher de pele azulada e vestes brancas cantava as músicas alegres e uns seres estranhos como duendes tocavam os instrumentos mais estranhos ainda. Alguém a puxou para dançar e tudo rodopiou e não pode prestar atenção em mais nada... a não ser nas paredes rodando e rodando e ela dançando e seguindo a música. &lt;br /&gt;Então, ela parou na frente do jovem de porte bonito de novo, encarando-o estranhamente, sentindo um certo rubor chegar até suas face... Ele a encarou também e ela se perdeu naqueles olhos estranhos, quase sentindo o beijo que a consumava de desejo. Uma mulher se interpôs entre eles.&lt;br /&gt;- Não! Ela é minha convidada de honra!&lt;br /&gt;Lavanda viu o jovem se curvar diante da mulher de cabelos louros que apareceu à sua frente. Ela mesma teve o ímpeto de se curvar. Um pequeno momento de silêncio e todos se divertiam. A mulher delicadamente a puxou para fora daquele lugar e a levou para um jardim de cheiros variados onde a lua brilhava tão intensamente que parecia dia.&lt;br /&gt;- Gostou da lua?&lt;br /&gt;- Sim... - murmurou.&lt;br /&gt;- É um presente dos deuses para você, Lavanda.&lt;br /&gt;- Para mim!?&lt;br /&gt;Encarou a mulher à sua frente de modo estranho e surpresa sem entender do que ela falava. A mulher passou as mãos pelo rosto dela suavemente.&lt;br /&gt;- Minha filha amada... ouça a lua! Ouça o seu chamado e você será soberana. Há tantas coisas que ainda não sabe, pequena Lavanda!&lt;br /&gt;Hã?! O que estava acontecendo.&lt;br /&gt;- Devo lhe explicar antes que expire o tempo. Você é uma de nós... você traz a essência de nosso povo em seu ser. Sim, claro, precisamos evoluir! Portanto, enviamos alguns para uma escola onde tiramos todo o poder para que vocês possam voltar mais sábios.&lt;br /&gt;Lavanda começou a ver a mulher se esvanecer... não, espera... do que você está falando? Pode ainda ouvir algumas palavras.&lt;br /&gt;- Todos os seres mágicos tem que celebrar a Rainha...&lt;br /&gt;O nariz de Lavanda coçou e ela se protegeu com as mãos ao ver o cachorro de seu pai. O dia já estava raiando. O rapaz a pegou pelos braços e a levou de volta para casa. Lavanda não compreendia nada por causa do sono e parecia que ela estava longe, distante. O rapaz parou para comer algo.&lt;br /&gt;- Você devia envergonhar-se por sumir assim! Seus pais colocaram todos à volta para procurá-la. Não fosse meu pai grande amigo do seu, nem teria me preocupado em vir atrás de você!&lt;br /&gt;Ela apenas havia sumido por um par de dias... tão normal. Eles já deviam estar acostumados àquela altura dos acontecimentos!&lt;br /&gt;- Que deu em você para sumir durante uma semana?&lt;br /&gt;Uma semana? Como?! Sentiu-se cansada, de repente.&lt;br /&gt;- Leve-me para minha casa.&lt;br /&gt;Ele seguiu em silêncio até a porta de sua casa. &lt;br /&gt;- Pode seguir adiante. Daqui, sigo sozinha. &lt;br /&gt;Lavanda tocou na maçaneta da porta e olhou para trás e viu o jovem empertigado do seu estranho sonho. Nunca mais Lavanda ousou ir para a floresta embora sentisse o chamado por tantas. O jovem que a achou começou a frequentar sua casa, talvez, por causa de suas irmãs, pois, Lavanda estava sempre olhando a janela, suspirando sentindo falta de um lugar que nem sabia onde era. Em uma noite iluminada pela lua, seus pais deram uma grande festa em comemoração ao noivado de uma de suas irmãs. A música tocou noite adentro e ela viu uma perfeita oportunidade para ir ao jardim e ficar admirando a lua... a mãe que cuidou dela durante tanto tempo.&lt;br /&gt;Não ouviu os passos do rapaz que a achara tantos anos antes na floresta, absorta que estava olhando o céu. &lt;br /&gt;- Que tanto olha?&lt;br /&gt;Ela se assustou no banco de pedra.&lt;br /&gt;- A lua! Desde daquele dia... nunca mais eu a olhei...&lt;br /&gt;O olhar foi para o chão e ela chorou. A saudade ardia em sua alma de tal forma que ela ansiava arrancar as roupas e correr nua pela floresta para nunca mais voltar... para viver como uma loba uivando. Ninguém a entendia... nem seus adorados pais. Sentia-se distante do mundo de glamour e namoros de suas irmãs.&lt;br /&gt;Ele a pegou pela mão e a puxou para um lugar escuro no jardim da casa mas ainda não era ali...&lt;br /&gt;- Espere aqui!&lt;br /&gt;O tempo passou e ele voltou com um cavalo. Ele a colocou em cima do cavalo e cavalgou com ela pela noite enluarada... as lágrimas voavam ao sentir o vento e ela gritava e ria de prazer em sentir a vida se apossar dela de novo. Ele fez o cavalo galopar para o animal não ficar cansado.&lt;br /&gt;- Obrigada!&lt;br /&gt;Os olhos se encontraram. Ele desviou e olhou à frente.&lt;br /&gt;- Você não sabe porque sempre ia à sua casa?&lt;br /&gt;Ela sentiu um certo rubor e riu timidamente.&lt;br /&gt;- Para qual de minhas irmãs quer propor?&lt;br /&gt;Ele suspirou longamente.&lt;br /&gt;- A nenhuma delas...&lt;br /&gt;Lavanda se sentiu confusa.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- É por você que meu coração bate... antes de vê-la, eu tive este estranho sonho em que minha mãe me dizia que você era a Rainha da Lua e como tal eu deveria ter um pouco mais de respeito por você. Não é engraçado?&lt;br /&gt;Ela tremeu de satisfação e medo! Diante da confissão dele, ela abriu seu coração e se permitiu amá-lo. Por anos, ele passou a ir em casa dela e no silêncio dos gestos, conheceram um ao outro nos desvios delicados de olhares... naquela noite, ele a ajeitou delicadamente sobre a relva e ela permitiu o beijo que ele deveria ter dado tanto tempo atrás. Ela se deixou guiar por ele e sentiu o abraço quente e gostoso na garupa do cavalo. Ele a levou de volta para casa e ninguém pareceu perceber que os dois haviam se ido há um longo tempo. Entraram de mãos dadas mas ninguém pareceu importar com isto. &lt;br /&gt;Estavam perto da janela quando ele se aproximou do ouvido dela.&lt;br /&gt;- Você conhece a lenda da Rainha da Lua?&lt;br /&gt;Ela riu.&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;- Deixa eu lhe contar... de tantos em tantos anos, vastos anos e longos que perdemos a conta, um ser do povo encantado encarna para que as tradições dos antigos não se percam nas brumas do tempo. Ela ou ele tem por obrigação manter o elo entre o mundo mágico e este mundo. &lt;br /&gt;Ele a abraçou.&lt;br /&gt;- Você é ela, não?&lt;br /&gt;Ela o encarou estranhando a pergunta e entendeu a verdade do coração: sim, ela era a Rainha da Lua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-2596256828674100270?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/2596256828674100270/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=2596256828674100270' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2596256828674100270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2596256828674100270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/rainha-da-lua.html' title='A rainha da lua'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-7143322225742323902</id><published>2011-03-23T18:47:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T18:47:18.179-07:00</updated><title type='text'>Donovan</title><content type='html'>Donovan estava no hospital, pálido como sempre, doente como sempre. Os médicos e as enfermeiras deixavam ele andar pelos corredores do hospital porque sentiam pena. Cedo ou tarde, ele morreria. Precisava de uma transfusão... precisava de alguma coisa que nenhum médico fora capaz de descobrir e Donovan foi ficando, fazendo parte da rotina do hospital e sempre passava despercebido para as pessoas. Sentia falta do homem que fora, do jovem cheio de vida que, um dia, gostara de correr e brincar com crianças. Ele nunca realizaria o sonho de sua vida: ter um filho. Dandinha o abandonou no começo da doença porque, como ela mesma disse, precisava seguir com sua própria vida. Ela não podia ficar presa para sempre nele, né? Ela era jovem e queria poder seguir um futuro. Ele nunca ria... os amigos haviam partido e as almas penadas do hospital eram as únicas companhias que tinha, embora fossem mudas. Apenas as crianças sorriam e conversavam com ele. Um garotinho que morrera de câncer havia lhe dito: Donovan, a vida está dentro de você! e sumiu. Donovan se acostumou com estas coisas e via os mortos dos acidentes, dos tiros e todos partiam de alguma forma. Naquela noite, Donovan estava cansado e sentou-se na sala de espera da Emergência, quieto como sempre com seu roupão e seu ar doente. Ninguém reparava nele mesmo... Então, aquela garotinha se sentou ali, tossindo mas tinha um brinquedo em mãos. Ela olhou para ele e sorriu. Ele sorriu de volta com seu sorriso capenga já que não sabia sorrir.&lt;br /&gt;- Quer ver meu brinquedo? - ela disse, mostrando para ele um espelho.&lt;br /&gt;Donovan gentilmente recusou. Era bom não conversar com crianças, pois, poderiam chamá-lo de pervertido. Recostou-se na cadeira, fechando os olhos, sentindo uma ferroada infernal nas costelas. A menina o deixou em paz enquanto ele fechava os olhos e se deixava moer pela dor. Então, algo brilhou no canto do brinquedo da menina, algo brilhou por entre os olhos semi-cerrados e ele encarou aquele objeto com misto de horror e fascinação. Não podia ser... Simplesmente... Era um sonho... Aquele objeto não existia... Fora um sonho... Fora... Ele reconheceu o espelho mágico com o qual ele brincara um dia, do qual duvidara chamando aquilo de coisa infame e grosseira! Donovan não acreditava em magia e rira do espelho de Ivana, prima que gostava de magia. Ivana adquirira aquele objeto em algum lugar do Leste Europeu em uma loja suja e pestilenta mas, segundo suas palavras, achou-o fascinante. Ele esticou o braço para pegar o espelho com os olhos esbugalhados e gestos gananciosos. A menina o encarou.&lt;br /&gt;- Você quer brincar?&lt;br /&gt;Ele sentiu vergonha e encarou o chão embaraçado.&lt;br /&gt;- Eu queria... só um pouquinho...&lt;br /&gt;Ela o encarou um pouco. Mas, seu pai sentou-se ao seu lado e ele ficou mudo, tornando-se de novo o Donovan invisível e para não parecer um maníaco sexual, ele perguntou:&lt;br /&gt;- Qual é seu nome?&lt;br /&gt;- Alice.&lt;br /&gt;Ele sorriu.&lt;br /&gt;- Você conhece a estória da menina que entra no espelho?&lt;br /&gt;Ela meneou a cabeça. Não e nem deveria conhecer Alice no País das Maravilhas. Como tudo começara mesmo? Ivana esquecera o espelho na sua casa e ele olhava para ele e o desprezava e tudo começou a dar errado. Ele começou a ficar doente, muito doente e nenhum médico achava a cura para seu mal. Então, ele começou a faltar o trabalho e perdeu o excelente emprego que tinha, começou a depender de sua mãe para quase tudo e ficou moribundo e, então, levaram o espelho para seu quarto porque Ivana havia morrido em um acidente de carro fatal, que matara apenas a ela e acharam que o espelho seria uma boa lembrança mas, ele via coisas no espelho... ele via coisas dentro de espelho que se mexiam e rastejavam como cobras mas, eram seres mais monstruosos e terríveis que povoavam sua mente, que abriam seu crânio, escarneciam e riam dele. Neste ponto, Donovan não dormia mais, pois, acordava ensaguentado e suado e sabia que aquelas coisas vinham daquele espelho. Donovan sabia que perdera tudo por causa do espelho, que sua vida fora estilhaçada em pedaços como em um espelho quebrado, sua namorada o abandonara, sua família o largara no hospital, seus amigos o esqueceram e tudo que ele tinha era o hospital, as enfermeiras e os médicos e os mortos, claro. Mas quem se interessa por mortos? O pai começou a carregar a menina no colo e ela esticou o espelho para ele, que o segurou e se encarou. &lt;br /&gt;Ele não viu o rosto decrépito e doente. Ele viu seus olhos azuis cheios de vida, cheios de esperança, com uma juventude que perdera o sentido para ele. Donovan mal pode acreditar no que o espelho lhe mostrava. Aquilo não era ele, não poderia ser... Ele sentiu as lágrimas chegarem aos olhos, ombros baixos e devolveu o espelho para a menina. Aquilo tudo era uma fantasia infame e podre! Ele sentiu uma ferroada forte no peito e caiu no chão e ninguém veio para levá-lo, para ajudá-lo e Donovan ficou caído no chão do hospital, sozinho e abandonado, sentindo-se sugado para algum lugar distante, estranho e perfeito.&lt;br /&gt;Então, ele abriu os olhos e aparelhos apitavam à sua volta. Dandinha segurava sua mão, sua irmã estava ali, encostada a uma parede, abraçando-se, parecendo desolada, sem esperanças... de repente, as duas o olharam com lágrimas alegres nos olhos e o abraçavam. Donovan não entendia nada. Ele retribuiu o abraço emocionado.&lt;br /&gt;- Ei! Calma... que aconteceu, meninas?&lt;br /&gt;Uma atropelava a outra, dizendo que ele estava em coma e que Ivana havia batido o carro, que ela morrera. Ele sorriu e olhou para o lado, tempo suficiente para ver uma menina sendo levada pelo pai com um espelho na mão.&lt;br /&gt;- Papai, o moço que tava lá fora tá ali deitado...&lt;br /&gt;- Deixa de besteira, Alice. Não tinha ninguém lá fora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-7143322225742323902?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/7143322225742323902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=7143322225742323902' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7143322225742323902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7143322225742323902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/donovan.html' title='Donovan'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-5040723078632710095</id><published>2011-03-23T18:10:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T18:10:13.725-07:00</updated><title type='text'>Notas ao cair da noite</title><content type='html'>- Lina, você pode ficar até mais tarde hoje?&lt;br /&gt;Eu ouvi a voz dele vindo do escritório e senti o calafrio gélido percorrer minha espinha em sinal de perigo. Eu deveria partir dali e da vida de Gabriel, que trouxera apenas dissabores para mim. Só que eu era a única pessoa que não o abandonara ainda, mas, eu também tinha contas a pagar e ficar ali não me ajudaria muito. Gabriel estava na beira do abismo, afundado nos copos de bebidas. Eu sabia que era o fim dele e eu me odiava por ser conivente e por me deixar envolver em seus problemas.&lt;br /&gt; Resisti à vontade de ir embora, ainda mais quando eu a vi entrar. Já era tarde da noite e eu estava no computador com ar entediado, jogando paciência, esperando por coisa alguma. Não me importava de ficar já que eu voltaria para um apartamento vazio e frio, sem uma mísera planta ou gato! Todas morriam em minha companhia e eu esquecia de alimentar os animais, embora gostasse imensamente deles. Gostava da presença de um outro ser humano, mesmo que fosse o melancólico Gabriel e seus eternos suspiros por quem não merecesse seus sentimentos. Mas, ele tinha a tendência a se envolver com mulheres belas e sem coração. Não seria Gabriel se ele acertasse sua escolha. &lt;br /&gt;Dominique! Este era o nome dela. Ela entrou com seus passos felinos, seu olhar sedutor, os cabelos caindo em cascata e o ar melancólico de uma mulher assustada. Ela passou por mim como se eu fosse alguma espécie de fantasma e seguiu direto para Gabriel em seus trajes elegantes e caros. Ela parecia ter escolhido cada peça de seu vestuário para seduzir Gabriel. Nenhum decote ousado. Tudo perfeitamente no lugar, impecável e indiscutivelmente, sedutor.&lt;br /&gt;- Precisamos conversar! - disse de um modo quase infantil e melancólico. Ela seduzia com os olhos, com o jeito assustado de menina em apuros. Eu a odiava! Sempre a odiei... sempre odiei mulheres interesseiras como ela e odiava ainda mais qualquer mulher de porte elegante que se aproximasse de Gabriel.&lt;br /&gt;- Não temos nada a conversar, Dominique. - ele tentou se esquivar, mas, ela colocou o rosto entre as mãos e começou a chorar com o jeito inocente, que ela fingia ter.&lt;br /&gt;- Por favor! Não há mais ninguém que possa me ajudar. Você é o único... - disse entre soluços.&lt;br /&gt;Gabriel endurecera um pouco. Ele a fez sentar-se em frente à mesa dele e ofereceu um lenço de papel. No entanto, eu podia ver a vontade em seus olhos de querer tocá-la, a dúvida do gesto. Gabriel fez um pequeno gesto para que eu me fosse e fechou a porta para manter alguma privacidade. No entanto, não confiava naquela mulher manipuladora e cruel. Ela fora uma das razões da decadência dele, do fato dele estar em um buraco, que insistia em chamar de casa e escritório. Embora eu ouvisse apenas sussurros, pude ver a silhueta de ambos abraçados. Ele havia caído na armadilha da bela viúva negra. Ela partiu um par de horas depois, lançando um olhar de desprezo em minha direção e com um sorriso sarcástico de vitória. Entrei no escritório dele furiosa.&lt;br /&gt;- Por que você aceitou?&lt;br /&gt;- Pelo dinheiro. O marido sumiu em estranhas circunstâncias.&lt;br /&gt;Nós dois sabíamos que era por algo mais. Talvez, um pouco mais de sexo, um pouco mais de sedução. Eu olhei o relógio e resolvi me esticar por ali. Não haveria ônibus àquela hora da noite e conversamos um pouco mais enquanto eu me arrumava no sofá.&lt;br /&gt;- E por que ela não foi à polícia?&lt;br /&gt;- Porque ele roubou um artefato de uma mostra que veio da Europa, Lina. Um objeto antigo, retirado de modo sorrateiro do nosso país. &lt;br /&gt;Outro calafrio, mesmo estando coberta com mantas de lã. Antigas predições me vieram à mente. Coisas sobre a minha vida que eu gostaria de esquecer, coisas que meu pai me falara há tanto tempo, mas, que eu não queria lembrar. Quantas vezes quis ter uma amnésia e esquecer minha vida medíocre! O destino me perseguia e eu fazia de tudo para fugir dele.&lt;br /&gt;- Ah! Típico... Somos amigos há muito tempo, Bi. Eu não confio nela! Pronto! Falei.&lt;br /&gt;- Nem eu, Lina. Nem eu. - disse em um tom cansado.&lt;br /&gt;Ele também se deitou, sem tirar a roupa. Gabriel e eu nos conhecemos ainda na infância quando nossos pais visitavam um ao outro. Fizemos faculdade de jornalismo juntos e ganhávamos dinheiro dos bicos que fazíamos até que ela apareceu em sua vida com seus gostos caros e seu jeito ardiloso. Estávamos bem sem ela de novo... Ouvi o ronco dele e não consegui dormir, pensando nos ardis que a vida insistia em pregar em mim.&lt;br /&gt;Aquela era mais uma noite em que Morfeu partia para longe de mim. Já que estava no escritório, resolvi colocar os papéis em dia, separar as contas, rever pautas, revisar matérias. Ultimamente, era eu quem escrevia todas as matérias, tentando manter o nome de nossa pequena empresa e dando créditos ao incrível Gabriel. Ah! Burra! Burra! Burra!&lt;br /&gt;No meio das contas, dos papéis fora de ordem, eu vi fotos e notícias falando do estranho desaparecimento do marido de Dominique e do sumiço do artefato, que parecia ser um antigo talismã poderoso, doado ao museu por um colecionador particular. Na verdade, aquele objeto havia sido roubado dos índios e todos aqueles que não tivessem tido o preparo específico, morreriam ao tocá-lo. A curiosidade tomou conta de mim e, avidamente, li tudo a respeito, inclusive, com vasta pesquisa na internet a respeito do tal artefato que havia sumido. Descobri que o tal artefato era considerado um  achado arqueológico de grande importância devido ao estado de conservação, embora ninguém soubesse para que servia o estranho objeto abaulado de madeira com furos em espiral. Outro calafrio. Definitivamente, chegava o dia em que Morfeu me deixaria para todo o sempre em uma terra estéril sem sonhos. Gabriel roncava e eu pesquisava não apenas guiada pela curiosidade mas também pela necessidade de resolver minha própria vida.&lt;br /&gt;Não sei se foi devido ao cansaço, mas, eu tive visões durante a pesquisa que se misturavam às fotos. Não gostei do que vi e não gritei. Vi Dominique e o marido em sua luxuosa mansão, ansiosos por abrir o estranho objeto. No entanto, Laurence teve um súbito ataque ao tocar o objeto e morreu estranhamente com marcas espalhadas pelo corpo como se fossem tatuagens. Dominique se livrou do corpo, jogando-o no mar. &lt;br /&gt;Outras imagens se confundiram em minha mente. Sangue. Havia muito sangue e estranhos rituais antigos em que tribos dançavam a luz da lua, em que homens lutavam e pereciam. Mais sangue. Horrendas guerras em nome do poder e o poder era aquele estranho artefato em forma de mesquita. Eu delirava em frente ao computador, companheiro das horas solitárias e sentia uma inveja infernal dos doces sonhos de Gabriel. Cheguei a me aproximar dele, perguntando como sonhos podiam chegar até ele e fugir de mim! Voltei às pesquisas e descobri pouco sobre o significado real daquele objeto e da morte de Laurence. &lt;br /&gt;As visões e os sonhos eram o motivo pelo qual eu nunca conseguia dormir. Sempre havia sangue espargindo por todos os lados em um ritual estranho e sangrento e aquele artefato estava presente ou aparecia em algum momento... Minha sina. Meu destino. Meu desespero. Meus gritos na noite escura e eu nunca esquecia as notas dissonantes ao cair da noite que acompanhavam as danças, os homens, as guerras. Era como se aquele objeto tivesse o poder de trazer paz ou discórdia, guerra ou tranqüilidade... Notas ao cair da noite, que matavam pessoas e que me faziam gritar na solidão da alma. Que estranho jogo a vida estava brincando comigo?&lt;br /&gt;Adormeci em cima do teclado sem me dar conta do sono e, por estranho que parecesse, não havia tido nenhum pesadelo. Acordei com gosto de borracha na boca e com o barulho da água da torneira escorrendo enquanto Gabriel fazia a barba e cantarolava alguma canção alegre.&lt;br /&gt;- Ânimo, Lina! Nossa vida está para mudar... e para melhor!&lt;br /&gt;Vi o sorriso dele por entre os fios do meu cabelo desgrenhado e babado.&lt;br /&gt;- Você não perde tempo, hein, Lina? Já está a par de tudo? Vai ser nosso grande furo? A reportagem do ano?&lt;br /&gt;- Sim. - respondi sonolenta, tentando apagar as imagens insanas da mente e sem saber o que estava balbuciando.&lt;br /&gt;- Então, prepare-se. Vamos sair para o almoço e compre roupas decentes. Você vai precisar delas. &lt;br /&gt;Eu quis argumentar. Deixei de lado. Eu teria que me apresentar ao lado dele e ele era um homem elegante. Eu me senti mal com as palavras dele. Talvez, por isso, eu estivesse sozinha, porque eu não era sexy e deslumbrante como Dominique! Embora eu tivesse tido a minha cota de sexo selvagem. Apenas eram coisas esporádicas. Eu me olhei no espelho dele e vi uma jovem de cara lavada, sem grande sex appeal, sem nada que pudesse atrair um homem... Cabelos lisos de hippie, roupas de hippie, sandálias de couro... Eu contrastava com a deslumbrante Dominique, centro das atenções e olhares masculinos. Eu nunca seria como ela... e eu quis ser como ela. Quis que, uma única vez, um salão se deslumbrasse com a beleza de Alina! Gabriel me tirou do transe, batendo em meus ombros.&lt;br /&gt;- Anda, Lina! Você precisa se preparar... É a nossa grande chance. &lt;br /&gt;Naquela manhã, eu saí frustrada e só para comprar alguma coisa apresentável para o almoço, mas, nada parecia certo ou perfeito. Entrei e saí do que me pareceram milhares de lojas. Além do desconforto de ser eu mesma, ainda tinha a terrível sensação de estar sendo seguida, que perdurou por toda a manhã. Devido à frustração, entrei em um salão e mandei retirar as longas madeixas e pedi para mudarem a cor sem graça do meu cabelo chocolate. Finalmente, eu me senti mulher e estava em frente a uma loja quando senti um homem me pegar pelo cotovelo e me empurrar para dentro de uma loja. Sua voz macia e agradável me deixou perplexa.&lt;br /&gt;- Não se vire. Finja que está olhando o balcão. Você corre perigo, Alina. Isso pode lhe salvar. Não se preocupe. Você está sendo cuidada.&lt;br /&gt;O que diabos era aquilo? Um louco me intercepta e ninguém vê? Na verdade, secretamente, gostei da voz dele, do toque da mão quando ele escorregou um objeto frio e cortante para a minha mão. Olhei para os lados, atônita e afobada e encarei o cristal límpido em minhas mãos. Era um objeto belo e eu o estudaria mais tarde. Naquele instante, eu queria saber quem teria sido o obsceno que me atacara. Não vi ninguém fora da loja e tentei parecer o mais natural possível, perguntando aos vendedores se eles haviam visto alguém comigo. Ninguém! Achei estranho, mas, o tempo passava rápido e eu precisava me arrumar para o tal almoço com Gabriel.&lt;br /&gt;Cheguei em casa, joguei as coisas em cima da mesa e tomei um banho demorado para tentar esquecer tudo aquilo, que meu destino se cumpria e cobrava de mim os aluguéis atrasados. Gabriel era apenas uma peça do jogo, uma peça inútil. Eu sabia o que Dominique queria e sabia também que a verdade seria terrível demais para Gabriel. Era um jogo que, finalmente, eu teria que jogar. Não havia por onde escapar. Finalmente, tudo teria um fim, qualquer que fosse. Meu celular tocou e me retirou dos devaneios. Eu estava em cima da cama, metida em um robe. Era Gabriel. Não atendi ao telefone. Abri a porta para um Gabriel nervoso e me troquei na frente dele. Nada mais importava. Nem a minha nudez nem a minha vida. Gabriel olhou com olhos sequiosos. Em outra ocasião, eu teria sorrido e gostado... Ele se aproximou para um beijo. Ele esqueceu a pressa naquele instante e todo o resto. Eu, não. Eu tinha responsabilidades.&lt;br /&gt;- Too late, baby! – eu disse desapontada que só sexo pudesse importar para ele.&lt;br /&gt;Os guardiões haviam sido descuidados e eu queria saber a razão do descuido. Na verdade, haviam lendas e escritos antigos que falavam daquele objeto, que seria disputa de poder dos homens. Por mais que soubesse que minha vida estava em perigo, eu tinha que jogar, brincar e descobrir a verdade. Ele se irritou novamente.&lt;br /&gt;- Você não está pronta? Não sabe que este tipo de gente não espera? Que diabos você fez com seu cabelo?&lt;br /&gt;- Eles vão esperar. Não se preocupe. Mudei o cabelo. Eu gostei.&lt;br /&gt;Fiquei quieta e pensativa.&lt;br /&gt;- O que há com você? Está quieta.&lt;br /&gt;Eu não queria falar a respeito e não respondi.&lt;br /&gt;Entramos no carro e seguimos em um silêncio profundo até o local de encontro. Sem que ele soubesse, ele havia me vendido e, mesmo que ele não soubesse, eu me sentia traída e só como nunca antes. Foi ali que me arrependi de ter dedicado minha vida àquele homem, de ter seguido ele na faculdade de jornalismo. Chegamos a um elegante restaurante e seguimos para fora, em uma sacada ensolarada com muitos guarda-sóis e cascatas. O mâitre nos levou a um senhor de sorriso simpático e ares agradáveis, que me trouxe asco, embora parecesse amigável.&lt;br /&gt;- Sentem-se, amigos. - disse em um tom sibilante.&lt;br /&gt;- Viemos por recomendação da Sra. Dominique. - disse Gabriel em tom pouco amistoso.&lt;br /&gt;- Eu já esperava por vocês. &lt;br /&gt;Ele me ofereceu um lugar ao lado do dele. Eu não queria me sentar, mas os olhares ameaçadores lançados para mim pelos capangas do homem me fizeram mudar de idéia. Era hora de usar os truques que papai havia me ensinado há tantos anos atrás, quando eu ainda era uma adolescente e quando ele ainda estava vivo. A única razão pela qual Gabriel havia me aturado no começo de nossas carreiras, havia sido a minha capacidade de ter sangue frio nos momentos de terror. Naquela tarde, o meu pânico era real e eu me utilizei dele para tentar tirar alguma vantagem. O meu novo visual me deu a chance de parecer frágil e assustada, ainda mais do que estava realmente, já que os cabelos curtos me faziam parecer uma jovem inocente.&lt;br /&gt;- Muito bem, o que posso fazer pelo jovem casal?&lt;br /&gt;Senti a arma apontada para mim e mãos agarrando meus pulsos, embora ninguém estivesse perto de mim o suficiente para me segurar. Senti uma dor aguda no braço e evitei gritar, mas, entrei em pânico e me levantei apressada, derrubando tudo na mesa, molhando Gabriel, que me olhou espantado.&lt;br /&gt;-Ah... er... desculpem. Eu preciso... Com licença.&lt;br /&gt;Gabriel esperava mais de mim e, ao me afastar, ainda o ouvi falar algo, mas, eu estava alheia e com medo.&lt;br /&gt;- O que você me oferece?&lt;br /&gt;- Ora, meu jovem, eu tenho informações importantes, que servem mais para a senhorita. Lamento. Ela tem que estar presente.&lt;br /&gt;Eu queria correr para longe dali, mas, já era tarde. Eu aceitara dançar a dança da morte. Corri ao banheiro e molhei o pescoço e eu vi uma mulher passar por mim e havia algo errado com ela... eu não identifiquei de imediato. Eram os olhos. Olhos azuis de cobra. Ela ficou do meu lado.&lt;br /&gt;- Proteja o talismã. Você é a única que pode, Alina. É preciso... para evitar uma tragédia.&lt;br /&gt;Ela tinha olhos tristes e era uma sombra do passado, sombra de uma civilização que conhecia a destruição, a dor e o castigo impostos pelo mal uso do tal talismã. Eu já deveria ter me acostumado com coisas esquisitas devido às coisas que papai era capaz de fazer, embora, achasse que fosse algum truque de mágico como na vez em que ele... em que eu... em que ele me levou para um lugar em um piscar de olhos porque alguém queria me matar! Molhei de novo o pescoço e voltei meu olhar para o espelho. A mulher tocou o espelho e me deixou só, evaporando-se.&lt;br /&gt;Quando voltei à mesa, o clima estava tenso, armas apontadas por baixo da mesa, olhares ameaçadores. Eu ainda estava de pé e fingi reconhecer alguém do outro lado do restaurante.&lt;br /&gt;- Olhe, querido! Vânia está bem ali!&lt;br /&gt;Puxei Gabriel da mesa, que guardou sua arma discretamente e saiu comigo, enquanto eu tentava respirar aliviada. Abordamos uma mulher e perguntamos algo, fingindo estranho contentamento. Partimos para o carro em silêncio absoluto. Nem uma faca atravessaria entre nós, naquele instante. Gabriel rodou com o carro longamente com um ar pensativo e me levou de volta para casa. Ele segurou minha mão no elevador e estávamos nos beijando ardentemente quando abri a porta e vi meu apartamento todo revirado. Ele se espantou e eu sentei desanimada e chateada em uma pilha de livros. Ele começou a empilhar as coisas de volta ao lugar.&lt;br /&gt;- Deixa, Gabriel...&lt;br /&gt;- Lina, o que está acontecendo? O que estão procurando aqui?&lt;br /&gt;A verdade! Finalmente, a verdade.&lt;br /&gt;- O que você descobriu? – perguntei, encarando os olhos dele.&lt;br /&gt;Ele puxou a gravata, contrariado.&lt;br /&gt;- Ele riu quando disse que se fizesse mal a... eu iria caçá-lo no inferno. Este artefato... o que você descobriu sobre ele? &lt;br /&gt;Baixei meus olhos e suspirei longamente. Ele não dissera o nome dela porque sabia da antipatia que eu sentia por ela. Não, era mais que antipatia, era um ódio profundo que brotava de cada célula do meu ser porque era mais forte quem conseguia usar os outros, quem destruía corações.&lt;br /&gt;- Bom... o que eu descobri? - a verdade ficaria para outro dia. Ele ainda tinha esperanças de que Dominique fosse inocente. - Que existe uma pessoa que tem uma espécie de chave para tocar o tal objeto. Tudo indica que é um objeto musical, mas, nenhum dos estudiosos descobriu como funciona. Para os antigos, parecia abrir um portal e uma imensa fonte de poder. Em algum momento, alguém tentou usá-lo para fins destrutivos e o tênue equilíbrio dos mundos parece ter se perdido.&lt;br /&gt;- Ótimo! Então, nós poderemos ajudá-la e... Mas, onde está a chave?&lt;br /&gt;Eu tentei segurar as lágrimas, mas ele reparou que eu não estava bem. Ele se agachou perto de mim, segurando minhas mãos.&lt;br /&gt;- O que houve, Lina? Está tudo bem! Já deixei você na mão? Vamos achar esta chave e vai estar tudo resolvido. &lt;br /&gt;Eu suspirei. Eu não o queria por perto.&lt;br /&gt;- Não é tão simples. A chave não é um objeto. É uma energia passada de geração a geração e apenas a pessoa que tiver a energia concomitante com a do objeto pode tocá-lo. Foi o modo como as feiticeiras resolveram proteger o talismã ou o que seja. A chave é um ser humano, Bi.&lt;br /&gt;Eu queria gritar: Você não entende? A chave... a chave está em minha mente! Todos querem a mim porque eu tenho algo dentro de mim que pode ativar o artefato! Eu fiquei quieta. Havia muito em minha mente naquele instante.&lt;br /&gt;- Você sabe quem é este ser humano?&lt;br /&gt;Novo suspiro e, desta vez, eu consegui segurar as lágrimas com grande esforço, levantando-me e respirando fundo de acordo com as técnicas iogues que meu pai me ensinara.&lt;br /&gt;- Tudo isso é uma lenda, encontrada em uma caverna... meu pai e seu pai... Eles encontraram a caverna e meu pai a mencionou para mim e ela diz assim: Há muito tempo, este artefato foi usado para propósitos errados e toda uma civilização feneceu. Assim, os antigos mestres acharam por bem trancar o artefato e por gerações, esta chave foi transmitida por membros de uma mesma família até que o último descendente tenha condições de devolvê-lo ao lugar de onde veio, à primeira e última fonte.&lt;br /&gt;Ele me encarou seriamente como se ele soubesse. Por um momento, eu achei que ele conhecesse a verdade: que eu tinha a chave e que toda a encenação de Dominique era para chegar até mim. Ele aceitara o suborno dela para me entregar e eu era o pacote de entrega. A recompensa seria noites luxuriantes de sexo ao lado da mulher glamourosa e perfeita. &lt;br /&gt;Gabriel parecia perdido em seus pensamentos e tudo que eu queria era me jogar na cama e deixar a morte me levar.&lt;br /&gt;- E agora, Lina?&lt;br /&gt;- Ao menos, admita apenas uma vez que ela usou você. &lt;br /&gt;Ele continuava com o olhar parado, suspirando em minha casa. Eu não queria ver aquilo. De novo, Gabriel se afundando por causa de Dominique.&lt;br /&gt;- Por favor, preciso ficar sozinha, está bem?&lt;br /&gt;Eu não agüentaria mais segurar as lágrimas e a dor. Finalmente, os demônios estavam soltos dentro daquele apartamento. Minha dor era apenas a minha dor. Gabriel partiu com ar desolado como um herói de antigos filmes em preto e branco: triste, melancólico e cabeça baixa como se tivesse que se decidir. Naquela tarde, eu chorei a bizarra morte do meu pai, que sumira sem deixar pistas. Chorei até adormecer. Eu não conhecia minha mãe e descobri que, talvez, a falta de feminilidade em minha alma se devesse pelo fato de nunca ter tido outra presença que a do meu pai e ter tido que segui-lo em sua busca por respostas embaçadas e escuras.&lt;br /&gt;Gabriel ganhou as ruas e seguiu para casa, onde abriu uma garrafa de bebida e ficou encarando o líquido no copo até arremessá-lo contra a parede em uma fúria pouco comum a um homem com tantas reservas. Ele parecia uma personagem dos filmes preto e branco de mocinhos e bandidos. Para aliviar o desespero, eu segui seus passos em minha mente... Eu podia fazer isso, ver o que as pessoas estavam fazendo mesmo quando eu não estava presente fisicamente. Uns chamam isso de dom, outros de demônio. Para mim, era algo indiferente... só algo que eu fazia como tomar banho ou escovar os dentes.&lt;br /&gt;Adormeci no meio da tarde, entre as lágrimas, vendo sombras e tentando distinguir Gabriel. No meio da noite, homens entraram em casa e me levaram. Eu não protestei. Era o meu destino cruel, levando-me para a morte eterna. Sabia pouco sobre o que tinha que fazer além de tocar as notas ao cair da noite. Jamais poderia esquecer isso porque vozes sempre repetiam as notas, dia após dia, nos intensos pesadelos que tinha. Eu odiava as vozes e tudo relacionado àquele objeto infame.&lt;br /&gt;Estranhamente, eu não senti medo enquanto era sacolejada dentro do carro, enquanto ouvia as vozes ameaçadoras e horrendas de capangas mal-criados e fedidos a suor e bebida. Uma estranha calma se apossou de mim. Nenhum som me envolvia nem o cheiro enjoativo que estava no carro que, a princípio, causou náuseas. Eu estava estranhamente alheia de tudo aquilo como se a aproximação do tal artefato estivesse me levando a um transe estranho... Voltei minha mente para Gabriel com algum esforço.&lt;br /&gt;Ele estava na casa dele, colocando balas na arma, decidindo arriscar tudo que tinha na vida por algum motivo. Havia uma determinação sinistra nos olhos de Gabriel, algo pungente que nunca tomara conta dele antes, uma tristeza que, talvez, sempre tivesse existido, mas, nunca percebida. Era um outro homem que surgia em minha mente. Ele se dirigiu para o carro com passos firmes e dirigiu rapidamente até um hotel luxuoso da cidade. O tempo urgia. Ele olhou para os apartamentos acima e entrou, seguindo para os elevadores. Ele tinha uma expressão tensa. Andou até uma porta no fim de um longo corredor com tapetes de cor verde hortelã e pêssego. Não bateu na porta, mas, entrou sorrateiramente.&lt;br /&gt;Dominique estava apressada e se surpreendeu ao vê-lo. Mas, aquela não era a verdadeira Dominique, era uma cópia, um modelo feito à imagem e semelhança da verdadeira. Aquela que deveria morrer caso algo de errado acontecesse. Ela estava em pânico ao encarar os olhos de Gabriel e entendeu a morte próxima. Ele sorriu para ela.&lt;br /&gt;- Está de partida?&lt;br /&gt;Ela sorriu sedutora.&lt;br /&gt;- É... eu...&lt;br /&gt;Ela passou os braços em seu pescoço em uma tentativa de escapar da morte que aparecia ameaçadoramente. Seus olhos eram puro terror e sua voz saiu trêmula e sem vida, ainda fingindo seduzir Gabriel.&lt;br /&gt;- Querido, eu...&lt;br /&gt;Ele puxou a arma do bolso.&lt;br /&gt;- Onde ela está, Dominique?&lt;br /&gt;Ela se surpreendeu. Mas, ele não sabia que aquela era uma impostora para despistá-lo. Eu sabia porque Dominique estava perto de mim. Podia senti-la rondar meu corpo e a angústia de esperar por algo há muito esperado. Continuei a assistir. A realidade que me cercava tinha que ficar longe. &lt;br /&gt;- Ora, para que se preocupar? - ela perguntou para ele, tentando parecer uma mulher carente e perfeita. Gabriel não se deixou levar.&lt;br /&gt;- Não vou perguntar de novo. Aonde ela está?&lt;br /&gt;Eu me perguntava por quem ele perguntava. Talvez, ele soubesse que sua verdadeira amante não estivesse ali... Um tiro. Um tiro direto no meu coração e a falsa Dominique caiu ao chão, alvejada por uma bala vinda de algum lugar distante. Ela revelaria a verdade e isso não deveria acontecer. Gabriel deveria ser despistado. Gabriel se ajoelhou e a segurou perto para ouvir o que a voz sussurrante tinha a lhe dizer antes de partir.&lt;br /&gt;- Ela... pai... junto... perto...&lt;br /&gt;Nada que fizesse um sentido claro para a mente de Gabriel e nada que lhe respondesse de forma concreta o que ele realmente queria saber. Ele escondeu a arma na calça e procurou rapidamente por alguma pista no quarto ou nas malas, encontrando um mapa com algumas indicações, mas, nada realmente importante já que o mapa era de outro país. Ele pegou o mapa e seguiu para o carro enquanto ouvia as sirenes de polícia. Ele lamentou a morte da falsa Dominique, só que não havia tempo para sentir pesar. Os mistérios haviam crescido para ele. Nada parecia tão simples como no dia anterior e um vácuo se abrira entre aquelas 24 horas, como se muitos dias ou meses já tivessem passado. Gabriel voltou para o escritório, onde dormia e encarou o dinheiro de Dominique e o jogou na mesa com raiva. Ele se levantou e seguiu para a janela, de onde observou as luzes da cidade de modo indistinto.&lt;br /&gt;- Onde você está? - ele perguntou para si mesmo, de modo apreensivo enquanto olhava as luzes, perscrutando a noite calada em busca de uma resposta inexistente.&lt;br /&gt;Voltei para mim mesma ao sentir mãos tocarem meu corpo e retirarem a venda dos olhos. Estava amarrada e fui arrastada até um círculo feito com... algo que eu identificara como sendo sangue e tochas fumegantes. Os homens de terno gris me jogaram no meio do círculo ainda amarrada. Dominique estava lá com seu sorriso diabólico, com sua sensualidade provocante, com a qual homens e mulheres haviam sido seduzidos e mortos. Sim, ela era como uma viúva negra que devora seus parceiros após a cópula. Ela estava ali para devorar cada milímetro de alma que eu tinha, cada detalhe do meu ser. Ela podia enganar Gabriel mas a mim... ela jamais enganou. Ela sorriu e estava brilhantemente fantasiada para a ocasião e tinha lá o seu charme com a capa e o capuz negro caindo-lhe pelo corpo, cobrindo o corpo. Ela retirou a capa em um gesto teatral e entrou no círculo nua. Havia marcas pelo corpo dela e era sangue... eu vomitei ao sentir o cheiro das marcas ainda frescas no corpo dela. Ela segurou meu rosto e me levantou, chegando meu rosto perto do dela.&lt;br /&gt;- Lina, querida Lina... vamos, nós não temos muito tempo. Eu preciso saber o que aquela coisa faz... você sabe...&lt;br /&gt;Eu cuspi no rosto dela. Dominique limpou meu cuspe e me esbofeteou com sua mão macia, mas, forte.&lt;br /&gt;- Você sabe o que eu faço com crianças que não se comportam?&lt;br /&gt;Ela riu e não me pareceu mais a mulher bela que eu sempre quisera ser. Ela me deixou para ser espancada pelos capangas, que me bateram forte sem me machucar muito. Eu não podia me defender, mas, não baixei meu olhar ou mostrei medo. Eu não era este tipo de mulher. Eu não podia me dar ao luxo de ser muito sentimental. Eles se divertiriam durante algum tempo comigo até que se entediaram e foram jogar cartas perto o suficiente para me vigiar. &lt;br /&gt;Então, eu me lembrei do cristal que eu ganhara e que cortara minha mão. Ele ainda estava comigo. Fiquei no círculo durante algum tempo até que Dominique mandou alguém cuidar de mim. Eu não podia morrer antes dela consumar o seu macabro plano... Fui levada para um celeiro abandonado, escuro e mal cheiroso, que provocou nova náusea. Tentei conter o vômito, mas, foi impossível. Pude sentir os sacrifícios de seres humanos e animais ali. Vi as almas suplicarem por socorro, por um fio de esperança. Dominique seduzira gente demais e destruíra muitas vidas com o único propósito de ter o poder. O cristal cutucava a minha bunda, quase rasgando a carne. Por fim, consegui alcançá-lo antes que alguém fosse checar minhas condições. Pela segunda vez, eu cortei a mão com aquele cristal ao tentar alcançá-lo em meu bolso. Creio ter cortado a calça também. Com grande dificuldade, eu o segurei firme, sentindo o sangue jorrar pela mão para o chão. Eu estava algemada, mas, eu havia feito muitos anos de ioga e devido à boa flexibilidade, consegui passar meus braços, que estavam nas minhas costas, por baixo das pernas e observei com singular admiração o cristal em forma de adaga em minha mão. Havia uma estranha inscrição no cristal, que mal consegui vislumbrar a meia luz. Ouvi uma voz austera ao meu redor.&lt;br /&gt;- Toque estas notas! Especificamente, estas notas!&lt;br /&gt;A voz sumiu, o cristal esquentou em minha mão e eu o joguei no chão. Eu tinha tido pouco tempo para memorizar as notas a serem tocadas. Sei que adormeci pensando no desafio que teria ao tocar as notas, acordei sendo sacolejada e recebendo jatos de água fria pelo corpo embora estivesse livre do que me prendia, mas, parecia ter uma obrigação de permanecer naquele lugar. Nada se comparava ao terror que sentia por dentro. E se errasse as notas? Será que eles saberiam a diferença? Levaram-me para fora, no círculo feito com tochas. Dominique e seu novo amante estavam ali, com olhos sequiosos. Não havia outras pessoas. Os capangas haviam sido mandados embora logo após eu ter sido jogada novamente no círculo. Ela trouxe o artefato embrulhado e encostou uma arma em mim. Eu a encarei e mostrei a ela que não tinha medo de morrer.&lt;br /&gt;- Abra-o.&lt;br /&gt;Eu abri com mãos trêmulas e admirei aquele objeto que fora a razão da queda de um povo antigo, que fora disputado por seres poderosos. Era um artefato de madeira lisa, bastante bem conservada, com furos em espiral que lembravam uma flauta. Respirei fundo e senti as mãos tremerem antes de começar a tocar os furos. Eu via as notas em minha mente e ia tocando e nada se parecia com as notas dissonantes dos meus sonhos. Eram suaves, agradáveis, angelicais. Meus olhos estavam fechados e eu não vi nada do que aconteceu, apenas me deixei levar pela música suave e vislumbrava um paraíso, uma paisagem indiana, danças antigas e ancestrais, flores em tons de lilás e pretas. De repente, um fogo queimou e levou embora as imagens agradáveis. Uma caverna onde seres dançavam a luz de archotes. Risos de crianças. Conheci muitos mistérios que levariam vidas inteiras para serem desvendados. A história humana passou por mim como em um filme. A história que nunca era contada. Achei que estivesse em um sonho eterno e que eu estava aconchegada em algum colo materno. Era como se tivesse voltado para o útero e eu estava no centro da Terra, devolvendo aquele objeto a quem pertencia de verdade, aos antigos deuses, esquecidos dos homens. &lt;br /&gt;- Sua família cumpriu a promessa após ter sido a ladra deste objeto. Agora, vocês podem viver em paz.&lt;br /&gt;Eu agradeci.&lt;br /&gt;- Antes de você ir, criança... Vire-se.&lt;br /&gt;Eu me virei de costas para aquele ser alto, de dedos longos, que lembrava um Merlin. Ele encostou em minha cabeça e retirou dela um objeto brilhante, como uma corda e a corda entrou nos furos de madeira, enlaçando aquele objeto por entre os furos de forma que aquilo nunca mais fosse tocado. &lt;br /&gt;- Dominique... o que...&lt;br /&gt;Não ouvi nenhum outro som além de um grito gutural como se a vida estivesse sendo arrancada de modo terrível, como se as entranhas estivessem expostas e sendo dilaceradas. Eu não vi, mas, imagino que a morte de Dominique tenha sido cruel. Vi as almas que ela dilacerou livres para partir. Aquele lugar seria um lugar amaldiçoado por muito tempo até que a terra se renovasse e pedras crescessem de novo. Estava embalada por um escuro aconchegante e sucinto, como se estivesse sendo eternamente embalada. Senti a consciência voltar, mas, eu não queria abrir os olhos. Eu queria voltar para aquela caverna aconchegante... Mas, acordei com um Gabriel assustado, embalando-me e tentando me fazer acordar. &lt;br /&gt;- Você está bem, Lina? – perguntou ao ver que abrira os olhos.&lt;br /&gt;O sol estava nascendo. O talismã havia sumido e não havia pista alguma do paradeiro de outros seres humanos à volta. Eu sabia que Dominique estava morta... só não havia conseguido localizar o corpo.&lt;br /&gt;- Sim... estou bem. O que houve aqui? – disse como se tivesse dormido uma noite tranqüila de sono, sem sentir o peso da responsabilidade eterna.&lt;br /&gt;Ele olhou para o horizonte distante.&lt;br /&gt;- Eu não sei... Encontrei dois corpos. Presumo que um seja de Dominique e o outro?&lt;br /&gt;- O amante dela, eu acho. Eles queriam o poder liberado por aquele objeto. Ela matou o marido após ele roubar isso de um museu. Ela sabia que quem o tocasse sem permissão, morreria. Laurence morreu de modo terrível. Eu toquei as notas diferentes...&lt;br /&gt;Ele sorriu para mim com seu jeito charmoso.&lt;br /&gt;- O cristal com as inscrições ajudou você, então?&lt;br /&gt;Era ele?! O homem misterioso era Gabriel? Uma fúria insana surgiu em mim e comecei a agredi-lo de forma violenta.&lt;br /&gt;- Calma, Lina. Eu jamais deixaria algo acontecer a você, Lina. Jamais!&lt;br /&gt;Eu liberei  toda a minha fúria e frustração nele com golpes certeiros até que ele conseguiu me dominar. Ele sabia que eu o machucaria sério caso continuasse a dar golpe atrás de golpe.&lt;br /&gt;- Seu pai foi muito inteligente ao colocar você em aulas de artes marciais... mas, eu peço calma. Sei que tenho muito a explicar e que tive que fingir muitas coisas para você. Tinha medo de que a verdade pudesse machucar bem mais do que já machucou. Bem, Dominique... eu precisava que ela me desse pistas de suas reais intenções e usei a minha tolerância a bebidas para fazer todos pensarem que eu era um pobre coitado, devastado por uma paixão leviana... Não preciso entrar em detalhes com você. Não quero feri-la mais... Só que eu tive que manter você perto de mim. Seu pai me alertou sobre pessoas que poderiam querer chegar perto de você. Ele me fez prometer que cuidaria de você, Lina. Eu tinha quinze anos quando ele me fez prometer que eu cuidaria de você. Você era o mundo para ele...&lt;br /&gt;A única coisa que me fazia chorar era o meu pai e deixei as lágrimas rolarem.&lt;br /&gt;- Meu pai?! Mas, seu pai... ele pediu...&lt;br /&gt;- Eles não queriam assustar você. Eles sabiam que alguém, algum dia, viria atrás. Eu estava guardando o cristal para uma ocasião em que eu pudesse falar a verdade com você.&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- Eles sabiam de tudo... eles sabiam que quem carregasse a chave, teria um destino cruel e seria perseguido. Foi por isso que seu pai fugiu de sua mãe.&lt;br /&gt;- Como você me achou?&lt;br /&gt;Ele suspirou e me virou de frente para ele.&lt;br /&gt;- Ela matou o pai dela aqui para conseguir pistas para chegar até você e a outra deu as pistas que eu precisava.&lt;br /&gt;- Como você sabia que ela não era...&lt;br /&gt;- Os olhos eram diferentes... a expressão no olhar ainda tinha algo de decente.&lt;br /&gt;- Por que tudo isso?&lt;br /&gt;Ele sorriu.&lt;br /&gt;- Ah! Fique quieta, Lina!&lt;br /&gt;Ele me beijou e eu aceitei os braços dele em volta de mim, a boca quente, a língua... porque há tempos eu ansiava que Gabriel correspondesse ao que sentia por ele. Nunca mais notas ao cair da noite. Nunca mais ser perseguida por causa de mistérios estranhos ocorridos comigo e o melhor de tudo, eu ganhei o coração do mocinho ao fim de tudo! &lt;br /&gt;Agora, Gabriel e eu formamos uma dupla ainda mais unida contra os crimes da humanidade. Nós nos tornamos o trunfo das almas perdidas, a última esperança. Por baixo da vida aparentemente normal das cidades, algo estranho pulsa... algo que faz alguns sentirem com calafrios, outros verem vultos ou ouvires os clamores surdos daqueles que não têm mais voz. Gabriel e eu vivemos ainda muitas aventuras como uma dupla de detetives solucionando mistérios desconhecidos para a maior parte dos humanos. Corremos risco para outros seres, que precisam de ajuda tanto quanto eu precisei. Era meu modo de redimir os pecados da minha família, do roubo do artefato. Embora, eles dissessem que eu estava livre, eu sentia a necessidade de ajudar os que realmente precisassem de ajuda.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-5040723078632710095?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/5040723078632710095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=5040723078632710095' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5040723078632710095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5040723078632710095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/notas-ao-cair-da-noite.html' title='Notas ao cair da noite'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-3429179044831098224</id><published>2011-03-23T17:27:00.000-07:00</published><updated>2011-03-23T17:27:06.765-07:00</updated><title type='text'>Alline e o encontro do amor</title><content type='html'>Aline já caminhara tanto na floresta e sentia que ainda não havia achado o caminho certo, apesar de todas as suas andanças pelos vilarejos e vilas reais. Há muito errava de reino em reino, buscando as respostas para suas aflições e medos. Haveria alguém no mundo capaz de ajudá-la? No momento, Aline estava cansada e perdida por tanto andar. O sol estava alto e quente. O suor escorria pelas suas costas e um bom copo de água lhe faria bem. Mas, havia um caminho extenso a seguir e onde parar por um momento para pegar um pouco mais de ar?&lt;br /&gt;O ar estava úmido e a distância era desanimadora. Havia perdido muito no caminho. Naquele instante, não havia mais nada de bens materiais com ela. Tudo havia sido pilhado enquanto dormia junto com a trupe mambembe que acompanhava. Eles a haviam roubado, deixando-a praticamente com a roupa do corpo. Ela acordou, sentindo o desespero se aproximando. Mas, fazer o quê? Haveria de continuar por aquela estrada ou alguma outra... um passo depois do outro. Era assim que devia ser. Ah! Mas o cansaço e o desânimo tomavam conta de seu corpo castigado e de sua alma atormentada. O que ela procurava? Nem ela mesma sabia direito o que procurava. Apenas acordou, um dia, cansada daquela vida infame que seguia, entediada pelos muros de um castelo e decidiu sair pela vida para buscar prazeres ou respostas. Os prazeres sempre foram melhores do que as respostas e ela seguia sem saber para onde ir e ia de alegria a alegria, de prazer em prazer, buscando, mas, sentindo aquela premência desgostosa, um grito na alma, uma insatisfação vinda de lugar algum, que oprimia e a fazia apenas querer sumir no mundo. Assim, ela fez e fazia, sumia quando tudo o mais se tornava insuportável, até ser surrupiada. Bom, parada é que não podia ficar. Então, se pôs a caminhar pela primeira estrada que apareceu no caminho e muitos dias se passaram. A fome estava avassaladora. Havia conseguido um pão mofado e algumas migalhas além de uma manteiga envelhecida. Havia a sede, a sede enlouquecedora... Talvez, mais alguns passos... uns poucos passos... Não, ela não aguentou e segurou em uma árvore, olhando o céu e o sol, que a cegou, implorando por uma interferência divina. Se Deus existia, aquele era o momento dele lhe dizer alguma, de lhe dar alguma esperança, porque a sua a abandonara há algum tempo já. &lt;br /&gt;Sem nada, sem sacola, sem documento... ela se deu conta de que calara por tempo demais a sua alma, a sua voz, a sua vida. Lembrava-se da jovem intrépida que saiu, um dia, de casa para desbravar o mundo e silenciar a morte. Ela encontrou mais morte e a intrepidez dera lugar a uma sucessão de mal-feitos e mal-entendidos, que ela não sabia de onde havia partido... Metera-se em mais confusões do que desejava, fizera muitas coisas das quais se arrependia e, agora, a angústia do mundo lhe batia à porta do coração sem pestanejar, sem que ela pudesse dizer para que tudo que oprimisse fosse embora. Não, as forças se iam dela rápido demais. Nem sabia porque caminhar, apenas dava um passo depois do outro, um passo, outro passo e a estrada à frente era infinitamente sem fim. Muitas vezes, pediu uma pousada nos castelos e casinholas pelo caminho. Alguns a aceitavam desconfiados. Outros, batiam-lhe a porta na cara. Outros ainda a convidavam a entrar e partilhavam o pouco que tinham com ela. Sempre os últimos pareciam ser os que mais a alimentavam, embora a comida fosse escassa, a música e a alegria da casa lhe traziam um fio fino de esperança, tão fino que tinha a espessura do fio de uma teia de aranha, mas, sem a força e a resistência tenaz da mesma.&lt;br /&gt;Aline nunca ficava por tempo demais. Houve vezes em que meses se passaram, mas, aquela sensação de prosseguir chegava até ela como o cheiro da chuva penetra as narinas e, da última vez, ela fez uma escolha insensata ao seguir com os atores mambembes, que a iludiram com sonhos, com palavras bonitas. Tudo que ela tinha naquele instante eram seus pés, que a levavam pela estrada poeirenta. Então, lá estava ela encostada na árvore, com lágrimas nos olhos, implorando aos céus uma luz, um momento de paz ou mesmo a morte. Neste exato momento, uma carroça apareceu pela estrada. Uma mulher de pequeno porte a guiava. Não que Aline fosse alta, mas, a mulher devia ser um dedo ou dois mais baixa do que ela. Aline a viu com olhos embaçados e a primeira coisa que lhe veio à mente era a visão estranha de que estava diante de uma bondosa espécie de gnomo. Ela piscou os olhos e a mulher estava para à sua frente, encarando-a com um sorriso agradável. Atrás, havia um menino de sorriso encantador e, como todo menino, estava inquieto, brincando e fazendo barulho. A bondosa mulher pediu um pouco de silêncio ao garoto, que já devia ter seus 4 anos.&lt;br /&gt;- Posso lhe ajudar? Está perdida?&lt;br /&gt;Aline não sabia o que responder. Sim, a vida inteira estivera perdida.&lt;br /&gt;- Não. Mas, a senhora teria água?&lt;br /&gt;A mulher a olhou pensativamente.&lt;br /&gt;- Não aqui. Mas, suba na carroça que na minha casa há água fresca, que colhemos de um regato próximo.&lt;br /&gt;Aline agradeceu à mulher e apenas recostou-se, agradecendo pela carona e pela água. Aline acabou dormindo com o movimento que a carroça fazia. Já, ao acordar, quando seu meio de transporte parou, ela se sentiu um pouco mais disposta, o coração um tanto mais cheio de algo que ela já sentira, um dia, mas não sabia nomear. Um homem de rosto comprido e olhos inteligentes apareceu na porta. A idéia de gnomo se desfez ao vê-los juntos. O homem devia ter uns dois palmos a mais de altura que a mulher. Enfim, ela desceu e a mulher a chamou para dentro. Aline passou pela cerca e viu uma bela horta de folhas bem verdes e flores cheirosas à sua direita. O cheiro da horta penetrou sua narina e ela sorriu, sentindo uma leve e suave brisa e algumas gargalhadas baixas como se crianças brincassem ao longe. Aline entrou e bebeu sofregamente a água que, realmente, estava fresca e aliviou a sede e a alma. Ela já estava de volta à porta e agradecendo quando a mulher a olhou ansiosa e disse:&lt;br /&gt;- Não pude deixar de reparar... mas, seus pés... eles estão em carne viva. Por favor, fique um pouco para que possa melhorar. Não temos muito mas... não podemos deixar alguém em suas condições... Meu marido e eu podemos acolhê-la até que se sinta fortalecida novamente.&lt;br /&gt;Aline estacou na porta, sentindo as lágrimas surgirem. Mais alguns momentos e ela romperia em um choro incontrolável. Ela respirou fundo e se virou lentamente, sem coragem de dizer palavra que fosse para que as lágrimas não rebentassem de seus olhos. A mulher sorriu, entendendo o gesto.&lt;br /&gt;- Eu sou Lili, este é Tomás e este Karl.&lt;br /&gt;Ela apontou para o menino, que parecia ter uma energia infinita. Aline nunca vira nada parecido.&lt;br /&gt;- Eu sou Aline. - foi tudo que saiu no fio de voz que juntou com força na voz.&lt;br /&gt;Imediatamente, a mulher se pôs a trabalhar... ela cozinhava, preparava as ervas curativas para seus pés, olhava o menino e ajudava o marido, que, por vezes, vagava silenciosamente na pequena casa de madeira de um cômodo, dividida com lençóis. Em pouco tempo, Aline teve seus pés curados e logo se pôs a ajudar a dona da casa, tentando recompensá-la pelo trabalho árduo que tivera cuidando dela. Mas, a bondosa mulher limitava-se a olhar para ela e a balançar a cabeça, dizendo:&lt;br /&gt;- Descanse, querida. Apenas descanse.&lt;br /&gt;Aline a observava sem entender de onde vinha tamanha força ou como aquela criatura conseguia fazer tanto com tão pouco. A comida era sempre repartida entre eles. Uma vez, o menino ficou doente e Lili cuidava dele sem pregar os olhos, passando os dias fazendo seus afazeres domésticos sem nunca reclamar e usando as ervas e lindas canções para curar a pequena crianças. Sem saber de onde, Aline sentia um calor preencher seu coração e seu corpo e sem que se desse conta, parecia quase boa, como se nada que tivesse passado importasse naquele momento... Em uma agradável noite, em que a brisa suave espantava o suor do corpo, Aline não se conteve e chorou a bênção de ter encontrado Lili. Ela sentiu uma presença e viu Lili do lado. A mulher sorriu.&lt;br /&gt;- Que houve, minha querida?&lt;br /&gt;Aline tentou esconder o choro.&lt;br /&gt;- Pode falar.&lt;br /&gt;Aline tinha pontos de interrogação em seu rosto.&lt;br /&gt;- Como você consegue?&lt;br /&gt;A mulher deu um sorriso suave, que parecia conter o calor da vida e respondeu, olhando para o céu estrelado acima delas.&lt;br /&gt;- Deus.&lt;br /&gt;Aline arregalou os olhos, pois, ela observara que muitas outras pessoas passavam por aquela casa caindo dos braços de Lili, que ouvia, aconselhava e abraçava oferecendo apenas seu carinho e, vez ou outra, plantinhas de sua própria horta para algum resfriado ou dor de estômago.&lt;br /&gt;- Mas, você acolhe as pessoas...&lt;br /&gt;O sorriso bondoso voltou ao rosto.&lt;br /&gt;- Não faço nada, querida. Apenas ouço a voz que todos podemos escutar... Só isso. Você também pode. Todos podemos. Basta querer, não é? Vamos entrar? Acho que vai chover.&lt;br /&gt;Não é que o mundo desabou sobre suas cabeças durante a noite? Mas, a manhã, surgiu radiante e bela e Lili a chamou para acompanhá-la na carroça. Iam fazer uma visita de cortesia a uma outra pessoa, que tinha um filho especial. Era uma companheira de Lili. A carroça parou em uma casa agradável, de flores nas janelas. Lili desceu com um flores nos braços e chamou a dona da casa, apresentando-a a Aline. Seu nome era Jaqueline, que estava atolada sobre uma pilha de papéis. Lili sussurrou nos ouvidos de Aline que Jaqueline estudava assuntos referentes a educação de crianças especiais, pois, o filho dela era uma criança especial e tinha dons interessantes. Então, tudo que lhe caía nas mãos era estudado com afinco e amor para que outros pudessem ter uma vida melhor. Ambas passaram a tarde ali, conversando, enquanto Aline observava, aturdida e agradecida, por haver pessoas tão misteriosas naquele mundo hediondo, seres humanos que não tinham vergonha de compartilhar o que tivessem e ofereciam a quem quisesse seus ombros, sua sapiência, suas vidas... Aline sentiu as lágrimas pousarem em seus olhos e agradeceu por ter sua esperança renovada, sua vida retomada e, acima de tudo, por aquelas duas pessoas estarem na vida delas para ensinarem que a força do amor é sempre será a única força que homem ou ser divino algum jamais quebrará.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-3429179044831098224?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/3429179044831098224/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=3429179044831098224' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/3429179044831098224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/3429179044831098224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/alline-e-o-encontro-do-amor.html' title='Alline e o encontro do amor'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-8549157535788366315</id><published>2011-03-23T16:36:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T16:36:12.847-07:00</updated><title type='text'>Os outros no espelho</title><content type='html'>Dia desses, Angelique se olhou no espelho… e chorou. Mais uma vez, ela chorava. E por que ela chorava? Para quê? Ela odiava quando ela olhava no espelho e via além dela os olhos dos outros. Ela era as outras pessoas... mesmo que isto a incomodasse. Ela lia suas almas e suas mentes e via o quanto ela mesma era parecida com todos eles, com os outros. E ela era tão parecida, às vezes, com quem ela não gostava... cada olhar uma história.&lt;br /&gt;Uma vez, foi abordada por um garoto de rua... o braço dela na janela. Ela o encarou e viu a revolta nos seus olhos, a vontade de vencer sem a convicção da força de vontade... "Por favor, moça, senão minha mãe me bate... e também preciso comer. Mas, que porra você pensa que é? Tem carro... tem tudo... e eu num tenho nada!"&lt;br /&gt;Angelique se assustou com os pensamentos que invadiram sua mente. E, de vez em quando, ela também tinha aquelas dores... apanhar do pai não era fácil como parecia e ninguém sabia do seu segredo. E ela olhava para as amigas com namorados, com pais amorosos e chorava porque aquele não era o mundo dela. Ela esticou e deu uma bala: &lt;br /&gt;- É o que tenho...&lt;br /&gt;O sinal abriu e ela partiu para a casa, para o mundo dela com as coisas dela. Eram tantas histórias em sua mente... de gente perdida, de gente triste, de gente feliz... e, de algum modo estranho, aqueles sentimentos também eram dela. Ela era eles todos e eles eram elas. E como poderia ser isto? &lt;br /&gt;Outro dia, estava num bar com um amigo. Os olhos dele brilhavam e ele contava de coisas banais, mas, ela sabia que na alma, no coração ele se realizava, ele se alegrava com o esforço de que as coisas na vida dele iam bem. Ele pensava: "Na verdade, eu queria falar destas coisas, Angel... mas, você sabe que é um segredo meu. Que encontrei uma pessoa que me ama, que estou trabalhando com o que gosto... eu queria dizer isto. Mas, você sabe, não é?" &lt;br /&gt;Ela se volta para ela mesma e lembra dos elogios como dançarina, que a vida, às vezes, acertava com ela. Talvez, um jeito de recompensar as mazelas... e ela sorria feliz porque algumas coisas iam bem. Mas, o pior deles, o mais difícil foi naquele dia em que aqueles olhos não saíam de sua mente... em que eles estavam no espelho. Quem mandou eu ir no hospital? Quem... Burra! Burra! Burra!&lt;br /&gt;Lavínia estava deitada na cama, o rosto inchado de tanto apanhar... algumas costelas quebradas por causa dos chutes. O bebê estava morto mesmo. Ela tentou protegê-lo mas o pai não quis saber de conversa. Lavínia era a amiga que também apanhava do pai, mas, Lavínia dizia que, um dia, iria se vingar daquele porco nojento!!! E Angelique nunca havia dito nada a respeito de suas próprias dores. Mas, Lavínia dizia... o pai descobriu por acaso a gravidez escondida de Lavínia... e Angelique ainda ouvia a voz de Lavínia em sua mente. A amiga dormia, mas, o médico, amigo de sua mãe, deixou-a entrar. Ela passou a mão pelos cabelos sedosos da amiga... o rosto desfigurado... o corpo machucado... e ela ouviu os gritos, ouviu Lavínia em sua agonia: "Não! Pára! Pai!!! Pára... por favor!!! Pára... está machucando!!!!!"&lt;br /&gt;Ele dizia: &lt;br /&gt;- Isto é para você aprender a não ser uma puta! Devia era morrer... você envergonha a família!!!&lt;br /&gt;O irmão chegou e conseguiu retirá-la de lá. &lt;br /&gt;Angelique se olhou no espelho e viu a cicatriz no ombro... a cicatriz que escondia com tanta força. Os ombros jamais ficavam à mostra. Uma vez, o pai tinha um cigarro e na fúria cega ele a queimou tão profundamente que a marcou para o resto da vida. Ela encarava aquela marca e se sentiu mal com as coisas que viu de Lavínia... Merda! Tudo que ela queria era ir para bem longe dali. Ainda bem que seus pais já haviam se separado... e ela estava com a mãe. Melhor que apanhar do pai! Mas, a mãe era fria e fingia não ver os abusos do pai. O problema era ver a alma da mãe, os pensamento e se sentir tão conectada com a mãe tornava impossível o ato de odiar. Como odiar alguém tão igual a si mesma? Angelique era filha única.&lt;br /&gt;O espelho à frente... seu rosto que não era seu rosto. O rosto dela se transformava em tantos rostos diferentes. Em Lavínia com o rosto desfigurado... em um menino de rua... no amigo feliz... em um drogado... em um traficante... em uma prostituta... em mães... em figuras que jamais seriam conhecidas a não ser pelos seus olhos. O espelho ficou embaçado por causa da água quente. Seus olhos se embaçaram por causa de suas lágrimas. Dia de sair... mas, não tinha mais a amiga Lavínia para ir com ela a nenhum lugar. Ninguém ligou naquele dia. Ela sabia onde encontrar seus pseudo-amigos... porque os amigos que sabiam de seus momentos trágicos era nenhum. Ao sair do quarto, sentiu o cheiro do baseado da mãe... a fumaça entremeando por suas narinas. Ela sentia enjôo apenas com o cheiro. Onda ruim demais... ela viu mais do que ela queria... ela viu os monstros das pessoas soltos e indo em direção a ela. Onda muito ruim... Ela pegou a mochila e saiu. Sem se despedir. A mãe não se importava mesmo... e ela ouviu mais uma vez em sua mente: "Sinto-me tão só... só... hahahahahahah"&lt;br /&gt;Angelique também se sentia só no mundo. Largada... Ela ligou o carro sem vontade de sair... apenas o motor se fazia presente naquela garagem. Suspirou e disse: Dane-se!&lt;br /&gt;Estacionou o carro longe para variar! Por que diabos todo mundo vem para o mesmo lugar? Andou no meio das árvores, passou por baixo de dois prédios e chegou no barzinho, onde encontraria a galera. Ela se encostou em uma pilastra e ficou observando as pessoas, indo e vindo... Evitou o contato direto com os olhos. Naquela noite, ela só queria se divertir. Quem sabe, uns beijos e uns amassos? Sexo jamais... a primeira vez sem amor foi estranho... ela lia o sujeito em cima dela, seus pensamentos e se sentiu ruim porque podia sentir o tesão dele... mas, os pensamentos eram egoístas e machistas... Isso mesmo! Mostra pra ela o quanto você é bom! Angelique ficou com nojo... mas, houve uma vez que ela gostou porque era diferente. Ela não conseguia ler nada do cara e ele a levava misteriosamente, brumosamente e ela curtiu e sorriu. Dormiram juntos e abraçados. Ele se foi porque tinha que passar e guardou ele no coração. Tão poucas pessoas viviam em seu coração... Lá estava ela, sozinha esperando, encostada na pilastra, o mundo cheio de gente. Ninguém aparecia... Saco! Tinha que ter ficado em casa! Mas, o cheiro do cigarro na rua era melhor que o cheiro do beque da mãe.&lt;br /&gt;Ela continuava lá quando dois caras começaram a brigar perto dela... Ela estava alheia àquilo tudo... distante, pensando em sua existência. Voltou do seu mundo quando o tiro foi disparado. As pessoas corriam desesperadas e ela foi caindo... caindo... caindo... Ela encarou os olhos do atirador. Eram os olhos do homem que ela guardava em seu coração... o homem que sumiu de sua vida... Ele a encarou também.&lt;br /&gt;"Puta que pariu! Angel... Não!!!"&lt;br /&gt;Ela entendeu que não leu a alma dele porque não quis. Os alertas eram evidentes. Ela não queria se ver nos olhos daquele homem. Ela não queria pensar que queria matar a sua mãe por ser uma fugitiva do mundo. Ela não queria pensar que queria assassinar seu pai em nome de vingança. Ela não queria admitir seus ódios... suas raivas... porque ela queria crer no amor. Mas, ela tinha muito ódio e muita dor em seu coração... uma vontade de bicar seu pai até a morte, de bater na mãe até que esta tomasse uma atitude em sua vida para parar de fugir. Ela viu os olhos dele... os olhos que ela não queria encarar e entendeu que ela também podia ser uma assassina... que ela também queria ter uma arma para estourar os miolos dos que lhe fizeram mal. Ela sentiu o coração dele cheio de ódio quando ele a segurou e ela sentia seu ódio pulsar também. Sentia o sangue quente escorrer pelo seu corpo.&lt;br /&gt;"Eu não queria, minha preciosa Angel... meu Anjo! Não era para pegar você... eu estava me vingando... ele... ele..."&lt;br /&gt;Ele tinha desespero nos olhos. Ela entendeu o sumiço... ela entendeu que não poderiam ter ficado juntos. Ela entendeu que ela também odiava. Ela entendeu que ela também era capaz de matar! Ela entendeu porque as pessoas se odeiam. A imagem que veio em sua mente foi o assassinato de seus pais... um assassinato cruel com uma faca de cozinha... sangue jorrando e espirrando... mas, antes torturaria seu pai... arrancando fora suas mãos e pés e deixaria ele morrer por hemorragia... queimaria sua pele em vários lugares. Viu as mortes que aquele homem fizera. Ela entendia o ódio. Era um justiceiro.. .ele matava pelos inocentes. Só que era ódio que trazia em sua alma. Era a alma dela também... Ela queria mudar o mundo também... ela queria paz também. No entanto, ela precisava conhecer o ódio para conhecer a paz... e ela sentia paz... ela sentia o torpor... ela sentia um escuro aconchegante. Ela viu amor em sua mãe... ela sentiu o útero materno... ela viu o sorriso de sua mão com a barriga grande, as palavras bonitas que ela lhe dizia, que escolhera aquele nome para que os anjos a protegessem. Angelique sorriu... e riu histericamente. Que anjo a protegeu da dor? O tiro pegou na pessoa errada. As luzes passaram rapidamente. Ela estaria sonhando?&lt;br /&gt;Ela viu a mãe com lágrimas nos olhos... paredes brancas, mas, era incapaz de ler o que ela dizia... viu o homem que estava em seu coração... viu muitas coisas além de seu entendimento e voou para longe. Sentiu paz e se foi.&lt;br /&gt;Mas, antes ainda ouviu:&lt;br /&gt;- Meu bebezinho! Desculpe... desculpe. Eu te amo.&lt;br /&gt;A mãe dela agarrava seu corpo inerte na cama do hospital.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-8549157535788366315?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/8549157535788366315/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=8549157535788366315' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/8549157535788366315'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/8549157535788366315'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/os-outros-no-espelho.html' title='Os outros no espelho'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-7199049168102170878</id><published>2011-03-23T16:25:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T16:25:49.605-07:00</updated><title type='text'>Sonhos</title><content type='html'>Durante muito tempo fui acometida por pesadelos, acordava sempre suada e lembrava pouco do que tinha sonhado,ecoavam em minha mente fragmentos; gritos,uma casa com muitos quadros e com varandas que davam para o mar,um mar calmo visto de longe, porém traiçoeiro e tiros. Depois desses pesadelos raramente voltava a dormir, ficava o resto da noite acordada. Houve noites em que nem preguei os olhos com medo de ter estes sonhos que me faziam ficar insone. Numa dessas noites havia uma visita em casa e ela acordou ao ouvir meus gritos. Levantei-me silenciosamente para não acordá-la, porém quando cheguei no corredor ela abriu a porta dando-me um susto. Perguntou se estava bem, pois ouvira meus gritos. Disse-lhe sobre os pesadelos, aconselhou-me que fosse procurar um psicanalista, pois provavelmente eu sofria de algum distúrbio psicológico.&lt;br /&gt;  Alguns dias depois procurei um amigo que era psicólogo e frequentei uma terapia que me ajudou a ter algumas tranquilas noites de sono. Depois de algum tempo ele me aconselhou a tirar alguns dias de férias para que descansasse melhor e voltasse menos estressada. Vinha um feriado,daqueles bem compridos. Uma semana antes do feriado um amigo ligou-me convidando para ir a uma ilha, o pai a comprara fazia pouco tempo,como não tinha planejado nada de especial aceitei o convite. Saímos num barco grande,havia muitos conhecidos, entre eles uma pessoa que deixou marcas em meu coração, mas isto faz parte de outra história. Dentro de poucas horas chegamos, havia o ancoradouro onde atracamos e logo depois deste um estacionamento onde nos aguardava um pequeno ônibus.&lt;br /&gt;  Veio um pensamento estranho em minha mente, de que alguma coisa havia mudado naquele lugar, que antes ali havia árvores altas e frondosas. Ri de mim mesma, como poderia saber que havia algo antes daquele estacionamento? No meio do caminho interroguei o meu amigo sobre aquele lugar.&lt;br /&gt;  - Este lugar foi sempre assim?&lt;br /&gt;  - Não,antigamente,onde era o estacionamento havia algumas árvores e na casa foram feitas pequenas mudanças, pois acho que meu pai vai transformá-la em hotel.&lt;br /&gt;  Um calafrio passou pela minha espinha fazendo com que eu tremesse. Como poderia conhecer aquele lugar se jamais estivera lá? Começava a sentir medo, porém o ignorei, pois estava ali para me divertir e não para ter preocupações.&lt;br /&gt;  - Você está bem?- perguntou o meu amigo.&lt;br /&gt;  - Sim. Por que,Nando?&lt;br /&gt;  - Pensei que estivesse com frio.&lt;br /&gt;  Logo chegamos a casa e fomos acomodados em agradáveis quartos. O quarto em que fiquei tinha uma linda vista para o mar, um mar calmo e azul, suas águas deveriam ser bem límpidas. Depois de um breve descanso fomos jantar e enquanto descia reparei nos quadros, parecia conhecê-los e algo veio em minha mente,parecia vir de um passado distante, risos de crianças brincando naquela escada com corrimão de madeira, degraus largos e tapete vermelho. Achei loucura que pudesse me lembrar de algo que ocorrera naquela casa, deveria ser apenas imaginação.&lt;br /&gt;  Deveria haver umas dez pessoas, pude contar pelos pratos que estavam na mesa. Sentamo-nos e esperamos alguns minutos até que o jantar fosse servido. Comemos uma deliciosa macarronada com vinho, de sobremesa comemos frutas. Logo depois do jantar fomos para uma sala com lareira. Lá, cada um de nós deveria contar uma história assustadora. Tiramos na sorte,eu comecei.&lt;br /&gt;  "Há alguns anos veio morar nesta casa um jovem casal, tinham uma filha e trouxeram a governanta e a filha desta. Durante algum tempo viveram sem problemas, as meninas tornaram-se amigas e brincavam muito na praia e faziam pequenas travessuras na casa. Um dia enquanto tudo parecia estar normal, ouviu-se gritos. Subiram todos correndo para saber o que estava acontecendo. Ela dizia repetidamente que a irmã estava lá e que a mataria, acharam que ela estava louca, pois a irmã morrera, o marido fê-la acalmar-se.&lt;br /&gt;  Cada dia que passava ela se tornava mais louca e o marido mais triste passou a beber, as crianças foram mantidas longe dela até que um dia,num de seus delírios, saiu da casa, entrou no mar e deixou que suas ondas a levassem, o marido num lance desesperado tentou salvá-la, já era tarde,estava morta. Ele passou a beber mais ainda até que um dia ouviu-se dois tiros, ninquém jamais entendeu porque ele atirara no vazio. Da governata ninguém soube o que lhe aconteceu, pois desapareceu logo depois do suicídio do patrão. Diz-se que a alma deste casal ronda pela casa procurando paz para seus espíritos. Alguns pescadores dizem que a casa é mal-assombrada e que já viram luzes acesas mesmo quando a casa estava abandonada."&lt;br /&gt;  Depois ouvimos mais umas duas histórias e devido ao cansaço fomos dormir.Enquanto subia a escada Nando segurou-me pelo braço e me puxou para um canto.&lt;br /&gt;  -Quem lhe contou aquela história?&lt;br /&gt;  -Ninguém.Eu inventei tudo,por quê?&lt;br /&gt;  Vi uma sombra perpassar-lhe pelo rosto,depois de algum tempo de ficar em silêncio,pois parecia estar pensando,respondeu:&lt;br /&gt;  -Esta história que você contou realmente aconteceu,só que você pormenarizou-a.Siga-me,quero lhe mostrar algo.&lt;br /&gt;  Aquelas palavras fizeram meu sangue gelar,algo muito estranho estava acontecendo,mais do que nunca o medo penetrava minha alma como gelo.Segui-o silenciosamente pelo corredor onde haviam os quartos.Chegamos ao final onde tinha um pano tampando algo.Ele o retirou,era um quadro.Havia sido pintado uma mulher,porém o que mais chamava a atenção eram seus olhos,eles tinham um brilho cruel e eu parecia conhecê-los muito bem,por isso não pude evitar um grito.Todo meu corpo tremia até que não aguentando mais,desmaiei.Acordei com um cheiro nauseante penetrando meu nariz.Por alguns momentos achei que tudo não passava de um sonho,mas logo lembrei-me do que acontecera,fiquei muito assustada,todas aquelas pessoas cercando-me.Como todos viram que já estava bem,foram para seus quartos menos Nando,fitou-me por longos segundos e por fim disse:&lt;br /&gt;  -Por que você gritou que ela havia lhe matado?&lt;br /&gt;  -O quê?&lt;br /&gt;  -Você disse que a mulher naquele quadro havia matado você.&lt;br /&gt;  -Por que eu diria tal coisa?&lt;br /&gt;  -Eu sei lá.Foi ela que se matou jogando-se desesperadamente no mar bravio.&lt;br /&gt;  -Nando,sinceramente,eu não sei o que está acontecendo.Eu estou tão confusa.&lt;br /&gt;  -Tudo bem.Agora procure dormir um pouco.Amanhã iremos a praia.&lt;br /&gt;  Tentei dormir,mas assim que fechava os olhos via toda aquela história acontecer.Passei a noite em claro olhando o tempo passar e esperando que os primeiros raios de sol entrassem pela janela.Cada segundo parecia conter uma hora e assim o tempo correu.Logo que o sol apareceu no horizonte levantei-me,tomei um banho de água gelada para espantar os fantasmas que insistiam em me assustar.Fui a primeira a descer para o café da manhã.Tomei-o vagarosamente esquecida do ocorrido da noite anterior.Enquanto tomava um copo de suco,Nando juntou-se a mim,porém nada comentou,pois parecia tão assustado quanto eu.&lt;br /&gt;  Pouco depois todos se juntaram a nós,insistiram muito para que eu fosse à praia,mas preferi ficar,o dia era menos assustador.Depois de todos terem ido,perambulei um pouco pela casa.Descobri que havia uma biblioteca enorme,olhei alguns livros,tinha livros de grandes autores como Shakeaspeare,Aligheri e Dostoiévski.Enquanto me dirigia para o outro lado da biblioteca um livro caiu,era Macbeth de Shakeaspeare,estava aberto na página onde Lady Macbeth amaldiçoava as manchas em suas mãos.Estava marcado por um envelope amarelado pelo tempo,o envelope ainda estava lacrado.Examinei-o,não havia nenhum nome ou endereçamento.A minha curiosidade levou-me a abri-lo.Continha uma carta escrita por mãos trêmulas,em alguns pontos a carta estava manchada como se alguém chorasse enquanto a escrevia.Li e reli várias vezes e mesmo assim não acreditava em suas palavras.&lt;br /&gt;  Era a letra dele,ele escreveu que a irmã gêmea de sua mulher a matara,eles a haviam trazido achando que naquele lugar ela encontraria paz,porém a loucura apossou-se dela,planejou a morte da irmã,fê-la enlouquecer aos poucos deixando-a deprimida e sem motivo para viver.Sim,agora ele sabia que a sua cunhada era louca e a sua loucura continha uma maldade terrível.E,naquela noite ele daria um jeito em tudo,pediu a Deus que o perdoasse pelo que faria,não era por vingança,mas para evitar que aquela mulher malévola fizesse mal a outros.No final dizia:&lt;br /&gt;  "Pego minha arma e espero.Logo ela estará aqui,acha que é minha esposa.Primeiro a matarei e depois coloco a arma em minha boca e assim tudo estará acabado."&lt;br /&gt;  Dizem que fui encontrada na biblioteca segurando um livro e uma carta muito velha e que chorava muito.Deram-me um calmante para que dormisse um pouco.Depois procuraram o telefone de alguém para que pudessem avisar,acharam o telefone do psicólogo na minha agenda.No mesmo dia ele foi para lá,esperou que estivesse mais calma.No dia seguinte ele me hipnotizou,descobriu que eu tinha sido a mulher que se jogara no mar e que minha irmã fora enterrada na ilha pela governanta e esta foi embora o mais rápido que pode.As crianças foram mandadas para um colégio interno.Assim por ansiar que alguém algum dia descobrisse a verdade é que eu sofria de neuroses e os pesadelos eram as lembranças de um passado que deveria ter sido esquecido.&lt;br /&gt;  Assim, fui-me embora daquele lugar e agora estou numa clínica para cuidar de minha alma doente.Talvez nunca chegue a ficar realmente boa,porém agora posso repousar em meu túmulo e nunca mais ser atacada por sonhos maus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-7199049168102170878?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/7199049168102170878/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=7199049168102170878' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7199049168102170878'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7199049168102170878'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/sonhos.html' title='Sonhos'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-1745149101518510253</id><published>2011-03-23T16:24:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T16:24:16.334-07:00</updated><title type='text'>Um conto de fadas no deserto</title><content type='html'>Tânia nasceu no deserto enquanto o sol se punha em cores diversas no horizonte enquanto sua mãe viajava para alguma cidade. Isso é tudo que Tânia sabe sobre seu nascimento. Sua mãe sumiu quando ela ainda era muito pequena e ninguém sabe porque ela partiu e deixou Tânia no vilarejo. Sempre que Tânia vê um pôr-do-sol, lágrimas chegam aos seus olhos como se sentisse falta de alguma coisa indistinta, como se faltasse um pedaço de si mesma. O deserto também parece chamar Tânia toda vez que ela encara a paisagem de areia à sua frente. Ela costuma ver algo mas julga ser uma peça do deserto ou do calor escaldante algumas vezes.&lt;br /&gt;Tânia cresceu sentindo um misto de curiosidade e medo do deserto. Ela parecia saber que o deserto havia enfeitiçado sua mãe. Tânia foi cuidada por um casal muito amigo de sua mãe, que haviam crescido com ela na vila. Os olhares entristeciam quando Tânia encarava o deserto. Eles se abraçavam porque não puderam ter filhos e Tânia havia sido como uma filha para eles. Mas sabiam que Tânia partiria de encontro ao seu destino, às suas respostas, para as lacunas que sua mãe deixara de preencher. Era de praxe que algumas mulheres tivessem que atravessar o deserto, que tivessem que encontrar suas respostas no momento em que suas almas as instigassem. Algumas simplesmente encontravam suas respostas em suas casas, na música, nos temperos. Cada ser humano tinha suas dúvidas e buscas. Não era diferente com Tânia embora ela temesse o que a seduzia.&lt;br /&gt;Então, um dia, Tânia teve um sonho com uma caravana que seguia pelo deserto e ela viu o rosto de sua mãe entre eles. Na verdade, ela nunca soubera muita coisa sobre a sua mãe. Mas ela sabia que a mulher de manto azul no meio dos homens de preto era sua mãe. Sua mãe olhou para trás apenas uma vez enquanto seguia com eles e ela parecia dizer alguma coisa. Seu semblante parecia preocupado. Tânia acordou e seguiu com seus afazeres e ao olhar o deserto sentiu uma vontade de ir adiante, algo a compelia a querer seguir sempre. Ela só sabia que estava na casa de Mosha quando alguém tocou em seu ombro, despertando-a de seu devaneio.&lt;br /&gt;Mosha sorriu e entendeu que era hora de Tânia partir e seguir seu destino, sua vida e buscar as respostas. Mosha a levou para dentro da casa simples de poucos quartos e uma sala aconchegante. Mosha chamou Morad e eles se sentaram à frente de Tânia com olhos tristes, segurando as mãos um do outro.&lt;br /&gt;- Tânia, está na hora de você enfrentar seu destino e ele está no deserto. Foi tudo que sua mãe nos disse. Que, um dia, seu caminho seria trilhar o caminho dos velhos homens do deserto e que você saberia aonde ir. &lt;br /&gt;Tânia não se surpreendeu com as palavras nem se intimidou mas o deserto a assustava.&lt;br /&gt;- Tenho medo.&lt;br /&gt;Morad segurou as mãos de Mosha e ambos sorriram tristemente.&lt;br /&gt;- Querida, nós estávamos preparando as coisas para sua ida... Fiz um manto de pêlo de ovelha para as noites frias.&lt;br /&gt;Morad pegou um bastão timidamente.&lt;br /&gt;- Preparei para você há muitos anos e sempre rezo para que ele cuide de você. Não é o mais bonito nem o mais perfeito mas acho que servirá.&lt;br /&gt;Assim que Tânia terminou de arrumar suas coisas para partir, breves lágrimas apareceram em seus olhos. Ela partiu ao anoitecer, na hora em que ela mais gostava. Não olhou para trás por temer correr para os braços de Mosha e Morad. Eles se abraçaram e choraram a partida de Tânia.&lt;br /&gt;Tânia andou muito até resolver descansar. Já era madrugada quando resolveu dormir mas ela não podia. Seu coração batia muito rápido e as estrelas piscavam acima de sua cabeça. Ela estava com medo do destino que viria para ela. Seria a morte? O deserto mata facilmente... mas ela sabia que não seria isto. No entanto, ela não conseguiu dormir.&lt;br /&gt;A manhã veio e ela caminhou enquanto ainda estava fresco. Logo, o dia esquentou e ela se sentou partindo o pão que Mosha havia dado a ela. Um lagarto se aproximou.&lt;br /&gt;- Você quer um pouco?&lt;br /&gt;O lagarto permaneceu imóvel enquanto ela deixou as migalhas para ele e deu de ombros esperando o momento certo de seguir. Ela permaneceu sentada por muito tempo sentindo a areia sobre suas mãos e sorriu. Ao levantar a cabeça, ela pareceu ver um homem coberto de negro em um cavalo incrivelmente branco. Ela chegou a ouvir o cavalo relinchar e o homem lançou um olhar muito duro para ela.&lt;br /&gt;Tânia havia adormecido e se levantou. Já era hora de seguir novamente pelo deserto, onde seria fácil se perder e onde seria fácil morrer. Ela não queria nem uma coisa nem outra mas a paisagem à volta era desoladora! Areia por todo lado, calor escaldante e um silêncio constrangedor. Ela seguiu adiante e nem se preocupou quando a noite veio. Seus pés começava a doer e aquilo tudo parecia incrivelmente insano. Por que simplesmente não havia ficado na vila? Logo, ela teria que encontrar água também. Novamente, a manhã surgiu no horizonte e por mais algumas horas ela seguiu agarrada já ao cajado que Morad havia lhe feito. Mais uma vez, o meio do dia a fez parar e comer um pedaço de pão. Teria que esperar novamente o entardecer para seguir adiante. Onde estaria a água do deserto? Havia uma lenda que dizia que há uma fonte de água secreta sob a areia e o sol escaldante mas esta água deveria ser bebida apenas pelos bravos e corajosos. Ela riu! Imagine, ela ser agraciada com esta água!&lt;br /&gt;Ela encarou a paisagem ao longe e percebeu um rastro de cobra na areia e ela viu algo indistinto como um raio na areia. Ela se levantou com o cajado de Morad alto. Deveria atacar antes de ser atacada. Seu coração batia rápido e ela estava atenta. A cobra apareceu à sua frente e parecia trazer uma coroa. Ambas se encararam longamente. Tânia se decidia e a cobra esperava. Um momento se passou e Tânia baixou o cajado e caiu ajoelhada na areia.&lt;br /&gt;- Você me quer? Então, venha me pegar. Vou morrer de qualquer jeito.&lt;br /&gt;A cobra partiu e seguiu seu caminho e Tânia caiu ao chão trêmula. Ela olhou para o horizonte e lá parecia estar, de novo, o homem de preto. Desta vez, ele estava de pé e a encarava, apenas observando.&lt;br /&gt;Tânia persistiu em sua caminhada... Ela enrolou o que lhe era inútil e que lhe pesava no corpo. Já não restava água alguma e deixou para trás suas roupas e pertences, levando apenas o manto de Mosha e o cajado de Morad. Por baixo do manto, não havia nenhuma roupa. Lágrimas caíram pelo rosto de Tânia. Nada daquilo parecia fazer sentido mas ela precisava seguir, era tudo que sabia e era tudo que fazia sentido. Não sabia mais nada sobre tempo... havia apenas o pôr-do-sol e aquele sentido insano de seguir. Ela não sabia quanto já havia andado mas já era manhã quando avistou um cactus com uma flor rosa em sua ponta e foi a última coisa da qual se lembrava antes de tudo virar um grande escuro.&lt;br /&gt;Por dias, Tânia delirou na tenda. Por dias, tudo ficou escuro até que ela viu e entendeu que sua mãe era uma filha do deserto e que ela ouvira o chamado da alma de sua mãe. Então, ela abriu os olhos e ela estava em uma tenda sendo cuidada por uma mulher de túnica azul como a dos sonhos.&lt;br /&gt;- Você veio, então! Preciso lhe contar uma história estranha... Quando eu a deixei eu cumpria uma promessa feita ao homem que amo. Ele deixou que eu a visse crescer um pouco. Enfim, ele é seu pai, o Senhor do Deserto. Eu o encontrei por acaso enquanto seguia de uma cidade a outra vendendo meu artesanato. Nossos olhos se encontraram e eu já estava apaixonada. Tente entender, Tânia...&lt;br /&gt;As lágrimas corriam pelos olhos de Tânia.&lt;br /&gt;- Ele também se apaixonou por mim mesmo sendo contra as regras de seu mundo. Então, descobrimos que um ser do mundo do deserto e do meu mundo nos juntaria. Foi aí que você apareceu e agora, seu destino está em suas mãos. Uma vez feita a escolha, não há como voltar. Seu pai a acha uma brava. Ele acompanhou você até aqui. O lagarto, a cobra e a flor eram testes. Você honrou todos os testes de seu pai.&lt;br /&gt;Tânia chorava... os braços de sua mãe, há tanto sonhado ou o mundo de Mosha e Morad? Então, Tânia se levantou em fúria, meio zonza.&lt;br /&gt;- Você foi egoísta! Não, você não pensou em mim... apenas no seu amor! Você nunca voltou para mim. Só para ele. O único motivo para que você me tivesse era para estar ao lado dele... Não! Mosha e Morad me aceitaram sem questionar nada, amaram-me... Você não me quis! Eu vou para o lugar onde existe amor... onde aprendi que isto é tudo que importa.&lt;br /&gt;A mãe de Tânia tinha lágrimas grossas nos olhos quando a escolha foi feita e Tânia estava nos braços de Mosha e Morad quando acordou.&lt;br /&gt;- Você teve uma febre do deserto, querida.&lt;br /&gt;Tânia sorriu. O deserto já não era um lugar tão assustador e Tânia decidiu ir para a cidade para viver uma outra vida e levou Mosha e Morad com ela onde viveram (não felizes para sempre) mas com conforto e amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-1745149101518510253?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/1745149101518510253/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=1745149101518510253' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/1745149101518510253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/1745149101518510253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/um-conto-de-fadas-no-deserto.html' title='Um conto de fadas no deserto'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-4926266891866537351</id><published>2011-03-23T16:10:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T16:10:26.855-07:00</updated><title type='text'>Leandro</title><content type='html'>Leandro acordou e não se levantou... ficou encarando o teto. Ele pensava nas mulheres de sua vida, nas pessoas em que ele via refletido a si mesmo. Naquele momento, a solidão oprimia mais um pouco. Pensou em ficar mais um pouco na cama... olhou as horas no despertador. Não, hora de se levantar. Ele se levantou sem querer levantar. O mundo dele parecia desmoronar como se um maremoto invadisse sua vida e, novamente, tornasse seu mundo destruído. Ele encarou a foto em cima da mesa do quarto. Larissa sorria a seu lado na foto... mais uma que deveria ser uma pessoa que o completaria. E, de novo, ela parecia ir-se sem que entendesse o que havia acontecido. Ele se via nos olhos dela... ela era seu espelho... e a imagem dele nos olhos dela parecia ruir.&lt;br /&gt;Ele fez a barba sem muito ânimo, sem vontade de seguir em frente... ele não entendia como olhar nos olhos dela e não ver nada mais que uma grande amiga... o amor, onde estaria seu amor? Ele a encontraria no almoço e seria um almoço cheio de espaços a serem preenchidos, um silêncio grotesco. Ambos esperando que o outro falasse primeiro. Nada. Silêncio. Um beijo sem muita vontade... beijo para dizer que ainda havia algo. Mas, havia os espaços. Tanto tempo de dedicação... mais um relacionamento que parecia fracassar. Em que ele errara? Em que ela errara? O amor parecia ter se suicidado... o amor deles tinha cortado os pulsos e eles estavam observando, incrédulos em seus olhos. Ele queria dizer que a culpa era dela, tinha sempre que ser do outro. Mas, era dele também porque ele quis agradá-la, ser submisso para demonstrar amor... Talvez, seus conceitos de amor estivessem errados. Tudo tinha que estar dentro de um conceito para ele, em uma matemática perfeita, sem erros. Preto e branco para seus olhos. &lt;br /&gt;Ela almoçou rapidamente porque tinha que voltar correndo para o trabalho. Ele ainda ficou mais um tempo, sentindo o gosto do café. Então, ele a viu entrar pela porta do restaurante... tanto tempo sem ver aquela mulher, que no seu jeito parecia tão confiante e tinha tantos medo e conflitos quanto ele. Ela não percebeu seu olhar... Ele sentiu o coração bater forte e diferente. A ciência exata de sua cabeça deixava de ser exata e sentiu-se ainda mais confuso ao entender que aquela mulher de seu passado ainda fazia parte de sua vida, de sua alma e de seu coração. Então, ela se virou e o viu... ele ficou indeciso em ir até ela. Não precisou. Ela veio em sua direção. &lt;br /&gt;- Sente-se! - ele disse.&lt;br /&gt;Ela hesitou por alguns instantes. Surpresa ainda ter algum sentimento dentro de sua alma. Como alguém ainda podia despertar algo dentro dela? O coração havia morrido... Eles conversaram de banalidades bobas até que os olhos dele pousaram pesados sobre ela. Sofia sentiu o peso dos olhos claros sobre ela e calou-se. Ele pagou a conta e seguiram juntos para o estacionamento cheio de árvores do restaurante. O caminho era estreito e eles se aproximaram por um instante. Se ela se virasse, o beijo ocorreria. Nenhum dos dois estava preparado para isto... &lt;br /&gt;Silêncio desgastante.&lt;br /&gt;- Tenho pensado muito em você...&lt;br /&gt;Ela sorriu, fingindo não ter entendido muito bem, querendo brincar de beijar para ser má, querendo jogar para brincar. Ela resolveu que não. Coração em luto ainda. Cada um seguiu seu destino e sua vida... era assim que eles faziam. Por que tinha que ser assim? Abandonar-se a própria sorte... para encontros fortuitos tardios, em busca de respostas para si mesmos.&lt;br /&gt;Ele dirigiu com uma certa felicidade. Era verdade, ele pensava nela, pensava em sua vida, querendo redimir seus erros com as outras pessoas... pessoas que eram um espelho de sua alma. Por que ele as deixara partir deste modo estranho? Tinha o Maurício, grande amigo que se embrenhou na banda, no trabalho e na namorada que o deixou... Ele também deixou o Maurício, quando escreveu: Stand by me deixou de ter sentido quando entendi que você sumiu... espero que não abandone mais nenhum outro amigo. &lt;br /&gt;Coisas da vida... partir e voltar. Nunca mais soube de Maurício... muitas pessoas haviam passado. Mas Sofia ainda era parte da alma dele, parte de sua história e sorriu ao se lembrar dos olhos dela. O dia não passou exatamente como ele esperava: encontrar Sofia era um sopro de vida, era como ter um raio de sol que andasse constantemente com ele. Ele mal se lembrou de Larissa. Apenas ao encarar a foto dela sobre a cômoda, entendeu a confusão que começava a se instalar e, imediatamente, uma certa culpa se fez presente em seu ser. E agora? Ele queria amar Larissa como sempre amou... e descobriu uma borboleta se instalando na alma, cutucando delicadamente. Era assim que ele queria sentir para sempre, como se borboletas cutucassem sua alma para sempre. Num acesso de raiva, ele virou ela para o tampo da cômoda. Não queria olhos inquisidores em seu sorriso bobo de alegria de um encontro fortuito de almas.&lt;br /&gt;Dormiu feliz... e acordou de novo com a sensação que ele já tinha feito o papel dos outros em sua peça. E se tivesse sido diferente com Sofia? No fundo, ele soube que poderia ter sido... apenas não era o momento apropriado de se libertar borboletas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-4926266891866537351?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/4926266891866537351/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=4926266891866537351' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/4926266891866537351'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/4926266891866537351'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/leandro.html' title='Leandro'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-407770802639199750</id><published>2011-03-23T15:53:00.000-07:00</published><updated>2011-03-23T15:53:42.942-07:00</updated><title type='text'>Paola</title><content type='html'>Paola encarou seu olhos verdes, de novo, diante do espelho: o cabelo estava desgrenhado, estava mal-vestida e não se lembrava do que ocorrera. Sentiu uma vontade de chorar porque não se lembrava nem quem era. Ficou andando, de um lado para o outro. Pegou a escova de cabelo e atirou no espelho. Henrique apareceu esbaforido e viu Paola normal. Ela não tentara se matar, de novo. Ela o encarou com desprezo nos olhos e continuou calada. Henrique queria entender sua esposa. Já fazia tanto tempo que Paola deixara de existir, de certa forma, ela morrera. Estava cansado de cuidar dela.&lt;br /&gt;  Paola se penalizou com a expressão de tristeza de Henrique. Ela queria dizer que perdera sua alma e não tinha língua para contar que desaprendera a amar. Sentou-se em frente do espelho partido. A vida dela era um fragmento, pedaços de sonhos vagos, distantes e distorcidos que se igualavam a brumosas lembranças. Paola se olhou, de novo, e via uma mulher em pedaços (como no espelho), destroçada e que não existia mais... Sentia-se desaparecer, um espectro fraco diante da vida. Paola abriu a janela e um vento gélido entrou junto com os últimos raios de sol.&lt;br /&gt;  “Deus, aonde está a minha alma? Aonde estou?” berrou para si mesma, olhando o crepúsculo que se ia em cores infinitas e variadas.&lt;br /&gt;  Ela pedia socorro para sua alma... e Henrique já exaurira suas forças. Admirava-o por isso mas esquecera o que era amar, sorrir... Em que momento se perdera? Perdera-se de si mesma, perdera-se para o mundo. E em que linguagem diria já que ninguém podia ouvi-la mais? Ela se abraçou. Queria Henrique ao lado, os beijos cândidos do marido. &lt;br /&gt;  Paola se trancafiara ou trancafiaram-na?&lt;br /&gt;  A noite chegou e trouxe os monstros o os medos e Paola resolveu enfrentá-los. Armou-se com os cacos do espelho e os cacos de sua alma penitente. E gritou:&lt;br /&gt;  - Que venham, então!&lt;br /&gt;  E, naquele quarto travou-se uma luta sangrenta e horrenda, indizível para ouvidos humanos. Não há palavras para as cenas daquela noite e Paola estava lá. Nunca mais foi a mesma, claro! Ficaram marcas, mas Paola sobreviveu, não ilesa, mas a vida valia muito.&lt;br /&gt;  Ela abriu os olhos, ainda assustada. Encarou o teto. E sorriu, enfim. Henrique estava do lado, dormindo suavemente. Ela vencera a si mesma naquele obscuro quarto de si mesma. E, agora, estava trancado para sempre. Paola se livrara dos medos e dos monstros indescritíveis que a atormentavam em sua mente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-407770802639199750?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/407770802639199750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=407770802639199750' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/407770802639199750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/407770802639199750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/paola.html' title='Paola'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-7163572807427819154</id><published>2011-03-23T15:52:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T15:52:34.676-07:00</updated><title type='text'>O coração prega peças</title><content type='html'>Andia perscrutou mais uma vez o coração e achou incongruente o que ali se passava. Nenhuma das sacerdotisas eram providas de emoções, uma vez que suas emoções lhe eram extirpadas para o bem maior das Energias de Equilíbrio. Sem emoções, sem erros de julgamento. Não havia a menor possibilidade de haver resquício de qualquer emoção. No entanto, a experiente sacerdotisa andava de um lado para o outro no seu aposento, buscando uma resposta para aquilo que se assomava em seu peito. Nada! Nenhuma resposta! &lt;br /&gt;A manhã chegou e com ela um cavaleiro trazia o pedido de um rei bondoso, que estava em apuros com ataques constantes de seus inimigos. O rei estava ilhado em seu próprio castelo e a velha curandeira falou do mosteiro onde as Sacerdotisas da Ordem Eterna se encontravam. O cavaleiro escapou ao cerco e se aproximou, exigindo uma audiência. Andia sentiu o coração pular uma vez e aquela foi a certeza de que seus sonhos traziam uma verdade que ela não queria ouvir. O cavaleiro falou o nome de Andia e ela foi obrigada a comparecer ao lado de fora do mosteiro, tentando demonstrar calma.&lt;br /&gt;- Sim, o que posso fazer?&lt;br /&gt;- Nosso rei, Senhora... ele precisa de sua ajuda. Amarcala foi específica em dizer que você poderia fazer algo por nós! Estamos sendo atacados em grande escala com armas poderosas, das quais desconhecemos.&lt;br /&gt;- Entendo! – falou Angia como se nenhuma explosão acontecesse dentro dela. No fundo de sua mente, ela se perguntava : o que ela poderia fazer?&lt;br /&gt;O cavaleiro retirou o elmo e Angia percebeu o profundo corte na testa, o cabelo suado e o ar desolado de um homem fiel ao sei rei.&lt;br /&gt;- Senhora, as profundezas do mal estão retornando. Antarion é o último dos grandes reis dos tempos antigos. Sem ele, tudo que conhecemos deverá sucumbir.&lt;br /&gt;“E assim deve ser!” – falaram as vozes dos Velhos Mestres nos ouvidos de Andia. Mas, ela se compadeceu com o cavaleiro, sem que percebesse que seu coração lhe pregava uma peça, que estava caminhando rumo a uma causa perdida devido ao amor que se lhe apresentava no peito. &lt;br /&gt;Adentrou no mosteiro e pegou os poucos pertences que tinha e seguiu com o cavaleiro para a mais feroz das lutas. Com os poderes de Andia, o reino de Antarion resistiu por muito tempo e tempo suficiente para que o príncipe pudesse assumir o controle. Andia lhe foi fiel durante todo o tempo e observava no silêncio de seu coração o príncipe agir de acordo com sua nobreza.&lt;br /&gt;No entanto, quando ele pode assumir o reino, Andia não foi uma opção para seu casamento. Havia alianças a serem feitas e, assim, Andia morreu por amor a uma causa perdida porque ela sabia que Antarion seria de fato o último de sua espécie élfica a reinar naquelas paragens!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-7163572807427819154?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/7163572807427819154/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=7163572807427819154' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7163572807427819154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7163572807427819154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/o-coracao-prega-pecas.html' title='O coração prega peças'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-2891045692390670126</id><published>2011-03-23T14:21:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T14:21:16.199-07:00</updated><title type='text'>Os Cavaleiros da Luz</title><content type='html'>Em nome de Deus foi feita uma guerra de dimensões catastróficas. Nada que o tempo não possa apagar da memória das pessoas que se envolveram diretamente... É uma triste estória que envolve amor, desilusão e destruição e é mais uma entre tantas outras na história da humanidade. Mais uma guerra, mais uma perda para os homens. Basta, então, de divagações. E, bem, vamos à estória, ou melhor, mais um capítulo da história da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Os cavaleiros errantes eram meros fanfarrões, apenas gostavam de se divertir, beber e trepar. Eram cerca de cinco homens grandes com mentalidades infantis, sendo bons guerreiros mas eram tempos de paz em que já não se precisavam de bárbaros lutadores. Cada um tinha inúmeras estórias para contar de seus atos e feitos e gabavam-se disso nas tabernas pelas quais costumavam passar. Vez ou outra, arrumavam brigas que logo eram esquecidas devido às bebedeiras. Cada um deles tinha um algo especial dentro de si e o que, de certa forma, os unia. Willian era um homem que não se deixava levar por paixões, de temperamento calmo e passivo e não gostava de lutar mas era um meio de ganhar a vida e ele quisera aquilo. Todos alertaram para que ficasse no castelo onde crescera mas não queria ser mais um estúpido trancado num castelo sem nada para fazer, sonhava em ser um grande herói e quando dois daqueles homens passaram pelo castelo ele seguiu viagem com eles e levou seu melhor amigo, Henry, um rapazola de cabelos cor de fogo com olhos perspicazes, inflamado em suas paixões, um orador excelente se assim tivesse sido. Alec era um bom líder, complacente quando devia e punidor implacável quando necessário, um homem que trazia no olhar uma frieza profunda como nenhum outro era capaz e, afinal, foi seu coração que o traiu, mas adianto-me... Nunca se soube de onde ele surgiu, uns dizem que era um nobre, outros que fugira de alguma prisão moura, boatos apenas, ele foi e continuará a ser um mistério, só um ser humano conheceu seus segredos mas a morte levou seus segredos que nunca serão revelados. Stuart era um bom homem de coração, que se contentava com pouco, rude e devagar de raciocínio mas em uma luta era um guerreiro como poucos. Ele encontrou Alec numa taberna e combinaram de errarem pelas terras e trabalharem por dinheiro. E, por incrível que pareça, havia um padre astuto e diabólico e inteligente que nunca derramara uma gota de sangue e era o pior assassino! Seu nome? Ninguém nunca soube, só O Padre ou Pater, como era conhecido e foi ele quem levou Alec à ruína. É claro que todos tiveram sua parcela de culpa no ocorrido. Como ele se juntou ao bando? Apareceu do nada pedindo companhia e foi ficando como os outros, era o único vidro no meio dos diamantes, aqueles quatro homens confiavam cegamente uns nos outros porque a vida de um sempre dependeria de outro... Penso em Alec, no amor cego que devotei a ele quando precisei. E nunca reparei que veneno foi cair nas armadilhas da vida... Meu grande amor foi Willian e sempre será... Agora, recosto-me na parede da minha imunda e fétida cela. Continuemos nossa pequena peça que segue com as nossas vidas...&lt;br /&gt;  Uma certa noite, depois de se embebedarem, brigarem e treparem com as mulheres que se encontravam nas tabernas, dormiam como porcos que eram, apenas Pater e Willian estavam desacompanhados naquela noite. Pater porque parecia imaculado e reprovava-os quando exageravam em suas fanfarronices, mas ele era muito mais cruel que qualquer homem jamais sonhou e parecia um anjo ao dormir! Tudo começou quando Stuart levantou-se para mijar, sentiu o corpo quente da mulher ao lado, coçou-se e saiu. E qual não foi seu susto quando no meio do ato vislumbrou uma luz à sua frente, uma luz que não cegava nem queimava. Saiu meio aparvalhado e acordou Alec, que abriu os olhos e pousou a mão na espada, estava prestes a matar o pobre homem quando reparou o estado cômico do outro. Alec acordou os outros com chutes e imprecações e ela ainda estava lá, brilhando como um sol. Aqueles homens temeram a luz, Pater principalmente porque ele não compreendia o significado daquela magia. Eles tentaram destruir a luz com suas espadas, pontapés e socos mas a luz permanecia até se extinguir, desaparecendo no escuro daquela floresta. E, no lugar da luz, apareceu um enorme livro de capa branca e letras douradas. Creio que Willian foi o primeiro a se converter, a sentir a força daquilo. Com lágrimas nos olhos, ele começou a ler mas pouco entendia porque não estudara bastante. Pater aproximou-se e leu em voz alta as mensagens mágicas, tremendo de emoção porque ali estava o motivo pelo qual se tornaria senhor de muitas terras. Os homens ouviam extasiados a beleza que saía da boca podre de Pater. Mas ele apenas vislumbrou o poder e sorriu por dentro. Será que Deus não o tocou nem um pouco? Não, imagino que não. Alec sentiu um tremor interno se apossar dele, o destino estava selado ali, o dele e os dos outros. Henry sentiu o comichão explodir dentro de si e era tudo que Pater precisava.&lt;br /&gt;  - Não vêem? Isso é a palavra de Deus! Fomos escolhidos por Ele para uma Missão e devemos levar estas palavras a outros! Devemos mostrar-lhes a Verdade! Esse é o nosso Deus, a nossa Verdade! Somos cristãos e devemos honrar a Deus mostrando-nos cristãos!&lt;br /&gt;  Willian calou-se porque não fora convertido. Não tinha religião. Alec sentiu um calafrio, naquele instante, pois, farejou perigo e queria ir embora mas eram homens de bons corações e temia por eles, temia deixá-los na mão de um padre insano. Reparou no brilho estranho que os olhos da velha raposa adquiriram.&lt;br /&gt;  - Meus filhos, Deus veio a nós! Então, vamos a Ele!&lt;br /&gt;  Alguém mais teria reparado a insanidade daquele momento? Já era manhã quando se acalmaram. Partiram e cada um pensava no ocorrido a seu modo. Alec decidia-se em ir embora quando Willian se aproximou.&lt;br /&gt;  - Isso é loucura, não é?&lt;br /&gt;  Alec permaneceu em silêncio. Teve medo de responder, foi quando reparou que amava aqueles homens como irmãos e que se sentia responsável por eles, já cometera muitos erros e aqueles jovens não mereciam sofrer e se preciso fosse eliminaria Pater, porém, ele ainda não era perigoso. Antes tivesse cometido o ato criminoso; muitos inocentes ainda estariam vivos, tanta dor teria sido evitada... Agora, é tarde. Como Alec poderia saber? Ele apenas soube quando o caminho já havia sido trilhado e não havia volta.&lt;br /&gt;  Pararam, então, na primeira vila e começaram a pregar a Palavra de Deus. Henry berrava as palavras como um louco, Willian conversava com as crianças, Stuart apenas postou-se ao lado de Alec, rezando pelas almas deles e de todos os homens. Alec observava e Pater sorria por dentro, o poder era seu, mas ele jamais contou que o destino fosse dar voltas... E aqueles jovens serviam a seu sórdido propósito: a glória, o Papado! Finalmente, tudo que desejara em suas mãos! Alec reparou como os dentes de Pater eram podres, como o homem era asqueroso. Os homens humildes e rudes não entenderam aquilo, limitaram-se a olhar para os bárbaros loucos. A noite veio e a taberna não era mais um lugar acolhedor e divertido, recolheram-se cedo. Willian começou a pensar na irmã naquela noite, sentindo a saudade como um punhal que atravessava seu peito, as palavras dela ainda estavam gravadas em sua alma.&lt;br /&gt;  - Você não é um guerreiro. Você tem uma natureza pacífica.&lt;br /&gt;  Mas Willian queria aventuras, conhecer outras terras e, quem sabe, ser um importante cavaleiro lendário. Ele seria uma lenda mas não por feitos heróicos. Sentiu uma apreensão, uma vontade de chorar e viu a irmã rezando por ele. Uma saudade afiada como sua espada penetrou nele, ela ainda o esperava. Creio que Willian foi o único que não atentou contra as mulheres porque via nelas a mim mesma... Voltemos que o tempo urge. Ali, compreendeu que as aventuras, as maiores e melhores, estavam dentro dele. Alec teve sonhos perturbadores que não o deixaram dormir. Henry pressentiu algo no ar e Stuart passou a noite acordado. Apenas Pater dormiu tranquilamente. Cada um, a seu modo, desconfiou do que estava por vir, antes tivessem se tornado vagabundos e ficassem errando por florestas encantadas atrás de cervos! Veio a manhã e partiram. A medida que passavam pelas vilas arrebanhavam jovens sonhadores, que levavam consigo o grande sonho de ser herói. Doce e vã ilusão! Muitas vilas vieram e foram para eles até que começou a opressão do medo. Um velho disse que aquilo era besteira. Henry, enfurecido voou para cima do velho espancando-o e deixando apenas um pedaço de carne humana. Saíram logo dali. Ninguém comentou o incidente mas temiam os próximos dias. Pater vibrava, em seu sadismo, com os espancamentos e as mortes que começaram a vir. Muitos homens debandaram, uns voltaram a suas vilas e lá permaneceram, outros erraram e encontraram suas aventuras... Enfim, são outras estórias. Os Cavaleiros da Luz já tinham canções tocadas por bardos em todos os lugares mas passaram a ser, realmente, temidos depois de um incidente numa vila próxima ao meu castelo.&lt;br /&gt;  Eles pregavam a palavra do Deus deles, um Deus covarde e pequeno, quando um jovem disse que aquilo não interessava seu povo, que fossem embora porque eles eram a escória do inferno. Henry trespassou a espada no corpo débil e fraco do jovem camponês. Os homens e mulheres partiram em auxílio da criança já morta e em defesa própria, e numa fúria cega e assassina, mataram todos os homens, crianças e mulheres e saquearam o que podiam dos corpos e das casas, queimando aquele lugar, por último. Dizem que foi um triste espetáculo encenado por atores cruéis. Será que aqueles homens não tinham respeito pela vida humana? E prosseguiram seu caminho no silêncio profundo de si mesmos. Aquilo os abalara, abalara a confiança que tinham neles próprios. Matar por dinheiro ou por ideais era uma coisas. Assassinar era outra. Uma nuvem de culpa pesava sobre suas cabeças e já não importava matar ou morrer. Pater sentiu que eles escorregavam por seus dedos e sentindo o desânimo resolveu consagrá-los os Protetores da Luz, os Cavaleiros Elevados da Luz e rezaria por eles a cada luta travada, purificando desse modo suas almas e, assim, Deus os perdoaria porque estariam trabalhando para Ele. Nada que algumas palavras em latim não fizesse; alimentar esperanças e sonhos em almas jovens e comprometidas. Os rumores dos Cavaleiros começavam a chegar até mim e sentia meu peito oprimido. Suspirava e sofria pelos cantos do castelo. Rezava por Willian, pedia a um Deus clemente e justo que salvasse sua alma. Onde meu caro irmão estava? Doía-me saber que sua alma estava perdida para Deus. Esses homens não hesitavam ao sacarem suas espadas para cortar cabeças inocentes menos ainda para atacar jovens indefesas e frágeis. Não desejava ver no que Willian se transformara e meu coração chorava, que Deus cuidasse dele e guiasse seu caminho! Onde entro nessa sórdida estória? Paciência, logo chegarei neste obscuro detalhe.&lt;br /&gt;  E, apesar de saberem que não deveriam, creram em Pater, afinal, era o único que não derramara sangue. Mesmo assim, estavam cansados e desestimulados, precisavam parar. Onde? Estavam perto do castelo e há um bom tempo Willian desejava vir me ver. Propôs isso ao grupo. A princípio, o velho não aceitou mas pensou que, num castelo, poderia fornicar à vontade e se enredou pela idéia ou, pelo menos, fingiu assim. Willian não se sentia bem com o que andara fazendo e queria um lugar para achar sua identidade, para resgatar a si mesmo e logo, um regato para pousar sua cabeça, para ser protegido. Logo, soube que vinham para o castelo. Titânia vibrou ao saber que veria o irmão e eu me preocupei, ao mesmo tempo que ansiava aquele encontro eu queria fugir dele. De certa forma, parecia saber o que estava prestes a acontecer. Deus tivesse piedade de nós!&lt;br /&gt;  - Vamos preparar um banquete!&lt;br /&gt;  - Não, Titânia.&lt;br /&gt;  Ela ficou irritada.&lt;br /&gt;  - Por quê?&lt;br /&gt;  - O inverno se aproxima e não temos provisões extras. Muitos já partiram com medo, outros morreram, há a doença e os que nos são fiéis é minoria.&lt;br /&gt;  Ela não se convenceu. Quando Titânia queria ouvia o que lhe interessava, apenas. Suspirei olhando pela janela e senti sua falta. Vi a morte rondá-la e desisti de argumentar. Titânia era inteligente e perspicaz mas não entendia que, por saber ler e escrever, os homens nos temiam. Quando nosso pai morreu fui encarregada de cuidar dela.&lt;br /&gt;  - Então?&lt;br /&gt;  - A resposta é não.&lt;br /&gt;  - Mas você pode curar os doentes.&lt;br /&gt;  - Titânia, quieta!&lt;br /&gt;  Era verdade que poderia curá-los, mas não era o momento. Havia muitos espiões rondando o castelo e qualquer erro estaria na fogueira. Mas o destino é implacável! Passei a mão pelos sedosos cabelos de Titânia, ela recuou. De novo, a saudade veio até mim. Amava aquela criatura e faria qualquer coisa por ela, até matar por ela.&lt;br /&gt;  Willian não parava de falar quão boa pessoa eu era. Isso irritou Pater deveras. De novo, sobreveio um estranho silêncio, uma sensação de ar pesado e que aumentou a medida que se aproximavam do castelo. Eles chegaram no meio da noite. Titânia estava dormindo mas eu estava acordada e apreensiva, queria ver Willian logo e vi a caravana chegar. Recepcionei-os como aprendera e meu coração estava cortado ao olhar Willian; ele perdera o brilho nos olhos e tornara-se um homem triste. Não pude deixar de reparar no homem louro e forte, líder do grupo. Henry continuava o mesmo menino inconsequente e divertido. Ao ser apresentada a Pater senti uma enorme repulsa que fez meu estômago revirar. Acomodei-os e, finalmente, pude conversar com Willian em particular, entretanto, em certas ocasiões, as paredes tem olhos e ouvidos e aquela era uma dessas ocasiões. Willian veio para me abraçar e o acolhi friamente para desespero do meu coração. Não sei como consegui dizer as palavras que proferi.&lt;br /&gt;  - Sou tua irmã e como tal eu o recepciono e a teus amigos mas quero que saibas que não sois bem-vindo aqui. Ouvi os rumores do que tens feito. Quero que saibas que ficarás o quanto quiserdes mas que sejas breve em tua estada e cometam um erro e estarão todos fora daqui.&lt;br /&gt;  Willian me olhou perplexo e voltou-se para a janela do aposento.&lt;br /&gt;  - Não tenho sido um bom homem. Nunca imaginei que seria um assassino e carrego essa culpa comigo. Pensa que não preferia ter ficado? Já ouvi canções a nosso respeito. Assassinos de Deus! Eu posso ouvir as pilhérias dos outros porque não me conhecem, não sabem como cada um de nós sente mas de ti? Tu não me respeitas mais!&lt;br /&gt;  As lágrimas chegaram aos meus olhos. Eu o destruíra.&lt;br /&gt;  - Amo-te!&lt;br /&gt;  Ele se virou para mim com um desespero que nunca vira em seus olhos.&lt;br /&gt;  - Não me orgulho do que sou!&lt;br /&gt;  Era tarde. Eu sabia disso e ele também. Ele me beijou. Por isso, quis que ele se fosse. Não suportaria vê-lo com outra! Não suportava quando, através dos meus sonhos, via-o nos braços de outras mulheres. Aquilo que sentia era pecado e era errado. Ele me soltou e segui para meu quarto. Lá, Titânia me repreendeu.&lt;br /&gt;  - Como pôde? Ele é seu irmão! Sabe o que pode acontecer a você?&lt;br /&gt;  Limitei-me a baixar a cabeça e deixar as lágrimas rolarem. Fracassara, como rezara a Deus para que conseguisse ser mais forte que aquilo! Não tinha como responder. Ela se consternou, chegou a mim e passou sua delicada mão sobre meu rosto.&lt;br /&gt;  - Você sabe o que faz. Toma cuidado, apenas. Agora, eu sei porque nunca se casou. - E me deixou na solidão dos meus aposentos.&lt;br /&gt;  Titânia, às vezes, era uma mulher madura e feita. Talvez, tenha sido isso que atraiu Alec para ela; o jeito inocente que ela parecia ter aliado a sua maturidade, a sua sabedoria! No dia seguinte, eu os ouvi conversar. Alec também ouvira minha conversa privada com Willian, mas eu não soube até ser tarde. Havia ainda um terceiro par de ouvidos espreitando e reparei em seus olhos maldosos ao passar, estava encoberto pelas sombras.&lt;br /&gt;  - Por que uma mulher bonita como a senhora não se casou?&lt;br /&gt;  Não respondi mas percebi a malícia e segui meu caminho, tinha muito o que fazer para dar ouvidos a um velho asqueroso como aquele. Ia trabalhar e rezava pedindo a Deus que me desse forças. Encontrei pouco Willian, evitava-o como ele também me evitava. Henry e eu nos divertíamos muito, então, sentira falta do seu jeito espirituoso e brincalhão. Ele me permitia esquecer um pouco o amor ferido que sentia, o desejo incontrolável que tinha de correr para os braços de Willian e ele nos observava, ao longe. Onde tudo nos levaria? Agora, eu sei que trilhas fizemos. Vi também o amor florescer nos olhos de Titânia, o respeito mútuo que havia entre ela e Alec. Seus olhares encantados me traziam imensa alegria porque eu sabia que Alec era um bom homem, afinal. Queria comemorar mas eu me prometera não fazer festa alguma com aqueles homens. Não era por mim, porém, não queria comprometer Titânia e os poucos que nos restaram como fiéis servos sofreriam as consequências.&lt;br /&gt;  Um dia, estava só na cozinha separando grãos, ouvindo o crepitar suave do fogo que fervia a água, a luz do fim de tarde penetrava na cozinha suavemente e cantava uma canção que aprendera na infância. Willian entrou furioso.&lt;br /&gt;  - Você está fornicando com ele?&lt;br /&gt;  Não levantei minha cabeça.&lt;br /&gt;  - Não. Você sabe disso.&lt;br /&gt;  Estávamos nos tratando mais intimamente, parecia-me uma boa coisa. Ele me pareceu aliviado ao ouvir minhas palavras.&lt;br /&gt;  - Então, o que há?&lt;br /&gt;  Encarei-o. Como ele podia duvidar de mim?&lt;br /&gt;  - Nada. Ele apenas me diverte e me faz esquecer da minha dor. Você sabe que fiz um voto de castidade perante Deus, Wil, e nada me faria mudar de idéia. Você foi testemunha disso, lá na capela.&lt;br /&gt;  Silêncio. Vi o sofrimento nos seus olhos, o desejo consumindo-o. Antes, eu fosse pecadora! Creio que, para ele, seria mais fácil. Poderia me odiar e me amar menos. Ele se foi triste e angustiado. Se tivesse permanecido encarando seus olhos teria chorado. Voltei ao meu trabalho com os grãos. Suspirei. Ele sabia mais de mim que qualquer outro ser no mundo. Senti um vulto às minhas costas mas permaneci separando os grãos, eram tantos... E divagava ao olhá-los, que cada um de nós era um grão. Então, de repente, fui agarrada. Os grãos caíram no chão. Ouvi Henry sussurrar em meus ouvidos. Consegui me desvencilhar dele rapidamente. Sabia que Pater tinha algo a ver com aquele ataque repentino de Henry. Willian apareceu devido ao barulho e segurou Henry pelo pescoço.&lt;br /&gt;  - Se a tocar, de novo, não hesitarei em matá-lo! - rangeu entre os dentes. A fúria assassina em seus olhos. E ele falava sério. Pobre Henry! Ficou tão assustado que estava à beira das lágrimas.&lt;br /&gt;  - Solte-o! Que vergonha, Wil! Ele é seu amigo.&lt;br /&gt;  Acho que ele entendeu que havia algo mais ali e soltou Henry permanecendo na cozinha. Levei-o para perto do fogo para mexer os ingredientes que borbulhavam no caldeirão. Sussurrei em seus ouvidos.&lt;br /&gt;  - Pater tem algo com isso. Ele é um homem perigoso.&lt;br /&gt;  Wil ficou tenso, senti a fúria assassina ressurgir em seus olhos.&lt;br /&gt;  - Não. Morreremos os dois. Eu sei me cuidar. Preocupo-me com Titânia.&lt;br /&gt;  Contei a ele de minha visão, seu semblante demonstrava sua preocupação, ambos amávamos Titânia, ela nos unia, de certo modo, e ela era um dos motivos pelos quais eu queria viver. Fiquei olhando a água ferver e suspirei. Ao me virar vi meu pai, a expressão serena e calma daqueles que morreram e estavam no Paraíso de Deus.&lt;br /&gt;  - Tenha calma, filha. Você será posta à prova na sua fé. E, creia-me, Deus não tem lado.&lt;br /&gt;  E foi-se, brumoso como viera. Saí aturdida da cozinha quando senti mãos me puxarem e me agarrarem tapando minha boca, ouvi a voz asquerosa sussurrando em meus ouvidos.&lt;br /&gt;  - Sei que você quer experimentar os prazeres da carne...&lt;br /&gt;  Lambia minha orelha e passava a mão pelo meu corpo. Bati com toda minha força e cuspi naquele homem nojento. Já escapara de coisas piores.&lt;br /&gt;  - Se encostar outro dedo em mim está morto.&lt;br /&gt;  Temi naquele instante. Uma tempestade se aproximava lentamente, era o nosso destino selado em nome de Deus, e ela desabou em nossas cabeças no dia seguinte. Titânia estava na estrebaria quando começou a gritar. Eu alimentava os animais e corri para onde ela se encontrava largando o balde de comida num impulso desesperado. Para meu infortúnio, Alec chegara primeiro e destroçava Pater com os punhos. Quando vi Titânia ensaguentada e entendi o que ocorrera peguei uma adaga e desferi golpe atrás de golpe naquele velho asqueroso, nojento e repulsivo! Minhas mãos estavam ensanguentadas e meu vestido e meu corpo. Justo eu, que já curara assassinos, estupradores e prostitutas! Tiveram que me retirar de cima do corpo inerte e ensanguentado. Eu era uma assassina! Não diferia em nada daqueles homens, de Wil. Com certeza, os espiões da Igreja já se tinham ido para fazer seu serviço de delatores. Wil me olhava desesperado. Henry estava espantado e Stuart chegara mais tarde e não entendeu o que se passara. Titânia, onde estava? Caída ao chão com o sangue se esvaindo de seu corpo! A pele já estava pálida. O velho asqueroso a machucara retirando dela sua vida, seus anos vindouros de glória! Antes tivesse sido eu! Não tinha problema, eu cuidaria dela. Comecei a dar ordens para que a levassem com cuidado para seu quarto mas ela me chamou. Ela sorriu.&lt;br /&gt;  -Não. Vá embora. Você deve ir...&lt;br /&gt;  Alec a segurava com lágrimas nos olhos. Ele a amava imensamente, via em seus olhos.&lt;br /&gt;  - Eu posso curá-la...&lt;br /&gt;  - Eu sei mas devo ir-me. Chegou a hora... Alec, amo você...&lt;br /&gt;  As lágrimas explodiram em mim, chorei como uma criança, nada mais poderia ser feito. Titânia estava morta. O velho assassino também e eu seria queimada. Eu falhara em todas as coisas. Tudo que amava fora arrancado de mim de forma brusca e violenta. Não podia tocar o homem que amava... Olhava, pela última vez, minhas terras, o lugar pelo qual dera a vida. Lembrava as festas que os camponeses davam, eram festas alegres e divertidas e estava tudo acabado! Wil se aproximou e ficou atrás de mim, contemplando também.&lt;br /&gt;  - Agora, você sabe.&lt;br /&gt;  Sim, eu sabia o que era matar. Ele me abraçou e me deixei ficar. Sentia o desejo latejando nele e em mim. Virei-me, o brilho nos olhos dele era o desejo de me possuir. Não mais importava a minha promessa de jamais ser de outro, sempre seria dele, meu coração sempre estaria com ele e ali, tive certeza de que, um dia, voltaria àquele lugar. Nós nos beijamos sem proferir palavra. Não era preciso. Então, meio trêmula, com medo e desejo, eu me entreguei ao meu irmão. Senti-o dentro de mim e ele me guiou, de modo gentil e delicado, por aquele caminho que eu não conhecia. O prazer me invadiu, eu olhava em seus olhos e via seu amor e sua dor, seus medos e meus temores. O amor era a força que nos unia, a única verdade naquele momento mágico. Finalmente, dormimos enlaçados, no chão. Chorei de medo, de prazer, de tristeza, de alegria. Chorei por todos os motivos. Amava meu irmão muito além de mim mesma, muito profundamente que não entendia. Ainda chorava quando Alec entrou e pediu que ele se retirasse. Ele me beijou a face suavemente e veio um nó na garganta forte; uma vontade de gritar insana... Wil saiu e apenas olhou uma vez para trás. Se tivesse visto seus olhos ter-me-ia ido com ele. Alec deitou-se em seu lugar e senti o buraco em meu coração. Ele me abraçou para fingir melhor mas a dor era profunda demais. Acho que ele sofria ao seu modo e era um suicídio o que ele fazia, a morte era o estancamento da dor. Pouco me lembro do que ocorreu em seguida. Sei que a porta foi aberta, acusaram-me de bruxaria, de ter pacto com o diabo, de fornicar com o mesmo e tantas outras coisas fantasiosas! Não fui torturada por ter um nome respeitado. Pobre Alec! Cuido dele como posso quando o trazem para este nosso novo lar. Seu corpo se resume a uma papa de sangue e carne. Muito o culpei quando Titânia morreu mas agora eu o amo. Todos escolhemos nossos papéis nessa nossa comédia humana! Ele suporta tudo sozinho e calado. Ele me ajuda a ter fé e eu o ajudo com as feridas. Choro ao ver seu estado lastimável e rezo por ele. Os guardas tentam me calar, que uma bruxa suja como eu não deveria blasfemar. Que Deus os proteja, que tenha piedade de nós todos!&lt;br /&gt;  Wil fugiu com Henry naquele dia. Stuart virou um padre, talvez, ele fosse o único que entendesse as palavras do Livro de letras douradas. Dentro de mim, sei que os verei de novo. Consigo vê-los na minha mente. Alec e eu não morreremos neste lugar fétido, tenho rezado todos os dias no silêncio da minha alma. Parece que tudo aconteceu há anos e não faz muito tempo minhas terras foram confiscadas e Titânia morreu. Hoje, um bispo, antigo amigo de meu pai, visitou-me. Vi em seus olhos que ele nos tirará daqui. Havia algo em seus olhos, uma emoção ao me ver, que não entendi. Estão levando a mim e a Alec para a fogueira, seremos queimados em outra cidade maior para que o povo possa ver os pecadores! Estamos amarrados em uma carroça, a presença da morte não me incomoda, sinto uma paz e calma profundas. Alec já estará morto há muito quando chegar a fogueira. Ouço sons estranhos de corujas e, de repente, saqueadores saltam sobre nós e matam a todos menos a mim e a Alec. Obrigada, Bispo, seja lá quem for.&lt;br /&gt;  Fugimos para a floresta e vivemos nela. Aqui, nada pode nos machucar. Ajudamos, vez ou outra, os maltrapilhos e os homens perdidos que por aqui passam. Tememos os homens da Igreja mas os evitamos o máximo possível porque sua ira ainda paira sobre nossas cabeças por termos fugido. Alec voltou à forma após fugirmos e caça para adquirir carnes para os invernos que nos assolam. Eu recolho ervas e plantas comestíveis e preparo provisões. Conversamos pouco sobre o que aconteceu, as feridas ainda estão abertas. Aprendi a amá-lo. Nunca tivemos um envolvimento maior do que há entre amigos mesmo quando dormimos juntos para aquecer nossos corpos. Cuido dele quando está doente, entretanto, sei que gostaria que o deixasse morrer para encontrar Titânia. Às vezes, quando delira ele chama por ela. Apenas uma vez fiquei doente e ele cuidou de mim usando as ervas, ele aprendeu apenas vendo-me colhê-las e aplicá-las. Ele diz que delirei com a febre, mas lembro-me nitidamente de ver Willian e Henry, eles estavam no castelo. Willian ainda trazia uma profunda tristeza dentro de si e se perguntava aonde eu poderia estar. Henry, por sua vez, estava mais maduro e contente, menos afobado... e a saudade bateu como uma dor latejante... E senti dentro de mim um impulso de partir mesmo amando nossa pequena choupana, que construímos com nossas mãos. Respeito Alec e confio cegamente nele, aprendi isso e compreendi porque os homens respeitavam aquele homem que parecia ter uma armadura na alma. A única pessoa que penetrou, que retirou essa armadura está morta. Creio que Alec também sente o ímpeto de partir. O inverno nos fez coisas terríveis, quase morremos de frio, no começo, e sobrevivemos a isso e a tantas outras coisas terríveis e cruéis.&lt;br /&gt;  Creio que o que me mantinha viva era que eu cria que ainda veria os olhos de Wil uma vez mais e sabia que ainda era mais que isso, que havia motivos desconhecidos por mim para que eu tivesse esperanças. Um dia, na primavera, eu colhia plantas quando vi Titânia, brumosa e luminosa. Ela sorriu e meu coração parou. Caí ajoelhada e chorei suavemente. Ela passou a mão pelo meu rosto e me deixei ficar ali. Era hora de partir, de abandonar aquele lar tão amado... Corri para casa com lágrimas nos olhos. Alec estava sentado e pensativo. Preparei o jantar. No meio da sopa, ele me encarou.&lt;br /&gt;  - O que foi?&lt;br /&gt;  - Vi Titânia.&lt;br /&gt;  Seus olhos se encheram de lágrimas, os meus também. As emoções começavam a aflorar dentro de nós depois de tanto tempo.&lt;br /&gt;  - Tem uma coisa que quero lhe dizer há muito tempo mas nunca tive coragem.&lt;br /&gt;  Ele ia me agradecer.&lt;br /&gt;  - Amei Titânia com todo meu coração e meu ser mas ela passou e você ficou. O que estou tentando dizer é que eu amo você por tudo que você fez, qualquer outra mulher teria me abandonado para me deixar morrer. Você ensinou Titânia o melhor que tinha dentro de si e a respeito imensamente por isso e porque você também me ensinou a ser suave mesmo sendo forte e por ter me suportado com meu silêncio e minha dureza durante todos estes anos.&lt;br /&gt;  Ele segurou minha mão naquele momento. Alec era outro homem, mais suave e mais delicado, todavia, ainda levava a frieza nos seus olhos, mas que homem não levaria? Eu chorei por ouvir aquilo. Também o amava e ele sabia que eu devia ir-me. Agradeci a Deus mais aquela dádiva maravilhosa como vinha feito todos os dias durante aqueles anos. Alec me abraçou e dormimos juntos pela última vez. Pela manhã, ele me comunicou que iria comigo.&lt;br /&gt;  - E a casa?&lt;br /&gt;  - Este não é um bom lugar para morrer sozinho.&lt;br /&gt;  A partir daquele momento éramos mais que amigos, mais que amantes, éramos companheiros. Andamos de mãos dadas, dormimos ao relento e rimos muito. Eram outros tempos. Os tempos difíceis, de morte, haviam passado. Nas noites estreladas recostava-me em seu peito e conversávamos como nunca havíamos feito. O tempo passava e urgia que encontrássemos um lugar para ficar durante o inverno. Em nossa caminhada, avistamos dois falcoeiros, homens vestidos nobremente. Queríamos informações e nos dirigimos a eles. Um deles tinha o cabelo cor de fogo. Meu coração se acelerou, sabia que era Henry, mais velho, como sempre o imaginara! O outro só podia ser... Meu Deus, tantos anos que esperei por aquele encontro! Apertei a mão de Alec com mais força e caminhamos na direção deles.&lt;br /&gt;  - Disse que hoje não seria um bom dia.&lt;br /&gt;  Ele se virou para nós.&lt;br /&gt;  - Pois não?&lt;br /&gt;  Olhei-o nos olhos, as lágrimas no rosto, a voz embargada sumida dentro de mim.&lt;br /&gt;  - Suzanne? Deus do céu!&lt;br /&gt;  Ele correu para mim e me abraçou beijando-me os olhos, meu rosto, minha boca. Henry nos olhava abismado até reconhecer a mim e a Alec. Eles se abraçaram reconhecendo-se como amigos. Wil me colocou no cavalo e me levou de volta ao castelo.&lt;br /&gt;  - Consegui retomá-lo graças a amigos influentes da época em que peregrinava como cavaleiro.&lt;br /&gt;  Não conseguia proferir palavra, estava muda de emoção.&lt;br /&gt;  - Vo... vo... você se casou?&lt;br /&gt;  Ele queria dizer se eu e Alec estávamos juntos. Olhava pela mesma janela, o mesmo aposento.&lt;br /&gt;  - Não. E você?&lt;br /&gt;  - Não.&lt;br /&gt;  Ele se virou bruscamente para mim.&lt;br /&gt;  - Esperei por você. Sabia que ia encontrá-la. Naquele dia em que fui embora prometi a mim mesmo que só seria de uma pessoa, que só pertenceria a você.&lt;br /&gt;  As lágrimas voltaram aos meus olhos. Mesmo com tudo isso ele parecia frio e distante. Ele se aproximou.&lt;br /&gt;  - Limpe-se, coma algo e descanse. Preciso conversar com você.&lt;br /&gt;  Fiz o que ele pediu, as lembranças nítidas em minha mente. Deram-me roupas limpas e frescas. Descansei no meu antigo quarto e senti sua presença observando-me mas quando acordei já se tinha ido. Segui para a cozinha e nada havia mudado, talvez, por causa das lembranças porque o tempo faz mudanças imperceptíveis. Eu me sentei e ainda lembrava dos grãos, da luz... Ele me encontrou ali e dessa vez a conversa não era velada, não havia olhos nem ouvidos nas paredes. E ele estava nervoso como se os olhos e ouvidos existissem.&lt;br /&gt;  - Tão logo saí dos aposentos, recebi um envelope que continha uma carta de meu pai e...e...&lt;br /&gt;  Fiquei esperando. Ele me entregou uma folha amarelada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  “Querido Willian,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     preocupo-me com o rumo de sua vida e de Suzanne já que vejo uma chama arder entre vocês. Foi um grande erro não contar a verdade para vocês mas não imaginamos que chegariam a se apaixonar! Víamos isso com crescente preocupação. Estou em meu leito de morte, sua mãe já se foi. Então, perdoem a mim e a sua mãe. Suzanne não é nossa filha. Ela é filha de uma serva e amiga muito cara de sua mãe, que engravidou de um homem poderoso da Santa Igreja. Para que esta pobre mulher não caísse em desgraça tomamos Suzanne por nossa filha já que a pobre criatura morreu no parto. Com isso não quero dizer que não ame Suzanne, apenas digo a verdade. Era hora que vocês soubessem para que pudessem ser felizes. Abençôo sua união. Desejo felicidade a ambos.&lt;br /&gt;  E se, algum dia, precisarem de um bom amigo procure o Bispo que frequenta nossa casa. Suzanne não o conhece, mas ele é seu pai. Ele sempre teve o cuidado de evitá-la ao nos visitar. Tenho certeza de que ele os ajudará com qualquer problema que possam vir a ter. Ele é um bom homem, acho que Suzanne herdou suas qualidades como pessoa que é e tenho certeza de que ele também se rejubilará com sua união.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Estava sentada, aos prantos. Ele se sentou ao meu lado, olhou nos meus olhos com um sorriso meio triste. Não havíamos pecado. Toda culpa se dizimou naquele momento mágico. Ele segurou meu rosto entre as mãos e me beijou. Quanta dor ele deve ter sentido! Ele sabia a verdade e qual não deve ter sido seu desespero ao saber! Eu já estava longe de suas mãos! E, mesmo longe, ele cuidara de mim, amara-me! Santo Deus! Ali, naquela cozinha, ele se ajoelhou e me pediu em casamento. Aceitei-o como esposo e amante. Antes, porém, também precisei me redimir. Olhei em seus olhos.&lt;br /&gt;  - Wil, jamais poderei lhe dar filhos. Naquela única vez...&lt;br /&gt;  Ele lembrava com toda dor ainda presente.&lt;br /&gt;  - ... eu engravidei e a criança foi expelida de mim por...&lt;br /&gt;  Ele sabia e colocou o dedo em meus lábios abraçando-me forte para que a dor passasse e deixou que extravasasse o desespero pungente que não chorara quando devia. Stuart nos consagrou marido e mulher. Mudei meu nome para que Suzanne fosse morta e devidamente enterrada, a meretriz devia ser esquecida! Alec tornou-se um peregrino, era seu modo de aplacar a dor, vez ou outra, ouvimos notícias suas.&lt;br /&gt;  Apesar da dor já ter passado, da culpa e do horror terem nos abandonado, carregaremos em nossas almas nossas estórias pessoais, o que fomos e o que deixamos como legado. Os Cavaleiros da Luz não foram esquecidos e nem o devem ser. Cada um daqueles homens, a seu modo, aprendeu o caminho, mesmo Pater pôde ter tido uma lição. Eu o perdoei, afinal, já passou. Deus permanece e é preciso não falar seu nome em vão. Os Cavaleiros da Luz o fizeram. E em nome desse Deus saquearam, estupraram, mataram e torturaram tudo e qualquer coisa que não fosse adepta de sua doutrina, da Luz, do seu Deus divino. Assim, os Cavaleiros dizimaram muitas vilas e selaram seus tristes destinos em nome de Deus.&lt;br /&gt;  Somos livres e cada um deve agir de acordo com sua consciência. Eu agi de acordo com a minha; matei um homem, amei outro que achava ser meu irmão e fiz tantas outras coisas que carrego como pedaços meus. Enfim, fiz tudo certo, de acordo com os ensinamentos de Deus e da Bíblia. Por isso, considero-me uma boa cristã. Não tenho filhos, o único que poderia ter tido morreu sem nascer. Não importa. Alec, eu, Wil, Henry, Stuart, Pater e Titânia continuaremos a existir porque viemos a este mundo, deixamos nossas marcas nele e espero que os homens entendam que os passos adiante são importantes. Espero que a humanidade possa tirar algum proveito dessas vidas senão teremos vivido em vão. Digo que agradeço a todas as experiências porque estou viva para contá-las a outros homens e mulheres e aos filhos destes.&lt;br /&gt;  Sobrevivi por, pela e através da esperança de rever Wil, pelo amor que dedico e dediquei a ele. Foi esse pequeno fio de luz que me fez vencer os desafios dos tempos difíceis, quis apenas olhar mais uma vez em seus olhos... E Deus me deu a graça divina de permanecer ao seu lado para o resto de nossas vidas. Fiz bons amigos como Alec e Henry, que estão no meu coração e sempre os levarei com amor profundo e grato. Titânia e meu pai estão no Paraíso. Nunca mais vi o Bispo mas sou profundamente grata a ele porque soube de seu amor paterno pela única troca de olhares que tivemos e tenho certeza que Wil arriscou muito para me tirar daquela latrina. Ambos arriscaram posições e suas reputações por mim. Eles jogaram um jogo arriscado e desesperado por amor a mim e agradeço a Deus por este amor sincero e puro que a mim foi devotado em confiança.&lt;br /&gt;  Wil está ao meu lado na missa de consagração a Cavaleiro de Henry, um Cavaleiro de verdade. Aprendemos todos, apesar dos cortes profundos. Choro porque tive uma vida difícil, cheia de lutas, porém, feliz. Amo Wil e pretendo dar toda felicidade do mundo a ele, passamos por muitas provações para termos certeza desse amor. Titânia está ao lado de Alec, protegendo-o desde o momento em que se foi, ela sorri para mim. Que bom que sobrevivemos todos à dor e à morte! Por ora, chega de estória. Levemos, então, nossas vidas sem sermos os bobos da corte de nosso querido Rei. Que Deus os acompanhe em sua viagem, caros amigos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-2891045692390670126?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/2891045692390670126/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=2891045692390670126' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2891045692390670126'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/2891045692390670126'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/os-cavaleiros-da-luz.html' title='Os Cavaleiros da Luz'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-8310230982704346932</id><published>2011-03-23T13:04:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T13:04:36.421-07:00</updated><title type='text'>Rosa e Otávio</title><content type='html'>Rosa debruçou-se na janela para respirar do vento o ar puro e sentir os respingos da tempestade que se aproximava. Viu os meninos correndo, brincando na rua como ela mesma fazia quando era pequena. Deu um pequeno sorriso. A chuva era sempre bem-vida. Ela ficou um pouco mais na janela e a fechou para não molhar a sala. Mas, dias como aquele traziam a lembrança sutil de momentos de graça, quando brincando na chuva, a roupa grudada ao corpo, os raios de sol escondido nas nuvens, ela e Otávio sentiram um calor forte vindo do corpo um do outro e ficaram se olhando por um longo tempo sem prestar atenção em nada. Depois daquele dia, ela procurava Otávio nas brincadeiras da rua e só encontrava os outros meninos e ela só queria Otávio. Um dia, desistiu de procurá-lo. Os seios começaram a despontar e se sentiu desconfortável entre os meninos que começavam a engrossar a voz.&lt;br /&gt;Desapontada, ela ia e voltava da escola, querendo trombar com Otávio na rua... Nada! Até que ela se esqueceu de tudo isso, beijou os meninos nas brincadeiras infantis e o tempo passou até que, um dia, já moça, conhecedora dos desejos humanos, ela esbarrou em um homem quando fugia da chuva. Os livros caíram no chão, ambos se abaixaram para pegar as respectivas coisas, quando os olhares se grudaram. Rosa encontrava Otávio e, desta vez, os corpos seguiram um para o outro sem medo enquanto a chuva caiu, levando o mundo. Tudo que interessava para eles era o beijo quente, os corpos arfantes e Otávio e ela não se desgrudaram até encontrar uma parede em um beco da rua. Consumiram-se em calor debaixo da tempestade que insistia em lavar tudo, menos o fogo interno do desejo. Depois de saciados, Rosa o levou para casa e secou as roupas dele. Enquanto ele esperava, enrolado na toalha, ela perguntou:&lt;br /&gt;- O que houve com você?&lt;br /&gt;- Você vai rir.&lt;br /&gt;- Claro que não.&lt;br /&gt;- Fiquei com vergonha porque...&lt;br /&gt;Ela riu gostoso.&lt;br /&gt;- Eu queria você tanto aquele dia!&lt;br /&gt;- É mesmo?&lt;br /&gt;- É. Por que você nunca mais voltou?&lt;br /&gt;- Meus pais se separaram e eu fiquei com meu pai. Estava voltando agora para visitar minha mãe e pensei em vir aqui. Tem certeza de que ninguém vai entrar?&lt;br /&gt;Ela riu de novo.&lt;br /&gt;- Não. Tia Florinda morreu e deixou a casa para mim junto com algumas outras coisas.&lt;br /&gt;Ela estava usando um robe, o cabelo molhado e Otávio não resistiu em puxá-la novamente para si e beijá-la até matar a vontade de menino de consumir Rosa em todo seu esplendor.&lt;br /&gt;As visitas de Otávio à mãe passaram a ser freqüentes e na saída, a casa de Rosa virava um refúgio dos dias de tempestade. Finalmente, as chuvas cessaram, o calor ressurgiu e Rosa se abanava na janela quando Otávio passou e veio tocar na porta. Ela já esperava pelo beijo ardente, quando ele sorriu.&lt;br /&gt;- Quer entrar?&lt;br /&gt;Ela tremeu. A tempestade passou e será que teria levado Otávio junto?&lt;br /&gt;Ele continuou na porta, olhando para ela.&lt;br /&gt;- Vem cá.&lt;br /&gt;Ele a puxou para fora.&lt;br /&gt;- Minha mãe quer conhecer você.&lt;br /&gt;De repente, o tempo fechou e eles correram de mãos dadas até a casa da mãe de Otávio, como se ainda fossem crianças e o amor pudesse ser eterno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-8310230982704346932?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/8310230982704346932/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=8310230982704346932' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/8310230982704346932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/8310230982704346932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/rosa-e-otavio.html' title='Rosa e Otávio'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-8902277474748248362</id><published>2011-03-23T12:59:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T12:59:16.250-07:00</updated><title type='text'>Pensando em dor</title><content type='html'>Queria que minha mente se abrisse &lt;br /&gt;Ao vento e aos que estão perto&lt;br /&gt;Pudessem me ver como sou&lt;br /&gt;Sem a calmaria aparente&lt;br /&gt;Sem os olhos serenos que vêem em mim&lt;br /&gt;Minhas dores se escondem&lt;br /&gt;Em cantos escuros obscuros de mim&lt;br /&gt;Ninguém entende a insanidade de ser eu &lt;br /&gt;De ter este ardor constante misto de dor e medo&lt;br /&gt;De conseguir olhar nos olhos alheios &lt;br /&gt;Entender a dor dos corações perdidos&lt;br /&gt;Porque eu sou uma perdição&lt;br /&gt;De sentimentos confusos&lt;br /&gt;No fundo a solidão me persegue&lt;br /&gt;Porque ninguém quer saber &lt;br /&gt;De alguém que seja assim como eu&lt;br /&gt;De sensibilidade aguçada&lt;br /&gt;De jeito desastrado&lt;br /&gt;Só queria ser entendida&lt;br /&gt;Amada pelo que sou&lt;br /&gt;E livre por ser assim&lt;br /&gt;Diferente de todos&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-8902277474748248362?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/8902277474748248362/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=8902277474748248362' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/8902277474748248362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/8902277474748248362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/pensando-em-dor.html' title='Pensando em dor'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-7526747775617653952</id><published>2011-03-23T12:54:00.001-07:00</published><updated>2011-03-23T12:54:32.975-07:00</updated><title type='text'>Olhos</title><content type='html'>Meus olhos encontraram os olhos negros dele no mercado. Ele me encarou com uma profundidade desconhecida até então... por uns momentos, meus olhos se grudaram nos dele, mas, baixei minha cabeça e voltei para as especiarias e temperos que precisava comprar. Minha condição de mulher não permitia que encarasse os olhos daquele homem, que eram olhos fascinantes e mágicos, os quais eu sabia conhecer de um outro tempo... de um outro mundo. Mesmo que não o encarasse, eu podia sentir seus olhos em minhas costas. Eu sentia o olhar penetrante de águia. E sorri embora este sorriso fosse um sorriso de orgulho e soberba por chamar a atenção de um homem. Cheirava uma erva forte e agradável para temperar comida.&lt;br /&gt;Katrina percebeu alguma coisa e me empurrou para que seguíssemos adiante com nossas compras. Não poderíamos demorar muito... nada nos era permitido. Chegamos em casa e fomos para a cozinha e fizemos a comida. Ninguém sabia, mas, nossa casa não era regida por um homem. Todas ficávamos quietas a respeito disso. Os homens que nos serviam eram discretos. Na verdade, havia meu pai moribundo e nenhuma mulher de nossa família se casou porque ninguém nos quis. Éramos consideradas párias, monstros porque minha mãe havia fugido com outro homem. Diziam para nós que se nossa mãe assim o fizera, faríamos o mesmo... Enfim, pagávamos um preço alto pelos atos de minha mãe! Meu pai foi bondoso conosco e cuidou de nós ao invés de nos amaldiçoar.&lt;br /&gt;Começamos a cozinhar e eu era a responsável pelos temperos já que eu apenas sentia o que as ervas tinham a dizer e colocava o sabor que quisesse em qualquer prato. Mas, no lugar das especiarias, tudo que eu conseguia ver eram os olhos negros nas ervas. Katrina me tirou do transe.&lt;br /&gt;- Você está sonhando, hein? Acorda, mulher... acorda!&lt;br /&gt;Arrumamos a cozinha e servimos o almoço. Comemos com o silêncio usual da casa. Éramos 4 mulheres na casa. Eu era a irmã mais velha e Katrina era a mais chegada por ser um pouco mais nova que eu. As outras duas estavam sempre dando risinhos e conversas veladas típicas de gêmeas da idade delas. Katrina e eu cuidávamos de tudo. Depois do almoço, com a cozinha arrumada, segui para o pátio da casa e me sentei perto da água. O sol da tarde já não era tão forte. O livro estava em meu colo e coloquei a mão distraidamente na água... não conseguia me concentrar em minha leitura. Os olhos negros me perseguiam e ao levantar a minha cabeça, eu o vi de pé no pátio. Levantei-me assustada porque nenhum homem poderia entrar em nossa casa, principalmente, nos lugares onde estávamos mais à vontade. Logo, a imagem se desvaneceu e senti que aquele homem mancharia minha honra e seria minha desgraça. Fiquei meditativa o resto do dia. Estávamos nos preparando para partir de nossa casa porque aquele era um lar cruel. Iríamos para um lugar mais tranquilo, onde pudéssemos recomeçar a vida sem a mácula que minha mãe nos impingiu.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, seguimos nossa rotina diária, de acordar e fazer as gêmeas se levantarem. Verifiquei os ingredientes para a próxima refeição e me faltava algumas ervas. Chamei Katrina para ir ao mercado e ela me olhou assustada.&lt;br /&gt;- Não! Da última vez, você gritou comigo e jogou as ervas ao chão e disse que eu jamais seria uma boa cozinheira...&lt;br /&gt;Eu suspirei em desespero. Naquele dia, eu não queria ir ao mercado. Para falar a verdade, eu queria deixar aquela terra o mais cedo possível porque devíamos partir antes que a enfermidade de meu pai se agravasse ao ponto de perdermos tudo já que nossos bens nos seriam tomados apenas por sermos mulheres... Eram os nossos últimos dias naquele lugar árido, em que nunca pude ser feliz, nunca pude ser como as outras e sempre fui excluída. Se sentiria saudades? Acreditei que jamais sentiria falta daquele lugar... mas, eu sentiria saudades dos olhos negros. Eu o chamei assim.&lt;br /&gt;Katrina me chamou e fomos para o mercado, mas, os olhos negros não estavam ali. De algum modo, eu me senti desapontada e aliviada. Enfim, saímos da feira e meus olhos esbarraram nos dele. Senti seus músculos e o corpo dele... senti sua pele na ponta dos meus dedos e suas mãos tocaram as minhas e deixaram algo pousar em minha palma. Tão sutil o movimento e o toque e tão impressionante a força que se abateu sobre mim... Katrina não reparou que era ele. Ao chegar em casa, coloquei o cordão de couro que trazia uma pedra tão negra quanto os olhos dele em minha caixa de jóias. Fiz o almoço sem muita atenção, maquinalmente, dando ordens às outras. Finalmente, tudo limpo e organizado e corri como uma dama para meu quarto, trancando a porta e pegando aquele estranho amuleto. O que deveria fazer com ele? Eu o encarei por alguns momentos, pendurado em minhas mãos... ainda pensava do porque dele me dar tal pedra... o que ela significaria? Eu a guardei dentre as minhas jóias mais caras e especiais. Abri a porta e segui para o pátio interno da casa para meditar. Procurava sempre ficar alheia aos momentos finais nossos na casa porque temia que meu pai sucumbisse a qualquer momento. Ele teria que viver tempo suficiente para que pudéssemos partir em segurança. Apenas mais alguns dias... Katrina apareceu e me puxou com um sorriso. Ela queria se divertir, mas, eu sempre fora séria demais. Talvez, a única que tivesse visto os olhares fortuitos de minha mãe para outro homem, a que mais sofreu quando... Katrina estava feliz e isto me era muito caro.&lt;br /&gt;Os dias passaram e, enfim, a casa estava vazia... mais nenhum móvel e mais nenhuma lembrança daquele lugar em que nasci e do qual levava lembrança alguma que me fosse agradável. Meu pai se encontrava em uma cadeira de rodas e se despediu de nós no pátio da casa com seus olhos cansados. Ele havia decidido ir morar na sua província natal, ele queria morrer com os olhos em um lugar que lhe fora bom, que agraciara com momentos felizes a infância e a memória de meu pai. Parte de sua fortuna seguiu com suas filhas. As gêmeas chegaram ao aeroporto risonhas. Katrina se divertia com elas e eu tinha medo... tanto medo de que não nos deixassem sair. Um dos criados de nosso pai iria conosco para nos proteger dos abutres, dos homens que não gostavam de mulheres desacompanhadas. Uma vez, eu vi uma mulher ser apedrejada por estar só... ela havia se perdido de seu marido na feira. As gêmeas passaram, Katrina passou e eu passei. Enfim, a um passo de estar longe para sempre daquele lugar! Apesar do sonho estar quase realizado, senti um medo terrível. Entramos no avião que nos tiraria daquele lugar horroroso para sempre.&lt;br /&gt;Katrina e eu segurávamos as mãos uma da outra. As gêmeas continuavam com suas risadinhas e seu dialeto próprio. Katrina me sorriu e eu sorri para ela, agarrada à pedra negra que ganhei no mercado. Era meu talismã... e foi, então, que meu sorriso esmoreceu um pouco. Partíamos para uma nova vida e meu coração se tornava pesado e angustiado. Eu só me sentiria segura, completamente segura quando saíssemos daquele avião. Katrina adormeceu ao meu lado, mas, estava tão tensa que o sono não me perseguiu. Resolvi me levantar para ir ao banheiro lavar o rosto.&lt;br /&gt;Senti olhos nas minhas costas e, inevitavelmente, olhei para trás... os olhos negros me encaravam e ele abriu um sorriso tão belo que paralisei no corredor. Ele estava diferente... ele se vestia de outro modo. A aeromoça passou com um carrinho e eu me apertei entre a poltrona e o carrinho, desesperada... intrigada e assustada! Senti o chão me faltar... o avião balançou e a voz do comandante pedindo que permanecêssemos em nossas poltronas. Voltei para meu assento. Katrina tinha um ar sonolento e me perguntava o que tinha acontecido e eu respondia que não sabia. Eu era uma pecadora! Meus pensamentos me traíam. Enfim, a viagem terminou e chegamos ao nosso destino... meu pai nos ensinou a língua do país estrangeiro para alguma emergência. Meu pai violara muitas leis, mas, ele discordava delas. Tínhamos que fingir desconhecer tudo que sabíamos. Sabiamente, meu pai tinha bens em outro país... ele dizia que pretendia levar nossa mãe para aquela terra, um dia.&lt;br /&gt;Entramos na casa com móveis cobertos e pude, enfim, sentir-me segura... mas, foi apenas por um momento. Logo, descobri que éramos tão amaldiçoadas naquelas terras como éramos na nossa... as lágrimas tomaram conta de mim durante um tempo, fazendo com que me esquecesse dos olhos misteriosos. Katrina me acalmava e as gêmeas riam e riam e riam como sempre. Elas não se importavam com os nomes feios com os quais éramos chamadas. Um dia, eu penteava o cabelo e eu ouvi uma voz doce e suave sussurrar pelos aposentos.&lt;br /&gt;- Vi teus olhos de puma e encantei-me perdendo-me em teus mistérios... Tu és mágica, mulher! Tu és o que sempre quis em alguém... Teus olhos demonstram a mágica das mulheres poderosas. Tu tens o fascínio daquelas que sabem ser fortes. Teus olhos são olhos que conheço desde sempre, desde tempos anteriores a todos nós...&lt;br /&gt;Olhei para os lados e vi os olhos negros no espelho. A imagem se desvaneceu rapidamente. A voz havia sido real e muito forte. Segurei a pedra que trazia em meu pescoço e a pousei no toucador. Não sabia que magia poderia ter nela. Olhos de puma? Que voz era aquela? Procurei por Katrina em desespero e ela experimentava um par de calças jeans...&lt;br /&gt;- Posso usar isto? Será que podemos nos misturar?&lt;br /&gt;- E isto irá disfarçar o que somos, Katrina?&lt;br /&gt;O sorriso dela morreu no ato. Havia dado uma punhalada nos anseios de minha irmã e amiga tão fiel. Eu a abracei.&lt;br /&gt;- Desculpe, minha irmã! Sim, use o que quiser. Você é bela e devemos começar uma nova vida.&lt;br /&gt;- Você não vai comprar roupas novas para você? Compre-as e esqueça a vida de antes, minha irmã. Joguei tudo fora! Podemos começar uma vida nova...&lt;br /&gt;- Mas, você viu os olhares...&lt;br /&gt;Katrina deu de ombros e fez com que eu saísse de casa e entrasse em lojas e comprasse calças compridas, blusas insinuantes, embora não tão insinuantes como as mulheres que estavam nas ruas. Andávamos na rua, já perto de casa quando uma pedra voou de um carro e acertou minha irmã na testa. Conseguimos um táxi e seguimos para o hospital. O médico disse que não era nada muito grave e era sorte nossa! Deus cuidou de nós. Katrina ficou um pouco abalada por conta do susto... mas, resolveu sair de novo. Havia feito amigos na faculdade. Rezei pela sua segurança... mas, meus pensamentos se voltavam para os olhos negros e pelos olhos dele eu vi algo acontecer com Katrina... ela apanhou e quase foi desonrada! Alguns amigos viram o que acontecia dentro daquele lugar estranho e segui para o hospital.&lt;br /&gt;Reconheci alguns dos amigos dela e eles me indicaram onde ela estava. Corri com desespero para ela. As gêmeas dormiam quando saí de casa. Ela chorava e eu a abracei. Katrina estava muito machucada. De novo, Deus a protegeu. O mesmo médico gentil cuidou dela.&lt;br /&gt;- Ele estava lá... eu o vi... o seu homem... ele estava com eles... ele é inimigo!&lt;br /&gt;Eu a abracei de novo. Ninguém machucaria minha irmã! Pelo menos, na nossa terra, ninguém nos encostava se estivéssemos com homens... éramos agredidas como animais se as leis não fossem cumpridas, mas, que leis eram aquelas? Onde estava a justiça? Eu não queria pensar naquilo. Não queria ter ouvido aquilo. Por que Katrina havia sido agredida? Esta era a minha pergunta. O que ela fizera? O que havia de errado conosco? Já não sofrêramos o suficiente quando ninguém nos olhava por causa de nossa mãe? Eu chorava com Katrina e o médico pediu que eu a deixasse descansar. Os amigos de Katrina ainda estavam no hospital. Pedi que fossem descansar eu me encostei na parede, olhando para o teto branco, para as luzes, tão diferentes... eu fiquei pensando que nada diferia aquela terra da terra onde nasci. Que havia outro tipo de ódio, escondido apenas... tão igual ao da minha terra... os motivos deveriam ser outros. Olhei para frente e vi os olhos negros. Meus olhos chisparam fogo.&lt;br /&gt;"Calma!" ouvi em minha mente.&lt;br /&gt;"Lamento..."&lt;br /&gt;"Por quê? Porque Katrina sofreu?"&lt;br /&gt;"Religião errada, bela!"&lt;br /&gt;"Você é o quê?"&lt;br /&gt;'Estou do outro lado! Eu sou aquele que sua religião odeia..."&lt;br /&gt;Eu arranquei a pedra negra do meu pescoço, senti os vergões vermelhos arderem e joguei no chão. Ele ficou petrificado. Encarou-me duramente. Mas, eu não pegaria aquela pedra de volta. Nunca mais. Ele havia me enfeitiçado... só podia ser. Maldita pedra! Ele me empurrou na parede e, pela primeira vez, eu ouvi a voz dele... tão bela, tão encantadora e tão ferina!&lt;br /&gt;- Jamais amaldiçoe a pedra! Ela sempre esteve comigo para proteção e ela está na família desde sempre! Não sei porque lhe dei a pedra... mas, tome-a pela última vez! Eu a dei para proteger você aquele dia no mercado! As pessoas iam atacá-las!&lt;br /&gt;Ele se virou e se foi.&lt;br /&gt;"Não pude proteger Katrina... também lamento por nós!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Katrina ficou muito tempo no hospital. O rosto dela ficou deformado mesmo com todas as cirurgias. As marcas estariam também na alma. Ela teve os ossos quebrados em várias partes, tornando-a manca. Durante o período em que esteve convalescendo eu a visitei todos os dias. Levava as gêmeas apenas nos fins de semana. A polícia nos menosprezou completamente e antes que alguma outra tragédia se abatesse sobre nós, contratei homens de nossa terra para nos proteger, homens que haviam sido fiéis a nós e a meu pai. Katrina tinha o olhar perdido na maior parte do tempo e quando as lágrimas surgiam, eu apertava suas mãos com toda força que poderia ter. A tristeza em seus olhos vinha do fato de não ter dado ouvidos a mim. Mas nada importava. Já havia acontecido e tínhamos que viver nossas vidas. Aos poucos, ela voltaria ao normal e teria sua alma de volta. Ela nunca conversava quando eu a visitava e eu deixava as minhas lágrimas escorrerem quando já estava distante dela... Os seguranças ensinavam as gêmeas táticas de defesa e embora eu não fosse muito boa, fizeram questão que eu aprendesse algo também. Eram homens de poucas palavras e olhares profundos e sérios. O meu instrutor dizia que enquanto eu tivesse ódio na alma, não poderia me defender. O ódio me cegaria... entendi estas palavras muito tempo depois.&lt;br /&gt;Uma noite, saí para liberar as lágrimas, as minhas dores e os meus medos. Quis com tanto desespero ir embora de um lugar opressor para tentar uma vida digna e decente... e ver Katrina naquele estado era como morrer um pouco a cada dia, era como se minha alma fosse cortada em tiras fatiadas, como se o mundo de estrelas nunca tivesse existido. Havia perdido meu dom para as ervas e era a coisa da qual mais sentia falta naquele momento. Eu estava pegando água quando vi o médico de Katrina. Ele também abandonara as mesmas terras que eu.&lt;br /&gt;- Olá, Diya.&lt;br /&gt;Ele ousava me chamar pelo primeiro nome! Seria uma grande ofensa... mas ali queríamos mudar.&lt;br /&gt;- Olá.&lt;br /&gt;- Ela ficará bem.&lt;br /&gt;Instintivamente, baixei meus olhos.&lt;br /&gt;- Ela tinha o rosto tão belo...&lt;br /&gt;- A alma dela é bela... ela vai se recuperar. - ele deu um sorriso misterioso.&lt;br /&gt;Fiquei muda, esperando a ordem para me retirar. Ao invés disso, ele segurou meu queixo delicadamente mas com uma força misteriosa. &lt;br /&gt;- Não aqui! Demonstre orgulho do que você é para manter sua alma e sua dignidade intactas. Senão, vocês serão atacadas e dilapidadas no que há de melhor em vocês. O que importa é que suas almas permaneçam intocadas.&lt;br /&gt;Senti um estremecimento com o toque delicado e forte e eu o encarei, temendo e sentindo um silêncio profundo dentro de mim. Os olhos dele eram olhos amigáveis e agradáveis como se eu pudesse mergulhar em sua alma e pudesse ser protegida no lugar secreto que ele tinha em sua alma. Katrina se recuperou aos poucos. Um dia, ela me encarou e sorriu apesar da cicatriz no rosto.&lt;br /&gt;- Querida irmã, tenho uma coisa para lhe contar...&lt;br /&gt;Fiquei na expectativa.&lt;br /&gt;- Conheci um homem aqui no hospital.&lt;br /&gt;Confusão. Choque. Surpresa.&lt;br /&gt;- Nós estamos apaixonados e ele disse que eu poderia seguir meus estudos caso eu quisesse... ele não se importa...&lt;br /&gt;O silêncio dela era pelo fato de estar apaixonada! Eu sorri em meio às lágrimas e agradeci a Deus pelo fato dela estar bem. &lt;br /&gt;- Nós queremos nos casar, preciosa irmã.&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;Katrina voltou para casa e demos uma festa familiar para ela. Os seguranças participaram à sua maneira. Ela esperou que o amor estivesse concretizado tanto no coração dela quanto no dele. Ela omitira apenas um pequeno detalhe... um algo tão profundo que eu a teria matado se soubesse antes. Ela soube manipular meu coração para aceitá-lo. Eu a amava e faria de tudo para fazê-la feliz. Só soube de sua omissão em nome do amor no dia do casamento. As gêmeas e eu a preparamos. Fiz toda a comida e bordei seu vestido. Eu sabia pelo meu bom amigo médico que o jovem por quem Katrina se enamorou era um rapaz de boa índole. A festa de casamento seria modesta. Os amigos de Katrina que a salvaram, nossa família, o médico que cuidou dela, os pais e irmãos do noivo e uns poucos amigos. Tudo arrumado, a banda contratada, as mesas dispostas perfeitamente e eu estava feliz até que enquanto eu terminava de arrumá-la, ela me disse o que me deixou paralisada.&lt;br /&gt;- Ele é de outra religião...&lt;br /&gt;Ela dizia isto com medo e eu senti uma apreensão se apossar de mim.&lt;br /&gt;- E?&lt;br /&gt;- E ele é do povo inimigo. Diya... mas... você o aceitou, não foi?&lt;br /&gt;Eu puxei o cabelo dela com força por causa do choque e ela caiu no chão.&lt;br /&gt;- Muito bem, Katrina. Eu o aceitei mas jamais vou perdoar o que você fez. Vista-se sozinha!&lt;br /&gt;Saí enfurecida do quarto. Pude ouvir os soluços dela. Esta era a razão por ela estar esquiva e pelo olhar distante no hospital! E ela me contou no dia do casamento. AS gêmeas a ajudaram a se arrumar e elas estavam sabendo de tudo. Eu me mantive séria. Finalmente, o sol estava se pondo e a festa começou. Eu era a sua madrinha. Ela foi trazida por um dos irmãos do noivo e qual não foi minha surpresa ao me deparar com os olhos negros ao meu lado. Ele era amigo do noivo! Eu teria arruinado aquele casamento... mas Katrina já sofrera bastante. Ele estava deslumbrante e eu ardia em uma fúria quase fora de controle. Meu instrutor apenas me encarava e seus olhos entendiam o meu arder de ódio. Finalmente, a cerimônia acabou e eu não podia abandonar tudo como queria. Era a anfitriã da casa... Eu podia sentir os olhos dele me seguindo aonde fosse. Minhas mãos tremiam e eu sentia calor o suficiente para arrancar minhas roupas e me jogar em um lago congelado.&lt;br /&gt;Eu observava as gêmeas quando ele se aproximou de mim.&lt;br /&gt;- Bonita festa! Parabéns pela realização dela.&lt;br /&gt;Ele tinha um ar cínico e eu estava prestes a avançar nele quando Karim se interpôs entre nós, puxando-me para um outro lugar.&lt;br /&gt;- Eles se conheceram por causa do que aconteceu a ela... &lt;br /&gt;- Se eu soubesse, jamais teria permitido este casamento.&lt;br /&gt;Katrina se foi da minha vida naquele dia. Embora eu a amasse deveras não conseguia aceitar a traição dela comigo. Acho que senti mais pelo fato dela não ter me contado... Realmente, o rapaz com quem ela se casou era uma pessoa decente e ele fazia a alma de Katrina bailar. Aos poucos, eu cedi e frequentava os jantares que eles davam em sua casa. O marido de Katrina era um médico de prestígio e eu sempre encontrava aqueles olhos profundos nas festas. Eu sentia os músculos retesados em sua presença, o fogo me consumindo. Odiava vê-lo ao lado de outras mulheres e odiava sua presença constante ao meu lado... Odiava tudo a respeito dele. Um dia, Katrina veio me visitar em casa e eu estava me sentindo velha e cansada. Ela se sentou à minha frente com olhos inquisidores e tristes.&lt;br /&gt;- Sinto muito, preciosa irmã! Eles são irmãos... foi coisa de juventude... &lt;br /&gt;Eu simplesmente lancei um olhar duro.&lt;br /&gt;- Muito bem, querida... Tenho boas novas. Estou grávida.&lt;br /&gt;O momento de ódio havia passado para dar lugar a uma imensa alegria. Katrina estava feliz e eu deveria estar feliz por ela. Nós celebramos do nosso jeito, com nossas danças e nos abraçamos muito. Por fim, escovei seus cabelos.&lt;br /&gt;- Como é, Katrina?&lt;br /&gt;- O quê, querida?&lt;br /&gt;Eu comecei a corar.&lt;br /&gt;- Ora, estar com um homem...&lt;br /&gt;Ela sorriu maliciosa.&lt;br /&gt;- Você devia experimentar, um dia.&lt;br /&gt;- Sem estar casada... você é insana! Seria uma grande desonra...&lt;br /&gt;Ela deu de ombros.&lt;br /&gt;- O primo dele bem que se interessa por você...&lt;br /&gt;Eu me imaginei dando um tapa em seu rosto. Mas Katrina era uma mulher feita e eu a amava mas puxei seu cabelo com força. Ela sabia como me manipular, o sorriso dela era o néctar do qual eu bebia.&lt;br /&gt;- Você tem que se cuidar durante a gravidez, Katrina. &lt;br /&gt;Ela nunca se importava com minhas preocupações, ela achava exagero. A solidão batia na alma quando Karim me chamou para um jantar informal. Nós nos encontrávamos por acaso, vez ou outra, na rua ou no parque. Ele parecia nervoso e eu também. Ambos sabíamos o motivo. Finalmente, ele ousou propor casamento e eu aceitei. De algum modo, eu o amava. Era um amor bom, amigável, seguro e perfeito. Katrina e as gêmeas me arrumaram para o casamento e foi uma cerimônia simples com minhas irmãs e os pais de Karim. Pedi que continuássemos a morar em minha atual residência já que as gêmeas ainda precisavam de mim. Pouco depois do meu casamento, Katrina deu à luz a uma menina e ela a batizou com um nome da nova terra: Elizabeth. Ela não queria impor nenhuma marca de nossa antiga terra à sua filha. Foi então que cruzei com aquele homem que tinha meu ódio eterno. Nossos olhares se encontraram novamente no corredor do hospital. Ele ainda tinha a antiga força no olhar.&lt;br /&gt;- Ora, sua irmã conseguiu um bom partido, apesar...&lt;br /&gt;Eu dei um passo para o lado. Ele esticou o braço barrando minha passagem. Eu o encarei.&lt;br /&gt;- Com licença... &lt;br /&gt;Ele continuou parado.&lt;br /&gt;- Eu deveria ter deixado...&lt;br /&gt;Eu dei um soco em seu estômago e ele reagiu instintivamente batendo em meu rosto.&lt;br /&gt;Senti um filete de sangue escorrendo pelo rosto.&lt;br /&gt;- Foi assim que você bateu em Katrina?&lt;br /&gt;Segui em frente para a enfermaria. Karim rapidamente apareceu para ver se eu estava bem.&lt;br /&gt;- O que você aprontou?&lt;br /&gt;Eu o olhei com raiva, o resto do inferno queimando em mim. Ele achava que eu era ardente demais porque já batera uma vez em um ladrão, defendera uma mulher que apanhava do marido e criara uma tremenda confusão por causa de uma carne estragada. Fiquei quieta. Ele sabia que quando me calava eu não falaria sobre o assunto. Ele me levou para casa e eu dancei para ele como aprendera desde criança. Ele nunca conseguia esperar eu terminar a dança... era um homem cheio de paixões, de toques delicados que me faziam tremer imensamente. Nunca pude ter filhos. Eu era estéril e cuidava de Elizabeth quando minha irmã tinha que ir a festas. Com o tempo, afeiçoei-me à criança e a mimava com presentes e fazendo suas vontades. Katrina brigava comigo mas eu era tia e amava aquela criança com ardor demais... As gêmeas estavam na faculdade, cuidando de suas vidas, sem se importar com nada... Era a primeira vez que estariam separadas mas pareceram aceitar bem o fato de não estarem juntas apesar dos extensos telefonemas e trocas de cartas constantes.&lt;br /&gt;Enquanto Elizabeth crescia, Katrina adoeceu terrivelmente, abatida pelo acontecimento de tantos anos atrás que a abatera. Ela não tinha forças para lutar contra a doença que a levava e, mesmo assim, ela lutou desesperadamente pela sua vida. Ela quis morrer em casa e eu fui a última vê-la. Eu me sentei perto dela e tinha lágrimas nos olhos ao vê-la consumida.&lt;br /&gt;- Diya... deixe ir...&lt;br /&gt;Ela morreu enquanto eu segurava suas frágeis mãos. Elizabeth ficou sob meus cuidados após sua morte. O pai se dedicava à sua carreira médica e o pouco tempo de que dispunha era para Elizabeth. Eu era responsável por sua escola, educação, roupas... Karim gostava de tê-la por perto também. Era uma criança inquisidora e especial, com uma quietude que me lembrava Katrina, algumas vezes, e era quando a saudade arrebentava a alma de tal modo que eu deixava algumas lágrimas escorrer. Há momentos em que fé alguma aplaca a dor de uma perda. Eu continuava treinando com meu instrutor para me manter sã. Minha técnica era perfeita mas eu tinha a alma conturbada. Um dia, Elizabeth brincava com minhas coisas quando ela pegou uma velha corda de couro com uma pedra negra pendurada na mão. Senti um choque ao pegá-la e vi que a morte de Elizabeth estava próxima... eu larguei a corda de couro e encarei meu rosto duro no espelho. Katrina tinha paz na alma e as gêmeas uma alegria inquieta. Eu tinha esta melancolia intensa. Karim chegou e pegou a corda com a pedra.&lt;br /&gt;- O que é isto? Nunca vi isto antes...&lt;br /&gt;- Eu ganhei há muito tempo...&lt;br /&gt;- Quem lhe deu?&lt;br /&gt;- Não lembro.&lt;br /&gt;Eu mentia. Eu lembrava nitidamente de cada detalhe e doeu na alma porque Katrina havia feito parte daquele tolo instante em que me deixei levar.&lt;br /&gt;- Coloque em uma corrente decente... esta tira de couro está muito velha.&lt;br /&gt;Ele a pousou delicadamente em minha caixa de jóias. &lt;br /&gt;- Amanhã, temos um jantar na casa de seu antigo cunhado. Ele insistiu para que fôssemos. Tivemos uma operação difícil hoje e o paciente morreu... Não precisa usar nada em especial. Por que não usa esta pedra escura? &lt;br /&gt;Karim devia estar testando meus limites.&lt;br /&gt;- O que você sabe sobre ela?&lt;br /&gt;- Eu vi uma pedra destas apenas uma vez e posso lhe dizer que a visão dela não me foi muito agradável. Você deve se considerar com sorte por ter uma destas.&lt;br /&gt;Eu me virei irritada.&lt;br /&gt;- O que isto quer dizer, Karim?&lt;br /&gt;- Quem quer que lhe deu esta pedra a considera muito especial. Eles a usam para proteção, Diya, e sem ela a proteção é incompleta. É necessário duas pedras, uma branca e uma negra. Eles vêem a sorte com elas.&lt;br /&gt;Ele se voltou para mim com o olhar sério e profundo.&lt;br /&gt;- A única coisa que jamais vou admitir que você faça é a traição. &lt;br /&gt;Senti um tremor interno me corroer, um medo pavoroso.&lt;br /&gt;- Estas pedras só podem ser carregadas por homens. Ele deve ter sentimentos profundos por você.&lt;br /&gt;Lembrei da cena no hospital... e eu comecei a tremer.&lt;br /&gt;- Não lembro bem, Karim.&lt;br /&gt;Ele parou na minha frente.&lt;br /&gt;- Não quero saber. Você está avisada. Eu posso ser bem liberal quanto às tradições do nosso povo mas eu puno traição com morte.&lt;br /&gt;Nunca mais tivemos uma conversa parecida. Ele voltou apenas mais uma vez.&lt;br /&gt;- Use esta maldita pedra sempre com você. Quem quer que a tenha dado, sabia o que estava fazendo, Diya. É uma proteção e você jamais será atacada por eles. Estas coisas também têm poderes que não compreendemos e só podem ser carregadas pelos escolhidos. Dar uma alguém significa dar proteção eterna.&lt;br /&gt;Eu queria terminar aquela conversa o mais rápido possível. Eu não sabia o que ele queria dizer com tudo aquilo. Será que ele sabia quem havia me dado a pedra? Karim jamais me diria... Eu tentei colocá-la com mãos trêmulas. Karim a colocou para mim.&lt;br /&gt;- Um velho leu minha sorte com duas pedras uma vez e ele não errou até agora. Ele me fez encará-lo.&lt;br /&gt;- Eu a amo com  toda força do meu ser e sei que você também me ama embora haja coisas em sua alma que há muito borbulham sem nunca explodir. Quando eu a conheci, soube de imediato quem era você... e sabia também que havia um segredo profundo em sua alma. Não me importo com seus segredos... mantenha-os longe de mim apenas.&lt;br /&gt;Eu tremia desesperadamente e nada aplacaria o desespero que insistia em mim naquele instante. Na noite seguinte, seguimos para o jantar. Elizabeth estava adorável com um vestido cor-de-rosa. Meu ex-cunhado ainda estava abatido e com um olhar sem brilho. A campainha tocou e eu não precisei me virar para ver quem era... Eu mal pude comer e ele me fitou discretamente durante o jantar. Ele viu que estava usando a pedra... e eu não poderia jamais falar que eu havia sido obrigada a usá-la. Os homens ficaram na sala enquanto fui fazer Elizabeth dormir. Ao sair do quarto, eu me deparei com ele no corredor.&lt;br /&gt;"Você me perdoou?"&lt;br /&gt;A voz explodiu em minha mente.&lt;br /&gt;"Nunca!"&lt;br /&gt;No entanto, eu sentia todo nervosismo possível, um tremor interno me possuía... e sabia aonde aquele tremor poderia me levar. Ouvi passos e no momento seguinte Karim estava na minha frente e o homem dos olhos negros havia desaparecido no escuro.&lt;br /&gt;- Está pronta?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Você poderia dançar para mim hoje?&lt;br /&gt;Karim sabia... de algum modo absurdo, ele sabia. Como poderia ser possível?&lt;br /&gt;Estávamos no carro quando eu quebrei o silêncio com um choro compulsivo. Nem sabia porque chorava. Ele continuava prestando atenção enquanto dirigia.&lt;br /&gt;- Meu pai tinha dons especiais... você tem o dom de temperar a comida e ver por meio dela. Meu pai sabia algumas coisas e eu herdei um pouco disso. Nunca comentei com ninguém porque estas coisas são consideradas maldição.&lt;br /&gt;Eu continuei chorando e não deixei ele me tocar naquela noite. Algo dentro de mim estava quebrado. Ele me ensinara a andar de cabeça erguida e assim eu me manteria embora meu mundo estivesse para ruim. Finalmente, a premonição em relação a Elizabeth se realizou. Ela partiu em decorrência de uma grave pneumonia e pela falta de alimentação, decorrente da depressão após a morte da mãe. Segui para a casa de campo sozinha. Karim já não era o mesmo homem com quem eu me casara... Ele havia se transformado desde que vira a pedra. Ficar em casa não ajudaria... eu senti o vento e sabia que uma tempestade desabaria naquele dia e, mesmo assim, eu peguei o cavalo e cavalguei por horas a fio, desesperadamente, deixando as lágrimas correrem soltas. Tudo que amara estava perdido para mim... tudo.... Então, eu caí do cavalo e não tive forças para me levantar do chão e apenas me deixei ficar ali chorando enquanto a chuva levava embora as lágrimas, enquanto eu era a terra. Eu me perguntei porque Deus não havia me levado. Não sei por quanto tempo fiquei naquele estado, jogada na terra... Sei apenas que senti braços fortes me carregarem de volta para casa em uma longa caminhada apesar da chuva e da distância. Apenas me agarrei a ele e pude sentir sua pele, sua respiração, seus braços... Eu era uma criança naquele instante em que nada aplacaria minha dor, em que nada faria com que eu pudesse descansar em paz de novo. Eu apenas queria poder ficar naquela casa para sempre. Finalmente, chegamos em casa. Ele me pousou delicadamente em uma cadeira, pediu para uma das criadas me banhar e me cobriu. Eu não conseguia pensar em mais nada... todas as razões para eu existir partiram da minha alma como frágeis teias de aranha...&lt;br /&gt;Tudo perdeu o sentido e nada fazia sentido. Eu havia proibido Karim de vir até mim. Uma pequena vingança pela humilhação que ele me fez passar. Fiquei dias em um estado entre vida e morte, sem estar doente, sem estar morta. Apenas respirava tentando tirar de cada respiração um motivo para continuar a viver. Eu agarrava a pedra negra em busca de uma resposta verdadeira, de algo que pudesse trazer minha irmã e minha sobrinha de volta. Nada poderia trazer minha irmã de volta. Aquele homem misterioso fez chá para mim e mandou eu beber. Eu não tinha forças para brigar.&lt;br /&gt;- Por que não me deixou morrer?&lt;br /&gt;- A vida é um presente de Deus, Diya.&lt;br /&gt;Ele tinha ternura na alma.&lt;br /&gt;- Você nunca se perguntou porque eu não me casei?&lt;br /&gt;Senti minha alma tremer como uma vela que tremeluz fracamente. Eu sabia a resposta.&lt;br /&gt;- Não diga... por favor, não fale. Por que não pudemos...&lt;br /&gt;Ele se agachou perto de mim, segurando minhas mãos enquanto as lágrimas escorriam.&lt;br /&gt;- Era uma função odiar por odiar. Eu não odiava você ou sua irmã... era o fato de vocês fazerem parte de algo que eu odiava...&lt;br /&gt;Ele passou a mão pelo meu rosto. Eu queria agarrar aquele momento por toda a vida...&lt;br /&gt;- Quando eu a vi no mercado...&lt;br /&gt;Eu não poderia continuar ouvindo.&lt;br /&gt;- Pare...&lt;br /&gt;Eu sabia cada palavra que ele diria... eu as conhecia em meu coração e, intimamente, eu desejava ouvi-las.&lt;br /&gt;- Sempre foi o que você representava. Você fazia parte de algo que eu desprezei a vida inteira.&lt;br /&gt;Eu não tinha mais forças para falar e me calei, esquecendo do mundo fora de mim, esquecendo de sonhar. Os dias se tornaram apenas dias, o tempo não era nada. Tudo me fora arrancado... Ele segurou meu rosto com as duas mãos, com a firmeza delicada que um homem sabe ter quando precisa e me fez encarar seus olhos negros.&lt;br /&gt;- Eu...&lt;br /&gt;eu não queria olhar e eu conhecia as palavras...&lt;br /&gt;- ... amo...&lt;br /&gt;fechei os olhos...&lt;br /&gt;- ... você.&lt;br /&gt;tudo em mim ruía... eu era um espelho espatifado em milhões de cacos...&lt;br /&gt;Meus lábios tremeram e eu chorei com o desespero de um bebê esfomeado. &lt;br /&gt;Ele disse o que eu temia...&lt;br /&gt;- Quando precisar, você sabe o que fazer.&lt;br /&gt;ele destruiu todos os muros que eu construíra para me proteger. Como um guerreiro ele invadiu e quebrou todos os pilares e pilhou tudo de mais precioso em mim. Nunca o odiei ou quis o ódio como pretexto para eu jamais aceitá-lo em meu coração como a verdade do meu amor por ele.&lt;br /&gt;Ele beijou minha testa e partiu para sempre. Ainda o ouvi quando ele encontrou Karim.&lt;br /&gt;- Sua esposa nunca vai traí-lo. Eu estava errado.&lt;br /&gt;Soube que ele se foi para seu caminho, escolheu usar a guerra para fugir de mim e morreu lutando por seu povo. Karim já partiu e eu ainda estou viva. Naquele dia, entendi minha irmã e pude lutar livre da fúria que me invadia a alma. A pedra ainda está em meu pescoço mas, se ele deixou descendentes, ela voltará para aqueles que é de direito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-7526747775617653952?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/7526747775617653952/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=7526747775617653952' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7526747775617653952'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7526747775617653952'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/olhos.html' title='Olhos'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-6432746414751874455</id><published>2011-03-03T21:53:00.001-08:00</published><updated>2011-03-03T21:53:56.038-08:00</updated><title type='text'>Carta para Deus</title><content type='html'>Querido Papai do Céu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu sei que você é bonzinho comigo e tudo o mais. Sempre que pedi as coisas, elas vieram certinhas para mim. É bem verdade que, às vezes, demoravam. Nem sempre o pedido era apetitoso. Talvez, houvesse uma ou outra palavra errada. Mas, até então passável. Afinal, eu era jovem e o tempo era extenso. A vida não era tão cruel como o é agora. Eu até entendo as escolhas que fiz e o peso que carreguei. Foi aquela nossa conversa sobre missões, peso e aprendizado que tivemos antes de eu nascer. Até aí, tudo bem, Deus. Eu entendo perfeitamente bem que devemos carregar nossos fardos e assumir nossas responsabilidades. Estou aprendendo isso depois de longo tempo tentando não fazer isso. Eu agradeço sempre todos os presentes que recebo e com muito carinho.&lt;br /&gt;Agora, Deus, é sacanagem o que anda acontecendo por aqui. Eu pedi um marido... mas, não podia ser um que me tratasse bem e com responsa? Um que soubesse cuidar de mim adequadamente? É, eu sei que não sou a pessoa mais fácil do mundo. Mas quem é, né? Lembro que tinha fila para falar com Você quando eu também tinha dúvidas sobre o Manual do nascimento que nos enviou e dos encontros importantes, do mapa da estrada. Acho que perdi este último. Tem como mandar outro? Lá vou eu desvirtuando a coisa de novo. Afinal... do que falava mesmo? Ah! Sim, claro... Poxa vida! Que foi que fiz? Combinamos que seria desta forma? Sai de uma triângulo amoroso para entrar em outro? Ah! Deus, quero uma história só minha, perfeitamente única e exclusivamente minha! Não... aparece alguém que parece que vai ser legal e aí, a coisa mixa. Vai, diz que eu tenho que fazer.&lt;br /&gt;Parece aquela história do sujeito que vira para o papai noel e diz: Quero uma namorada de quem eu possa gostar mas a moça por quem ele se apaixona não gosta dele. Daí, no ano seguinte, ele pede uma que goste dele. Ele consegue uma moça grudenta. Finalmente, ele pede: uma moça que goste dele e de quem ele possa gostar. Assim, ele encontra a mulher da vida dele. Não pode ser assim, não??? Seria tão mais fácil, né? Não... lógico que não porque pela lógica da minha vida, a coisa só parece funcionar se tudo for confusão demais e houver uma terceira parte na história. Sabe, Deus, eu me abdico de qualquer coisa. Eu assinei alguma coisa? Então, vou fazer como Lúcifer e me rebelar porque está foda! Sério... dá para mandar alguém que seja perfeito para mim? Não precisa ser o Brad Pitt. Basta um que me olhe como um que conheci agora pouco olha para sua amada. Vai, Deus, dá uma forcinha e ajuda a encontrar o caminho porque, sério, dá vontade de ir ali e pular da ponte! Pior que pela altura da coisa e, pelo fato de saber nadar, vou ficar molhada e nada mais. Por ser humana, o instinto vai falar mais alto... e estarei aqui vivinha! Vai, Deus, dá a pista mais luminosa que puder. Não como aquela da piada do cara que pede socorro e vem o diabo a quatro e o cara recusa! Pois é... eu sou dda, então, não adianta mandar barco, helicóptero. Tem que ser um letreiro bem grande. Dá pra ser? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigada!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-6432746414751874455?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/6432746414751874455/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=6432746414751874455' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6432746414751874455'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6432746414751874455'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/03/carta-para-deus.html' title='Carta para Deus'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-1450939117948656964</id><published>2011-01-21T20:16:00.001-08:00</published><updated>2011-01-21T20:16:43.427-08:00</updated><title type='text'>Cemitério celta</title><content type='html'>Eu espero a qualquer momento, sabendo que você não virá, ouvir você ligar sua guitarra de alguma forma. Eu posso até ver você pegar sua palheta, afinar o instrumento do seu jeito e começar a tocar uma música que você fez para mim. Eu estou acordada com a luz acesa do meu quarto e eu ouço você e choro porque é você. Qualquer outra pessoa não me tocaria com as notas musicais intensas que há em você. Só eu sei como se sente, como sua alma chora. Embora eu pense, deseje e queira, eu sei que você não virá. Não desta vez. O pior é lembrar do abraço sob as estrelas, da forma irritante com que nos provocávamos. Sua voz ainda ecoa em minha mente. Seus beijos ainda tocam meus lábios e a chuva que caía sob nossas cabeças há pouco ainda se faz presente em mim. Mesmo as coisas estúpidas que você fala ainda estão presentes e, de uma maneira absurda, sou uma cascata que chora sua ausência. Eu desprezo o que você, eu falei isso para você. Você me perguntou:&lt;br /&gt;- Como você sabe que me ama?&lt;br /&gt;E eu respondi:&lt;br /&gt;- Porque você tem tudo que desprezo num homem e, ainda assim, estou aqui.&lt;br /&gt;Eu estava, ainda quero estar. Mas não tem mais como por que dói.&lt;br /&gt;Você disse:&lt;br /&gt;- Que bom que você está aqui. Você é uma amiga com quem eu posso conversar. A única.&lt;br /&gt;Eu até consegui ouvir você falar de outra pessoa mas, depois, pensei: não dá mais para ficar ao seu lado. Ou eu morria perto de você ou eu vivia ao meu lado. Há coisas na sua sombra que me consomem de uma forma tão distinta, de uma forma tão contundente, que meu desejo por você é premente. Agora, eu sei que eu preciso ir embora. Deixo as pegadas na areia para você jamais pousar seus olhos sobre os rastros que deixo para trás. Minhas lágrimas se confundem com as ondas que quebram. Eu sei que sei viver sem você. O que dói é justamente ter ido embora... eu sinto o vazio, a morte de tudo isso, desse tempo injusto de espera que me fez desejar ainda mais que sua voz se aproximasse de mim. Sabe o que mais quis? Que pudesse criar uma música de sua genialidade, apenas para mim! Que você pudesse tirar os véus que tapam seus olhos e pudesse ver além. O que você disse foi: Eu acho bonito o que você sente e, desde então, ficou o ressentimento. &lt;br /&gt;Eu lembro daquela noite em que você falou de sua música e que eu senti que ia quase chorar. Olhei para o céu e as estrelas caíam para mim. Eu sei. Você não fez a música para mim mas, como eu gostaria que tivesse sido! Como eu gostaria de permanecer em sua lembrança como alma que chega perto de alma. Eu sei. Não é assim. Nunca será assim. Serei alguém que passou apenas por você como um fantasma, que olha por cima do seu ombro, tentando reter o último suspiro de dignidade. Então, estou de volta ao meu corpo, olhando a tv, sentindo tudo e nada. &lt;br /&gt;No lugar onde você habitava, tem um buraco novo. Eu descobri outro dia e, agora, eu preparo seu funeral. Aliás, eu enterrei você outro dia. Eu vejo sua lápide. Como a imagino? Eu posso escolher como escolhi imaginar você ali fora com a guitarra, cantando para mim. Então, é uma cruz celta, em um cemitério antigo. Você está lá para eu visitar, de vez em quando, até eu esquecer seu rosto, sua voz e o sentido que me toma quando estou perto de você. Aliás, eu não tenho sentido e você sabe disso e me olha e brinca comigo. Eu cedo aos seus caprichos sem pestanejar, sabendo que é errado. Bom, não mais. Porque, na verdade, você está no velho cemitério celta, onde eu o enterrei com minhas próprias mãos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-1450939117948656964?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/1450939117948656964/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=1450939117948656964' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/1450939117948656964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/1450939117948656964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/01/cemiterio-celta.html' title='Cemitério celta'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-7568053205443972769</id><published>2011-01-10T15:16:00.001-08:00</published><updated>2011-01-10T15:16:42.647-08:00</updated><title type='text'>Sobre o amor</title><content type='html'>Queria que uma alma suspirasse a minha alma. Desde sempre, eu questiono sobre o amor, que virado vira Roma, que não é a cidade pela qual minha alma sofeja. É um desejo recôndito de algo que ainda não encontrei nesta vida e sei ser sublime porque parece que já vivi antes, em outro lugar, nas histórias em que vivo pelas palavras alheias, nos filmes que assisto, em beijos roubados em cenas que só sei imaginar para o meu corpo alheio de mim. Seja, então, você alguém suspenso de mim, que olhe além dos meus olhos, no recôndito onde o coração opera os milagres do amor. Eu leio, li e tento entender essa dinâmica mágica entre dois seres que se encontram e se modificam em espírito, em corpo, em alma, em estado de ser. É como o gelo que se derrete para voltar a ser água, que se mistura de novo à água e volta a ser gelo, um dia. Um toque sincero, um sorriso aberto fariam tanta diferença no mundo. Mas esta, talvez, não seja minha sina, meu dever com o mundo. Talvez, e apenas no murmúrio de um riacho eu possa entender a mim, sem me perder no caminho de terra que, um dia, tracei na tentativa de entender o que posso ser para este mundo... Meu amor... Ah! Meu amor foi para todos os amantes que tive e amei todos e a nenhum porque meu coração nunca me pertenceu de verdade!&lt;br /&gt;- Em que está pensando, Estela?&lt;br /&gt;O pensamento se perdeu como uma folha de outono que se confunde com tantas outras folhas de outono da mesma cor marrom. Eles estavam deitados sobre a grama, olhando os raios do sol que insistiam em trespassar as folhas das árvores acima deles.&lt;br /&gt;- Sobre o amor... Sobre o amor...&lt;br /&gt;Ele ponderou por um instante. &lt;br /&gt;- Eu invejo você!&lt;br /&gt;- Por quê, Estela?&lt;br /&gt;- Porque você sabe amar, porque você sabe ser amado.&lt;br /&gt;- Ainda assim, estou só.&lt;br /&gt;- Porque quer. As mulheres caem aos seus pés.&lt;br /&gt;- Se você quisesse também teria homens aos seus pés, nobre Estela. &lt;br /&gt;Ela riu de uma maneira divertida.&lt;br /&gt;- O que quer dizer com isso?&lt;br /&gt;- Você é mulher e mulheres têm esta capacidade única de fazer os seres do mundo se encantarem. &lt;br /&gt;- Como eu faço isto?&lt;br /&gt;Eles viraram e se encararam.&lt;br /&gt;- Ué, está dentro de você como está dentro de mim. Não somos tão diferentes assim, minha adorada Estela.&lt;br /&gt;O rosto de Estela adquiriu um tom mais sério.&lt;br /&gt;- Sabe, eu gostaria de ter um romance com um artista, alguém que alcançasse minha alma.&lt;br /&gt;- Eu alcanço sua alma, Estela.&lt;br /&gt;Ela passou a mão no rosto dele com suavidade.&lt;br /&gt;- Você é um irmão para mim.&lt;br /&gt;Ele também passou a mão no rosto dela.&lt;br /&gt;- E toi, ma belle Estela, c'est comme un beau corps céleste.&lt;br /&gt;- Sim mas, de que me adianta ser uma estrela no firmamento se ninguém me quer?&lt;br /&gt;- Talvez, seja você mesma que não se quer... já pensou nisso?&lt;br /&gt;Uma lágrima caiu sobre o gramado. Ele limpou o rosto dela e se sentou. Ele repousou a cabeça dela no colo dele.&lt;br /&gt;- Eu queria ver neve, sentir a neve, apalpar o frio como se o amanhã nunca fosse chegar, Ylli.&lt;br /&gt;O silêncio os tocou e Estela se levantou, espanando a sujeira. Ela o puxou e ele viu as marcas nos braços. Não eram da tentativa de suicídio porque ele sabia que ela tentara se matar de outra forma. Eram as marcas dos cortes que ela infligira a si mesma. Ele nunca comentara com ela e ela sabia que ele sabia porque ele encarara seus braços tantas vezes e mantivera o silêncio por respeito. Quantas vezes fora necessário para ele desistir de ir para outro mundo? Eles andavam em silêncio um ao lado do outro. Melhores amigos desde a tenra infância. Ele meio que a seguia porque ele sabia que ela precisava soltar nos passos a agonia que a consumia quando o mundo pesava. Ela tinha ele mas, um dia, ele não estaria lá. &lt;br /&gt;- Estela?!&lt;br /&gt;Ela se virou e eles se abraçaram.&lt;br /&gt;- Está na hora de você ir embora, não é?&lt;br /&gt;- Ah! Ma petite amie. Tu habite mon coeur pour tous les temps. Você sabe disso, não?&lt;br /&gt;As lágrimas escorriam sem que ela entendesse e foi ali que se deu conta do que acontecia. &lt;br /&gt;- Ylli...&lt;br /&gt;- Eu sei... eu sei... je t'aime beaucoup aussi, ma chérie. Demorou, hein?&lt;br /&gt;- Eu amo muito você, Ylli. Por quê?&lt;br /&gt;Eles suspiravam juntos para não perder o momento, o instante perfeito, o sol que exalava deles dois. Ylli a apertou contra o peito, temendo que se dissolvesse como gelo debaixo da água. &lt;br /&gt;- Ah! Ma chérie. Eu não poderia imaginar que me apaixonaria por você. Você entende?&lt;br /&gt;Ela se afastou dos braços dele e foi naquele instante que o espelho deles mesmos se quebrou.&lt;br /&gt;- Eu nasci na família que nasci, Estela. Eu não posso virar às costas a tudo que sou.&lt;br /&gt;- E eu? Eu posso, não é? &lt;br /&gt;As nuvens começaram a se formar acima da cabeça deles, o céu deixava de ser azul e se tornava cinza para mais uma chuva de janeiro, uma daquelas que desabava com força.&lt;br /&gt;- Eu nunca pedi nada...&lt;br /&gt;Estela correu para longe dele como se assim ela pudesse evitar os sentimentos que afloraram. Ylli era o melhor amigo do mundo com um destino em suas mãos, um destino que ele aceitava porque era o que se esperava dele. Ela continuou correndo sem parar porque se parasse ela voltaria correndo para os braços de Ylli e ambos estavam perdidos em um desejo que não podia se realizar. Aliás, ela estava disposta a amar e ele estava disposto a cumprir o destino escolhido para ele. Finalmente, Estela parou sem saber aonde estava direito, desnorteada pelas lágrimas, pela dor, pelo coração explodindo no peito, a ardência na garganta, trazendo a lembrança de que ela ainda vivia, de que ainda respirava. Ele a alcançou e a segurou, abraçando-a.&lt;br /&gt;- Por favor, ma vie!&lt;br /&gt;- Eu sempre soube o que sentia por você e aceitei tudo que você tinha para me falar. Você acha que eu não sentia nada? Agora... &lt;br /&gt;Ele a beijou com desejo, força, delicadeza e um amor que Estela sabia existir desde sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estela acordou com o barulho da chuva, sentindo ainda a força do beijo em seus lábios. Como isso era possível? A chuva não estava no corpo dela porque ela tocou o pijama, estava lá fora e estava dentro dela. Era a décima vez que sonhava com aquele homem que fazia sua alma tremular em um céu de cometas coloridos. Isso não existia, certo? Em filmes, talvez. A realidade era outra: acordar, trabalhar para se sustentar porque o casamento não funcionara. Uma filha pequena e ninguém para ajudar. A mãe ficava com a menina, vez ou outra. Tinha dias que a vontade era de apertar o acelerador do carro e ir de encontro a um muro. Ela olhou para os braços, lembrou que isso não traria conforto e deixava o pensamento de lado. Ainda tinha que lavar, passar, cuidar da casa e da pequena. Às vezes, ela se sentava para descansar e adormecia no sofá, cansada do dia e de tudo o mais. Tinha que ter algo a mais naquele mundo. Ela era mais um ser, dentre os bilhões que queriam uma vida decente mas, que se matavam de trabalhar para ter o mínimo do que era um pouco melhor. Às vezes, ela chorava e quando ela sonhava com Ylli, tinha vontade de permanecer naquele lugar para todo o sempre. Merda de vidinha escrota que ela tinha! Nenhum prazer, nada para alimentar a alma. Como tantos outros seres humanos, ela desistiu dos sonhos para viver a vida de todos. Afinal, tinha Luana agora. Depois que sonhava com ele, não conseguia voltar a dormir novamente. Encarava o teto, imaginando uma engrenagem que pudesse colocar sua vida de volta aos trilhos como nos filmes em que as pessoas do bem acabavam vencendo os vilões e se dando bem. Onde estavam os finais felizes da vida real? Conhecia alguns mas, nem todos ali do lado como ela queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estela sentiu que caía sem parar repetidamente. Daquela vez, havia algo diferente, os olhos que lhe diziam que tudo ficaria bem. Ela retirou os eletrodos wireless da cabeça e saiu da cadeira furiosa.&lt;br /&gt;- Quem implantou os olhos? Não gostei da brincadeira, ouviram? Ylli está morto!&lt;br /&gt;Camille se aproximou, tentando acalmar Estela.&lt;br /&gt;- Foi você. &lt;br /&gt;- Por que eu faria algo estúpido assim?&lt;br /&gt;- Porque você quer ser feliz ou foi algo que você balbuciou ontem...&lt;br /&gt;- Kandi, eu estava bêbada! Por que diabos...&lt;br /&gt;- Porque eu não aguento mais, porque você precisa resolver o que aconteceu entre vocês para que nós possamos existir. Eu vou para casa e só volte depois que você se lembrar de Ylli e esquecê-lo de verdade.&lt;br /&gt;Estela ficou no laboratório, esperando uma resposta divina, qualquer coisa que a trouxesse para o mundo real. Kandi era o homem perfeito, era tudo que ela queria e, ainda assim, sonhava com Ylli e suas imperfeições. Ele a deixara porque ele tinha que se casar com a menina que a família dele escolhera. Ela se lembrou que criara Kandi para ser perfeito, para ser tudo que ela sempre desejara mas, ele não era Ylli. Ela nem sabia mais se Ylli era real ou se ela o criara para suprir sua necessidade de um relacionamento imperfeito.&lt;br /&gt;Ela entrou no veículo e descobriu que não tinha para onde ir. Rodou por um par de horas até parar no aeroporto para admirar os meios de transporte aéreos, aquelas máquinas gigantes em que homens voaram, um dia. Agora, apertava-se um botão, leitura de DNA e bum, já era possível estar em outro lugar. Ela sorriu, igual no seriado antigo Star Trek. O cappuccino esfriava em sua mão  quando ela ouviu seu nome e uma voz do passado.&lt;br /&gt;- Estela?! O que faz aqui? Nós combinamos que nos encontraríamos na ponte.&lt;br /&gt;Qual ponte? Do que ele falava? O mesmo arrepio de sempre... a mesma sensação de perda. O que ela precisava lembrar? O que ela precisava deixar ir embora? O que ela precisava deixar entrar? Seu coração deu um salto... depois outro salto... depois mais um salto e ela ouviu uma voz:&lt;br /&gt;- Ela está voltando, Julian.&lt;br /&gt;Estela abriu os olhos e viu um teto branco e a penumbra.&lt;br /&gt;- O que está havendo? &lt;br /&gt;Ela sentiu uma dor no corpo como se estivesse sendo atravessada por uma espada.&lt;br /&gt;- Você sofreu um acidente, querida!&lt;br /&gt;Aos poucos, ela se lembrou do acidente, de ter tido o abdomen pressionado contra alguma coisa.&lt;br /&gt;- Eu estive em coma?&lt;br /&gt;- Sim, Estela. &lt;br /&gt;- Que mais, Julian? Ele estava... eu estava...&lt;br /&gt;Julian suspirou. &lt;br /&gt;- Não, querida. Você estava sozinha. Não foi um acidente de carro exatamente...&lt;br /&gt;A memória do corpo dela indo de encontro a um carro.&lt;br /&gt;- Eu não sei mais o que é real, Julian. Ele partiu, mesmo assim?&lt;br /&gt;- Ele ficou com você até a ambulância chegar. &lt;br /&gt;- A chuva foi real? Ele... &lt;br /&gt;- Você me pergunta se Ylli foi real? É você que tem que me dizer!&lt;br /&gt;Ela o encarou com profunda tristeza.&lt;br /&gt;- Eu?!&lt;br /&gt;- Ele está dentro do seu coração, não é?&lt;br /&gt;- Está, Julian. Mas ele foi embora, não foi?&lt;br /&gt;Julian viu os olhos de Ylli tristonhos quando a ambulância chegou. O cabelo escorrido por causa da chuva e o embarque para dali a umas poucas horas. Se, ao menos, ela pudesse entender que havia coisas que estavam no destino desde antes de nascer. Estela entenderia?&lt;br /&gt;- Onde está Camille, Julian?&lt;br /&gt;- Foi para casa. Ela estava cansada. Estamos nos revezando há muito tempo, esperando o derradeiro momento.&lt;br /&gt;- Tem quanto tempo?&lt;br /&gt;- Algum tempo...&lt;br /&gt;- Quanto tempo?&lt;br /&gt;- Três semanas. Você quebrou umas costelas... faltou pouco para perfurar o pulmão esquerdo, quase matou o motorista de susto, que vem aqui lhe deixar flores. &lt;br /&gt;- Sim... qual é mesmo o nome dele? Kandi!&lt;br /&gt;Julian a olhou assustado. &lt;br /&gt;- Como pode saber?&lt;br /&gt;- Eu o ouvia.&lt;br /&gt;- Ele achou que você havia tentando se matar.&lt;br /&gt;Ela olhou para longe.&lt;br /&gt;- As marcas... ele... isso vai me perseguir para sempre? Eu não tentava me matar... você sabe... I was a cutter.&lt;br /&gt;- Je sais.&lt;br /&gt;Ela começou a chorar e o corpo todo doía. Ela mal conseguia se mover. Julian segurou a mão dela com carinho.&lt;br /&gt;- Vou ligar para Camille. Assim que você sair daqui, daremos uma festa, está bem?&lt;br /&gt;A realidade era diferente agora. Era um deserto constante de um sol ardente e desesperador. Por muito tempo, Ylli havia sido seu ombro, sua vida... e como seria voltar para casa sem ele? Fora ele que a salvara de ser mais complicada do que já era. Não que ele tivesse que retirá-la dos buracos que caía mas, saber que ele estaria por perto era como ter as estrelas brilhando para sempre com a lua em um regato silencioso.&lt;br /&gt;- Estela?&lt;br /&gt;- Por que não foi embora para sempre? &lt;br /&gt;- Tu sais. Eu não pude deixar você. Eu estava no aeroporto... no salão de embarque, pronto para pegar meu vôo e tudo que me vinha à mente era você contra um carro, meu desejo de ficar... então, estou aqui.&lt;br /&gt;Por um momento, as batidas do coração de Estela pareceram parar.&lt;br /&gt;- Você vai ficar? Para sempre?&lt;br /&gt;Ela observou a aliança no dedo dele e o silêncio falou por ela quando ela virou o rosto para ele.&lt;br /&gt;- Tu ne comprends pas, ma chérie.&lt;br /&gt;- Arrête!&lt;br /&gt;- Você nunca falou francês comigo... então... é melhor...&lt;br /&gt;- Ylli, entenda, você foi meu melhor amigo, poderíamos ter sido felizes mas, eu não tenho como ficar na sua vida desta forma sentindo o que eu sinto.&lt;br /&gt;O silêncio se fazia presente quando Kandi chegou com um buquê de flores e observou os dois,  que pareciam continentes que se afastavam um do outro. Ele a beijou na testa e pousou uma caixa de jóias perto da mão dela.&lt;br /&gt;- Isso pertencia à minha mãe e ela me pediu que desse à mulher que arrebatasse meu coração.&lt;br /&gt;Ele partiu e Kandi arrumou as flores num vaso.&lt;br /&gt;- Então, é ele?&lt;br /&gt;As lágrimas corriam e ela não conseguiu responder. Ela abriu a caixa e viu um anel com uma safira enorme cravada com diamantes. As lágrimas correram como a correnteza de uma catarata. Kandi se sentou ao lado dela e pousou o rosto nas mãos.&lt;br /&gt;- Eu não sou o motorista que atropelou você... meu irmão pediu que ficasse de olho em você até você se recuperar. Confesso que ele tem muito bom gosto.&lt;br /&gt;Estela estava cansada demais para falar o que fosse e deixou a água escorrer dela.&lt;br /&gt;- É um casamento arranjado e nós não podemos sair destas coisas a não ser que haja um motivo justo. Eu coloquei um detetive particular na cola dela e não descobrimos nada, absolutamente nada. A moça é recatada e ele só poderia fazer algo se descobríssemos algo. &lt;br /&gt;Ela queria gritar. Tudo doía. &lt;br /&gt;- Nós podemos fazer qualquer coisa por você...&lt;br /&gt;Ela sorriu enquanto as corredeiras vertiam todas as lágrimas. Ela pediu para que ele se aproximasse e colocou o anel sobre a mão dele e fechou os olhos. O cansaço a dominara por aquele dia. Quando ela pode andar de novo, Julian e Camille a levaram para a casa deles até ela voltar para a vida de sempre, em que não havia ninguém. Ylli era o amigo íntimo, das confidências. Julian e Camille tinham suas vidas. Quando Estela voltou ao trabalho, Camille foi seu suporte.&lt;br /&gt;- Ei, você está bem cotada, hein?&lt;br /&gt;- Hã?!&lt;br /&gt;- Sua sala parece um jardim!&lt;br /&gt;Ela olhou o cartão, abriu a janela e jogou todas as flores pela janela com fúria. Alguém a segurou porque a empresa poderia ser multada e ela teve férias obrigatórias com uma passagem em aberto para ir para qualquer lugar.&lt;br /&gt;- E Estela, quando você voltar, espero que esteja melhor!&lt;br /&gt;- Sim, Senhor.&lt;br /&gt;Ela seguiu para Paris e, depois, para a orla marítima para ter paz. Ainda assim, não era o lugar  que sua alma desejava. Viu um panfleto sobre a Irlanda e seguiu para lá, sozinha e seguiu para um lugar perto do oceano, em um vilarejo simpático, onde quase ninguém falava algo que ela pudesse entender. Era noite e Estela dançava em um pub irlandês quando seus olhos se cruzaram com os olhos de Ylli. O tempo congelou para sempre naquela troca de olhares. Nada nem ninguém se mexia. Ele seguiu até ela.&lt;br /&gt;- Eu falei para seu chefe que caso as flores não dessem certo, era para oferecer a passagem. Eu sabia que você iria até Paris. Mas, não esperava encontrá-la aqui. Foi difícil achar você aqui. Você esqueceu algo com Kandi e eu vim lhe devolver. Pardon, mon amour.&lt;br /&gt;Ele se ajoelhou e a abraçou e ela percebeu que a aliança estava na mão esquerda e um choque gelado perpassou o corpo dela.&lt;br /&gt;- Era tão bom quando éramos crianças e não sabíamos de nada, não?&lt;br /&gt;Ela correu de novo mas estava muito frio e ela ainda não estava completamente recuperada do acidente. Ele a alcançou e a segurou.&lt;br /&gt;- Você nunca me deu a chance de me explicar... ela não tem muito tempo de vida! &lt;br /&gt;Ela não tinha escolha a não ser ouvi-lo naquele fim de mundo.&lt;br /&gt;- São mais alguns dias! Apenas mais alguns dias, Estela! Eu nunca a amei mas, eu queria realizar o sonho dela, Estela! &lt;br /&gt;- Então, quando ela tiver realizado o sonho dela, você pode me procurar. Mas, eu não serei sua amante e não quero saber mais. Estamos entendidos?&lt;br /&gt;Ele a abraçou enquanto a neve caía sobre eles.&lt;br /&gt;- Il n'y a pas des choses pour nous séparer. Je t'aime. Je t'aime.&lt;br /&gt;- Alors, vá embora, Ylli.&lt;br /&gt;Ylli partiu naquele dia e ela partiu da Irlanda para o mundo. Ela não queria ser encontrada por ele em lugar algum. Estava na Inglaterra quando em um parque, ela viu um gnomo que acenava para ela. Ela o seguiu até ser amarrada e viu dentes afiados, que estavam para comê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estela acordou aos gritos e suando.&lt;br /&gt;- Que foi, querida?&lt;br /&gt;- Ylli, eu tive todos os tipos de sonho com você... que você iria se casar com outra mulher... foi estranho.&lt;br /&gt;Ele suspirou.&lt;br /&gt;- Eu deveria ter me casado com ela. Mas, naquele dia em que nos beijamos, eu sabia que eu pertencia a você. Eu tive uma longa conversa com meu pai e ele me disse que era melhor casar por amor. Minha mãe foi uma noiva encomendada e ele a amou do momento que colocou os olhos nela... mas, ele sabe que isso é raro, bastava ver o resto da família.&lt;br /&gt;Ele a abraçou e a beijou no pescoço.&lt;br /&gt;- Tu es mon amour pour tout ma vie, comprends?&lt;br /&gt;- Mais oui, mon amour. &lt;br /&gt;Suas bocas se colaram e o amor deles se tornou mais forte que o mundo podia supor existir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-7568053205443972769?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/7568053205443972769/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=7568053205443972769' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7568053205443972769'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7568053205443972769'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/01/sobre-o-amor.html' title='Sobre o amor'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-5635729739167478292</id><published>2011-01-04T12:32:00.001-08:00</published><updated>2011-01-04T12:32:04.317-08:00</updated><title type='text'>O destino de Kayla</title><content type='html'>Um gato amarelo andava pela rua, buscando um lugar para se proteger do frio. Ela saltou de um muro próximo, o casaco cor de vinho esvoaçando e o silêncio mortal da noite se fazia presente, junto com uma chuva fina que insistia em cair. Ela usava as botas de sempre, com fivelas que subiam até o joelho para as pernas ficarem firmes e evitar ossos quebrados durante as fugas. Kayla ficou agachada por alguns segundos ainda, espreitando os perigos da noite. Levantou-se, certa de que havia muitos pares de olhos em sua nuca. As pessoas olhariam das suas janelas apenas alguém que estava andando nas ruas, não poderiam imaginar que Kayla viera de um rasgo dimensional e que caíra naquele lugar. Um mendigo a vira vir do céu, olhou para a cachaça na mão e teve certeza que alucinava. Kayla acariciou um bicho peludo em seu ombro e seguiram pela noite em que vivente nenhum existia. Ela sabia que havia os outros, embora nunca os tivesse visto. Ela se aproximou de uma área mais iluminada da rua e jogou um dinheiro para o mendigo que dormia, acariciou o cachorro ao lado, que se encolheu e chorou. De vez em quando, o mundo cortava Kayla. Nestes dias, ela tirava a roupa, entrava na banheira branca e deixava o sangue correr para ficar limpa. A água ficava com o vermelho do seu sangue, com aquilo que ela deixava de bom de si mesma a cada vez que sentia a dor. Fazia parte da escolha. Haviam perguntado: Você quer conhecer a magia, Kayla? Sim - ela respondeu. Você sabe o que acontecerá? Sim - ela respondeu, sabendo que não viveria o mundo de Harry Potter. Talvez, mais o mundo de Tim Hunter. Nem fazia tanto tempo assim que ela aceitara a proposta. Se se arrependera? Apenas quando ligava a água e o sangue escorria porque doía para caralho. Era parte do trabalho, não era? Esta parte ninguém tinha explicado muito bem até ela começar a vivenciar. Ao contrário de Tim Hunter, Kayla estava sem guia. Então, não sabia bem como aquilo tudo funcionava. Aprendeu que ela era meio invencível em certos lugares e que podia perder a vida em outros... mais especificamente, a alma. Uma alma como a dela tinha algum peso interessante para os mercadores ilícitos. Ela não gostava de pensar assim... Onde ela poderia encontrar alguém como John Constantine? Ou aquela amiga bruxa dele? Ou todos aqueles personagens bacanas dos quadrinhos? Ela chegara em casa e já estava na banheira. Sem cortes porque seus pensamentos estavam em outros lugares. Graças a Deus! O animal que se parecia uma fuinha se aproximou dela e ficou na beirada da banheira.&lt;br /&gt;- O que foi? Eu ainda não lhe dei um nome, né? - disse acariciando o bicho. Ela sorriu. - Tim Hunter?! Seria inapropriado?&lt;br /&gt;- Aleluia! &lt;br /&gt;Ela escorregou na banheira.&lt;br /&gt;- Você fala?&lt;br /&gt;- Sim. Estava esperando você me dar um nome. Não é inapropriado. Com certeza, existem gatos e cachorros com este nome. &lt;br /&gt;- Tim Hunter... - ela sussurrou curiosa.&lt;br /&gt;- Bom, agora que passamos esta questão dos nomes, vamos ao que interessa, n'est pas?&lt;br /&gt;Os olhos de Kayla adquiriram um tom mel, de um êxtase que Tim Hunter conhecia. &lt;br /&gt;- Isso não vai acabar bem!&lt;br /&gt;Ela começou a levitar, a água pingando do corpo e do cabelo, as palavras mágicas saindo da boca dela. A porta se abriu com suavidade, um sujeito com um casaco de couro surrado, chapéu escondendo o rosto e calças cáqui surgiu.&lt;br /&gt;- Há quanto tempo começou?&lt;br /&gt;- Há pouco, mestre.&lt;br /&gt;- Vamos cobri-la!&lt;br /&gt;- Com qualquer coisa? Enlouqueceu? Vão nos queimar vivos!&lt;br /&gt;- Tim... - ele gargalhou. - Ela é uma sacerdotisa! &lt;br /&gt;O animal fez um bico.&lt;br /&gt;- Você poderia ter recusado. Seu ego o deixou feliz porque é o nome de um mago poderoso em um mundo imaginário, que você sabe...&lt;br /&gt;- Sim, eu sei... não é tão imaginário assim. &lt;br /&gt;Tim voltou com um lençol e eles a cobriram, esperando que ela parasse com as palavras mágicas e antigas. A história do mundo se projetava da mente dela: Lemúria, Atlântida, a queda de Atlântida, o Antigo Egito, Grécia, Idade Média e outros tantos lugares em que a magia acontecia simultaneamente naquele planeta e em todos outros, outras tantas histórias.&lt;br /&gt;- Ela esteve...&lt;br /&gt;- Shhhhhhhhhhhhhhhh...&lt;br /&gt;Finalmente, as palavras saíram debilmente da boca de Kayla e ele a segurou para que não caísse. Ele a pousou na cama com delicadeza. Ele retirou o chapéu e se sentou no sofá, esparramando as pernas compridas. O apartamento de Kayla era de um bom tamanho. Finalmente, havia uma sacerdotisa com um pouquinho mais de bom senso que as outras!&lt;br /&gt;- Ela vai morrer também?&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;Ele puxou o chapéu em cima da cara e dormiu sentado. Kayla acordou como se tivesse apanhado da pior legião de demônios. Tudo doía, até o maxilar. Que porra... ela foi para a sala, onde os raios do sol começavam a implodir. Ela odiava manhãs. O que era aquilo? Por que não dormira direito? Seguiu direto para a cozinha, abriu a geladeira.&lt;br /&gt;- Está tudo bem, moça?&lt;br /&gt;Ela gritou, os ovos iam estalar no chão, quando eles pararam no ar, o chá parado no ar. Ela tocou tudo e era a mesma consistência. &lt;br /&gt;- O que...&lt;br /&gt;Ela se virou para o lado e viu o moço de chapéu... Indiana Jones na sua sala! Ela sorriu. Tentou se lembrar se usava uma calcinha decente. Mas... a última coisa da qual se lembrava era do banho, de levitar e de um homem lindo e gostoso na porta de casa! Ai! Caralho!!!! Ele retirou o chapéu, deixando aparecer o cabelo louro e os olhos verde-musgo e uma barba por fazer. Ele pegou os ovos, recolheu o líquido e a ajudou com o desjejum. Ela se vestiu com um jeans surrado e uma camiseta. Ele retirou o casaco e estava impecavelmente bem-vestido para quem parecia ter saído de um filme do Indiana Jones.&lt;br /&gt;- Quem é este Indiana Jones? &lt;br /&gt;Ela riu.&lt;br /&gt;- Não assiste tv?&lt;br /&gt;Ele suspirou.&lt;br /&gt;- Você tem tempo para isso?&lt;br /&gt;Ela colocou a mesa e ele repousou ovos pochê sobre a mesa, panquecas, suco de frutas frescas e caldas para a panqueca.&lt;br /&gt;- Como fez isso?&lt;br /&gt;- Magia básica. Você já deveria saber a esta altura.&lt;br /&gt;- Eu não sou o Timothy Hunter.&lt;br /&gt;- Quem?!&lt;br /&gt;Ela grunhiu.&lt;br /&gt;- O mago das histórias em quadrinho!!! - falou o bicho peludo.&lt;br /&gt;Ele leu a mente de Kayla.&lt;br /&gt;- Ah! As coisas mundanas! &lt;br /&gt;- De que mundo ele veio?&lt;br /&gt;- Ele é o último da tribo dele, o que vocês, hoje, chamam de celta.&lt;br /&gt;Mas, hein?! Que porra era aquela?&lt;br /&gt;- Moça educada que você arrumou, né?&lt;br /&gt;- Moço, eu tenho um trabalho a fazer!&lt;br /&gt;- Kayla!&lt;br /&gt;- O quê?&lt;br /&gt;- Você não pode sair nua!&lt;br /&gt;Ela ficou vermelha, trocou-se. Colocou as roupas de inverno: o casaco preto de lã batida, a boina, a bota que mandara fazer especialmente para ela com reforço lateral e seguiu para a vida tediosa de todos os dias. As moças abriam a boca nos telefones maçantes, ela também. Almoçava sozinha porque não gostava de companhia. Sentou-se só e viu ao longe um rapaz grande e alto, de traços europeus. Podia jurar que o conhecia de algum lugar. Ele foi se aproximando até que se sentou à frente dela.&lt;br /&gt;- Olá!&lt;br /&gt;- Ah! É você... pelos deuses, veja se não me envergonha!&lt;br /&gt;As moças já começaram a olhar para ela com uma curiosidade invejosa. Ela se encolheu na cadeira, tentando fingir que não era com ela. Ele observou a situação divertido.&lt;br /&gt;- Por favor, moço! Eu já sou estranha demais...&lt;br /&gt;Ele pousou a mão delicadamente sobre a dela.&lt;br /&gt;- Não se preocupe, amor!&lt;br /&gt;Ela enrubesceu novamente.&lt;br /&gt;- Qual o seu o problema? &lt;br /&gt;Ela se levantou com a bandeja e a depositou no balcão, voltando para o escritório. Ele estava atrás dela e ficou com ela o dia todo, passando despercebido, o que ela achou muito peculiar. Afinal, ele não era um homem que passasse sem ser notado. Finalmente, o expediente acabou e ela seguiu exausta para casa. Ligou o computador, viu seus e-mails, nenhum pedido chegou pela rede, colocou uma música gostosa e começou a dançar. Ele surgiu no umbral da porta e se aproximou e começou a dançar com ela.&lt;br /&gt;- É assim que se faz hoje em dia?&lt;br /&gt;Ela se assustou.&lt;br /&gt;- Assim, não dá! Você sabe o que é privacidade? &lt;br /&gt;Ele se sentou no sofá.&lt;br /&gt;- Sei! Estou esperando pelos outros.&lt;br /&gt;- Que outros?&lt;br /&gt;- Pelos outros como nós! Tem o Egípcio. Nunca lembro o nome dele. Tem uma mulher verde... vem de outro lugar. O mais velho de todos nós e outros. Você é a mais nova aquisição da turma.&lt;br /&gt;- E os demônios?&lt;br /&gt;- O que tem eles? - ele disse lambendo uma colher de algo que fazia na cozinha. - Bem, eles existem em uma esfera evolucional inferior. Você gosta de brincar com o perigo, né? Eles só atacam porque se sentem ameaçados. Você deve ser um bicho muito ruim com eles.&lt;br /&gt;- Então, hoje, não tem o que fazer.&lt;br /&gt;- Não! Só terá quando todos estivermos reunidos. Por que ninguém ensinou nada a você?&lt;br /&gt;Tim apareceu voando a cabeça dele e pousou sobre os ombros.&lt;br /&gt;- Porque só agora ela me deu um nome.&lt;br /&gt;- Falando em nomes... qual é o seu?&lt;br /&gt;- Tristan.&lt;br /&gt;- Triste fim, hein?&lt;br /&gt;- Da história com Isolda.&lt;br /&gt;- Ah! Lenda. E não, não era eu.&lt;br /&gt;Ela estava pronta para alguma ação noturna mas, sabia que teria que ficar em casa e isso era chato, o dia fora chato. &lt;br /&gt;- Venha! - ela disse.&lt;br /&gt;Ele a seguiu, sabendo que boa coisa dali não viria. Ela se sentou em um bar e começou a jogar cartas com um grupo de homens mal-encarados. Ele se encostou em algum lugar e observava com Tim em seu ombro esquerdo.&lt;br /&gt;- E agora? Ela será depenada!&lt;br /&gt;- A moça gosta de perigo, não? E como você deixou isso acontecer, guardião? Ela já foi aos infernos superiores e quase chegou aos inferiores. Se eles descobrissem que ela é a sacerdotisa... você tem noção de quantas vezes ela está presente neste mundo?&lt;br /&gt;- Eu sei. Corpo humano, ego humano, vontade humana. Você se veste de humano, não sente nada de humano em você?&lt;br /&gt;Ele sorriu e lembrou-se de acordar de vez em quando com uma ou outra mulher.&lt;br /&gt;- Pois então... você também não deveria estar por aí se divertindo.&lt;br /&gt;- Eu?!&lt;br /&gt;- Pois é... para o ritual, né?&lt;br /&gt;- Não sou eu que... não... o que você sabe?&lt;br /&gt;Ele se transformou em um velho com um cajado.&lt;br /&gt;- Vamos tirá-la daqui.&lt;br /&gt;- Senhores... a moça segue conosco.&lt;br /&gt;Os rapazes iam se preparar para uma briga quando surgiu um redemoinho à volta de deles e os levou. Tudo girava rápido para Kayla. O mundo da magia era mais potente que sequer imaginara. Ela própria era o Tim Hunter, perdida em um mundo sem pais. Os dela haviam morrido há pouco tempo. O pai primeiro e a mãe, logo em seguida. Kayla ficara com o apartamento. Deu um jeito para pagar as contas até ter o primeiro, o segundo e o terceiro sonhos com todas as possibilidades do mundo mágico. Também teve os sonhos com todas as consequências das escolhas. Ela viu um velho com um cajado a segurar por um braço e Tristan a segurar pelo outro. Voltaram para seu apartamento, que estava bagunçado. Ah! Não! Outro torvelhinho. Eles a levaram agora para outro lugar. Ela se soltou de ambos.&lt;br /&gt;- Agora, chega! &lt;br /&gt;Tudo parou. O tempo parou. O vento parou. Nada se movia. Nem eles. Nem ela.&lt;br /&gt;- Velhote! Agora, é com você!&lt;br /&gt;- Kayla, você é uma sacerdotisa antiga, uma alma antiga que nasce em lugares diferentes. No entanto, sempre teve a escolha de seguir uma vida normal ou seguir o nosso caminho. Nós temos poder, podemos viver para sempre... no entanto, você também já experimentou os espinhos deste caminho.&lt;br /&gt;- Ver o que ninguém vê, a solidão, não poder se relacionar com qualquer pessoa. Tudo isso, eu aguento... mas... ficar sendo carregada de um lado para o outro como se fosse uma criança idiota, não rola! Eu exijo uma explicação e, se ela for razoável, eu sigo vocês, oras!&lt;br /&gt;O bicho dela apareceu.&lt;br /&gt;- Eu disse que ela era teimosa.&lt;br /&gt;O velho se aproximou de Kayla.&lt;br /&gt;- Você é uma sacerdotisa... - um vento forte começou a soprar e o tempo voltou para um lugar que era desconhecido do homem, desconhecido de todo, onde havia todo o silêncio do mundo e, ainda assim, podia se ouvir a nota mais perfeita do universo. - ... os sacerdotes e sacerdotisas que povoam o mundo vieram deste instante, suas almas e todas as outras almas vinda assim, deste único ponto em que a energia começou a existir, deveriam existir para levar as mensagens dos deuses, daqueles em sabedoria maior que todos nós. No entanto, com o tempo, o poder os corrompeu. Sobraram poucos de nós, Kayla. - A barba se desfez e um homem de meia de idade se sentou em uma pedra que antes não existia. Um homem de rosto forte e bonito. Um homem cego, porém, que a tudo via. - No entanto, você decidiu viver uma vida sem poderes, você seguiu porque queria experimentar até os dias de hoje. Nunca interferimos. Ouvimos suas escolhas preocupados com tudo que lhe pudesse acontecer. Você viveu tudo, não foi? Matou. Morreu. Vingou-se. Foi vingada. Amou. Odiou. Em um corpo humano, todos os sentimentos se misturaram, não foi? Precisa clarear a mente, Kayla. Para se lembrar.&lt;br /&gt;- Espera! Não é bem assim...&lt;br /&gt;O homem suspirou. Tristan o observou sem saber o que fazer.&lt;br /&gt;- Como assim? Vamos ficar aqui? No fim do paradoxo dos tempos?&lt;br /&gt;- Se assim ela quiser.&lt;br /&gt;Kayla se sentou, fingiu brincar com pedrinhas que existiam para ela num mar que só ela via. Era assim que se acalmava, de costas para um mar que não era azul nem transparente. Um mar que parecia um lago. Ela se levantou. Andou de costas. Sentiu a água nos pés, nas panturrilhas. Tristan sentiu seu corpo endurecer. Ela deixou o corpo cair para trás e caiu infinitamente até sentir que caiu em algum lugar e virou o corpo como um gato. Estava no mesmo lugar de sempre, no rasgo dimensional, saltou para o chão com o mesmo gato amarelo miando. Desta vez, ela sabia  que haveria um homem esperando e ele não a seguraria. Ele ofereceu a mão e ela percebeu que estava dentro de um círculo, que sempre estivera ali ao longo dos tempos de todos os tempos, em que todos os magos ainda existiam. &lt;br /&gt;- Seja-bem vinda, Kayla. &lt;br /&gt;Então, ela se lembrou dele dos tempos dos tempos dos tempos e se abraçaram no reconhecimento mágico da dança das almas que sabem que pertencem uma a outra. Aquele momento em que a alma não tem nome, não existe corpo nem razão. Apenas existe. Tristan era aparentemente o companheiro humano de Kayla, que a ensinava as brincadeiras da magia que, um dia, necessitariam para acordar o mundo de seu eterno descanso. Por enquanto, que os homens permanecessem embalados, cegos e sonolentos, porque assim o  queriam antes da profunda transformação para a luz. A cada um, cabia escolher  seu próprio destino como Kayla fizera com o seu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-5635729739167478292?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/5635729739167478292/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=5635729739167478292' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5635729739167478292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/5635729739167478292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2011/01/o-destino-de-kayla.html' title='O destino de Kayla'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-1809199653589617895</id><published>2010-12-15T17:26:00.001-08:00</published><updated>2010-12-15T17:26:26.161-08:00</updated><title type='text'>Thorn</title><content type='html'>Ela andava pela vida, sem saber da existência dele. Ou, talvez, nem soubesse que ele existisse. Ele espreitava, nas sombras, esperando um momento oportuno para abordá-la. Será que ela o veria? Será que ela o reconheceria? Ela vivia a vida, sem se dar conta de sua presença, de que ele estava ali como um animal que pede afago, que espera por isso como o gato dela que sentava à sua frente e a olhava com os olhos tristes, esperando que sua mão o tocasse. Não! Ela não o fazia e ele aguardava apenas. Algum dia, ela o faria. Tinha certeza. Afinal, tudo estaria perdido, para ele e para ela, se assim não o fosse. Se ela não o olhasse, não soubesse de onde ele vinha, passariam ambos destinados a viver atrelados e perdidos em suas existências. Ele, na sombra, e ela, na sua ignorância. Como fazê-la notar que sua existência era primordial para ela mesma? Como, pelos deuses? Nenhuma resposta... nada! Rien du tout. Então, uma sombra se soergueu ao lado dele. &lt;br /&gt;- Há uma forma. Eu posso oferecer o que deseja.&lt;br /&gt;- A mim? Qual é o truque?&lt;br /&gt;O outro sorriu.&lt;br /&gt;- Truque? Eu não sou como os da sua espécie, Thorn.&lt;br /&gt;- Bah! Todos somos iguais no fundo.&lt;br /&gt;- Quer ou não?&lt;br /&gt;- O que pode fazer por mim?&lt;br /&gt;Os lábios se abriram em um sorriso ainda mais sinistro, mostrando dentes brancos e perfeitos. Afinal, ele podia assumir qualquer forma humana que fosse.&lt;br /&gt;Ela adormeceu e, ao invés de dormir, um sonho de destruição depois do outro. Acordou e acendeu a luz, dirigindo-se ao banheiro, desejosa daquela numinosidade, que só era capaz de atingir quando sonhava. Nem os sonhos mais! Que raios! - para não dizer outra coisa. Adormeceu novamente. E, noite após noite, ela tinha um sonho diferente. Não fazia mais diferença entre ficar acordada e dormir. Dormia quando não mais tinha condições de manter os olhos abertos. Mesmo assim, eles persistiam. Eles, os pesadelos. Ela os aguentava.&lt;br /&gt;Ele se aproximou e a observou se remexer na cama.&lt;br /&gt;- Não está funcionando.&lt;br /&gt;- Realmente, não está! Ela é por demais teimosa! &lt;br /&gt;Um sorriso se estampou no rosto dele.&lt;br /&gt;- Que pretende?&lt;br /&gt;Um homem sutil, belo, espectral surgiu no sonho dela e ela sorriu, pensando estar em segurança no mundo das fadas. Ele começou a sorrir e o rosto se transformou em uma máscara terrível como se fosse Odin, o deus dos mares, em sua fúria profunda. Não era mas, ela não sabia disso. Ele se transformou numa carranca e a carne lhe caiu do rosto de forma lenta. Ela pulou na cama gritando tentando se libertar daquela carne nojenta e gosmenta. Estava no escuro. Acendeu a luz. Não poderia pegar seu colchão como quando era criança e se dirigir ao quarto dos pais. Enfiou-se embaixo das cobertas e não pregou os olhos. Então, ela começou a se perguntar o que deveria fazer para tudo aquilo parar... não que tivesse noites profundas de sono em que se embrenhasse nos véus perfeitos de Morfeu ou de seus irmãos. &lt;br /&gt;No meio do caminho para um evento qualquer, ela parou o carro, desceu com ira porque não aguentava mais as noites mal-dormidas. Estava no acostamento, pisca-alerta ligado, perto de uma área residencial. Que fosse tudo ao inferno naquele instante! O céu estava cinza, bem cinza, prestes a desabar o mundo de água e ela, no capô do carro... talvez, nem tanto ali, em pé, gesticulando só.&lt;br /&gt;- Muito bem! O que diabos vocês querem de mim? Eu sou só uma pobre humana que deseja viver! E em paz! E em harmonia! Eu tento fazer as coisas do jeito certo para criar bom karma. Eu tento... eu juro que estou tentando!!!! Eu não sou perfeita. Eu só quero um momento de paz porque a vida já...&lt;br /&gt;Ele se materializou à frente dela. Uma gosma azul de olhos esbugalhados. Ela virou a cabeça para o lado, franziu a testa, tentando reconhecer aquilo.&lt;br /&gt;- Hã?!&lt;br /&gt;- Você me vê?&lt;br /&gt;- Aham! - ela assentiu sem convicção.&lt;br /&gt;A água caiu do céu. Trovões. Raios. &lt;br /&gt;- Você perguntou o que nós... eu queria.&lt;br /&gt;Ela se recompôs. Estranho.&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Não vai perguntar?&lt;br /&gt;- É... eu... mas, que diabos é você?&lt;br /&gt;- Daimon... demônio... como quiser.&lt;br /&gt;- Hã?!&lt;br /&gt;- Ah! Minha filha! Como é que é? Só porque eu não uso tridente, chifre e rabo não posso ser um demônio?&lt;br /&gt;- Não é isso... eu tinha uma idéia diferente. É que tinha que ter asa.&lt;br /&gt;Ele rolou os olhos sem paciência.&lt;br /&gt;- Eu não sou Lúcifer, minha filha. Vamos acabar com isto?&lt;br /&gt;- Hã?!&lt;br /&gt;- Eu já disse, vamos acabar com isso! Você me chamou.&lt;br /&gt;- Eu chamei?&lt;br /&gt;- Pelamordasantamãezinha! Vamos acabar logo com isso?&lt;br /&gt;Ela piscou tentando entender melhor.&lt;br /&gt;- Ótimo. Agora, ela saiu dos hãns. &lt;br /&gt;- É... assim... o que você...&lt;br /&gt;- Sim, quanto a isso. Só queria que você tomasse conhecimento da minha existência.&lt;br /&gt;- É?&lt;br /&gt;- Claro? Eu sou a sua sombra. Por que me oculta?&lt;br /&gt;- Eu...&lt;br /&gt;- Eu sei! Você tem esse complexo de bondade e me deixa escondido e isso é ruim para nós dois. Que tal a gente fazer um trato?&lt;br /&gt;- Com um demônio?&lt;br /&gt;Ele rolou os olhos de novo.&lt;br /&gt;- Você não entendeu, minha filha? Eu não sou qualquer demônio.&lt;br /&gt;- E eu não sou sua filha! Então, muito bem! Explique-se!&lt;br /&gt;- Eu sou uma parte sua.&lt;br /&gt;- Ah!&lt;br /&gt;- É tudo que tem a dizer? Ah!&lt;br /&gt;- Bom, e o que quer que eu faça?&lt;br /&gt;- Eu existo e pronto. Ouça-me. Abrace-me e sejamos amigos.&lt;br /&gt;- Só isso? Sem truques?&lt;br /&gt;- Qual é! Por que todo mundo pergunta se existem truques?&lt;br /&gt;- Bem, você é um demônio!&lt;br /&gt;- É mas, eu sou o seu demônio!&lt;br /&gt;- Certo! O que faço agora?&lt;br /&gt;- Apenas ouça-me e estaremos bem, garota.&lt;br /&gt;- O que você pode fazer de bom para mim?&lt;br /&gt;- Ensinar você a lidar comigo: seu outro lado! Por que não quer me ver?&lt;br /&gt;- Você é mal.&lt;br /&gt;- E você acha que ser toda boazinha vai fazer muita diferença? Você também tem um lado mau, oras! E sou eu! &lt;br /&gt;- Sim, mas...&lt;br /&gt;- Não é você que diz que as pessoas boazinhas são as piores?&lt;br /&gt;- É... eu digo mesmo!&lt;br /&gt;- Então, que você acha de me aceitar na sua vida?&lt;br /&gt;Ele foi sumindo devagar e se mesclou à chuva. Quando sumiu, não era mais um estranho ser de forma estranha e desmantelada. Ele tinha uma forma quase humana e ainda era azul e estava mais feliz. Ela reparou que estava molhada até os ossos da alma. E daí? Liberdade. Liberdade... liberdade... abra as asas sobre nós. Ela abriu os braços para a chuva. Quem se importava com o que os outros iam pensar? Importava mesmo era que tinha mais um aliado para si mesma, para sua alma. Agora, era viver sem esquecer que podia viver e errar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-1809199653589617895?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/1809199653589617895/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=1809199653589617895' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/1809199653589617895'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/1809199653589617895'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2010/12/thorn.html' title='Thorn'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-6547955602409156233</id><published>2010-12-11T23:55:00.001-08:00</published><updated>2010-12-11T23:55:35.658-08:00</updated><title type='text'>Agape</title><content type='html'>1943 - Atenas&lt;br /&gt;Um homem estava em uma esquina, observando o desenrolar da guerra em um país que não queria saber da guerra. Todos os dias as pessoas acordavam e iam para a praça central da cidade cantar o hino nacional como um ato de manter a posição. Pessoas ouviam à BBC escondidas para ter notícias do front. Eram outros tempos. Comida era artigo de luxo e as pessoas eram obrigadas a se enfiarem em buracos, ouvir os bombardeios e esperar, como em todas as guerras, que o fim se aproximasse para recompor a vida. O que ele fazia ali? Esperava o contato! E vivia ali como todo o resto, como os gregos. Ele sorriu por debaixo do chapéu! Sua origem estava nas terras abençoadas pelos deuses de Homero e Ovídio. Ele acendeu o cigarro para espantar a chuva fina que insistia em cair naquela noite de começo de novembro. Soldados alemães passaram por ele e ele usou seus poderes para se passar por soldado apenas fumando seu cigarro. Era perigoso usar poderes naqueles dias. No entanto, era preciso disfarçar-se, vez ou outra. Onde estaria o contato? O tempo dele estava curto. Na Grécia, ele era grego. Para cada solo que pisava, seu nome mudava, sua origem se transformava. Entre os de sua espécie, era primordial para manter a sobrevivência do espírito e do corpo. Havia tantos nomes para eles. Deuses. Fadas. Tuatha Dannan. Tanta coisa ao mesmo tempo. Ele sorriu. Sem nomes! Ele podia ser quem quisesse ser. Há muito deixara de lado os títulos. Havia uma questão de sobrevivência iminente. Com a guerra, eles estavam sendo descobertos e viravam criaturas a serem testadas. Mais que nunca, todo e qualquer cuidado era pouco. Por isso, ele escolheu Fotis, que significava luz! &lt;br /&gt;- Irônico, não? Você escolher este nome!&lt;br /&gt;- Agape! Estamos envelhecendo, não, minha amiga?&lt;br /&gt;- Eu tenho pouco tempo! Escapei por pouco.&lt;br /&gt;- Alemães?!&lt;br /&gt;- Não! Ingleses!&lt;br /&gt;- Aqui está! Proteja como se fosse sua vida.&lt;br /&gt;Ele riu sarcasticamente.&lt;br /&gt;- A que eu não tenho?&lt;br /&gt;- Dentre todos nós, você escolheu sua vida, seus momentos, seus erros. Nenhum de nós podia errar.&lt;br /&gt;Ele reparou no olhar preocupado dela.&lt;br /&gt;- Está aqui.&lt;br /&gt;Entregou um pacote para ele.&lt;br /&gt;- Lembre-se. Não abra a caixa. Nunca!&lt;br /&gt;- Caixa de Pandora?&lt;br /&gt;- Nós não sabemos o que ela contém. Apenas que devemos cuidar dela.&lt;br /&gt;Ela partiu e tudo que ele guardou daquela noite foi o salto do sapato dela batendo no chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;África do Sul- 1953&lt;br /&gt;Em 1945, ele saiu da Grécia, indo para outro país. No entanto, havia um trabalho a ser feito na África e lá estava ele, como novo nome. William. Pronto. O sol! Como ele odiava o sol. A arma estava na cintura e ele esperava a noite se aproximar para pegar a criatura que haviam contratado ele para matar. Ele puxou um cigarro enquanto estava sentado no hotel, servido por negros, e bebia água. Como ele odiava aquela situação que já vira vezes sem conta. Haveria um dia que o ser humano deixaria de ter preconceito e veria a verdade? Da essência de que todos eram feitos? Ele via. Os outros viam. Mas eles não eram humanos, eram? Uma mulher se sentou ao lado dele.&lt;br /&gt;- Belo dia, não, Willie, darling?&lt;br /&gt;- O que está havendo? &lt;br /&gt;- Estão nos matando! Nós que somos dedicados... que os amamos, que queremos amá-los!&lt;br /&gt;- E você é um assassino também, não, darling?&lt;br /&gt;Ele sorriu. &lt;br /&gt;- Nós temos que parar de nos encontrar assim, darling. - disse num tom cínico.&lt;br /&gt;- É verdade! A caixa... ela está segura?&lt;br /&gt;- Sim! Por quê? &lt;br /&gt;Ela começou a tossir e sangue saiu da boca dela.&lt;br /&gt;Ele se espantou.&lt;br /&gt;- O quê...&lt;br /&gt;Ele pagou a conta, segurou o corpo dela e a levou para dentro do saguão do hotel.&lt;br /&gt;- A senhora precisa de cuidados. Não quero ninguém no meu quarto!&lt;br /&gt;Ele a levou e retirou a roupa dela e observou que ela havia sido atravessada por uma espada. Ele não entendia como ela podia ter chegado até ele... Que forças haviam levado ela até ele? Ele a repousou na cama.&lt;br /&gt;- Por que eles não entendem?&lt;br /&gt;Ele segurou a mão dela.&lt;br /&gt;- Como você me achou?&lt;br /&gt;Ela sorriu com uma docilidade que ele nunca poderia esquecer.&lt;br /&gt;- Como esquecer o amor da sua vida?! Eu gostaria que as coisas tivessem terminado diferente, agape mou. &lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;A luz começou a surgir de dentro do corpo dela e ela passou a mão pelo rosto dele.&lt;br /&gt;- Eu sempre vou amar você!&lt;br /&gt;- Não! Não! Não!&lt;br /&gt;Ela desapareceu no ar. O grande amor de sua vida, aquela que havia vivido com ele e que levara para sempre um pedaço de sua alma, de seu corpo, de seu desejo. Milhares de anos, sua companheira de vida e de tudo o mais! Era quando eles se perdiam na alma um do outro, era quando as palmas das mãos se tocavam, as bocas se entrelaçavam, os corpos fluindo um no outro como água que se mistura para sempre. Ah! Era Psiquê que partia dele, que levava tudo que era melhor dele. O melhor pedaço dele morria ali. Como se chamaria a partir dali? Eros, o assassino. Eles sabiam dos riscos que corriam para proteger o conhecimento. Nunca antes ele vira um deles ferido e morrer. Ele pegou o cristal que ela carregava no pescoço antes de sumir para todo sempre. Apenas uma pequena parte dela permanece. Se pudesse ser medida, seria menor do que um átomo, quase invisível. Um dos irmãos surgiu às costas dele.&lt;br /&gt;- Você sabia que isso poderia acontecer, irmão!&lt;br /&gt;- Tire suas mãos de mim!&lt;br /&gt;- Você sabe bem como estas coisas funcionam! Dê-me a caixa!&lt;br /&gt;- Não! - ele gritou furioso.&lt;br /&gt;- São as ordens!&lt;br /&gt;- Eu não sigo mais ordens.&lt;br /&gt;- Esta é a última! Eu entendo sua dor!&lt;br /&gt;- Não! Você não pode entender minha dor porque você nunca perdeu nada parecido!&lt;br /&gt;- Irmão... você não está pensando direito!&lt;br /&gt;Ele percebeu que outros começavam a surgir e ele sumiu. Ninguém soube para onde ele foi naquele dia. Apenas sabiam que nada poderiam fazer enquanto ele tivesse a caixa. Todos os irmãos se reuniram naquele dia e fizeram um enterro apropriado para ela. Eles entoaram o silêncio em cores que olhos humanos não eram capazes de ver, sentir ou perceber. Nada poderia! Foi assim que tudo se deu até aquela data. Naquela noite, no entanto, ele matou o ser do mundo das fadas com a espada mágica do próprio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brasil - São Paulo - 1956&lt;br /&gt;Uma pensão no centro de São Paulo. Ele acordou de noite. Era sua manhã. Hora de pegar demônios e outras coisas rastejantes do inferno. Talvez, fosse a forma dele de compensar a culpa ou o que fosse. Ele encarou o rosto no espelho velho da pensão. Ele não podia pagar por uma boa ou não queria. Parou de se importar há alguns anos. Ele observou a cicatriz no rosto, feita por um demônio astuto mas, não esperto o suficiente para ele. Nenhum demônio ou criatura mágica poderia fazer com que a dor se desfizesse. Já tentara tudo: jogar-se de prédios, em frente de carros, tiro... tudo! A única coisa que chegara perto de machucá-lo fora aquele demônio na Avenida Paulista. Eles passavam por cima do teto das casas sem que os olhos humanos pudessem vê-los. Logo, eles entraram em uma ruela escura, onde travaram uma batalha. O demônio com um rabo,que chicoteava. A chuva caía forte e criava uma enchente que fazia os humanos fugirem enquanto o demônio se fortalecia e ria. &lt;br /&gt;- Você acha que vai me matar como faz com as fadas revoltadas? Irônico, não? - ele dizia sentado em cima de um carro. - Você mesmo, sendo um pária.&lt;br /&gt;- Eu não mato humanos por prazer. E, não, eu não vou matar você com uma arma mágica que é pura demais para tocar você, seu filho da puta! &lt;br /&gt;Ele agarrou o rabo do demônio e se jogou nas poças de água sendo eletrocutado e matando o demônio junto. Depois, ele encostou em um poste, acendeu um cigarro, passou o dedo no corte do rosto e deixou o sangue pingar, dando de ombros.  Caminhou, pisando entre as poças, sem se preocupar com mais nada. Achou um bar aberto e pediu uísque puro. O atendente o observou com um ar curioso mas, era educado o suficiente para não comentar sobre a aparência do cliente que ali estava: sujo, amarrotado, sangrando. Aquele era um lugar de cavaleiros decentes.&lt;br /&gt;- Senhor?&lt;br /&gt;- Ali atrás tem um banheiro.&lt;br /&gt;- E?&lt;br /&gt;O atendente do bar ficou quieto. Ele terminou a bebida, pagou e foi embora. A marca ficou e ele encarava a pequena cicatriz, passou o dedo sobre ela novamente, pensando que nunca mais vira um demônio daqueles em sua existência e esperava não encontrar um daqueles tão cedo. Era uma outra noite como outra qualquer quando ele seguiu pelas ruas de São Paulo, novamente. Dessa vez, não queria matar nada nem ninguém, apenas beber em paz em uma espelunca porque os lugares finos já banira ele inúmeras vezes porque a confusão parecia encontrá-lo. Uma mulher se aproximou do balcão onde ele estava, retirou as luvas.&lt;br /&gt;- Olá!&lt;br /&gt;Ele não respondeu.&lt;br /&gt;- Eles vão encontrar você! Você sabe disso, não?&lt;br /&gt;- O que você quer?&lt;br /&gt;- Avisá-lo.&lt;br /&gt;- Nós não somos amigos.&lt;br /&gt;Ela mostrou os dentes afiados e podres.&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;Ele esticou a mão e apertou o pescoço dela e a levou para um lugar escuro e matou aquela sucubus com um prazer sádico, arrancando-lhe o coração com a mão nua. Era hora de mudar de novo de cidade. Para onde ir? Ele nem se deu ao trabalho de voltar para a pensão. Um dia, ele passaria por ali e veria as ruas que conhecera completamente mudadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brasília - 1960&lt;br /&gt;Ele se instalou na cidade e comprou terrenos por todos os lugares. Ali, ele estava seguro porque a cidade fora feita em cima de um bloco de cristal maciço e isso confundia as antenas de todos os seres. Acabou por construir um império em mais de 30 anos. Achou simpático parecer envelhecer. Afinal, as pessoas iriam achar estranho ele permanecer com o mesmo corpo, o mesmo rosto. No entanto, o uso da magia devia ser contido, pois, quanto mais usasse seus poderes mais fácil seria encontrá-lo. Mas nada importava. Quando ele se mudou, comprou as armas certas, encontrou as criaturas certas e montou seu arsenal para ir atrás de monstros.  Ele começou a matar também seres humanos. Ele cortava suas gargantas com a adaga mágica  que pegara na África da criatura do mundo das fadas. Ele entoava um mantra antes de matar para paralisar a pessoa. Era a única coisa que mantivera em sua alma de um tempo que não parecia tão distante. Havia outra coisa que mantivera também. A caixa! Ele prometera a ela. &lt;br /&gt;A partir da década de 60, ele aperfeiçoou a forma de matar. Muitos morreram pelas suas mãos, dia após dia. Sua casa era cercada de proteções mágicas, cristais e solidão. Quanto tempo mais ele teria nesta vida? Ele sorriu! Não importava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2010&lt;br /&gt;Eros era uma criatura que se escondia nos cantos escuros da cidade. Ao mesmo tempo, também aparecia em festas por breves minutos. Ninguém se importava muito se ele sumia ou se aparecia. Gente rica era excêntrica mesmo. Ele ia nos puteiros da cidade para beber em paz e caçar os demônios. Já matara algumas putas. Nem fazia mais questão de limpar o sangue humano de seu corpo. Queimava as roupas e deixava de lado a memória do ato de matar, que se tornara mecânico. Tomou uma dose de um uísque barato e ruim em um lugar de péssima reputação pagou, quando uma puta muito gostosa e bonita se aproximou.&lt;br /&gt;- Precisamos conversar, irmão!&lt;br /&gt;Ele congelou qualquer movimento naquele instante.&lt;br /&gt;- Certo! Aonde?&lt;br /&gt;- Encontre-me no hotel em que você leva as prostitutas!&lt;br /&gt;Ele seguiu para o hotel, sentindo a coluna se arrepiar, pediu um quarto e esperou, passando a mão na nuca. Ele tocou a caixa que trazia com ele e a observou. Uma caixa de metal, prateada, com várias pontas como se fosse uma estrela. Aliás, ela mudava de cor e forma. Ele repousou a caixa sobre a mesa e a observou. Ele havia prometido que jamais a abriria. What the fuck, right? Então, ele a tocou e falou as palavras mágicas que abririam a caixa, as palavras que ela ensinara a ele em 1943, caso fosse necessário abrir. Ele já estava fodido mesmo. Um pouco mais. Um pouco menos. A caixa se abriu e nada saiu de lá. Apenas um ponto luminoso azul. &lt;br /&gt;- Que porra...&lt;br /&gt;Ele acendeu um cigarro, recostou-se na cadeira e riu com sarcasmo. Ele viu o nascimento de uma galáxia bem em frente aos seus olhos. Os irmãos não ficariam nada felizes com aquilo. Ele gargalhou gostoso como há muito não fazia. No mundo dos homens, da impureza, nascia um novo lugar, para onde as novas almas iriam e ele, o impuro, o perverso, o assassino de criaturas, libertara a energia para criar novos mundos, novas esferas existenciais. Será que seria a hora dele? Ele retirou o cristal do pescoço e olhou para ele... e se ele colocasse dentro da caixa? Então, ele colocou aquele tiquinho de nada de alma naquela caixa e a caixa se fechou. Pronto! Agora, fodeu! Ele tocou a caixa e ela não abriu. Ele sentiu a vibração dos irmãos chegando ao quarto.&lt;br /&gt;- Vamos! O que isso quer dizer?&lt;br /&gt;Então, ela surgiu esplendorosa como se o tempo nunca tivesse passado e veio na direção dele.&lt;br /&gt;- Não é você! Como você me chama?&lt;br /&gt;Era uma irmã. Uma alma que, um dia, fora unida a ele. Ele estava se preparando para atacar mas, sabia que diante de todos eles, seria impossível conseguir escapar.&lt;br /&gt;- Matador!&lt;br /&gt;Ele bebeu o uísque.&lt;br /&gt;- Eu mesmo! - disse em um tom cínico.&lt;br /&gt;Outro irmão surgiu e logo, o quarto estava com dezenas, centenas deles.&lt;br /&gt;- Não fazem idéia de como senti falta de vocês!&lt;br /&gt;- Pare de brincar! Você não deveria ter aberto a caixa. - disse o mais velho. - Agora, teremos muito problema para arrumar a bagunça que você criou. Não! Você não fez... Não há mais o que fazer! Você nunca mais vai vê-la, porém!&lt;br /&gt;- E viver neste inferno nos últimos anos já não é punição suficiente?&lt;br /&gt;- Assim será para sempre até o fim dos dias, irmão. Nem demônio nem nós poderemos matá-lo. São as ordens.&lt;br /&gt;Ele teria que dar um jeito de encontrá-la de novo... uma única vez. Não, uma vez, não seria suficiente para aplacar tudo que tinha e, pela primeira vez, ele se perguntou o que ela lhe diria. Ele tocou a caixa que, agora, era uma esfera. Ela se abriu ao toque dos dedos dele ela surgiu.&lt;br /&gt;- Agape mou! &lt;br /&gt;- Agape mou!&lt;br /&gt;Eles se abraçaram, tocaram o corpo um do outro como humanos, pela primeira vez, sentiram o gosto do beijo e da carne. Eles entenderam a sofreguidão do desejo humano, da angústia da busca do amor porque, eles mesmos, estavam condenados a não se encontrarem mais. Eles fizeram amor como nunca antes um casal havia feito até ela sumir de seus braços. Enquanto ele dormia, ela o beijou, sabendo que, na forma humana, ele não se lembraria dela. &lt;br /&gt;Ele acordou nu, sentindo um gosto estranho na boca, com a certeza de que tocara o céu mas, a lembrança não se fazia presente. Não forçou porque estava com uma dor de cabeça muito grande. Ele viu uma carta em cima do travesseiro, lembrando-o do próximo trabalho. Ele pegou a esfera, o cordão de couro, vestiu-se e partiu para o inferno porque ele sabia que tinha perdido o Paraíso. Ele chegou em casa e ligou o stereo e tomou banho na banheira, tentando lembrar o impossível. Dias se passaram sem que ele conseguisse cumprir as mortes encomendadas. De qualquer modo, ele era imortal. Ele estava na banheira e a caixa caiu lá dentro e ele não a achava. &lt;br /&gt;- Ela está conosco, querido!&lt;br /&gt;Horda de demônio. Ele seguiu para o puteiro, onde ele sabia que encontraria a horda de demônios e ele seguiu munido de espadas e armas. Dessa vez, ele chacinou quem ele encontrou pelo caminho e só deixou uma criatura viva, que era a voz que o chamou para lá.&lt;br /&gt;- Eu a matarei hoje. Não consegui da última vez.&lt;br /&gt;- Mas eu tenho o que você deseja!&lt;br /&gt;Ela surgiu e irradiou luz e o demônio que estava no corpo humano queimou.&lt;br /&gt;- Quem é você?&lt;br /&gt;- Agape mou!&lt;br /&gt;Ele se lembrou e gritou ali mesmo, sabendo que nada poderia levá-lo. &lt;br /&gt;- E agora?&lt;br /&gt;Ele sorriu. Os irmãos estavam reunidos como sempre e ele surgiu com as espadas e ameaçou o mais velho deles.&lt;br /&gt;- Você sabe o que eu quero!&lt;br /&gt;- Não...&lt;br /&gt;Ele enfiou a espada na garganta dele e chegou perto dos outros. Ele chacinou a todos sem piedade. Então, as ordens vieram.&lt;br /&gt;- Eu não sigo suas ordens há muito tempo.&lt;br /&gt;- Serás imortal até o fim de tudo.&lt;br /&gt;Ele cravou as espadas no piso e ela se aproximou dele, unindo sua alma a alma dele. Ambos se tornaram um só, amando-se para sempre. Assim, ela curou as feridas dele e nada tão destrutivo aconteceu acima de todas as esferas espirituais. Ele matou aqueles que eram mais antigos que a criação do próprio universo, deixando apenas aquele que era conhecido por Deus pelos humanos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-6547955602409156233?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/6547955602409156233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=6547955602409156233' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6547955602409156233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6547955602409156233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2010/12/agape.html' title='Agape'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-6736971250787551716</id><published>2010-12-10T18:43:00.000-08:00</published><updated>2010-12-10T18:43:09.632-08:00</updated><title type='text'>Uma fada, um desejo</title><content type='html'>"Existe beijo sem beijar? Toque sem tocar? Por que eu tremo diante de seus olhos se sua boca nem sua mão chegou em mim? Eu não deveria ter isso. Eu sou senhora de mim, senhora do meu reino, senhora de tudo que aqui me habita e eu caí, sem me dar conta do que acontecia porque você chegou em um lugar recôndito e guardado. Olhei para dentro de mim e vi que a caixa estava aberta com a chave apropriada. Não foi usurpada. Você não precisou roubar nada. Apenas abriu e sem as palavras, nossas almas se entenderam. Foram nossos olhos que se reconheceram no infinito das estrelas, como se eu fosse você e você se transformasse em mim, de alguma forma. &lt;br /&gt;Não poderia ser de outro jeito nem de outra forma. Tudo foi como deveria ser para sempre. Eu não sinto sua falta como sei que nunca sentirá a minha também. No entanto, tudo mudou em nossos universos de galáxias quando nossos olhos se cruzaram porque nada assim que transforme um não transforma o outro também. Leve-me apenas em seu coração ou, talvez, no infinito dos seus olhos. &lt;br /&gt;Por que eu sinto você tão próximo quando quero fugir da sua lembrança? Eu tento, eu fecho os olhos e apenas vejo você na minha frente, não como você nem como outro mas, como uma luz divina que me trouxe algo tão novo e perdido... e eu perdi a majestade de tudo que sou e fui, um dia. Foi assim que você me encontrou, tentando ser forte enquanto eu me transformava. Você viu o que olhos não podem ver. Você viu meu ser em luz enquanto ia para a nova casca... e, agora, estamos unidos. Espero que sua alma, algum dia, se recorde da minha e possamos de novo beijar sem beijar, tocar sem tocar, amar sem pudor".&lt;br /&gt;Llirym abriu a porta dos aposentos mágicos enquanto Tyr se observava no espelho de novo.&lt;br /&gt;- Ele é um humano, Tyr!&lt;br /&gt;- Eu sei, pertencemos a mundos diferentes!&lt;br /&gt;- E há sempre as regras que devemos obedecer.&lt;br /&gt;Ela encarou Llirym com um sorriso um pouco triste.&lt;br /&gt;- Nunca houve quem tenha quebrado as regras?&lt;br /&gt;- Tyr, você sabe o que aconteceu com elas! Elas são abandonadas por todas nós. Você vai querer isso? E, raramente, dá certo... Elas acabam se tornando... - Llyrim sentiu um arrepio. - Você sabe. Elas usam coisas do mundo deles e acabam... &lt;br /&gt;Num rompante, Tyr se levantou.&lt;br /&gt;-Você acha que eu não sei? Minha mãe se apaixonou por um deles e eles a aceitaram de volta por causa dos dons que ela tem e, agora, ela é escrava do nosso próprio povo, que a mantém presa a ductos em seu corpo para retirar sem poder excessivo! E eu sou aceita por causa dos meus poderes. &lt;br /&gt;As asas bateram tristemente.&lt;br /&gt;- Não há nenhum rapaz aqui?&lt;br /&gt;- Há e houve vários, Llyrim. Mas... esse... isso... como posso explicar?&lt;br /&gt;A amiga suspirou cansada de tentar dissuadir Tyr de sua aventura. &lt;br /&gt;- Eu prometo, voaremos lá e voltaremos. Ninguém sequer sentirá falta de nós. &lt;br /&gt;Ambas esperaram a noite certa, quando o portal que precisavam se abriria e seguiram até o plano humano. Elas não eram vistas por seres humanos a não ser por crianças. Tyr se aproximou dele enquanto ele tocava uma de suas canções para a namorada. Eles não podiam vê-las porque eram adultos.&lt;br /&gt;- O que você acha, Selene?&lt;br /&gt;Ela sorriu perto dele.&lt;br /&gt;- Você é genial, Sotiris. Sempre é! Quer vinho?&lt;br /&gt;Llyrim segurou o braço de Tyr.&lt;br /&gt;- Não! Você prometeu não interferir. Além do mais, temos que ir!&lt;br /&gt;Ela abriu a garrafa de vinho, serviu e duas taças e voltou para ele, oferecendo para Sotiris. Ela dançou para ele e Tyr queria observar mais um pouco e Llyrim as transportou para o jardim mágico novamente. Caiu cansada e doente pelos próximos dias. Tyr se sentiu culpada porque Llyrim ficou muito mal pelos desejos travessos que a consumiram. No entanto, parecia ser maior que ela. Ela repassou as palavras, uma depois da outra para que chegassem aos ouvidos dele e ele pudesse se sentir inspirado em sua arte. Tyr se deitou e sorriu porque ainda tinha a imagem dele tocando, com o cabelo desarrumado. Então, ela o viu além do mundo dos mundos e ele a viu também e sorriu para ela. Tyr se sentiu nua e perdida. Ninguém podia ver uma fada a não ser que fosse uma fada, uma criança, um louco ou um moribundo. Ele não era nenhum das opções anteriores. Antes que ele pudesse falar alguma coisa, ela se escondeu na escuridão, disfarçou-se de estrela para que ele não a visse mais.&lt;br /&gt;Sotiris acordou de manhã com um sorriso no rosto. Selene beijou o corpo dele e fizeram amor com paixão. Ela se deitou no peito dele. Ele acariciou o cabelo dela e lembrou do estranho sonho, de ter visto uma criatura brilhante que se assustou com o olhar dele para ela.&lt;br /&gt;- Sel...&lt;br /&gt;- Oi, meu amor?!&lt;br /&gt;- Eu tive um sonho fantástico! Sonhei com uma mulher brilhante e suave... &lt;br /&gt;Ela riu com suavidade.&lt;br /&gt;- Um anjo?&lt;br /&gt;- Não! Eu acho que não... ela tinha um olhar humano, parecia como nós. E também tinha aquele fogo que é tão humano e errático como nós!&lt;br /&gt;- O que ela é?&lt;br /&gt;- Eu não sei, Selene. Você é que é a bruxa aqui!&lt;br /&gt;Ela se aninhou mais perto dele e ficou quieta.&lt;br /&gt;- Deve ser um sonho auspicioso, é tudo!&lt;br /&gt;Eles adormeceram naquela manhã e ele ouviu palavras sussurradas como se o vento varresse flores e levasse o pólen pelo ar. Era quase como se os raios de sol pudessem se transformar em notas musicais. Sofiris percebeu que aquela voz era conhecida e que era como estar de volta ao melhor lugar do mundo. Ele acordou um tanto aturdido com Selene ainda aninhada em seus braços. Ele suspirou. Tyr suspirou e sorriu: nem tudo estava perdido ainda porque ele a libertara, mesmo sem saber. &lt;br /&gt;Ela se aproximou da mãe com tubos, que tiravam fumaça daquele corpo pútrido e velho. Uma adaga pequena deslizou por todos os cabos e a velha chiou como uma chaleira humana. Buscou por ar e morreu cinza e enegrecida como um graveto torto e seco. Os outros chegaram tarde demais e ela foi para a prisão das fadas enquanto os Grandes decidiam o que fazer com ela. Llyrim, um dia, se escondeu e apareceu para ela. &lt;br /&gt;- O que você foi fazer?&lt;br /&gt;- Eu matei minha mãe, oras!&lt;br /&gt;- Mas por quê? Agora...&lt;br /&gt;- Você não entende? Só assim, eu poderei viver uma vida digna.&lt;br /&gt;- Se eles decidirem que viverá, Tyr.&lt;br /&gt;O Conselho dos Grandes decidiu que Tyr seria a fada de Sofiris, sua inspiração, sua vida e ela não se importou desde que pudesse estar perto dele. Sofiris sabia amar as mulheres que estavam em sua vida, que Selene era uma mulher com quem gostaria de passar sua vida. No entanto, havia algo que faltava mas que ele encontrava no palco e nos sonhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-6736971250787551716?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/6736971250787551716/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=6736971250787551716' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6736971250787551716'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/6736971250787551716'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2010/12/uma-fada-um-desejo.html' title='Uma fada, um desejo'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-7914840224084276441</id><published>2010-12-07T20:59:00.001-08:00</published><updated>2010-12-07T21:45:49.577-08:00</updated><title type='text'>Teatro dança a alma</title><content type='html'>"As cortinas se abrem... As cortinas se fecham... O teatro tem dessa coisa mágica". É o que ela lembra do trecho da peça. Aliás, o texto de Adam Rapp, encenado pelos atores brasileiros André Frateschi, Marjorie Estiano e Rafael Primot. A personagem do André, o David, lembrava aquele homem por quem ela foi apaixonada por longos e duradouros quatro anos, que a abraçou debaixo de um céu estrelado. Ah! Se ela virasse o rosto, eles teriam se beijado debaixo das estrelas, em um momento perfeito. Ela não quis. Ele não tentou. Tudo ficou por isso mesmo. Quatro anos se passaram e aquela coisa comendo e corroendo, o desejo desesperado de querer quem não quer ao lado. Quem nunca, afinal passou por isto, não é? Desejo insano e perdido. Talvez, tivesse sido melhor se nunca tivesse ligado mas, se ela não tivesse ligado... Ele a rejeitou, de novo! Quanta dor! Igreja! Choro! Conforto em alguém estranho. A cena é até patética. - ela pensa com seus botões. Na Igreja, parecia que tinha perdido a mãe e a mulher pousou a mão em seu ombro, dizendo: Tudo vai ficar bem! Se fosse esta a coisa toda! Mas, não era... eles trocaram confidências sobre seus desejos. Ele disse, depois: Vejo você quase como uma irmã! E a cereja do bolo foi quando se encontraram certa vez e ela lhe pediu uma massagem e ele retrucou: Você é intocável! Os amigos afirmaram com categoria que a criatura era gay. As colegas da psicologia afirmaram isso categoricamente quando ela lhes contou que ele propôs que a comeria caso ela trouxesse uma amiga para o rendez-vous. Fascinante, não? Um gentleman! Tão delicado ser humano!!! Quem era ela na peça? A personagem interpretada por Rafael Primot, o nerd leitor, que se deleitava com histórias alheias sem viver as próprias, com neuroses psicosociais profundas, alguém com medo de criar qualquer tipo de vínculo. Ela se viu nele quando ele diz que tem uma coisa para falar à Christine. Ela fez tal e qual... Quão imbecil ela era? Muito? Pouco? Talvez, leviana por se apaixonar todos os dias por quem não conhecia. Era parte de si mesma ser assim, intensa, desvairada e, ao mesmo tempo, singela e ingênua, às vezes. Kalea ria das situações ridículas nas quais se metia, tentava se lembrar quase que diariamente que se escolhe o caminho, as pessoas para assumir as responsabilidades. &lt;br /&gt;Em Christine, ela viu a si mesma de muitos anos atrás, a máscara da fodona toda poderosa, que dava em cima dos caras porque, no fundo, se achava uma merda muito grande. Então, era mais fácil chegar, dar e sair vazia que sequer admitir que seria rejeitada como fora a vida toda: invisível para o mundo, invisível para os pais... por que ninguém cuidara dela quando ela realmente precisara? Pai e mãe separados, pai ausente, mãe dominadora. Ela ficou fora do caminho durante toda a adolescência. Questão fundamental para existir em casa. Os irmãos mais velhos eram os que tinham a atenção da mãe e os que arrancavam elogios rasgados. Guilherme e Antônio eram os queridinhos. Aos perdedores, as batatas! Sim, total looser. A mãe queria que ela fosse patricinha. Ela não era. Recusou-se a ser mas, também não foi esperta em escolher um marido. Na verdade, vindo de uma coisa de loucos, como ela poderia ter escolhido alguém decente? Guilherme era o mais calmo e saiu de casa logo. Antônio ficou e era um sádico. Ele fungava atrás dela quando em casa só tinha um computador. Ai dela se permanecesse por ali. Ela afastou os pensamentos, voltando-se para o ex-marido. Um louco, na verdade... como se ela fosse muito normal! Os dois se uniram por não terem nada melhor que fazer, por acharem que o amor era tudo na vida e descobriram, quebrando a cara que não era bem assim, que não bastava  fazer o que o outro queria ou impor-se. Tanto choro e tanta luta para ir embora de mãos abanando, de roupas rasgadas pelo tempo que passara ali. Nem tudo culpa do ex per si. Nem tudo culpa dela per si. Era um daqueles círculos viciosos dos quais parece impossível sair. Um dia, não dá mais para chorar nem para abraçar e o jeito é ir embora e Kalea, e mesmo sendo muito difícil, foi uma das coisas mais fodas de se fazer. Lembrou de um amigo inglês que lhe disse: mesmo quando a gente quer muito, é difícil se separar. Lembranças que perduram. Outro dia mesmo, Kalea encontrou coisas que fazia parte da parte boa deles dois. E doía! Caralho! Como ela xingou ir assistir aquela porra daquela peça, tão visceral na alma dela. &lt;br /&gt;Depois ficou pensando, será que o ex veria ela como o inconsequente David? Sim, porque ela sabia ser inconsequente... o desespero, às vezes, faz isso com as pessoas, faz com que elas andem na beira do precipício, olhem para baixo de uma janela e pensem em se jogar. Tanta coisa, lembrou do dia que quase conseguiu perder a vida. Podia ter ido embora em um acidente de carro besta, tantos anos atrás. Ela havia sonhado com o bendito acidente, sentiu mão a agarrarem antes de ir embora... Ela foi embora  e cabum! Viveu! Não era bem o que ela queria. Peça dos infernos! Caralho... mais choro? Já não passara por coisa demais na vida, não? Catarse! Este era o nome adequado para o que passava e a vida ia passando diante dos olhos dela e isso não aconteceu nem quando achou a morta no dia do seu casamento nem no dia que uma arma foi apontada em sua direção por um ex. Vida doida! Escolhas erradas e, de certa forma, escolhas que a trasnformaram, moldaram e a tornaram quem ela era. Uma sobrevivente! E como era tão burra emocionalmente? O pior era tremer diante de uma pessoa por quem se interessava. Tola criatura! Kalea queria entender o mundo feminino das mulheres que tinham os homens na ponta das unhas compridas e belas. Tinha mulher que nem era torneada, não malhava e tinha quem quisesse. Mas era a lei: o nível de interesse vai de acordo com o grau de desinteresse do outro. Que foda, viu?! Vai ver era isso que tinha visto naquele filho da puta! O desinteresse dele... Não mesmo! Aquele abraço era real. Mas já estava no lixo. Fora jogado muito antes que ela pudesse perceber que as pontas de seus dedos sangravam dentro da sapatilha de pontas, que seus frufrus não eram mais rosados mas espargidos de sangue. Foi durante a peça que ela percebeu que era hora de troca de roupa e foi porque aqueles atores estavam ali que ela pode fazer isso. Talvez, se fossem outros... nem tivessem tocado tanto e ela não estivesse revirada do avesso como se vomitasse a própria alma. &lt;br /&gt;A peça foi o começo. Arte tem dessas coisas, de provocar, de fazer o outro pensar, elevar a alma e o espírito para depois empurrar para uma vertiginosa queda. Bendita diretora! Maldita peça! Lea não conseguiu digerir Clarisse Lispector em um livro conhecido porque se viu lá, em sua depressão, desespero e angústia. A vida tinha que ser mais do que aqui! Tinha hora que Kalea tinha um tédio do tamanho do universo e pedia para ir embora. Onde estavam as naves espaciais? Emoção! Emoção! Emoção! The roller coaster! Mas chega uma hora que isso é cansativo também. Se bem que ela sentia uma certa frieza antes de muitas coisas... o motivo real? Abuso de seu corpo. Não interessava como. Alguém lhe usurpura o prazer e pronto! Quanta coisa complicada para um ser humano só e tão pouco tempo para lidar com aquilo tudo... não só aquilo mas tantas outras coisas que surgiram emboladas pelo meio do caminho: lembrar que existiam homens como o amigo da juventude era algo que doía porque ela escolhera o que machucva ao invés da seda que não cortava. Escolhas... escolhas... escolhas! Ela era a própria Lady Macbeth com o sangue de sua alma em suas mãos. Cansaço da porra de ficar naquele estado miserável! Como ir para a vida se tanto tinha ficado para trás? E o passado ia sendo arrancando. As lembranças iam sendo jogadas pela janela e as caixas, sumindo como se jamais tivessem existido. Um suspiro profundo! Uma pausa para um gole de água e aclarar os pensamentos no riacho. Era preciso mergulhar além e sentir a água gelada estalar em todos os lugares dos planetas que habitava Kalea. &lt;br /&gt;O que aconteceu foi que ela abraçou os travesseiros da cama e chorou desaguando as tempestades oceânicas de si mesma, perdida ainda em momentos de infortúnio. Lembrou do último fora que levara não há muito tempo. Alguém quase igual ao melhor amigo de tempos atrás. Alguém que era similar a ela em sensibilidade e entendimento do humano! Como podia isso? Segundo uma amiga, bastava mulher mostrar interesse que homem não queria mais! Ah! Puta crueldade!!! Segundo um amigo: todo homem quer uma coisa só: comer a mina! Sentimentos? Onde ficavam? Onde estavam os sujeitos sensíveis, artistas e delicados como o amigo de outrora? Ah! A dor não era do fora! Já estava acostumada a estas coisas da vida! Afinal, sempre fora rejeitada... o problema era saber que estes homens existiam de verdade e nenhum deles sequer passou perto de seus braços ou de seus beijos! A alma revirava por dentro. O corpo rolava na cama na noite quente daquele ano. Fazer o quê com tudo aquilo que parecia consumir mais que fogo? Nada aplacaria este queimar reto que insistia em existir por dias e dias e dias como se inferno estivesse todo dentro dela. Haveria jeito de parar aquela insanidade?&lt;br /&gt;Ela se esticou na cama e foi meditar! Parou em frente à porta de vidro da varanda, sentou-se na postura de lótus. Inspirou como se pudesse reter a vida ali e exalou como se pudesse empurrar para fora a inconveniência ser ela mesma. Suspirou. Uma batida de coração. Outra batida de coração. Uma pausa. Outra batida. Pausa. Batida. De leve. O corpo sentiu o ritmo e entrou na brincadeira. Ela sabia que ele estava lá... era uma questão de tempo, já o vira em sonhos tantas vezes! Na respiração, ela vislumbrou no escuro o que estava ali para e ninguém mais. Sorriu com a alma. Era assim que se devia sorrir no derradeiro momento de tudo. Foi se entregando àquelas notas perfeitas de estar em contato com as estrelas, com o cosmo e se perdeu diante de tudo, onde palavra nenhuma pode alcançar. Nem mesmo quadro, música ou dança poderia sintetizar a expansão de ser que vinha dela, que emanava em forma de amor por tudo e todos. Inclinou-se na beira das galáxias e das galáxias e riu como uma criança sabe fazer. Era outro mundo em outro instante diante de outro universo cheio de cores, sombras e cores tão perfeitos e tocáveis que ela se deliciou prazerosamente com tudo. Então, inspirou. Exalou. Uma batida. Uma pausa. Uma batida. As pálpebras se abriram. O escuro amigo. A cama aconchegante. Uma vida sem freios e pronta para se vivida, intensamente, loucamente, perfeitamente. Só disse a Grande Mãe: eu entendi o recado! Obrigada a estas pessoas lindas que me propiciaram adiantar a jornada mais um pouco! A estes artistas que tornam a vida neste planeta sempre mais mágica! &lt;br /&gt;Pois é... "O teatro tem dessa coisa mágica"!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37739854-7914840224084276441?l=mirrorandspells.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/feeds/7914840224084276441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37739854&amp;postID=7914840224084276441' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7914840224084276441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37739854/posts/default/7914840224084276441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mirrorandspells.blogspot.com/2010/12/teatro-danca-alma.html' title='Teatro dança a alma'/><author><name>Georgiana</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37739854.post-3615491442556070495</id><published>2010-12-07T11:50:00.001-08:00</published><updated>2010-12-07T11:50:37.046-08:00</updated><title type='text'>Uma violinista</title><content type='html'>Para uma garota surreal e brumosa, que vou chamar de fada! A vida surpreende por ser assim, sem rumo certo. Valeu, mulher-menina-moça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite chuvosa. Raios e trovões na cidade. Uma insônia dos infernos. Por que diabos ansiosos tem insônia? Acho que todo sonho de consumo de um ansioso é aquela noite de sono abençoada. Eu tive algumas dessas algumas vezes ao longo da vida. Nem quando era criança eu conseguia. Milhões de pesadelos com monstros que vinham me comer no quarto à noite. Engraçado? Até hoje, eu tenho medo de escuro. Quase quarenta anos e alguns cantos da casa me arrepiam a nuca. Então, a noite... chuvosa. Raios e trovões. Eu, com vontade de morrer de novo. Não foi como da outra vez, da outra vez eu perdera toda a capacidade de crer em qualquer coisa, era uma sensação de inutilidade tão grande que eu consegui tentar o ato. Fui salva pela intuição. Poderia ter tido dano cerebral. A morte não me quer ainda. Enfim, foi uma noite difícil de sobreviver. Por isso, eu dormi durante o dia e fiz algo para tentar elevar meu humor. Consegui. O dia fluiu. A noite chegou e decidi perambular pela cidade, sem rumo e parei meu corpo ao som de um violino. O instrumento de cordas mais divino da face da terra e meu coração parou ao ouvir aquele som tocado de modo tão perfeito, que parecia que era as mãos de Deus enviando aquele som para mim. Ela parou. Eu parei. Meu coração mudo. Parei de respirar também. Dava para ver minha sombra.&lt;br /&gt;- Ei! - ela disse!&lt;br /&gt;Que eu faço? - pensei.&lt;br /&gt;- Oi! - respondi.&lt;br /&gt;- Está tudo bem?&lt;br /&gt;- Na verdade... - e eu não podia esconder minhas lágrimas por causa do som do violino. Ela percebeu que eu chorava.&lt;br /&gt;- O que houve?&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;Não consegui falar nada.&lt;br /&gt;- Você está triste?&lt;br /&gt;Enfiei as mãos no bolso do casaco. Dei de ombros. Triste? Triste não era nem o começo do que sentira na madrugada anterior. &lt;br /&gt;- Não mais.&lt;br /&gt;Ela se debruçou na janela.&lt;br /&gt;- O que houve?&lt;br /&gt;Contei que queria morrer de novo. Contei da outra vez. Ela muito delicadamente me observou.&lt;br /&gt;- Não conheço você de algum lugar?&lt;br /&gt;Eu escrevo. Publiquei alguns livros e minha cara estava estampada nos jornais por causa da noite de autógrafos.&lt;br /&gt;- É... pode-se dizer!&lt;br /&gt;- Você... Nossa! Por que? Você é inteligente, sensível, tem beleza! Tem gente em pior situação que você.&lt;br /&gt;Eu respondi sem saber o que dizia exatamente.&lt;br /&gt;- É, eu sei.&lt;br /&gt;- Não, não sabe! Deveria parar de olhar para si e observar à sua volta!&lt;br /&gt;Ela era dura. Como assim eu não sabia? Claro que sabia.&lt;br /&gt;- Mas quando a gente despenca, nada disso importa.&lt;br /&gt;- Você me parece ter as qualidades de uma boa pessoa...&lt;br /&gt;Eu dei de ombros.&lt;br /&gt;- Eu tinha todos os motivos do mundo para querer fazer isto que você já fez uma vez...&lt;br /&gt;Eu queria desesperadamente mudar de assunto.&lt;br /&gt;- Como aprendeu a tocar violino? - e consegui.&lt;br /&gt;Vi um sorriso no rosto que tinha esperança, vida e alegria.&lt;br /&gt;- Foi uma história engraçada. Tinha um moço passando na escola, eu sou brincalhona, sabe? Ele perguntou quem queria fazer aula de música. Eu levantei a mão de brincadeira. Ele me olhou meio abobado e me entregou o formulário, dizendo que era para minha mãe assinar. Eu levei e minha mãe: mas quem vai levar você? Eu disse: na hora, Deus vai dar um jeito. No dia, minha mãe teve que trabalhar muito. Fiquei triste, né? Então, alguém bate à porta e diz: Lalá, vim buscar você! Sua mãe falou que você ia participar da audição e meu filho também vai.  Eu fui. Fiquei nervosa porque tinha o povo da tv ali, né? Então, eu fui e fiz a audição... quando terminou, a professora sai e diz que eu fui a melhor de todos!&lt;br /&gt;- Uau! Meus parabéns!!!&lt;br /&gt;Ela sorriu.&lt;br /&gt;- Sabe qual foi a primeira música que aprendi? &lt;br /&gt;Fiquei para saber. Ela me despertou o interesse de imediato. Havia algo nela que fazia isso.&lt;br /&gt;- A Nona do Beethoven. &lt;br /&gt;Assobiei.&lt;br /&gt;- A professora saiu da sala e deixou a partitura, daí, comecei a tocar e ela ouviu.&lt;br /&gt;Fiquei observando o vazio e ousei.&lt;br /&gt;- Toca para mim?&lt;br /&gt;Ela sorriu, pegou o violino e tocou. Fechei os olhos e senti a música crescer na minha alma, as vozes cantando Ode à Alegria. Por que eu insistia em esquecer as palavras e a própria Sinfonia?&lt;br /&gt;- Por que você chora?&lt;br /&gt;- Porque isso me lembra que a vida tem beleza, que o homem pode ser um instrumento divino.&lt;br /&gt;Outro sorriso no rosto juvenil dela. UM rosto que trazia sabedoria. Lá estava eu, alguém com mais experiência, aprendendo com ela. Será que ela saberia que ela tinha um dom?&lt;br /&gt;- Você sabe que tem um dom?&lt;br /&gt;Ela me encarou com seriedade.&lt;br /&gt;- Sabe o que eu fiz quando comecei a me sentir brava?&lt;br /&gt;Eu pensei: ah! Pelamordedeus!!! Ela vai falar de Deus!&lt;br /&gt;- Eu converso com Deus! - Não disse?! - Um dia, eu queria participar do teatro. Teve uma seleção e uma pessoa não deixou eu fazer o teste porque não me achava capaz. Fiquei muito triste neste dia, falei para Deus que não queria ser humilhada por mais ninguém e que era filha dele, que era para ele me honrar.&lt;br /&gt;Eu sorri, descrente. A gente envelhece, vai perdendo o coração, sabe? A esperança também vai deixando de existir.&lt;br /&gt;- E então?&lt;br /&gt;O olhar dela tinha um brilho gostoso como se uma flor desabrochasse.&lt;br /&gt;- Então, um dia, uma pessoa, minha amiga, que, na época, era diretora do teatro e ela me falou que estava sem idéia para a peça. Na hora, montei um roteiro na mente e falei para ela. Resumo da ópera: criei a peça, dirigi e fiz peças durante dois anos, sempre lotadas.&lt;br /&gt;Será que eu vivia de um jeito tão errado assim? Que estava havendo? Olhei para cima, para o céu... lembrando de mim há vinte anos atrás, com sonhos, vontade de mudar o mundo. Quem era eu naquele momento? Another son of a bitch in the world! Como eu me tornei isso? Eu era como ela, cheia de sonhos mas, eu não tinha forças... ou eu tinha? Eu sou forte, só que paguei a conta das minhas lutas. As cicatrizes estavam lá. Ela era consciente e diferente... eu não tinha tanta fé. Lembro de ter tido contato com os anjos, de ter visto demônios, de ter conhecido mortos. Eram companhias estranhas mas, presentes. Ao longo da vida, eu me acostumei a todos eles. Conversava com eles porque eu não sou exatamente uma pessoa popular. Se são boa companhia? Os anjos não falam muito. Os demônios trazem um certo cinismo e os mortos querem falar dos seus problemas. Eu voltei para aquele lugar e olhei para ela. &lt;br /&gt;- Um dia, um amigo meu me pediu para tocar e pedi para Deus que ninguém me visse. Ele me deu a partitura. Era um evento de três dias. O dia não chegava, fui ficando nervosa por causa disso. Então, quando ele palestrou sobre os anjos, ele disse que era a hora de eu tocar. Veio um vento forte, o tempo fechou, eu toquei e quando abri os olhos, todas as pessoas estavam no chão chorando. O povo não me viu, achou que era CD. &lt;br /&gt;Não! Ela estava me sacaneando! Já conheci tanta gente mentirosa no mundo. Por que ela estaria dizendo a verdade? Mas, eu sabia no íntimo, lá no fundo do coração, naquele lugar que está no cerne de todo ser humano que ela falava a verdade. Eu via nos olhos dela.&lt;br /&gt;- Sabe, estou contando isso para você porque não há limites para nós se acreditamos em Deus.&lt;br /&gt;Eu sorri de uma forma cínica, de novo. Onde estava aquela criatura que lera Fernão Capelo Gaivota e acreditara que o mundo era um lugar bom? Eu vi tantas coisas na vida: conheci gente muito fodida como eu. Umas mais... teve uma que usava droga pesada. Outros eram o baseado básico. Eu tinha necessidade de ter proximidade dessas pessoas. Eu não acreditava muito na palavra Deus... não acredito. Em nome de Deus, o ser humano mata, destrói, decepa sonhos, vidas e cria preconceitos... Sim, eu acredito em algu superior. Não falei que vejo anjos e demônios? Ah! Sim, demônios não são criaturas do mal. São simplesmente a nossa sombra, aquele canto nosso que deixamos de lado. Ela me olhou e eu a encarei, já sem aquele ar de fodão, de quem não se importa se eu morresse ou vivesse. Eu queria achar uma razão para viver.&lt;br /&gt;- Parou de chover. As estrelas estão brilhando. Por que não sai?&lt;br /&gt;Os olhos dela encararam o céu e me olharam.&lt;br /&gt;- Eu não posso. Eu nasci com um problema... não posso andar.&lt;br /&gt;Meu estômago deu nó! Eu queria morrer e dei de cara com alguém que queria viver.&lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;- Eu nasci sentada e os médicos me puxaram de modo errado.&lt;br /&gt;Puta que pariu! Meus olhos marejaram. Eu não sou um ser da religião. Acredito, sim, em algo superior. No silêncio, ela reiniciou a música e foi a música a conversa que se instalou entre nós naquela noite estrelada. Ela tocava com a alma, com cada gota de vida do seu ser. Ela terminou.&lt;br /&gt;- Eu quase morri quando nasci. &lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- Eu aprendi a usar a música como algo divino.&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- Não seria ótimo se todos nós fizéssemos isso?&lt;br /&gt;E não seria? Eu sei, falar de Deus assim pode ser motivo de piada, pode ser algo brega, pode ser algo estranho. Mas, esta não é uma história inventada, não foi uma musa que se aproximou de mim. Foi um anjo em forma de gente que apareceu em uma noite chuvosa. Sim, seria ótimo se todos fizéssemos isso, se entendêssemos nossas vidas como algo divino. O problema é que nem sempre descobrimos o que fazer dela ou como torná-la divina. Então, ela tocou de novo. Eu me encostei na árvore próxima e deixei as lágrimas correrem livres como corredeiras pelo meu rosto porque tudo que era divino tocava a alma e as lágrimas são uma forma de expressão do sentir da alma e eu estava livre para sentir, para desaguar a chuva. Sabe, acho que eu engoli a chuva e deixei as estrelas brilharem, dentro de mim e na música dela, naquele violino que devia ter vindo do Olimpo, devia ser o Stradivarius perdido pelo mundo. Era melhor parar de pensar e, simplesmente, deixar que as estrelas passeassem por mim, por ela e pelo universo. E é assim que as coisas funcionam, não é? Somos levados pelo invisível, guiados como cegos para aqueles lugares recônditos de nós mesmos para ap
