Quarta-feira, Julho 20, 2011

Being adults

Liam estava nervoso, decidindo se levava ou não Liz para a Jam session que ia ter. Ele sabia que ela não gostava de músicos porque todos os músicos com quem ela saíra antes haviam destruído o coração dela. Não era só por isso. Ali estariam pessoas que conheciam o passado dele, o passado que ele escondera dela. Era certo que, um dia, ele contaria a ela as coisas que fizera e das quais se envergonhava. Esperava também que Feichín mantivesse o silêncio. Era o que melhores amigos deviam fazer. O tempo da juventude havia passado. Se bem que até pouco tempo atrás eles não sabiam se conter. Foi preciso Caroline morrer para que soubessem o que estavam fazendo. Feichín foi quem resolveu quebrar o ciclo primeiro e, por mais que doesse, afastou-se do amigo de infância. Era claro que a vida tinha se tornado monótona sem a vida de Liam ao lado, sem o talento dele por perto. Feichín começou a trabalhar com o que amava. Não que não gostasse antes mas, era sombra de Liam, do que ele fazia. Ele dedilhou o piano enquanto a noite ia tarde. Não era pelo piano que tinha paixão. Mas aprendera a tocar piano, obrigado pela mãe e fora nas aulas de piano que conhecera a força chamada Liam. Ele sorriu ao lembrar do amigo... Não havia nada que pudesse ser feito até que ele bateu à sua porta transtornado.
- Caroline morreu!
- E sua filha?
- Eu não sei...
E, dali em diante, não houve mais nada.
O telefone de Feichín tocou.
- E então? Eu a levo?
- Cara, eu não sei o que você deve fazer.
- Quim, você sabe de mais coisas do qualquer um!
- Cara, você a comprometeu e não contou a verdade.
- Eu vou contar, Quim.
- J'espere, mon ami!
- Que horas eu pego você?
- Eu vou no meu carro!
- Naquele carro de brinquedo?
Ele riu.
- Sim, no meu carro de brinquedo.
Eles se encontraram numa casa grande, de um dos amigos deles. Liam estava com a guitarra da sorte. Quim trouxera seu violoncelo e ele sorriu quando seu olhar cruzou com o de Liam, que tinha Liz ao lado, sem saber o que fazer naquele momento quando se deparou com músicos. Era hora dela começar a saber a verdade. Não que ela não desconfiasse. Afinal, seus sonhos mostravam os dois tocando há muito tempo atrás... mas havia uma outra moça. Eles três estavam em um outro país, havia uma criança. Ela sentiu um arrepio perpassar por sua coluna ao entrar naquela casa, ao sentir o ambiente. Músicos tendiam a tornar seu coração em areia, era um pó fino e desconexo. Ela sorriu e cumprimentou. Antes de deixar a casa, ela havia prometido a ele que lhe daria uma chance, que ele explicaria tudo depois. Então, era ele mostrando o mundo dele! O mundo dela não tinha nada de misterioso: um trabalho comum de secretária, fazer os hobbies no tempo livre, tentar dedicar tempo ao filho quando podia, administrar o tempo entre Liam e os amigos. Nada complexo! Ela tinha um amigo que dizia que todas as vidas eram complexas por mais simples que fossem. Eles ficavam horas debatendo, conversando e se desentendendo. Sofia estava desconfortável naquele ambiente novo, que nem era tão novo assim... os músicos. Sentiu o cheiro da maconha ao longe e girava o anel de ouro que Liam lhe dera. Ela sorriu aliviada ao avistar Quim. Mas ele também trazia um instrumento.
- O que está acontecendo, Quim?
- Bom, eu toco violoncelo! - ele tentou disfaçar. - Posso pegar algo para você beber?
Ela mostrou que já estava com uma bebida. Ele deu de ombros.
- Vocês todos se conhecem?
- Não exatamente.
Liam se aproximou dela e a beijou carinhosamente.
- Esta é uma jam session, querida.
Jam session?! Músicos? Não! Ali tinha coisas muito erradas! O ar começou a faltar devagar.
- Liam?
- Eu prometi que lhe explicaria depois, não é?
- Sim!
- Então, divirta-se! Estamos em um churrasco.
Ele saiu para cumprimentar uns amigos. Ela entendeu que aquele não era um churrasco qualquer. Mesmo que ela não visse, sabia que tinha outras drogas. Ela não estava nada confortável e a sensação de desconforto aumentou quando avistou Felipe ao longe. O universo já não era o suficientemente sarcástico, não? Claro! Um churrasco onde tem músicos... naquela cidade. Ela se virou para a frente. Havia uma tela de tv instalada com video clipes. A música tocava e ele se aproximou.
- Liz!
- Lipe!
- Como você está?
- Bem. Você está ótima, hein?! Como sempre, devo dizer!
Liam surgiu e beijou o pescoço dela. Homens eram tão competitivos. Quim percebeu a tensão e também se aproximou, apresentando-se a Felipe.
- Você está bem, amor?
- Sim, estou.
Liam pegou a mão dela de forma que Felipe pudesse perceber o anel igual que ambos carregavam no dedo esquerdo da mão. Quim percebeu o desconforto total que ela se encontrava e fez caretas. Quim era o amigo com quem sempre contava quando Liam a deixava sozinha, às vezes, para atender longas ligações. Felipe se afastou com uma caipirinha na mão e ela respirou aliviada porque temia que fosse acontecer alguma confusão. Ela acordou com uma sensação ruim na boca do estômago e isso costumava significar confusão para ela. Ela foi de qualquer jeito quando ele ligou pela terceira vez. Seria importante para ele que ela fosse naquele churrasco especificamente. Ele passou lá e a pegou. O silêncio imperou durante o caminho e isso não costumava ser uma boa coisa para eles.
- O que há, Liz?
- Nada!
Como ela diria que tinha uma impressão ruim sobre algo que nem acontecera ainda? Agora, ela entendia que havia muitas coisas erradas ali. Como ela poderia ir embora se nenhuma daquelas pessoas era amiga sua? A única coisa que podia fazer era ligar para sua melhor amiga, Tânia, e conversou um pouco, o que não a acalmou nenhum pouco. Pior foi ver Felipe com uma loura nojentinha pendurada no pescoço dele. Não que ele importasse porque Liam era o homem da vida dela. Logo, Quim estava perto dela.
- Por que estamos aqui? E não minta!
- Eu não posso! Ele disse que vai contar. Então, você terá que esperar!
- Ele já usou drogas, não foi?
- Eu não posso dizer, Liz. Opa! Tenho que ir ali!
Liz se sentou em uma mesa sozinha. Ela queria ficar sozinha para colocar os pensamentos em ordem. O homem que mais amara fora um músico muito talentoso e Felipe fora alguém importante para ela. Sem que ela percebesse, ele se sentou ao lado dela.
- Você sabe que Liam é um dos músicos mais talentosos do mundo?
- Como?
- Ele toca muito! Ele nunca tocou para você?
- Não! E você o conhece de onde exatamente?
Havia hostilidade na voz dela.
- De festas por aí!
Festas como exatamente?! Ela sabia mas não queria saber.
- Festas de músicos, certo? De quando você também... Se bem que você ainda bem, né?
Ela se levantou e entre tantas pessoas, ela procurou por Quim, encontrando-o numa animada conversa com alguém da Embaixada. Ela pediu licença com pressa na voz e seguiu até Liam, puxando-o com brusquidão de onde ele estava para um canto onde todos podiam vê-lo.
- Que foi, Liz?
- Drogas?! Músico famoso?
- Como você acha que me mantenho aqui há tanto tempo?
- Quer dizer que aquele lance do seu pai querer que você monte um negócio é mentira?
- Não! Ele realmente achou que aqui eu teria mais chances de me recuperar... estaria longe dos amigos.
- Mas tem músicos aqui, drogas também! Você sabia de tudo!
- Qual o problema? Você toma medicação para seus problemas psiquiatrícos, o que torna você uma pessoa difícil, não é? - ele gritou.
- Eu já estou devidamente attached and involved with you!
Ela saiu furiosa, em direção a Quim.
- O que foi?
- Eu preciso sair daqui! Por que você nunca me contou?
- O que eu nunca contei?
- As festas... que ele foi... é... um músico famoso! Ele consumiu... bom...
Ele pousou as mãos nos ombros dela.
- Calma! Calma!
- E você?
- Ele é meu melhor amigo... acabei me perdendo junto.
Ela hiperventilava.
- Dá as chaves do seu carro!
- Mas... eu vim com a BMW.
- O carro de brinquedo?
- As chaves do carro! Agora, Feichín!
Ele deu as chaves do carro para ela.
- Você sabe dirigir meu carro?
- Eu sei dirigir seu maldito carro! Eu só quero ir embora daqui! Seu amigo pode deixar você lá em casa para pegar o maldito carro, está bem?
Ele pousou a chave do carro nas mãos dela.
- Tome cuidado!
- Pode deixar! Eu tomarei como eu sei que você tomará com as drogas aqui, não é?
- Elise! Você está sendo injusta!
- Vocês foram injustos!
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Feichín se aproximou do balcão de bebidas e Felipe estava ali, bebendo uma caipirinha.
- Por que você fez isso?
- O que foi que eu fiz?
- Não se faça de ingênuo. Você ficará com ela? Porque você acabou de destruir uma coisa que estava se construindo de maneira muito delicada. Você acha que eu nunca tive vontade de contar? Mas ele é meu melhor amigo e fazia muito tempo que não o via tão bem.
- Ela é muito querida para seu amigo!
- E você é melhor do que ela porque?
- Tenho a impressão de que quem gosta dela aqui é você!
Liam se aproximou já puxando Quim para a briga.
- Como ousou? Como...
- Não fui eu! - ele disse na língua deles.
Liam partiu para cima de Felipe e ambos se engalfinharam até que as pessoas ali os separassem.
- Onde ela está?
- Saiu no meu carro!
- E você a deixou...
- Liam, não tinha outro jeito.
- A bolsa dela ficou aqui!
Era torcer para que nada acontecesse. No entanto, o telefone de Quim tocou e era Liz, dizendo que fora pega pela polícia e o carro dele apreendido. Liam ia tocar e percebeu a movimentação. Quim tocou no ombro de Felipe.
- Vamos, pretty boy, você causou esta confusão. Nós vamos no seu carro para tirar a moça da encrenca!
Eles foram para a delegacia da polícia, Quim pagou as multas e retirou o carro, o que levou um longo dia. O outro carro era de Liam e ele não gostaria que Felipe dirigisse... bom, com certeza, Liz não estava em condições de dirigir. Ele deu as chaves da BMW para Felipe.
- Se tiver um arranhão...
- Eu entendi, pretty boy!
- Você não sabe do que está falando!
- Eu lembro das festas!
Liz entrou no carro emburrada.
- Como... eu não quero nem saber! Você e Liam brigam e sobra sempre pra mim! Era a mesma coisa com Caroline!
- Caroline?!
- A mãe da filha dele... quando a menina existiu na vida deles, tudo pareceu normal! Mas, um dia, tudo ficou louco de novo!
- Ela está com a avó, não é?
- Como você sabe?
- Eu sonho com a vida de vocês! Você também era wild!
- Você sonha? Nossas mães gostariam de você?
- Ele vai recuperar a menina!
Ela girava o anel no dedo.
- Pára o carro!
Quim parou e ela desceu, olhando para o céu que começava a escurecer. Ele foi até ela.
- Todos nós erramos, está bem? Ele não é o que você esperava. Ele tem defeitos!
- Os piores!
- E você não tem defeitos?
- É! Todo mundo ficou sabendo que eu sou louca!
- Ele estava com raiva, Liz! Mas não são estes defeitos... ele reclama de você se dedicar muito aos seus amigos, da falta de tempo... tantas coisas que você não percebe que faz.
- Tipo o quê?
- Tipo você não se enturmar com ninguém mais! Você contou sobre aquele músico sobre o qual se apaixonou, que ele fumava maconha e era alcoolista e que queria alguém saudável na sua vida! Como você acha que isso faz com que a gente se sinta?
Ela se sentou na calçada, aos prantos!
- Eu sinto muito! Mas pessoas como ele... como vocês... tendem a cair de novo! E dói pra caralho!
- Eu sei! Eu saí primeiro disso!
- Era você que gostava das prostitutas, então?
Ela se virou para o lado e vomitou. Felipe via a cena e não falava nada.
- Nós dois!
Ela encarou Felipe com ódio.
- O que diabos você tinha a ver com isso? Você me teve por perto e me jogou no lixo como se eu fosse... sei lá, algo descartável! Por quê?
Ela se levantou e começou a caminhar cambaleante.
- Liz!
Ela não ouvia. Tudo estava distante!
- Liz! Entra no carro!
Ela continuou caminhando. O telefone de Quim tocava sem parar e ele respondeu na língua de origem dele.
- Elise! - ele gritou. - Entra dentro do carro! Liam está preocupado e acho que vocês têm muito que conversar.
- Caroline... vocês têm o fantasma dela nas mãos de vocês!
Ela entrou dentro do carro e Liam estava esperando por ela na porta de casa. Quim entrou no carro dele e levou Felipe para a casa.
- Por que você fez isso?
- Acho que fiquei com ciúmes. Ela é alguém muito especial, não?
- Muito! E você a deixou escapar. Mas acho que Liam não fará o mesmo porque nós, irlandeses, somos um povo persistente!
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- Nós vamos conversar aqui, na rua?
- Vamos, Liam. Tudo vai depender do que acontecer aqui!
- Eu ia contar tudo hoje! Ele esteve em uma de nossas festas regada a muitas drogas e mulheres. Não posso dizer que eu e Quim não aprontamos. Mas a partir do momento que conheci você, a vida fez sentido de verdade, Elise!
- Eu não quero um relacionamento baseado em dependência ou um que eu tenha que me preocupar o tempo todo em festas, se é que me entende! Eu não quero ser enfermeira de ninguém. Eu tenho um filho para cuidar e minha vida já é devidamente complicada e eu deixei você entrar nela! Diabos, Liam!
- Você também errou... achou que eu fosse uma espécie de príncipe...
- Vamos começar com acusações?! Sério? Eu amo você, Liam, e amo aquele seu amigo louco e maravilhoso, que seria nosso padrinho... Mas, sério, estou cansada de pessoas que fazem uso recreativo de drogas!
- Eu sinto muito por ter gritado com você e ter falado de coisas pessoais.
- Acho que eu também não fui muito simpático, não é?
- Não, não foi!
Ele a abraçou e, de repente, entendeu que Liz não pertencia a ele e ela também entendeu.
- Bom... então, acho que...
- Sim, Liam.
Ela retirou o anel com detalhes celtas e entregou a ele.
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Quim deixou Felipe em casa e pensava se voltava ou não até a casa de Liz para saber se tudo estava bem. Finalmente, ele se decidiu. Era hora dela saber a verdade sobre o que ele sentia. Ele viu Liz e Liam abraçados e pensou em desistir quando viu o amigo ir embora. Ele parou o carro dele perto do carro de Quim e baixou o vidro:
- Nunca pensei que pudéssemos...
- Caroline também era especial, Liam. Mas você sempre foi meu melhor amigo, era sempre você que assumia a culpa pelas coisas erradas.
- Você tem certeza que vai contar a verdade?
- Sim, ela é a mulher que quero para minha vida.
Liz esperou por Quim com um sorriso. Ele desceu do carro.
- Foi você que começou com tudo, não foi? Que o fez experimentar, não é?
- Sim, ele sempre me protegeu! Inclusive, quando ele pegou a mim e Caroline... Ele nunca falou uma palavra. Eu amo você, Elise!
- Eu também amo você, Feichín. Mas como faremos?
- Como todo mundo! Um dia depois do outro.
Ele a puxou para si, esperando que aquilo fosse o suficiente porque havia dias que realmente que as festas e as mulheres faziam falta. Mas, por uma mulher como Liz, qualquer sacrifício seria pequeno. Ela reunia as qualidades que sempre sonhara para uma companheira. Mesmo os defeitos, pareciam encaixar. Elise sentiu medo de que tudo pudesse desmoronar como num castelo de cartas. Mas, não seria viver se ficasse para sempre trancafiada numa torre por si mesma, certo?

Quinta-feira, Junho 23, 2011

O sonho de Emma

Emma se levantou e observou o corpo dele ao lado. Suspirou. Era assim que ela imaginava a cena da despedida. Uma cena que ela nunca tivera o direito de ter porque os homens da sua vida sumiam. Ela gostaria de ter uma despedida poética, uma daquelas de filmes, que as lágrimas correm e as palavras certas saem sem dificuldades. Não era assim com ela. Talvez, nunca seria. Então, ela perscrutou novamente as palavras escritas como se perscruta o céu por estrelas ou planetas. O mundo de Emma se resumia a falhas, que pareciam enormes. Era como se ela quisesse dar passos de gigante sendo uma formiga. Bom, ela queria que algo em sua vida funcionasse, que o caminho fosse mais certo do que estava no momento. O certo seria ela ter uma vida como a de todo mundo... mas, talvez, ela tivesse acertado de alguma forma. Talvez, fosse a melhor vida. Ela jamais teria se tornado o que se tornou se as experiências não tivessem sido aquelas. Ela sabia, em sua mente, que o momento em que encostasse o pé no chão nos seus sonhos, seria o momento exato em que acordaria, em que perderia os braços dele, em que ela não estaria mais enlaçada pela doçura dele até porque ele a empurrava para longe, como se criasse um muro invisível. Então, ela pisou no chão gelado do quarto dele, sem querer de verdade pisar e a realidade veio como um raio, eram seus olhos que estavam fechados olhando para a tela do computador. Em todos os lugares que ia, ela buscava encontrá-lo. No entanto, decidiu que era hora de terminar o que machucava a alma. Era o desprezo, a falta de contato... estar encerrada naquele mundo com ele fora tudo por aquelas poucas horas, por breves momentos. Os pés tocaram o chão e ela abriu os olhos, encarando os olhos acinzentados de Morgan.
- Onde você foi desta vez?
- Não consegui chegar em lugar algum, Morgan.
- Você precisa tentar, Emma.
- Simplesmente não acontece... minha mente divaga para outros lugares.
Ela não tinha coragem de dizer que ela sonhava com Morgan e com um momento que acontecia em outro lugar, em outro espaço-tempo. Ela era a única que podia vigiar o tempo, o futuro e o passado. Embora, às vezes, ela confundisse o que via. Morgan não se entregava ao que sentia. Uma única vez ele chegou perto mas, estava bêbado demais para poder se lembrar do que acontecera. Ela estava sentada na maca com a camisola do Instituto, ainda zonza da viagem, de uma das melhores lembranças que tivera e ela sabia que precisava de outras viagens mas, aquilo a esgotava de um tanto que ia para o quarto de descanso carregada pelos ajudantes. Morgan se sentou na cadeira naquela noite, enquanto ela se virou de lado sem querer conversar. Ela demorava muitas horas para dormir, mesmo com o sono chegando até ela. A cabeça latejava antes de dormir. Então, era a hora de fechar os olhos. Os efeitos colaterais das viagens era sonhar sem parar com imagens difusas. Cada um tinha seu próprio universo infernal. Por isso, ela mantinha os olhos abertos o máximo que podia. Ela podia perceber Morgan bebendo uísque aos poucos como se estivesse se decidindo.
- Eu me lembro, Emma. De cada detalhe, do cheiro da sua pele, do seu beijo... mas não podemos. Você sabe!
Emma ficou quieta e sorriu, sentindo a dor de cabeça estalar a cabeça. Ela não podia responder.
- Não...
Ela vomitou no balde que estava ao lado da cama. Ele segurou o cabelo dela e Emma se entregou ao sono, sabendo que demônios e as criaturas das profundezas dos remotos lugares desesperadores viriam. Horas de tortura e acordou com as olheiras de sempre. Quando acordou, Morgan estava em seu quarto com roupas normais e ela não estava em um quarto do Instituto. Estava em outro lugar, vestindo suas roupas.
- O que houve, Morgan?
- Você precisa passar pelo Doc.
Ela desviou o olhar. Ele estava prestes a se casar com outra pessoa. Realmente, Doc poderia ajudá-la. Ela se aproximou dele, abraçando-o pelas costas. Ele segurou as mãos dela, beijando seus dedos.
- Emma... não faça isso!
As lágrimas escorriam silenciosas sem que ela pudesse fazer nada. Ela se afastou de Morgan.
- Deixe-me. Agora que não sou mais uma cobaia para você, você quer se livrar de mim, não é?
Ele continuou a encarar a janela e se virou para ela, encarando os olhos castanhos dela.
- Não é isso! Você não entende... - disse crispando os punhos. - Eu já vi outros viajantes se perderem e eu não quero que isso aconteça com você. Doc concordou em manter você aqui na mansão. Você estava a caminho da loucura.
Ela manteve o silêncio e olhou para baixo. Nada do que fizesse o impediria de se casar com Valerie.
- Por que a preferiu, Morgan? Por quê?
Ele a estreitou em seus braços.
- Ah! Minha querida, se as coisas pudessem ser diferentes entre nós! Mas eu sou seu superior e sou responsável por você. Já aconteceu antes e nunca deu certo. Talvez, você só esteja assim porque eu sou quem protege você, não?! Bom, está na minha hora. Tenho que voltar...
Eles ficaram longamente unidos pelo abraço, sentindo a respiração um do outro para sempre. Por um momento, a eternidade pairou sobre eles. Ela se dissipou como uma névoa que vê a luz do dia e Morgan partiu deixando Emma encarando seu carro pela janela. Ela desceu e seguiu para a sala de chá, onde Doc estaria. Ele não estava lá. Seguiu para a cozinha e lá estava ele, preparando um lanche.
- Ah! Aí está você! Achei que estaria descansando.
Ela sorriu sem sorrir, vazia de qualquer sentimento.
- Claro! Como pude ser tão tolo? Morgan... Mia cara! Acredite, ele está fazendo o que é melhor para você! Foi meu conselho trazê-la para cá.
- Por que não...
- Porque eles não saberiam cuidar de você. Ninguém se recupera de verdade. Você sabe disso. Já viu os outros viajantes em seus sonhos, Emma, e nenhum deles em espaço-tempo algum conseguiu obter sucesso...
Ela encarou o chão e enrubesceu.
- Eu menti!
Doc a encarou sério.
- Como assim?
- Eu vi um outro como eu... em um outro espaço-tempo... ele dominava os pesadelos... ele era muito diferente de todos os outros... eu não se explicar.
- Ele era do Instituto?
- Eu temi o que vocês poderiam fazer. Por isso, eu fiquei quieta. Ele é melhor do que eu.
Doc pousou a comida sobre a bancada da cozinha.
- Em que espaço-tempo?
- Eu não vou entregá-lo, Doc.
- Não tem problema, pequena Emma.
Ele se sentou num banco na cozinha, pegando uma maçã.
- Eu sou Arturo, Doc.
Doc se virou e observou o homem alto, de cabelos soltos desgrenhados charmosamente, olhos castanhos mel e barba por fazer. Emma arrastou os pés como uma criança. Doc se virou para ela assustado.
- Como se conheceram?
Arturo sorriu maliciosamente.
- Não conhece os dons dela, Doc?
A fúria já se instalava nos olhos do irmão de Emma.
- Declan, às vezes, a gente aterrissa em lugares obscuros e tem que se virar com coisas que nunca pensamos! Eu tive que...
- Ela teve que se tornar uma dançarina e isso salvou a vida de nós dois, Doc. Eu não entendia como ela conseguia suportar as dores de cabeça e os enjôos. Nós matamos um rei bárbaro e fugimos pelas fendas do espaço-tempo. Mas alguns deles também conhecem essas fendas por causa da magia.
Doc parecia atormentado sem entender o que acontecia à volta dele.
- O que diabos vocês querem dizer com matar um rei bárbaro? Emma, você sabe que temos os bibliotecários que comparam a história entre um pulo e outro de vocês e...
- Existem aqueles que eles não conhecem, Declan. - Arturo disse com um sorriso sarcástico.
- Ah! Pelos deuses... vocês são Foragidos? Aqui?!
- Declan! Pelos deuses, componha-se!!!
Arturo terminou de comer a maçã e preparou um chá e serviu ao cientista.
- Tome! Isto vai lhe fazer bem e contaremos a você o que nos aconteceu e como nos conhecemos.
Declan tomou o chá e se sentiu melhor mas logo desmaiou. Emma e Arturo o pousaram no sofá.
- E agora, espertalhão?
- Vamos esperar! Eu sei! Eu sei, garota! Você odeia esperar!
Eles se sentaram na cozinha enquanto ela esperava a comida ficar pronta. Ele era um grande cozinheiro enquanto ela tinha outros tipos de prendas.
- E Morgan?
Ela deu de ombros.
- Ah! O futuro ainda é o mesmo? Por você não consegue ver? Você é uma pessoa que merece ser feliz!
Ela riu.
- Como pessoas como nós podemos ser feliz?
Ele a encarou com um sorriso charmoso.
- Ué, como eu tenho sido feliz, oras!
- Escondendo-se?
- Bem, eu não estava me escondendo até você aparecer, não é? Você tinha que dançar para um rei maluco e deixá-lo alucinado?
Ela fez um muxoxo.
- Eu não fiz nada! Apenas estava tentando sobreviver!
- Sim! Eu sei e ia colocar todo um império no inferno por sua sobrevivência, Emma. Você se lembra do banho de sangue que foi aquele dia?
E tinha como esquecer?
- Se eu não estivesse lá você jamais teria retornado.
- Quanto heroísmo, Arturo! Nome bem providencial. Você nunca me disse seu nome de verdade.
Ele sorriu irônico enquanto terminava a massa.
- Nomes têm poder, Emma.
- Quanto tempo Declan ficará apagado?
- Não se preocupe. Ele estará perfeitamente normal e furioso e, provavelmente, teremos a visita de Morgan. Você saberá lidar com isso, Emma? Ele não virá sozinho! Mas isso é algo que você já tentou impedir e eu impedi você.
Ela deu de ombros.

Declan acordou com uma dor de cabeça insuportável, já sabendo que havia sido drogado pelo viajante, que a irmã trouxera. Ele se levantou com vontade de gritar. Emma já estava perto com o copo de água e o remédio. Ele tomou e voltou a dormir. Teria tempo de gritar depois. Teve tempo de chamar Morgan pelas vibrações mentais. Ele entrou batendo o sapato no chão, fazendo barulho e gritando pelo nome dela. Ela estava deitada sobre o peito de Arturo e os olhos se encontraram em fúria.
- Onde está o maluco que nós iremos prender?
Arturo riu e se apresentou.
- Não! Vocês não podem me prender. Eu venho do futuro e vocês foderam o futuro!
- Eu vou matar você, Emma! Como ousou?!
Arturo sabia que não adiantaria segurar a fúria de Emma porque ele a vira no passado, quando o rei fora assassinado pelas mãos dela.
- Como eu ouso? Caralho! Claro! Sou empurrada para esta porra de projeto científico para observar a história! Nenhum objetivo bélico, claro que não, nós não morremos nem enlouquecemos em nome da necessidade de sabermos segredos de estado de inimigos... Claro que não, Morgan! Puta que pariu, quem você acha que é, seu escroto pomposo? Você sabe o que são os demônios que encaramos quando viajamos? Você sabe a dor que invade nosso corpo? Não! Como poderia saber? Você é um humano normal com suas preocupaçõezinhas normais, com seu noivadinho nojento. Sabe quando eu poderei me casar? Nunca! Em nenhuma das minhas viagens, eu vi isto! Em nenhuma e você tem o direito de ser feliz, seu filho da puta, mesmo tendo me prometido amor eterno, ter falado que ficaria comigo! Você quer saber?
Arturo se aproximou e a segurou para que ela não começasse a perder o controle dos poderes. As bruxas haviam sido bondosas em ensinar algumas coisas para ele, que ele precisava repassar para ela antes... antes do fim de tudo.
- Eu vou conversar com você ainda, Emma!
Arturo a afastou de Morgan e a levou para o quarto em que ela acordara antes. Finalmente, o ataque passou e ele a repousou na cama, seguindo para a sala onde estavam os outros dois homens.
- Como ela está?
- Bem, Declan! E você, meu caro, não acho que teria aguentado o que acontece com ela quando ela entra em estado convulsivo. O que vocês querem saber?
Morgan suspirou.
- O que vocês mudaram?
Ele se sentou de modo elegante. Talvez, como um cavaleiro do século XIX o teria feito.
- Bem... isso é o que pessoas como nós chamam de brechas, são espaços-tempo que podem ser modificados que não fará diferença no resultado final, de um modo de geral.
- Pessoas como vocês?
- Sim... tecnomagos, oras! Vocês tinham um seriado de tv que falavam de homens como eu!
Declan se sentou, analisando a situação.
- Você não precisa do laboratório para viajar?
- Não e posso estar em dois lugares ao mesmo tempo.
- O que...
- Ah! Meu caro Morgan, você acha mesmo que eu darei a vocês a ruína da humanidade? Sabe quem sobreviveu ao fim do mundo? Nós! E mesmo viajando pelas brechas, somos perseguidos por pessoas como vocês.
Morgan ainda não estava à vontade com ele.
- E o que você está fazendo aqui?
Ele sorriu, movendo-se delicadamente sem tomar o conteúdo da xícara de chá que estava à sua frente.
- Eu não beberei este veneno. Eu aprendi com monges tibetanos a suprimir a energia do meu corpo.
- Não! Você não pode levá-la!
- Meu caro Doutor, você é tão inteligente!
- O que é, Doc?
- Ele vai levá-la! O que aconteceu?
- A brecha só se fechará se voltarmos para a Irlanda.
Morgan se sentiu desconfortável. Um peso foi se aproximando dele como se o fim de tudo de bom que ele conhecia estivesse se desfazendo.
- Ah! Agora, você sente algo por ela? Agora que ela não pode ser mais sua, Morgan? Agora que você já fez sua escolha? Por que? Por que ela não pode ser sua?
Declan se levantou.
- Como pode ser possível? Você não é deste tempo... você é de lá... você é...
- Sim, eu sou um druida! Mas aprendi sobre as viagens muito cedo. Merlin é um título que dão àqueles que conseguem o mais alto grau de conhecimento.
- Você é... Nossa... Caralho!
- O que foi, Declan?
- Nós poderíamos estudá-lo... é por isso que você não enlouqueceu, não foi?
- Eu fui aqui e ali... afinal, o tempo não existe. Ela se acostumará com o tempo também.
- Declan...
- O quê, Morgan?!
- Nós precisamos descobrir o que eles mudaram!
- Estou ao seu dispor, senhores. Apressessem-se. Eu a levarei em breve.
Morgan queria se levantar e espancar o estranho em protesto. Ele havia sido bom em brigas quando mais novo, quando ainda era um menino. Mas, ali, estavam homens, que estavam buscando respostas, cada qual ao seu modo. Emma havia se levantado há muito e ouvido parte da conversa. Ninguém a levaria para lugar algum. Antes, porém, que ela pudesse dar um passo para longe daqueles três homens que amava e a sufocavam, Arturo surgiu à sua frente.
- Onde pensa que vai?
- Eu tenho que fazer uma coisa...
- Não!
Ela o encarou firme.
- Eu tenho que ir sozinha!
Ele estava suplicando mas não podia fazer barulho.
- O que você está aprontando?
- O que eu vi...
- Todos nós já vimos e é apenas uma das possibilidades.
- Não! Você não entende...
Ela retirou um objeto de dentro do casaco e ele se espantou com o fato dela ter roubado o laboratório no qual Morgan trabalhava.
- Como conseguiu? Ah! Diabos, não interessa! Você sabe que gosto de uma confusão. Eu realmente espero que você consiga o que quer, coração mole!
- Eu também, coração mole! - sorriu.
Ele a viu partir com um sorriso espantoso no rosto. Hora do show!
- Muito bem! Este não é um dispositivo avançado... mas... dada as condições... acho que vai dar certo!
Arturo sorriu e Morgan teve vontade de socá-lo. Havia algo sobre Emma que Arturo sabia e foi com um choque tenso que ele descobriu que ela o excluíra da vida dele.
- O que você esperava? Que ela o esperasse numa torre por toda a vida? Além do que, meu caro, você tem outra pessoa, não é?
- Bom, estamos prontos.
Arturo passou as mãos por sobre as mangas da camisa como se a limpasse e fechou os olhos para que as imagens disparassem. Não seria difícil até porque eram lembranças que ele gostaria de manter inteiras para sempre. Haveria oportunidade para que ele dissesse a verdade a ela.

Ele estava cavalgando no deserto sozinho. Ele era um nômade quando Emma aterrissou quase em cima dele. O cavalo empinou e ele caiu do cavalo, soltando um palavrão numa língua que Emma entendeu. Mas, as pessoas ali não deveriam entender a mesma língua que ela. Ele se virou para ela com uma fúria estranha nos olhos.
- Eu não sou daqui, Emma!
- Como você sabe quem eu...
Ele espanou a areia da roupa e mal a encarou.
- Vocês, novatos, são tão inconvenientes! Você não sabe que temos outros dons? Venha! Suba no meu cavalo!
Ela hesitou. Será que ele estaria tentando enganá-la?
- Eu tive tempo de matar você. Ande! Aqueles rapazes não pensarão duas vezes a respeito disso! Fora que você tem roupas estranhas. As outras moças morreram.
Ele cavalgou a noite e parou em um lugar seguro, oferecendo comida e abrigo para ela e também roupas limpas e diferentes. Ele a ensinou a se vestir com as vestimentas daquele lugar. Ele a observou e percebeu que ela enganaria ninguém como um garoto.
- Emma, você sabe dançar?
Ela sorriu.
- Fiz ballet quando criança, uma coisa aqui e ali!
- Dança do ventre?
Ela o encarou surpresa.
- Quer que eu dance para você, seu pomposo?
- Não! Mas para sobreviver aqui, terá que aprender a usar seu corpo, moça! Chamarei uma professora para você. Direi que você é uma esposa.
Ela sorriu enquanto se enfiava nas roupas.
- Eu não sou esposa de ninguém...
- Você não sobreviverá sem mim. Acredite em mim e venha se deitar porque teremos uma noite fria.
- Como assim me deitar com alguém estranho? Eu nunca...
- Eu sabia que você era teimosa, mulher, mas não desse tanto!
Ela se deitou e Emma nunca se sentiu tão confortável encostada em alguém como naquela noite em que seu rosto encostou no peito de Arturo. De onde ele vinha? Não importava. Eles caminharam muito tempo juntos e Amina, uma das esposas de um outro nômade a ensinava a arte da dança do ventre. Ela melhorava o modo de movimentar o corpo a medida que o tempo passava. Os viajantes não podiam se envolver nem interferir mas, ali, ela pareceu encontrar um pedaço de si mesma que faltava, era um lugar que era uma casa. Arturo percebeu que ela não era uma viajante qualquer e que já era hora de começar a se movimentar de novo. Ele a puxou para um canto e, depois, de uma noite de cantos, dança e fogueira, ele a levou para a tenda, pediu que ela dançasse para disfarçar.
- Emma, está na hora de partirmos.
- Por quê?
- Porque eles desconfiarão de mim... eu nunca tive esposa antes e as desculpas que eu dei não são plausíveis.
- Como iremos...
- Eu levarei nós dois.
- Isso é possível?
Ele sorriu.
- Continue praticando a dança. Você precisará dela, Emma.
O tempo urgia e Emma aprendeu a dançar com outras mulheres e em outras tribos enquanto pudesse ser possível viver naquele mundo. Arturo a observava crescer. Um dia, eles finalmente partiram e ele montou a tenda.
- Dance!
Ela enrubesceu.
- Está doido?
- Não! Eu preciso saber se você pode se virar.
Ele tocou os instrumentos de percussão e ela dançou.
- Muito bem! Temos que encontrar jóias para você e roupas adequadas. Eu não posso cuidar de você quando chegarmos. Tenho negócios a fazer.
Ela se sentou perto dele sentindo o frio da noite. Ele passou o braço por cima dos ombros dela para aquecê-la e ficou quieto por uns instantes.
- Você está pensando em vingança, não é?
Ele não poderia esconder a verdade dela.
- A tribo que matou meu vilarejo. Não digo nem meus pais... porque, bem, eles já haviam me deixado para cuidar do mundo da magia, entende, Emma? É uma grande honra... principalmente, para aquela época. Eu tinha o dom. Mas o vilarejo... - ele deu um sorriso doloroso. - Merlin costumava me dizer que no dia que meu coração estivesse limpo, eu seria como ele. Mas eu não quero... Ele também me falou sobre você, Emma... uma pequena mulher que me faria cair do cavalo!
- Merlin, hein?!
Ele suspirou, aconchegando-a mais para perto.
- É um título, sabe?
- É mesmo?
- É! Merlin não é um nome, é um título para aqueles que alcançassem a sabedoria extrema dentre aqueles de nós. Nada de barba branca como vocês o colocam. Com quarenta anos, já éramos anciões. Ele me disse que eu tinha talento desde que meu coração negro se tornasse suave de novo e isso aconteceria mas ele não estaria vivo...
Pela primeira vez em todo aquele tempo, Emma viu um sorriso sincero no rosto de Arturo.
- Talvez, ele esteja...
- Não diga besteiras, Emma! Ele não estará presente.
- E o mago aqui é você! Não se lembra? Nós estamos em todos os lugares e em todos os tempos!
Ele a apertou contra si.
- É verdade, Emma, é verdade! Vamos dormir?
Ela o encarou.
- Quero ouvir mais sobre o Merlin.
- Então, ele era o mais sábio e potente de nós, poderoso e gentil e quando os bárbaros invadiram nossa vila, eles o mataram...
Emma estava cansada e adormeceu no colo de Arturo. Ele a cobriu com as peles e a deixou dormir enquanto ficava de vigília. A partir dali, o perigo começaria para eles porque outros magos o reconheceriam pela aura e outras pessoas poderiam ver que Emma era especial e ele teria que cuidar dela o máximo possível. Não que ela não tivesse capacidade. Aquela era uma moça de brios como o próprio Merlin falava. Por que havia um título para aquele que alcançasse toda a sabedoria? Porque quando havia nomes, havia guerra. Ao abdicar de um nome, também se abdicava das posses mundanas. Eles caminharam por quilômetros e isso deu oportunidade a Emma de se misturar, aprender mais sobre danças e sobre a vida. Mesmo assim, Emma começou a sentir a presença de Morgan e isso queria dizer que teria que retornar brevemente. Ela sumiu e voltou no mesmo dia. A dor de cabeça desesperadora, os enjôos e os demônios. Naqueles dias, eles ainda não a habitavam com tanta força. Arturo cuidou dela com carinho, segurou seu cabelo, deu-lhe banho.
Morgan sentiu um certo desconforto ao ver aquilo.
- Você nunca fez isso por ela, não é?
- Como pode estar acordado?
Ele sorriu de modo misterioso.
Finalmente, ela estava melhor e eles prosseguiram. Arturo sentia o perigo no ar e se aproximou dela de noite com um tom frio na voz.
- Emma?!
- Sim?
- Hora de começar a dançar senão ficará estranho apenas nós dois...
- Eu não...
- Aqui, você fará o que for preciso para sobreviver, Emma.
Ela fez bastante contrariada. Ele conseguiu pegar o que buscava. Emma não sabia mas ele precisou matar pessoas e magos para conseguir uma pedra mágica daquelas terras. Ela não precisava ficar sabendo do que ele era capaz de saber. Eles seguiram viagem até o mar que os levaria ao Ocidente, às terras gregas.
- Nós não iremos de barco, Emma.
Ele a empurrou para um lugar escuro e apertou firme.
- Eles sabem onde entregar nossas coisas. Tenho alguns homens fiéis comigo!
Ele respirava forte perto dela e ela sentia o cheiro dele.
- Pronta, Emma?
Ela não conseguia respirar direito.
- Vamos!
Eles pararam nas costas da Irlanda, em um penhasco em que as águas fustigavam violentamente. Ele caiu para frente e foi a vez de Emma cuidar dele com fogueira, comida e compressas frias. Levou muitos dias até que Arturo estivesse melhor. Ele abriu os olhos e a viu.
- Emma...
Ela se virou para onde ele estava.
- Eu sei! Você me preparou para isto. Quando eles estarão aqui? Você vai me oferecer como forma de paz e eu terei que dançar para ele, não é isto?
- Desculpe tê-la enganado... mas...
- Estou acostumada a isto. Morgan me usou, não foi?
Eles chegaram ao castelo a noite.
- Tenho um presente para o Milord.
Emma estava escondida em roupas distintas e se curvou para cumprimentar o homem. Logo, ele voltou e eles entraram.
- Por favor, Emma, contenha-se, está bem? Eu voltarei!
Ela ficou quieta. O que tinha a ser dito? Tudo mudou quando descobriram o que ela podia fazer, quando Declan a viu ir e vir e contar as histórias sobre o tempo e o espaço, o tempo em que ela e o irmão ainda eram próximos, ainda eram presentes um para o outro. Quando Morgan surgiu e sorriu para ela há tantos anos atrás no salão da casa deles, ela, sinceramente, achou que ele era alguém que pudesse fazer algum bem e, no entanto, ela percebeu com o passar dos anos que ele era nada mais do que uma sombra do passado. Se ela o amara? Algum dia, talvez, naquele breve momento, em que seus olhos cruzaram com os dela. Não havia mais nada a ser dito e ela dançou para aquele homem barbado, de cara fechada e corpo talhado por batalhas inomináveis. Ele sorriu ao ver o que Arturo tinha a oferecer e ela foi negociada sem que pudesse falar alguma coisa. Sentiu falta do mundo em que nascera, onde as mulheres falavam e podiam ser o que queriam. Ela dançou para o bárbaro e ele a possuía enquanto lágrimas nos olhos surgiam. Tudo que ela queria era poder acabar com aquilo logo de uma vez. Ela tinha que dançar noite após noite, era a atração daquele lugar. As mulheres lançavam olhares hostis e os homens lançavam olhares de desejo, que a incomodavam. Quanto mais aguentaria aquilo?
Arturo sabia que levaria muito tempo até que ela tivesse capacidade de perdoá-lo e entender o papel deles naquilo tudo mas ele precisava reunir as tropas para vingar as mortes do vilarejo. Então, antes que ele chegasse, um outro Senhor quis invadir o castelo. Sem que Arturo soubesse, ela havia comprado uma adaga e, naquela noite sangrenta, ela assassinou aquele homem nojento que a tocava sem que ela quisesse. Arturo apareceu sem que pudesse impedir o que aconteceu.
- Puta que pariu!
Ela tinha lágrimas nos olhos e tudo passou em câmera lenta depois daquilo.Nada fazia sentido. Veio o fogo e tudo que ela se lembra é ter sido retirada de lá e Arturo entendeu que a vingança não o faria se sentir melhor porque era para ele ter matado aquele homem. Ele apertou Emma contra si e ele a levou para o mundo do futuro, onde ele era um tecnomago e onde ele cuidou das feridas dela e das dele próprio.
"Sinceramente, coração mole, espero que você tenha conseguido fazer o que precisava!"
Morgan estava em silêncio. Declan se virou para o outro lado. Ambos se perguntavam o que tinham feito a Emma. Eles haviam esquecido do coração dela, da bondade, do olhar, do carinho, da gentileza... Emma tinha rompantes de agressividade mas, nada que a diferenciasse de outros seres humanos.
Emma surgiu no batente da porta com o cabelo desgrenhado, se agarrando em dor.
- Eu não sei o seu nome...mas...
Arturo a segurou.
- ... eu consegui. Destruí o objeto de destruição deles antes... você deveria ver... coração mole!
- O que eles fizeram com você?
Ele sentiu o sangue dela em suas mãos e baixou a cabeça. Abriu o casaco e viu o buraco no corpo dela. Ele encarou os outros dois homens, passou a mão no rosto dela.
- Eu sabia que você daria conta de fazer qualquer coisa doida!
- Eu perdôo você...
As lágrimas pingavam do rosto de Arturo.
- A gente só diz este tipo de coisa quando...
- Ele está aqui... ele...
- Quem, coração mole?
- Seu Merlin! Eu falei para você...
- Shhhhhhhh! Fica quieta! Sabe, ele tem razão... você suavizou meu coração.
Ele pousou a mão sobre a ferida dela.
- Eles disseram... que... nem alguém poderoso como você...
Ele sorriu.
- Eles não me conheceram no passado.
"Deixa ir a sombra, Arturo... simplesmente, deixe ir embora..."
Ele se concentrou e o amor que ele tinha por ela fluiu.
- Não!
- Fica quieta...
- Eu sei as consequências!
O corpo dela tombou e o silêncio se fez presente para eles todos. As lágrimas rolaram pelo rosto dele. Merlin veio por trás dele, pousou a mão no ombro dele e encarou os outros dois homens com bondade.
- Todos fizemos o que tínhamos que fazer. Sim, ela está morta.
- Venha, Godric.
- Seu nome não é...
Ele sorriu. Imagina! Arturo?! Só se ele fosse o próprio em pessoa. Ele voltou para casa e começou a beber, quieto no seu canto, desesperado por ter perdido a única oportunidade de amar da sua vida. Merlin vinha, vez ou outra, sorria e partia. Um dia, ele começou a ter uma visão e só podia ser porque ele podia jurar que ele via Emma se aproximando com um sorriso. Ele estava cansado daquilo e foi para um dos penhascos no outono, sentir os respingos da água.
- Ei, coração mole!
- Agora, dei para ouvir vozes também!
Ela se sentou ao lado dele e pousou a mão sobre a dele. Ele se virou e passou o braço por sobre o ombro dela.
- Sabe, querido, agora, eu só vou dançar para você. Que você acha?
- Eu não ia querer de nenhuma outra forma! Eu quis morrer quando deixei você nas mãos daquele...
- Você sabe que não posso voltar para... só você pode visitá-los!
- E por que eu faria isso?
- Você deve dizer que o Apocalipse que eles causariam não vai mais acontecer e que qualquer tentativa será impedida por um de nós e para dizer a Declan que estou bem, de alguma forma!
- Eu não vou beber mais!
Ela deu uma gargalhada gostosa.
- Bom mesmo! Eu desisti de coisas muito boas para estar com você. Se não fosse seu amigo Merlin... vocês podem se casar?
Ele a abraçou.
- Claro! E também podemos fazer os rituais!
- Ei! Ei! Só se for com uma única parceira, entendeu?
Ele riu!
- Estou provocando você! Vamos! Temos muito que fazer, Emma! O inverno se aproxima e aqui não tem as facilidades do seu mundo.
- Você bem que podia trazer algumas coisas dos tecnomagos, né? Sinto falta dos banhos quentes.
Ele riu gostoso. Emma era tudo na vida dele e sempre foi a partir daquele instante. Ele se tornou um grande mago e ela a sacerdotisa do vilarejo. Ambos transformaram o mundo e desconheciam a luta daqueles como ele para manter o mundo em paz porque uma guerra havia sido feita quando ela mudou a história do futuro.

Terça-feira, Junho 21, 2011

Joanne

A vida adulta traz um misto de sentimentos diversos e um saudosismo de coisas que, talvez, jamais tenhamos vivido de verdade. As lembranças que ficam de tempos idos dependem unicamente do que parece que existiu dentro de nós mesmos. A minha história difere da história contada por outra pessoa. Uma vez, eu recordei fatos, esquecidos por quem amei. Estes eram os momentos que eu queria esquecer porque era um amor injusto. Era secreto para mim mesma. Desde criança, eu sonhei com um amor possível, provável e verossímil. Nenhuma das profecias que imaginei para mim do meu mundo distante de imaginação realmente aconteceu. Eu lembro de desejar o amor perfeito de tudo que há no mundo. Uma amiga me disse dia destes que não sabe o que é pior, se a ausência de uma mãe que está ali mas não está ou se a ausência da mãe que abandonou de verdade, seja por qual razão for. Talvez, a gente possa sonhar com a mãe que nos abandonou. Afinal, a gente pode criar uma mãe inteiramente nova. Minhas memórias me levam a uma mãe, que se trancava no quarto e dizia que ia se matar. Eu ficava na porta do quarto, esperando. Eu gostaria de poder brincar com os pés descalços, nadar na piscina como uma criança... ter os olhos infantis da descoberta eterna.
Quando a gente cresce, o mundo se modifica e as rosas têm mais espinhos. Talvez, elas tivessem menos espinhos porque nós ríamos mais, éramos mais capazes de ficarmos deslumbrados com tudo que ocorria à nossa volta. Eu me pergunto e sempre me perguntei, desde que comecei a perceber o vazio que sentia, em que momento da vida nós nos perdemos... quando a gente deixa para trás a criança que fomos. É como se, em algum momento, a gente larga a pequena mão e segue em frente, achando que vai dar conta de viver sem aquele pedaço nosso. Fazemos questão de enterrar bem fundo tudo de bom que temos e deixamos de acreditar que o mundo tem nuances de cores pastéis ou que podemos nadar em aquarelas diversas. A pergunta não se cala ainda hoje, tantos depois em que larguei a mão de quem eu fui, de quem sonhava por um mundo melhor, de quem acreditava que poderia mudar o mundo com as palavras que escrevia. Eu não posso nada! Mal posso lembrar da minha infância... são flashes de momentos tão estranhos que soa como se não fosse minha própria vida! Eu queria pinçar momento a momento, como frames para solidificar em gelo eterno, em cristalos, como os gregos chamavam os cristais, gelo eterno, para poder lembrar para sempre do que me faz bem e, assim, buscar preencher os buracos que ficaram no coração ao longo dos tempos, dos séculos de vida que parecem existir em mim.
Talvez, esta seja a explicação porque eu tenha amigos mas uma vida amorosa que deixa muito a desejar. Um amigo já disse que minhas histórias dariam um livro. Acredito que todas as vidas dariam bons livros... a minha é... parecer ser bastante ordinária porque é a história de todo mundo. Não tem nada de diferente do que outras pessoas vivem. Eu me apaixono. Meu coração se espatifa. Sou obrigada a perceber como a vida funciona fora do meu mundo de faz-de-conta em que as pessoas deveriam ser legais.
O suor escorre da minha testa. Meu cabelo gruda na testa. Eu seguro a arma e aguardo as ordens de atirar. Não acho justo nada do que acontece. Sim, eu queria mudar o mundo de outra forma e não desta forma, não segurando uma arma... não vivendo aqui e agora. Eu queria que tudo pudesse ter sido mudado e... não tem outro jeito. Eu tinha sonhos de fazer a paz e faço guerra. Quão justo é este mundo? Fomos todos obrigados a entrar em equipes de proteção contra nós mesmos depois que tudo desmoronou. Eu queria lembrar mais dos momentos bons, dos meninos que beijei, daqueles lugares inocentes que habitei. Por sorte, ainda não matei ninguém nestes becos escuros que somos obrigados a enfrentar.

- Joanne?!
Ela abriu os olhos.
- Do que se lembrou?
- As imagens não aparecem no visor?
- As mesmas de antes! Sua vida, Joanne! Você sabe que não estamos neste projeto para você revisitar seu passado. Você se alistou por outras razões. Nós resgatamos você praticamente à beira da morte daquele lugar...
Ela crispou as mãos porque deixara de ter emoções há muito tempo. O treinamento árduo, as marchas, a dureza da vida que ela escolhera quando Joe partira. Ela ainda tinha esperança de que o veria voltar quando estava com 18 anos. Ele voltou, não para ela mas para Tilly. Foi um casamento bonito. Perfeito até a última taça de espumante. Simples, palavras gostosas e ela só se lembra de vomitar as tripas depois de tudo e alguém segurar-lhe o cabelo. No dia seguinte, ela foi em frente ao espelho e mutilou o cabelo, encarou o corpo e decidiu pelo exército. Era dedicada e imbatível. Seu mestre de artes marciais a chamou em um canto.
- Joanne, relaxe.
Ela soltou os ombros e respirou fundo pela primeira vez em anos. O corpo de bailarina moldado agora para a guerra.
- Eu sei que você é boa mas lhe falta um foco... você está aqui pelas razões erradas!
Ela queria refutar, dizer que não. Mas a verdade era que Joe voltara para Tilly e não houve o que ela pudesse ter feito para impedir o enlace matrimonial e os sorrisos nos rostos dos noivos. Aquela conversa veio à tona e ela encarou o cientista á frente dela. Era outra escalação porque seu corpo não estava mais moldado para a guerra. Perdera partes vitais e se passasse por qualquer estresse que um trabalho de campo causa, seria sua ruína para todo sempre. Antes ela tivesse sido largada para morrer! Antes... então, seus olhos se cruzaram com os olhos de Joe. O coração parou por um instante. Ela engoliu em seco sem pensar em mais nada. Ele seguiu em direção ao laboratório.
- Ah! Foi ele quem a salvou!
Sim, antes ela tivesse morrido naquela ação! Aliás, ela praticamente se jogara para a morte. Tom segurou no braço dela e balançou a cabeça mas havia ordens a serem cumpridas, crianças a serem salvas e ela entrou naquela sala, computando cada ato insano que a levou à quase morte. Seu corpo e sua mente engajados em conseguir agir. Assim que ela liberou a passagem, os outros vieram a seguir, fizeram o resgate mas, ela precisou ficar para poder dar tempo a eles de libertar os reféns. Ela foi crivada de balas e foi deixada para morrer com uma bomba. Joe abriu a porta e o cientista não fez continência. Eram todos civis naquela sala, embora ele usasse o uniforme.
- Vim ver como você está, Pequena!
O ódio subiu ao rosto. Qualquer palavra, naquele instante, faria a fúria surgir e destrancar uma besta interna, desconhecida de todos ali. Kim observou as reações e, imediatamente, deu uma desculpa qualquer e a retirou de perto de Joe. Ele a empurrou para a parede, absorvendo o impacto das sensações e sentimentos. Joanne ouviu em sua mente: Eu sei o que eles fizeram com você! Não era uma bomba, não é? Ele se afastou, os olhos dela colaram nos dele.
- Como você descobriu?
Ele foi arrumar o laboratório. Àquela hora, só tinha os dois.
- Eu leio mentes. Fui treinado para isto como você absorve o impacto de pancadas e coisas do gênero. Mas, desta feita, seu corpo não conseguiu absorver a bomba atômica, não foi? Eles também sabiam do que você era capaz. Há quanto tempo você está com isso ampliado, Joanne?
Joanne não teve coragem de falar. Havia uma densidade profunda entre eles. Kim se encostou na mesa.
- Vamos tomar um café.
Joanne vestiu o casaco porque o vento fustigava naquela noite de inverno. Eles se encolheram em seus casacos. Cada qual com seus pensamentos. Joanne percebeu a presença de Joe na saída do prédio e Kim esperou pelo encontro inevitável.
- Peque...
Ela encarou os olhos de Kim, que pareciam tranquilizá-la. Ela se virou ereta e olhou direto nos olhos dele.
- Eu vim ver se você estava bem. O pelotão sempre pergunta de você. Você sabe como é, né?
- Estou bem. Se eles estão preocupados que venham me visitar eles mesmos. Diga que agradeço as flores e também agradeço o salvamento mas...
Kim balançou a cabeça.
- Ah! Sim, como ia esquecer? Mande lembranças a Tilly por mim!
Kim não pode evitar as palavras de Joanne porque ele sabia a razão dela nunca passar de um determinado ponto nas experiências e a verba seria cortada caso não conseguissem algum progresso. De certa forma, o que manteve o projeto em movimento havia sido Joe porque ele sabia que se Kim não tivesse levado Joanne para lá, ela teria morrido de uma forma bastante cruel. Ele agradeceu na mente de Joe.
- Não agradeça, Doutor!
Kim repousou a mão no ombro dela.
- Chega, Joanne! Vamos!
- Você acha que poderemos conversar? - Joe perguntou.
Ela se virou sobre os calcanhares.
- Você quer conversar? Então, conversemos aqui e agora! O que diabos você quer, Joe?! São os meus dons para a zona de guerra? Vocês estão perdendo? Quer saber quando eu poderei voltar?
Ele se encolheu quando uma rajada de vento passou entre eles.
- Não! Eu sinto muito, Joanne. Mas quando eu prometi que voltaria para você, você tinha 15 anos! Eu era bem mais velho e Tilly estava pronta para mim quando eu retornei. Não era uma menina!
Kim pousou a mão no rosto e encostou no carro. Aquilo não acabaria bem para nenhum dos dois.
- Tilly estava pronta?! Caralho... Joe! Eu era uma menina?! Eu vi meio mundo explodir quando eu tinha 11 anos de idade. Eu vi as vísceras do meu pai espalhadas pela casa aos 13 anos e minha mãe ser estuprada, quando ainda estava grávida. Sabe o que eles fizeram? Abriram a barriga dela e retiraram as crianças e deixaram as três morrerem. E o que diabos você acha que isso faz com uma pessoa? Deixa ela muito bem, é claro!
Joe a encarou com olhos tristes.
- Ah! A linda e suave Tilly... sua preciosa e querida Tilly, sempre presente para tudo... meu coração morreu no dia que você se casou. Tenho missões a cumprir e assim o farei.
Ele parou. Não adiantaria discutir com ela.
- Você foi a bailarina mais linda que já vi dançar na vida! Agora, eu posso dizer isso. Eu conheço o mundo.
Os olhos marejaram de uma forma imperceptível para ele mas de forma que um maremoto foi percebido por Kim. Não adiantaria fazer mais nada.
- Eu não tinha a intenção...
- A gente nunca tem a intenção de machucar ninguém quando está se divertindo!
O vento começou a soprar mais forte e ele gritou para que pudesse ser ouvido.
- Foi meu irmão quem cuidou de você depois do casamento, Jo. Foi um pedido meu... eu sempre...
Ela segurou no braço de Kim.
- Vamos embora!
Ela não quis ouvir o que ele tinha para dizer. Kim dirigiu para um café que ficava distante do laboratório para ter certeza de que ninguém os seguiria. Era preciso cautela naqueles tempos de guerra. Ela não comia nem bebia nada do que ele pedira e a garçonete olhava apressada para os dois. Ele abanou a mão e a fez desaparecer.
- Eu sei que dói mas...
Ela o encarou com seriedade.
- Está alojado no lugar mais profundo de mim.
- Eu vi o dia que você voltou a treinar. Socar não vai fazer você lembrar o que eles querem e, mesmo que você queira voltar a dançar, o que eu recomendo, eles não deixarão você ir embora! Você sabe demais.
Ela suspirou.
- Uma emoção humana!
Os olhos de Kim brilharam. Ela o encarou sem esperanças.
- Há um jeito!
- O que?
- Dance! A resposta virá!!!
- Eu não posso dançar. Você mesmo falou...
Ele se recostou no banco, pediu que ela se aproximasse e deu um sorriso largo bem sacana.
- Você sabe que posso bagunçar a cabeça das pessoas, né?
- Você não...
Ele continuou sorrindo.
- Joanne, eu sabia do seu potencial e eu precisava de você no laboratório. Então, eu menti ao dizer que seu coração estava bastante comprometido e que seus órgãos vitais estavam bastante danificados.
Joanne sentiu um tum depois do outro dentro do peito.
- Assim... não que você não esteja danificada. Eu diria que trabalho de campo para você é algo bastante arriscado e realmente coloca a vida dos seus companheiros em risco e a sua própria mas, você pode dançar. Eu providenciarei um lugar para você voltar a dançar e alguém adequado.
Joanne sentiu uma capa de gelo se dissolver, a que estava mais distante. No dia seguinte, quando ela chegou ao laboratório, ela foi levada para uma sala grande com um espelho, linóleo novo e alguém mediu seus pés para trazer as sapatilhas corretas. Ela simplesmente brincou por alguns minutos e sorriu para Kim pela primeira vez desde que colocara os pés no laboratório.
- Você tem certeza de que isso dará certo, Kim? É o seu pescoço...
- Tenho, Comandante!
Era bom dar certo porque eles podiam ser riscados do mapa caso eles não conseguissem. Ele sabia que Joanne era capaz de acessar o que vira na mente do inimigo. Finalmente, Devin chegou e eles se cumprimentaram de uma forma estranha para dois irmãos que cresceram de forma íntima e unida. O tempo os afastara e os levara para caminhos diversos. Sentaram-se no restaurante do hotel que Devin que escolhera, fizeram seus pedidos e o irmão foi direto ao assunto.
- O que você quer? Você não me faria largar a companhia no meio de uma turnê para um passeio turístico.
- Quando aprendeu a ser tão direto?
- Quando Eilleen quebrou meu coração...
- Eu nunca tive a intenção, Devin...
Ele fez um gesto como quem diz que o passado não importava.
- Ela não era a mulher da minha vida. Mas há certas coisas que causam profundas feridas que deixam cicatrizes feias.
- Eu já...
- Isso já está no passado, Kim. O que você quer?
- Estou com um problema!
- Ah! A moça dos sonhos.
Kim se recostou. Eles ainda tinham a conexão.
- Você ainda tem isso? Há quanto tempo sonha com ela?
Devin sorriu com leveza.
- Desde sempre. Ela é perfeita e você me ajudará a tirá-la desse inferno. Você prometeu há muito tempo atrás, Kim!
O mundo da infância foi voltando sem que Kim quisesse realmente saber o que iria acontecer a seguir.
- Eu sei, eu prometi quando vimos juntos o futuro, não é?
- Sim! Ela fará um bem maior à humanidade dançando do que se tornando... você sabe!
Devin foi instalado perto do laboratório e foi para a sala de dança. Foi apresentado à Joanne e eles se deram as mãos friamente e ele começou o treinamento dela. Depois de um dia árduo para Joanne, em que seu corpo havia se desabituado aos movimentos da dança, eles se despediram.
- Nada mal mas há muito a ser trabalhado.
Joanne apenas o encarou, queria responder e ficou quieta. Os dias se passavam entre os exercícios de barra, diagonal e centro. Joanne havia esquecido tudo e queria ter mantido no esquecimento porque se lembrou que Joe a visitava para vê-la dançar. Um dia, ela se lembrou no meio de um salto e caiu com um barulho que a trouxe de volta. O tornozelo inchou e Kim apareceu no ambulatório, onde ela já se levantava da cama.
- Não! Deite-se!
- Mas...
- O que você se lembrou?
Ela baixou o olhar.
- Você sabe!
Ele suspirou e, pela primeira vez, ele foi duro com ela.
- Olha só! Falarei apenas uma única vez. Ele não é metade do que você é. Você brilha quando sorri,Joanne! Você tem coisas que nem ele nem Tilly jamais chegarão a saber o que é! Por favor, olhe para si mesma! Olha o que está fazendo aqui! Você está dentro de uma instalação militar, uma guerra comendo solta lá fora e você está dançando pelo que tem dentro do seu cérebro.
Ela tentou andar até ele. Ele a segurou e a levou de volta para cama.
- Não! Não! Não!
Devin chegou e se sentou ao lado dela.
- Muito bem! Vamos ensaiar. Fecha os olhos e começa os movimentos.
Todos os dias até o fator de cura fazer efeito, ele veio e fez ela treinar mentalmente. Finalmente, ela ficou boa e ele gritava que queria vê-la dançar melhor e melhor e melhor e ela chorava à noite porque não conseguia e chorava porque Joe não estava na vida dela. Finalmente, ela se arrastou a noite para fora do alojamento, pegou um cigarro e acendeu. Ela viu uma sombra no frio cortante e sabia que era Joe.
- Eu vim em paz! Você não fuma!
- Como sabe o que eu faço ou deixo de fazer, Joe?
Ele sorriu triste e deu de ombros.
- Eu não estou no meu corpo, sabe? Estou num hospital... estou vivendo uma daquelas coisas que você me disse que existia... eu vejo tanta coisa... eu vi sua dor... mas eu já sabia. Não tinha como desfazer quando eu percebi.
As lágrimas correram no rosto. A fumaça era soprada.
- Ah! Pequena... eu amo você!
Ela jogou o cigarro no chão.
- Não ouse! Não agora! Não neste momento! Não ouse bancar este papel de vítima de "estou morrendo e quero partir em paz" para cima de mim! Doeu pra caralho! Joe, volta para casa, para a Tilly. Eu tenho coisas para fazer e as farei.
Ele a encarou.
- Eu posso viver, então?
Ela suspirou.
- Pode!
Ela não ousou dizer que Tilly o traíra com um grande amigo dele, que ele descobrisse quando seus olhos estivessem abertos. Devin surgiu por trás dela.
- Muito bem!
Ela saltou de susto.
- Caralho! Num dá para avisar quando chegar de soslaio?
- Eu quero que você coloque emoção quando dança, Joanne... falta alguma coisa quando você movimenta seu corpo. Eu já vi...
Ela deu uns passos para trás e ia cair quando, num reflexo, ele a puxou e ela se recostou no peito musculoso dele, no corpo quente. Ele a enlaçou, puxou o corpo dela, deixou que a respiração dos dois ficasse no mesmo compasso e ela quase cedeu a tentação de beijá-lo. Finalmente, ele se afastou.
- É isso que quero de você!
Ela acordou e seguiu para os exercícios. Por dias, Devin não comparaceu. Estava só ela e o pianista.
- O que aconteceu com ele?
- O irmão dele o retirou de turnê para poder vir para cá, Joanne. Você não sabia o que Kim fez?
Finalmente, ela entendeu o que o destino traçara para ela... e o que ela tinha absorvido naquele dia. O que o governo queria ou quem quer que financiasse o laboratório era o potencial que ela tinha de ser uma bomba. Ela se deixou aquela noite sem pregar os olhos. Kim já devia saber disso há muito tempo. Ela sentiu a respiração suave de alguém dentro do quarto dela. Era Devin.
- Vamos! É a hora de escolher!
Ela se sentou aturdida. Mataria ou dançaria para sempre? Mas e o Kim?
Devin a encarou desesperado.
- Ele vai morrer cedo ou tarde. O coração dele...
Ela tocou a cicatriz no centro do peito.
- Por que ele fez algo tão estúpido?
Devin suspirou com raiva.
- Então, você não sabe?
Ele ofereceu a mão para ela.
- Vamos! Não temos muito tempo.
- Ele sabia sobre você... eu voltar a dançar...
- Você nunca soube?
Devin saiu arrastando Joanne pela mão e eles entraram num jipe, dirigido por Kim. Era para ela fingir estar passando mal enquanto Devin a segurava. Eles conseguiram passar pela primeira guarita, pela segunda guarita. O problema era passar pela fronteira. O carro prosseguia na noite densa e escura até que eles foram encurralados e tudo aconteceu como previsto. Devin correu com ela pela floresta e Kim levou tiros para que eles ganhassem tempo. Ele não queria que ela se tornasse uma arma para qualquer governo nem que ele fosse estudado para ser de alguma utilidade. Kim morreu com orgulho. Devin sentiu que o irmão cumprira sua função e ele atravessou Joanne como sua esposa pela fronteira. Ambos correram riscos inimagináveis até o momento em que o avião pousou do outro lado do mundo com Joanne segura. Devin deu novas identidades para ela e ao dançar todo brilho que ela tinha dentro de si se expandia no palco, para a platéia e ele a fez brilhar como a mais bela estrela de todo o céu, sem ofuscar em excesso e sem deixar de brilhar. Era sempre o cheiro dele que ela buscava na noite profunda quando os sonhos perturbavam e era com o aconchego de Kim que sonhava quando a alma ardia num clamor latente de tristeza. Assim, Joanne não precisou explodir o mundo com seu corpo porque explodia vida para quem tivesse o prazer de assisti-la!

Sábado, Maio 28, 2011

E se eu falasse

E se eu falasse para você que porque você é você, eu ficaria?

E se eu falasse que meu coração acelera quando ouço sua voz?

E se eu falasse que a última vez que me senti assim foi porque doeu?

Com você, eu sorrio, é como sentir uma brisa

Com você, eu sinto vibrar brisa em alma

Por que não enxerga que por você é você

Sou capaz de ser mar

Sou capaz de flutuar em seus beijos

Mas, sei lá de você comigo

Sei de mim com você

Porque você me faz bem

Talvez, nem se dê conta disso

Ou, talvez, seja como outro qualquer

E eu seja a iludida aqui

Mas e se eu falasse...

Domingo, Maio 01, 2011

Camille is a friend and is in my heart

Camille estava deitada no banco, no colo de um amigo, elevando a mão para o céu, brincando com seus dedos contra o azul piscina. Os pensamentos voavam por tanta coisa. Por que a humanidade tinha que ser tão cruel? Onde estava Deus, de verdade? Havia as guerras, as crianças mortas, os animais maltratados, a vida que se esvaía por nada, a mudança radical na vida daqueles que enfrentavam suas próprias vidas de modo heróico. Nem todos seriam os protagonistas de suas próprias histórias não porque não merecessem ser chamados de heróis mas porque desistiram de lutar por si mesmos. Jean estava fumando com a cabeça para trás no banco. Ele e Camille não podiam ser mais diferentes: Camille não fumava nem usava as roupas que poderiam classificá-la como uma rebelde como ele, que usava as calças jeans rasgadas, o casaco de couro e a atitude de roqueiro. Eles haviam se conhecido na escola e ficaram amigos. Ninguém diria que ele iria se tornar médico e Camille se perder por um tempo... Ninguém diria... mas ainda era primavera para eles. Quem os visse também diria que eles estavam juntos. Ela estava com uma blusa cor-de-rosa, calça impecável e os sapatos que combinavam com tudo. Jean não se importava que ela andasse com ele e ela também não se importava com os comentários. Eles tinham tido que fazer um trabalho de escola juntos e nunca mais se separaram. Jean se sentia confortável com a presença de Camille e Camille estava apenas ali porque não queria estar em nenhum outro lugar.
- E os seus amigos?
- O que tem eles?
- O que falam de mim?
- Ah! Camille... por que você se preocupa?
Ele nunca respondia e ela sabia o que eles diziam pelos olhares. Ele não sabia mas ela lia os pensamentos alheios, às vezes, como quando eles se juntaram e ela pode ouvir: Puta que pariu! Uma patricinha!!! Lei de Murphy, né? Que tinha de errado Camille querer se vestir bem? Era a máscara para esconder o coração rasgado... as decepções com a vida, que começaram cedo demais: descaso do pai, a morte da mãe, a solidão avassaladora. Ela sorriu simpática e escreveu coisas e mostrou para ele coisas que ela escrevia. Com o tempo, Jean percebeu que aquela menina de sorriso aberto para todos, não era o que ele pensava e ela entrou no mundo dele. Mas, de uma forma escondida. Camille não tinha autorização de entrar no mundo dele. Uma vez, ela estava com uma amiga num bar e os olhares deles se cruzaram. Jean virou a cara e, logo em seguida, Camille partiu para a vida dela. Foi quando Jean percebeu que ela fazia falta e a abordou no corredor. Camille queria gritar com ele mas ignorou com as palavras que saíram:
- Então, é assim? - ela disse baixo. - Eu não preciso disso.
Ele quis segurá-la e a viu escapar como areia fina pelos dedos. Uns dois meses depois, eles se viram de novo juntos por um trabalho da escola com outras duas pessoas completamente estranha e ele viu ela sorrir para elas e sentiu um desgosto como um fel que sobe pela garganta. A aula acabou e ele foi até ela.
- Eu deixo você em casa, Camille.
- Você não tem carteira ainda!
- Você quem sabe!
- Está bem!
Lá estava o lindo carro preto dele. Jean vinha trabalhando para consertar o carro desde os quinze anos. Ela se encolheu no banco do passageiro, colocou os pés descalços em cima do banco e Jean se incomodou mas, era Camille.
- Eu não quero ir para casa!
Ele deu de ombros.
- Para onde quer ir?
- Qualquer lugar.
Ele rodou um pouco com um cigarro na mão e resolveu pegar a estrada com ela e o que quer que estivesse na cabeça de Camille a distraiu de perceber que estavam saindo da cidade e indo para qualquer lugar longe dali. O tempo passou e ela finalmente percebeu a mudança na paisagem, as casas e comércio de cidades de beira de estrada.
- Enlouqueceu?
- Não. Você disse qualquer lugar.
Ela suspirou.
- Para onde vamos?
- Falta pouco. Quer parar para comer?
- Não... vamos.
Ele continuou a dirigir. Ele tinha os próprios pensamentos que invadiam a mente. Jean tinha o costume de dirigir para espairecer. Foi o que tinha feito quando ela parou de falar com ele, o que ela tinha todo direito. Afinal, ele a tratara com descaso. Camille pensava na morte, o quanto fora terrível ver a mãe morrer pouco a pouco, não ter podido fazer nada e sentir aquela dor que não era sua. Ela era criança ainda mas ver alguém morrer perto é o tipo de coisa que corta os botões de rosa e Camille estava sobrecarregada agora com o fato de que uma nova vida surgiria em casa. Era evidente que o pai se casaria de novo e não que sua madrasta fosse uma pessoa ruim. Mas ela era como um fantasma na casa. Ela sorriu. Realmente, não faria tanta diferença assim ela estar em casa. Ninguém sentia falta dela.
- Tem certeza que não quer comer nada agora, Camille?
- Tenho.
Ele deu ombros. Camille o observou. O jeito de bad boy era apenas fachada para alguma coisa. Talvez, fosse a necessidade de se auto-afirmar que todo adolescente tem, de mostrar a que veio, ia ficar aquela fotografia para trás para eles rirem daquele passado que tiveram, um dia. Camille olhava a estrada, sentindo calor, sem preocupação quando sua mente se perturbou.
- Jean, você não tem carteira e nós estamos numa estrada! Eu não trouxe nenhuma roupa além dessa daqui!
Ele sorriu.
- O que vale a vida sem um pouco de aventura? A gente compra uma roupa para você quando a gente chegar lá.
- E você tem dinheiro? Às vezes, acho que você é traficante.
Ele sorriu enigmático. Se ela sequer soubesse a verdade... mas a verdade ia demorar para aparecer ou, talvez, nunca aparecesse. Nem ele sabia direito porque estava fazendo aquilo. Qual seria o destino dele se soubessem do paradeiro dele? Afastou os pensamentos quase como se soubesse que Camille pudesse saber o que ele pensava. Ela estava quieta.
- Você acredita em coisas sobre naturais?
- Hã?! Tipo o quê?
- Telepatia... gente que move objetos com a força do pensamento, essas coisas assim!
Ele olhou para ela surpreso.
- Cuidado! - ela gritou porque ele ia para o outro lado da estrada.
Será que ele encontrara quem ele precisava? Ele seguiu com o carro até uma cidade pequena de lajotas antigas e de lugares encantadores. Parou o carro em um hotel caro e Camille estava achando aquilo tudo muito fantasioso. Como assim? Mas também não perguntou nada. Estava cansada. Ele pediu um quarto para os dois e camas separadas. Camille também pareceu não se importar. Então, antes que as lojas fechassem, ele levou Camille para fazer compras e a última loja foi uma de peças de prata. Ele comprou um anel para ela.
- Camille, quero que se lembre sempre de que sou seu amigo, entendeu?
Ela meneou a cabeça sem entender nada e estava tudo confuso e ela tinha sonhado com aquele anel de prata com uma pedra preta incrustada.
- Jean, fala sério. Como você consegue seu dinheiro?
- Eu vendi minha guitarra.
- Sério, Jean!
- Sério, Camille. Eu vendi minha guitarra.
- E resolveu gastar tudo aqui comigo?
Ele sorriu do jeito dele.
- Tem certas coisas que valem a pena.
Ele a levou a uma pizzaria com música ao vivo com a voz de um sujeito que cantava com suavidade que ficaria guardado na mente dela. Finalmente, eles foram para o hotel e ela estava cansada demais para qualquer coisa e dormiu pesado pela primeira vez em anos. O choro de todas as noites não veio. A manhã surgiu e Camille acordou com Jean cantando o refrão de uma música que ela não conhecia: Camille is a friend and is in my heart. Jean estava no banho e ela abriu um olho, depois o outro, sem querer se levantar de verdade. Um raio de sol entrava pela fresta da janela e, pouco a pouco, ela começou a se lembrar do dia anterior, da noite, de ter apagado e: Caralho! Que horas deviam ser? Ela se sentou na cama, pulando, colocando a calça impecável dela.
- Jean! Nós temos que ir!
- Nós já perdemos a aula mesmo... relaxa!
Como relaxar se ela era boa aluna? Se o mundo dela se resumia em ir para a escola? Mas... a escola era um lugar oco, para preencher a lacuna que existia no dia, para fazer alguma coisa enquanto o mundo girava e ela gostaria que o mundo parasse de girar e ficasse naqueles dias para sempre. Jean se olhou no espelho, encarando seus olhos amarelos no espelho e sabia que tinha que bloquear a curiosidade dela porque senão tudo estaria perdido... se bem que ele já arriscara muita coisa com aquela pequena aventura deles dois. Ele saiu com a toalha enrolada na cintura e ela estava sentada na cama com a calça vestida pela metade. O que diabos ela estava fazendo?
- Acho melhor você ir tomar banho. Nós vamos voltar agora.
- Aham!
Ela foi para o banheiro, tentando entender o que estava acontecendo ali e não quis pensar mais. Sentiu a água quente escorrer pelo seu corpo prazerosamente. Era o dia do prazer, então, era hora de deixar tudo para trás... toda a dor, todo o momento de vida que tivera até ali, até mesmo os mais alegres. A única coisa que ela não queria esquecer era a mãe... as gargalhadas da mãe, o amor, o abraço, o carinho e já estava tão distante, tão perdidamente distante... O banho acabou e ela se apoio na pia do banheiro enquanto chorava, o cabelo escorria água. Ela escorria água como nunca antes. Ela não se lembrava de ter deixado lágrimas tão soltas como aquelas que saíam de forma tão natural. O toque da mãe... e o coração apertou! Ela não percebeu que ele a abraçava sem perguntar a razão dela romper os diques de si mesma e ela nem reparou que a mente dele era um branco ou um preto. Eles tomaram o desjejum e entraram no carro. A estrada tinha uma cor diferente e o choro se fez presente enquanto ele cantarolou: Camille is a friend and is in my heart. Então, ela se lembrou de um outro tempo, de um lugar que não era ali, da voz da mãe cantando a mesma música para ela e foi como se tudo explodisse de uma única vez para sempre porque era uma dor que não tinha fim. Afinal, a mãe dela não estava mais ali para ajudar nos desafios nem vibrar com as vitórias mais doces. Será que ela era o que a mãe gostaria que ela fosse? Será que ela corresponderia ao que a mãe esperava dela? Jean olhou de soslaio enquanto dirigia. As cores de Camille haviam mudado, era outra pessoa que estava ali. Ele nunca vira as sombras que haviam naquela criatura. Talvez, por isso, ela fosse tão impecável.
- Quer falar a respeito?
- Saudade, cher Jean.
- Sua mãe?
Ela não respondeu mas ele sabia que era saudade da mãe, sim. Segurou a mão de Camille e a apertou e aquele aperto durou a eternidade. O caminho despertou a dor e o choro era como as nuvens que se formavam no céu. Ele olhou para cima.
- Você vai fazer chover com seu choro!
Ela sorriu, tentando parecer natural.
- Desculpe. Não tinha a intenção de ser...
- Não! É bom desaguar...
Voltaram para a cidade e Camille era outra pessoa para ele agora. Era como se ela tivesse deixado de ser aquela criatura impecável e intocável para se transformar em alguém, não ordinário nem comum, mas alguém que era diferente daquelas pessoas. Ela passou a mostrar coisas que escrevia e fazia que ninguém conhecia, a vontade que ela tinha de colocar as pessoas no colo, de ajudar o mundo a ser um lugar melhor, a dor que tinha quando cada criatura sofria. Foi naquele dia em que as mãos se juntaram que Camille e Jean não se desgrudaram mais. Lógico que ela percebia atitudes suspeitas da parte dele.
Naquela tarde, não havia nada demais. Apenas um céu azul. Nuvens brancas de formatos variados. Jean sendo Jean. Camille sendo Camille. Ela percebeu, ao longe, um homem diferente e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Jean se empertigou e pediu para ela se sentar.
- Já volto, Camille.
Ela não gostou do que estava sentindo e tentou invadir a mente de Jean, sem sucesso e foi quando o terror e a compreensão a invadiram. Jean tinha o poder de bloquear. Portanto, ele era treinado para encontrar pessoas como ela! Ela sabia dos casos de adolescentes que sumiam mas, eles estavam em sua mente. Os adolescentes pediam socorro em seus sonhos. Eles estavam em lugar ruim. Camille começou a tremer e se encolheu. Aquele homem era mau. Sem perceber, ela se levantou e foi se afastando dele. Jean a alcançou, segurando-a pelo braço.
- Onde você vai?
- Quem é você?
- Sou seu amigo.
- De verdade, Jean. Quem é você? Aquele homem... ele... eu... você sabe...
Ele ficou quieto.
- Quem é você?
- Eu não posso... eu queria poder lhe contar e não tente ler minha mente, Camille!
Já era tarde demais para Camille se afastar dele. Tudo que era perfeito em seu mundo ruía. Esta era a razão dela parecer certinha demais. Ninguém poderia saber da verdade. Afinal, fora aquilo que matara sua mãe... e ela sabia porque vira um milhão de vezes a cena se passando na mente do pai, o fato dele ter deixado alguém levar ela. Camille sentiu as lágrimas queimarem o rosto e ele a abraçou com força.
- Calma! Camille, calma!
Finalmente, ela se desvencilhou do abraço de Jean e correu para longe mas, não tinha para onde fugir, não para sempre. No entanto, ele também não a alcançou. Pela primeira vez na vida, Camille não tinha para onde ir e andou pelas ruas da cidade com um choro de estrelas azuis escuras, perdidas no veludo da noite, sem brilho. Elas escorriam pelas ruas de Camille como se nada pudesse parar. De repente, as lágrimas se confundiram com a chuva que se instaurou na cidade. Batida de carros na cidade, ventania levando árvores e Camille sumia na paisagem que rugia ao seu redor. O tempo passou e ela perdeu o rumo de casa, de qualquer lugar que conhecesse. Não sabia mais onde estava. As pessoas passavam por ela como se fosem um grande borrão. Era preciso se esconder, se perder entre os pingos de água que insistiam em ser presença constante na alma dela.

Jean passou a mão na cabeça frustrado por ter perdido Camille. Nem tanto pelo seu trabalho em protegê-la da rede que queria pegá-la por ela ter poderes mentais. O homem que estava próximo se aproximou devagar.
- Como a deixou escapar? Eu paguei você para poder vigiá-la de perto.
O avô de Camille, pai de sua mãe, que ela nunca conheceu por ele ter uma rixa com seu pai. Jean respirou fundo.
- Ela é muito sensível... ela voltará para a casa. Cedo ou tarde, você terá que falar para ela a verdade sobre a morte da mãe dela.
O velho suspirou cansado. Sophie só morrera por negligência dele... Não podia se culpar por algo que acontecera no passado.
- Ache-a!
Jean tentou vasculhar a cidade mas só via a chuva molhando tudo. Merda! Camille... você se escondeu junto dos pingos de água! Quem ensinou você a ser tão esperta?
"A vida!" - veio a resposta inesperada.
O coração de Jean deu um pulo inesperado. Um contato como aquele só podia acontecer se houvesse algum sentimento envolvido entre as partes.
"Camille! Volte para cá... você não entende... você corre perigo!"
"Quem não entende é você, Jean! Agora, o jogo mudou! Vocês nunca mais me encontrarão!"
Camille manteve a promessa durante anos e usou de tudo para que jamais fosse encontrada e só havia um meio de uma pessoa como ela jamais ser encontrada: o elixir azul, vendido a um preço alto para aqueles que quisessem que seus poderes nunca fossem descobertos por facção alguma. Camille conseguiu ficar um par de anos perdidas e quando seu coração parou na rua enquanto se prostituía, ela foi levada para o hospital público da cidade. Jean sentiu um salto diferente em seu coração quando ouviu o barulho da ambulância. Ele sabia que ela estava lá! Puta que pariu, Camille! Que você foi fazer, cabeça de vento??? Como alguém como ela era capaz de arruinar a vida daquele jeito? Jean lembrava dela tão perfeita... Ele sorriu! Ninguém era perfeito. A vida lhe trouxera uma parcela de eventos para comprovar que era o fluir da onda que fazia com que a vida fosse boa. Ela foi internada e os médicos, enfermeiros e ajudantes odiavam lidar com aqueles que tentavam se matar ou com os drogados que surgiam, simplesmente, porque ambos pareciam não se importar para suas vidas. Jean ficou perto de Camille enquanto ela ainda estava inconsciente. Ela abriu os olhos e vomitou. Ele respirou aliviado. Ela o encarou surpresa com um misto de raiva e gratidão. Já ouvira histórias terríveis sobre pessoas como ela que eram jogadas de novo na rua por médicos que queriam dar leitos para doentes de verdade.
- Obrigada! - ela disse.
Ele não respondeu de imediato.
- Seu avô ficará feliz em saber que está viva! Você é boa em se esconder. Gostei de ter se misturado às gotas de chuva.
Ela queria dizer que sentia muito mas, tinha muita vergonha.
- Desde quando você...
- Eu já estava estudando quando nos conhecemos. Eu precisava de dinheiro e era um dos melhores no que fazia.
Um silêncio profundo pairou entre eles, na tentativa que mantinham de resgatar o mundo que haviam deixado para trás.
- Jean?!
Ele queria ir até ela.
- Descanse! Se você quiser, há como se recuperar. Depende de você! Volto para ver como está seu corpo quanto a substância que ingeriu.
Ela sabia! A escolha era dela. O pai mal a reconheceu e o avô se emocionou ao vê-la e contou como a mãe morreu na loucura de ter os dons aguçados e por ter sido perseguida por várias facções. Jean não apareceu no quarto e ela o seguia quando saía do corpo. Uma tarde, ele abriu a porta com força e ela foi tragada de volta para o corpo.
- Como assim? Você tem menos da taxa mínima da droga no seu organismo, Camille! O que diabos você fez para alterar os resultados? Você chegou aqui com uma overdose! Caralho! O que diabos você aprontou?
Ela encarou o chão. A verdade, finalmente?
- Eu estava andando na rua e passei na porta do hospital. Eu mantive trabalhos em que pudesse passar despercebida quando eu o vi aqui... eu precisava dar um jeito de voltar.
Ele estava furioso.
- Camille... não podia simplesmente ter pedido para falar comigo?
- Você me atenderia?
Ela tinha razão! Não, ele não atenderia porque ele não acreditaria que era ela. Era bem verdade que estava mesmo se prostituindo para conseguir sobreviver um pouco mais. Ela começara a usar o elixir a partir do momento em que o vira na porta do hospital.
- Eu sinto muito por todo o transtorno e...
Ele se aproximou dela e a beijou num ímpeto que nem ele mesmo entendeu.
- E nunca mais mas, nunca mais mesmo, fuja de mim!

Camille voltou do sonho de olhos acordados olhando para as poucas nuvens no céu, colocando sua mão contra o céu azul. Ela se sentou, olhou fundo nos olhos de Jean e respondeu sem que ele perguntasse:
- Eu também! E eu nunca vou fugir de você se você quer saber! Este futuro não existe mais. Este é o seu dom, não é?
Ele a olhou surpreso.
- Um deles.
- Eu prometo!
Ele sorriu surpreso de que ela tivesse visto tudo aquilo e cantou baixinho: Camille is a friend and is in my heart quando ela repousou de novo a cabeça no seu colo.

Segunda-feira, Março 28, 2011

Um momento de vida

Esta estória que vou contar é o começo do meu aprendizado como ser humano, quando, finalmente, aprendi o significado da amizade, honra, amor e liberdade. Era um tempo em que sonhos eram possíveis, em que ficaríamos eternos Peter Pans. Naquela época havia uma magia, ainda existe, mas é diferente. Aqueles dias ainda são agradáveis e mágicas recordações. As lembranças vêm como se fossem um néctar de gosto doce e raro. A propósito, a magia da vida nunca acaba... Vivi aventuras doces e amargas.
Falo já como velho, mas não sou tão velho e nem tão novo. Bem, isso não vem ao caso. Esta é a estória de três jovens que tinham muitos sonhos. Nós queríamos muito da vida. Creio que tenhamos conseguido realizar nossos sonhos de outrora, mas ainda não paramos de sonhar. Olho para trás e ainda tenho a foto mental que fiz de Liz e Caco. Ainda somos amigos.
Caco, Liz e eu desejávamos aventuras como todos os jovens. Liz queria ser atriz, sonhava com um mundo de glamour e alegrias para si mesma, apesar de eu lhe dizer que teria mais sucesso escrevendo. Ela nunca me ouviu, dava de ombros e sorria. Se soubesse o que ia pela sua alma teria mantido minha boca fechada. Caco queria ser músico, estudara música a sua vida inteira e tinha um talento como poucos para tal. E eu? Queria me encontrar e saber como a vida funcionava, ainda tenho antigas dúvidas, mas tudo passa, não é? Como diz Caco, eu quero desvendar os segredos do Universo.
Tudo começou quando Caco teve a primeira briga séria com seu pai. Ele veio para casa. Lembro-me bem dele sentado na cadeira com os pés em cima da mesa, tinha um ar sombrio como poucas vezes eu vira, o olhar estava fixo e triste. Acho que não prestava atenção ao que eu dizia.
- Zen, o que eu faço? - e ficava remoendo a tristeza até a ira tomar conta dele. - Um dia, eu saio de lá e nunca mais eu quero saber do meu pai!
Nem mesmo chegava a me ouvir. Do jeito que entrava saía. Com o tempo, parei de falar o que fosse. Olhava-o partir da janela do quarto. Sentia-me uma coisa inútil. E, mesmo depois, ainda olhava pela janela devaneando perdido em meus próprios pensamentos. Tinha certeza de que o pai o amava, mas ele precisava ver isto sozinho. Pensava em como me envolvera com aquela figura um tanto exótica. Nós no conhecemos na escola. Ele era bem adverso de mim. Por um tempo, meu medo dele foi maior que o fascínio. Ele fazia o tipo rebelde, um James Dean... E, na minha vasta imaginação adolescente ele vivia aventuras, ele era um herói fictício dos meus quadrinhos. A vida dele parecia ser uma grande montanha-russa. O destino nos colocou juntos num trabalho de escola e quando dei por mim já estava completamente envolvido pelo brilho dele, pelo jeito quase infantil como levava a vida. Liz veio depois, mas uma coisa por vez! Nem sempre saía com ele para estudar. A princípio, ele me parecia o tipo de cara que nunca pegaria num livro, mas, bem, a vida nos surpreende. Caco era uma pessoa amável, porém uma pedra preciosa a ser lapidada. Às vezes, ele se tornava estranho, metia-se num silêncio profundo. Eu sentia vontade, por vezes, de nunca tê-lo conhecido, entretanto, algo me impelia para ele, creio que era a vontade de proteger e defender aos que amava... E, nestes momentos, eu descobria que amava aquele sujeito. É estranho dizer isto para um homem, cheguei mesmo a duvidar da minha sexualidade...
Antes de Liz aparecer em nossas vidas eu já havia reparado nela mas nunca pensei que a conheceria. Ao ser apresentado a ela por Caco senti o fascínio imediato, ela tinha ar de anjo perdido e carente. Começamos a andar os três juntos. Eles não se importavam de eu estar com eles porque quando queriam privacidade eu me guiava para os meus próprios momentos melancólicos noite adentro. Eles eram a porta proibida para mim. Afinal, tinha pais amáveis e uma vida estável. Emocionante? Nem tanto. Eles eram a emoção da minha vida, a pitada de adrenalina que me faltava no sangue. Estar com aqueles dois era uma aventura infantil, era quando eu podia sentir que eu estava vivendo e, não me levem a mal, mas isso era uma ilusão como tudo no mundo. Nada é real nesta nossa vida a não se a certeza de que temos um coração e que podemos nos entregar a ele. Acho que ainda hoje devaneio nos redemoinhos de verão que me assolam... Voltemos, então, ao pequeno relato dos pedaços de minhas vidas porque aqueles dois ainda me habitam.
Ainda sinto o prazer quando me lembro do quase beijo que dei em Liz e a descoberta indecente da minha paixão e desejo ardentes por ela. Nós três matávamos aula em uma cachoeira, o sol trazia o calor dos dias de verão, o céu brilhava azul como uma jóia de extrema beleza. Eu estava em uma pedra, estirado como lagarto deixando o sol levar embora as gotas de água que haviam em meu corpo. Caco e Liz se divertiam. Ouvia apenas os risos. De repente, eles cessaram mas não me importava, queria apenas que aquilo fosse eterno, que momentos perdurassem tempo adentro. Quando abri os olhos vi Liz em cima de mim pingando água. Eu me sentei e ela se sentou ao meu lado. Encarava-me e olhei no fundo dos olhos dela tentando absorver sua alma. E, ali, chocado e surpreso, descobri-me apaixonado pela namorada do meu melhor amigo. Aquele instante eternizou-se em mim; cristalino e forte.
Na verdade, a maior aventura adolescente começou quando o telefone tocou de madrugada. Era Liz pedindo que a fosse buscar em um lugar sinistro e longe. Ela desligou antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Lá me fui arrastando meu corpo. Procurei-a por um tempo e a única criatura embaixo do prédio além de mim era uma menina que abraçava as próprias pernas esguias, o rosto borrado pela maquiagem preta, a pele pálida... E qual não foi a minha surpresa e frustração quando a reconheci! Ela se aconchegou em mim e eu a abracei meio sem saber o que fazer, o coração acelerado. No carro, ela pediu que segurasse sua mão. Como recusar o pedido dela? Levei-a para casa e a deixei dormir na minha cama. O que diria se minha mãe a visse? A verdade! Era fato de que meus pais não gostavam muito de Caco, mas ele era meu amigo e eles o respeitavam por isso. Adormeci na cadeira e acordei com Caco jogando pedras na minha janela. Estava meio zonzo e fi-lo entrar. Acomodei-o na sala.
- Que houve?
- Ele me expulsou de casa!
Pronto! Tudo que eu precisava ouvir.
- Caco, cê deve ter entendido mal...
- Ele foi bem claro.
Mudei de assunto.
- Você brigou com a Liz?
- Não, nem saí com ela. Por quê?
Isso o distraiu um pouco. Levei-o até meu quarto.
- O que ela faz aqui?
- Pediu que fosse buscá-la.
Ele se aproximou dela e acariciou seu rosto beijando-a levemente na face. E entendi que havia um segredo entre eles, algo íntimo e profundo que me feriu. Eu não era um bom amigo? Saímos do quarto em silêncio, eu mais pela frustração e ele preocupado. Decidi levá-lo para casa. Novamente, sonolento segui para a casa dele. Ele foi a contra-gosto mas queria tentar ajudá-lo. Entramos pela cozinha e a mãe tomava o desjejum. Cumprimentou-me secamente. O pai apareceu e limitou-se a olhar para mim.
- Carlos Eduardo, quero falar com você.
Caco se foi. Constrangido, ouvia os gritos dentro da casa. Naquela hora, devia ter-me ido mas fiquei desobedecendo as ordens internas de fugir da vida dele. Caco voltou irritado com o olhar em fogo e eu sabia que aquilo significava encrenca. Ele pegou a chave do carro e saiu me empurrando e me fez entrar no carro do pai e fomos para minha casa. Ele acordou Liz suavemente e disse que precisavam ir. Para onde? Foi aí que enlouqueci porque decidi ir com eles. Qualquer problema eu evitaria, não é? Juntei uma muda de roupas na mochila, peguei minha escova de dentes e lá me fui, o coração parecia saltar do peito, mal conseguia respirar... Meu pai acordou naquele momento, talvez, por causa do barulho. O que eu estaria fazendo acordado em pleno sábado de manhã cedo?
- Onde você vai?
- Eu ligo. Explico depois.
Meu pai deu de ombros. Entramos no carro e Caco corria com o carro, o desespero estampado no rosto. Quase gritei para que chorasse porque era meu desespero também. Éramos fugitivos, mas de que mesmo? Por que fugíamos? Aliás, eu não entendia o que eu estava fazendo ali. Por que não os deixei partir? Porque os amava o suficiente para me sacrificar por eles, para dar minha vida se preciso fosse.
- Se você está fugindo de casa você diz que vai ligar? Não, claro que não!
Liz me olhava penalizada e segurava minha mão. Aquilo me fez continuar com eles. Eu estava prestes a chorar. Eu não fugia de casa, estava tentando protegê-los, impedi-los de fazer algo que pudessem se arrepender depois como matar alguém. Paramos num posto de gasolina e ele comprou cigarros. O nariz de Liz começou a sangrar e dei uma camisa minha para ela limpar. Caco voltou com um mapa também.
- Para onde vamos?
- Para bem longe, a gente vende o carro e começa a viver...
Eu me assustei. Caco enlouquecera! A polícia estaria atrás de nós. Mas, antes que estivéssemos muito longe algo aconteceu. Claro que a polícia não estaria atrás de nós mas como bom paranóico que eu era na minha vã imaginação a polícia viria prender a gente. De repente, no escuro da noite Liz pediu para parar o carro, tirou um pacote da bolsa e separou um pó branco em duas finas carreiras e aspirou aquilo com um tubo de caneta. Desci do carro e vomitei. Então, era isso? O segredo de ambos era que aquela mulher era uma drogada? Deus do céu! Lágrimas me vieram aos olhos. Caco veio até mim.
- Desculpe mas achamos que não entenderia...
- ENTENDER!? O quê? Sua namorada é uma louca drogada!
Caco me encarava com as mãos no bolso.
- Ela já tentou parar...
- Isso não se para assim quando se quer!
Julio! Era a pessoa que me vinha a mente. Meu irmão de consideração, meu amigo inseparável morrera nos meus braços de overdose. Eu não me importava que ele se drogasse, e daí? Tudo bem que ele se exaltava, ficava agressivo mas era meu irmão e eu gostava do cara até que ele morreu... até que tive a vida ameaçada pelos traficantes... Julio devia até o rabo!!! Às vezes, eu pagava suas contas porque não queria que ele morresse na mão de gente que não prestava. A mãe dele me fuzilou no enterro e sofria ainda mais por ter sido conivente com tudo aquilo. Nunca contara isso a ninguém... Os olhos de Caco brilharam.
- Eu a amo mesmo assim. Era por causa dela que vinha brigando com meu pai. Ele achava que ela não era companhia para mim. Ele não sabe mas você sabe como meu pai saca as coisas... Eu juro, Zen, que nunca experimentei.
Eu também a amava e desisti. Acreditava no sujeito, afinal, era meu melhor amigo. O choque começava a passar. Um dia, contaria a estória de Julio para ele. Voltamos para o carro e Liz estava com os olhos fora de órbita e debatia-se. De novo, não! Eu dirigi nervoso e desesperado para o hospital mais próximo rezando a todos os santos. Que sina eu escolhia para mim! Caco tentava aplicar os primeiros socorros. Chegamos afobados no meio do nosso desespero dentro do hospital. O médico nos acalmou dizendo que ela sobreviveria. Eu encostei na parede e Caco ficou lá fora fumando. Eu me aproximei dela sem que ninguém reparasse. Ela tinha tubos e aparelhos ligados em seu corpo. A pele estava pálida, o rosto sem expressão... Tirei o cabelo que insistia em ficar no seu rosto, as lágrimas insistindo em sair.
- Liz, eu amo você! - disse no meio de lágrimas.
E o que sabia sobre o amor? Nunca amara, achei ter amado aquela menina e foi um pouco de amor mas nada verdadeiro, foi uma paixão e só! Desejo de adolescente.
Fui fazer companhia para Caco lá fora e pedi um cigarro. Na noite, ele não poderia ver minhas lágrimas. Ele me olhou desconfiado.
- Você não fuma!
- Agora, eu fumo!
E, de repente, eu o vi com as mãos em meu pescoço.
- Seu amigo filho da puta! Você a desejou todo este tempo! E eu achando que tinha achado um amigo de verdade!
Eu tentava retirar suas mãos de meu pescoço para tentar explicar e não conseguia. Ele me soltou, virou-se e voltou-se dando um soco que me fez girar nos calcanhares e cair de cara na lama. Sentei-me atordoado. As pessoas nos olhavam e faziam cara de nojo. Eu o encarei tentando manter um pouco da minha dignidade.
- Por um acaso, você vai se casar com ela? É a mulher da sua vida? Ela vale toda essa fúria?
Ele parou e me encarou. Veio até mim e esticou a mão.
- Desculpe.
Eu o puxei e estávamos os dois na lama e rimos. A tensão passara, talvez, porque ele estaria livre de carregá-la nas costas, de esconder a verdade... Eu sabia o que isso significava. Eu saíra como grande vilão para os pais de Julio, devem ter achado que fora eu que influenciara o filho deles mas nunca usara droga alguma... Por isso, talvez, meu pai implicasse com Caco. Liguei para casa do hospital e expliquei do modo mais breve que pude o que ocorrera. Ouvi um comentário simpático do meu pai: “Você gosta de atrair confusão, hein?”. Ri desajeitado. Ia dizer o quê? Soube que o pai de Caco estava furioso mas meu pai conhecia Caco muito bem e, sutilmente, colocou o outro em seu devido lugar para me defender. Afinal, pais defendem seus filhos mesmo que estes não estejam certos. Depois, ligamos para os pais de Liz e contamos o ocorrido com um pesar enorme. Eles nada sabiam e senti o choque deles pela descoberta. Amanheceu e continuávamos amigos. Os pais de Liz chegaram apreensivos e atordoados, não sabiam da profunda dor de Liz.
Quando voltamos Caco começou a se entender com o pai porque a verdade veio para a superfície daquela família. Caco disse da profunda angústia que o corroia, era um peso que se ia para sempre. E eu tive que dar muitas explicações. Liz entrou num programa para recuperação de drogados. No ano seguinte, fiz outros amigos mas os carreguei comigo em meu coração. Vez ou outra, saía com Caco. Agora, estamos todos bem. Liz tornou-se psicóloga e atende, em sua maioria, dependentes de drogas. Ela faz um trabalho muito bonito no tratamento deles.
E eu? Tenho uma vida pacata e agradável com uma mulher maravilhosa. Enfim, a vida que sempre soubera que ia ter. Emocionante, no sentido de que estou sempre aprendendo, todos os dias, todos os minutos... Creio que aquela também foi a maior aventura da vida de meus amigos. Caco e Liz não se casaram como imaginei, cada um seguiu seu caminho com uma estrela especial dentro de seus corações. Caco encontrou o amor muito tempo depois mas esta é uma estória que em outra oportunidade eu conto.